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sábado, 13 de maio de 2017

O mistério de maio

Da última vez em que escrevi neste blog, era 31 de maio. Hoje volto a escrever no dia 13 do mesmo mês - e a mera troca dos números com preservação do mês deve provavelmente querer dizer alguma coisa. Maio é o mês em que abandonei o cigarro, seis anos atrás. Concluo que maio para mim é mês de mudança, ainda que seja apenas uma mera troca dos números.

Mas o motivo que me trouxe aqui foi a tentativa de parodiar um poema de Fernando Pessoa. Trata-se de atitude arrogante, indiscutivelmente, mas prometo que não quero me comparar, mas salvar-me. Por isso, escreverei o poema sem divulgá-lo nas redes. Vai morrer aqui, neste blog empoeirado e sem visitantes.

ESCRITO NUM LIVRO ABANDONADO NO METRÔ

Venho dos lados da Lapa.
Vou para o olho do furacão, onde nasci, naturalmente,
terra de avenidas revoltas, repletas de ônibus entupidos de 
qualquer coisa como gente,
atacado por hordas de motocicletas furibundas empinadas
montadas por sabe-se-lá-quem embriagado
de álcool e vida e trabalho.
Não trago nada e não acharei nada,
mas insisto num momento lúcido e competente
na meditação leve do que não controlo
na aceitação completa de que perdi o controle - 
e fico em paz. 

A saudade do que sinto não é nem do passado nem do futuro
mas é de hoje.
Apenas hoje. 


domingo, 31 de maio de 2015

Ensaio sobre o ruído

Eu queria saber qual é a hora pro silêncio.

Me dizem que durante a semana não é: como todo mundo trabalha, não pode haver silêncio, seria impossível, Oh, sim, como fazer silêncio durante a semana?, quando todos os carros partem em alvoroto das tantas garagens rumo à cidade, para chegar o quanto antes, em capilaridade infinitesimal que nos acorda a todos, para chegar, eu dizia, a todos os lugares, que não pode haver nenhum onde não haja o ruído incessante: dizem que é da vida esse fragor de escapamentos, freadas e privações de sono breve interrompido dos inumeráveis despertadores, além do celular e do relógio antigo, pra quem usa dois, pra não perder a hora, Vambora, vamobora, tá na hora.
Segunda é dia de barulho porque estamos vivos, é o que me dizem, terça aceleramos tudo, quarta buzinamos insistentemente, quinta gritamos uns pros outros porque já é sexta: motocicletas intermináveis aos sábados alargam-se aos meus ouvidos, a centenas de metros de distância para que eu saiba que o motociclista ocupa a rua e a vida: SUVs incontornáveis explodem domingueiras em espaço e ronco de todo o asfalto que lhes pertence de direito, O mundo é dos mais fortes, corrija-se: no caso, é dos maiores: o ruído em luz de faróis de milha que ofuscam mesmo que não os vê, em pneumáticos sob os quais submete-se um mundo, sempre sobre as faixas, além dos semáforos, aproveitando o último instante em marcas de valor incalculável cujas propagandas espocam na tevê, e se não assistimos mais, no portal de notícias, e se nos informamos pela rede social, no perfil dos nossos amigos que são amigos das marcas, e se desistimos de tudo, em estrondos que perfuram a janela anti-ruído e o tímpano desgastado. E se fechamos os olhos pro mundo, em depressão profunda - não há meio de deprimir-se em silêncio, porque ainda não são dez horas da noite, hora do silêncio, deus esteja. Mas não há hora do silêncio: de madrugada é arruinar-se em brados intermináveis no bar e atroadas de brigas, colisões e soluços de perda, pela manhã eu já disse, ao meio-dia é o burburinho ensurdecedor da hora do almoço - não é permitido almoçar em silêncio, um homem não pode estar quieto nem pode ser sério nem ser triste, e se estiver só tem a tevê à frente, o fone de ouvido, a mesa vizinha em polvorosa, à tarde é o tique-taque estalado dos teclados em fúria, na saída é a música de elevador. Salve o motor do ônibus ou a passagem do metrô!, cujo som faz tremer os fugitivos que tentam a soneca secreta no banheiro do escritório, a ave-maria está acabada, o vate anuncia em alarido as sagradas escrituras (as orações não se ouvem, estão caladas), o poeta que protegia a flor feiosa às cinco horas da tarde no centro da cidade foi pisoteado pelo passo apressado dos trabalhadores que urram ruinosamente os horrores do dia de trabalho, pela guitarra chorada  e pela MPB de barzinho dos músicos na avenida paulista, pelo caminhar compassado dos hare krishnas que tentam cantar baixinho, mas quem pode ouvi-los assim?, então aumenta um pouco o rádio de um estudante rico que disputa o volume máximo com o rádio de um remediado que turbinou o motor e a vida, em explosão de todas as rádios num concerto inescapável de toda a vociferação em uníssono dissonante: esta morte bulhenta em vida, em espetáculo incessante de clamores em estardalhaço, Parcele em dez vezes, Vista a camisa da empresa, Seja um líder servidor, Seja funcionário-padrão, Aprenda a destruir seu amiguinho de escritório com a arte da guerra de Sun-Tzu, Noventa milhões em ação, Pra frente Brasil, Grite a todos os pulmões e comemore com fogos o ano-novo, o carnaval, a final do Paulista, a festa junina, a final do Brasileirão, o Natal e o ano-novo de novo - em moto-contínuo sem decepções, cuja atualidade é uma em todos os tempos, sem poema, sem luto, sem tristeza, porque o que interessa é ser feliz e a vida é bonita! é bonita! e é bonita!

Vaia retumbante o minuto de silêncio: não podem falar os mortos, os deuses, as dores, as fissuras intermináveis de estar vivendo. Vaia absoluto o ai do deprimido: não podem interromper-se as rodas. Vaia imperioso a parada: não há hora pro silêncio, portador da notícia muda do vazio extenso sob toda alegria compulsória e altissonante da cidade.
      

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Quatro temas para pensar o Brasil

Nas manhãs dos sábados de 28 de fevereiro, 07, 14 e 21 de março, vou dar na Bandtec um curso aberto a respeito de quatro temas fundamentais para entender o Brasil contemporâneo: a natureza, a escravidão, o sertão e o feminino.

Por meio de obras de arte da literatura, da pintura, da escultura, além de textos dos chamados “intérpretes do Brasil”, será proposto um debate a respeito do Brasil contemporâneo. A ideia central é contribuir para a investigação do presente por meio de temas tradicionais da vida e da cultura brasileira.

No tema A Natureza, no dia 28 de fevereiro, a partir da Carta de Pero Vaz de Caminha, tentaremos entender a associação direta que se fez entre exuberância natural e Brasil - presente até hoje na imagem fazemos de nós mesmos e que também os estrangeiros têm de nós.

A escravidão, que será analisada no dia 07 de março, talvez seja o traço mais abominável da história brasileira. Sua herança ainda se faz presente na nossa sociedade, e a resistência a ela se manifesta desde os navios negreiros de Castro Alves e de Caetano Veloso às vozes da periferia: Ferréz e Paulo Lins, Racionais e Emicida.

No dia 14 de março, será analisada a trajetória do sertanejo, que marcou a vida e a arte brasileira do século XX, desde Os Sertões, de Euclides da Cunha, até Faroeste Caboclo, da Legião Urbana.

Para encerrar, no dia 21 de março, partirei do pressuposto de Simone de Beauvoir de que não se nasce mulher, torna-se mulher, para analisar representações das mulheres no Brasil, mas especialmente para ler com os alunos trechos de obras de mulheres brasileiras - Maria Firmina dos Reis, Gilka Machado, Hilda Hilst, Marcia Tiburi e Angélica Freitas.

Onde e Quando: as aulas acontecerão aos sábados pela manhã, das 9h às 12h30, no prédio da Bandtec, na Rua Estela, 268, perto do Metrô Paraíso.

Quanto: o preço é camarada: R$ 350, que podem ser pagos em duas vezes, em boleto ou cartão de crédito.

Público-alvo: o curso é aberto a todos que se interessarem.

O link para inscrição e pagamento do curso é este aqui: goo.gl/6HWaF3

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Três anos sem fumar

Parece incrível, mas já faz três anos que parei de fumar. Quem me conheceu, fumando cerca de dois maços por dia, literalmente criando espaços e brechas na vida pra conseguir dar umas tragadas - não pode acreditar. Por isso, registro aqui algumas impressões dos últimos três anos:

Quem para de fumar não precisa ser um ex-fumante chato. Não faço campanha pra ninguém parar de fumar exatamente porque sei o que é ter o vício do fumo e o que é ter gente te julgando e enchendo o saco o tempo todo porque você tem esse vício. Viciados deveriam ser tratados como o que são: pessoas que têm uma doença. Mas vivemos numa sociedade em que se elegeu o fumante como pária, como se ele fosse canalha porque fuma. É parecido com o que acontece com o obeso. Tenho a impressão de que na cultura das celebridades (suposta, e muitas vezes, mentirosamente saudáveis) não cabem os fumantes e os obesos. Também não é permitido ser idoso sem ser sarado e sorridente vinte e quatro horas por dia - e pra mim essas imposições de felicidade, além de autoritárias, escamoteiam a real situação, que é a de que vivemos numa sociedade iminentemente adicta, mas que elege alguns vícios como toleráveis e até elogiáveis (o trabalho excessivo, por exemplo) e outros como "nojentos" - o cigarro e a comida. Por isso: não encho o saco de ninguém que fuma. Sei a barra pesada que é ser fumante e a barra ainda mais pesada que é parar de fumar. Se quiser fumar do meu lado, não me incomodo. Se por algum motivo o fumo me incomodar (se eu estiver com dor de cabeça, por exemplo), ou saio do lugar (o incomodado sou eu), ou peço com cuidado pra pessoa não fumar perto de mim.

Cada um para de fumar de um jeito diferente. Tem gente que parou de uma vez. Tem gente que precisou de remédios (meu caso) e terapia. Tem gente que só consegue se frequentar os grupos de Nicotina Anônimos, antigo Fumantes Anônimos. Tem gente que teve de parar e voltar a fumar várias vezes antes de parar definitivamente. Tem gente que faz a conta de quanto tempo e dinheiro gastou com cigarro, fica puta da vida e para de fumar. Tem gente que quer parar e não conseguiu achar uma maneira. Tem gente que nunca vai parar de fumar. Acredito que o que interessa é querer mesmo parar de fumar. A partir dessa convicção, é possível encontrar um caminho, que é diferente pra todo mundo.

Eu consigo não pensar em cigarro um dia inteiro. Há dias em que sequer penso em cigarro: acordo, trabalho, me estresso, deito e durmo sem lembrar que eu adorava fumar. É certamente libertador, mas...

Há dias em que a vontade de fumar volta. Sabe-se lá por qual motivo, tem dias em que a vontade de fumar volta. Talvez seja essa a definição do viciado que abandonou o vício: a vontade de fumar vai sempre estar dentro de mim (certamente porque o vício vai além da dependência física), mas eu me controlo e não fumo. Essa ideia de privar-se de fumar certamente soará como dor excruciante para quem ainda não parou, mas é certamente libertadora para mim. É o seguinte: vício é aquilo que você faz repetidamente sem o desejo nem a vontade de fazer. Sem vontade nenhuma de fumar, eu acordava pensando no primeiro cigarro do dia, que eu fumaria com o café, de preferência, se desse tempo, ainda antes do banho. Hoje eu tenho a liberdade de escolher - e escolho não fumar todos os dias, porque sei que, se não fizer essa escolha, perderei a chance de escolher.        

terça-feira, 6 de maio de 2014

12 pontos sobre a adaptação de Machado de Assis

Circulou no facebook uma postagem pública do professor Alcides Villaça, da USP, a respeito de um projeto de "facilitação" da obra de Machado de Assis. Eis aqui o link da reportagem da Folha a respeito do projeto: http://goo.gl/tWmN27

A ideia de "facilitar" a obra do Machado me desagradou de saída - mas eu ia deixar a polêmica pra lá, que não estou pra brigas, virtuais ou não. Mas começaram a rolar comentários afirmando que "quem se opõe ao projeto é elitista", e sinceramente não creio que seja esse o caso, pelo menos o meu. Meti-me na polêmica, comentando no perfil de um amigo. Aí transformei os comentários em uma postagem (que não é pública) no facebook - porque sigo sem querer confusão pro meu lado. Mas aí a professora Ana Maria Domingues de Oliveira, da UNESP de Assis, com quem tenho aprendido muito, me pediu que postasse a história toda aqui no blog, pra compartilhar com mais facilidade. E a esse pedido não posso dizer não.  

Por tudo isso, seguem abaixo os doze pontos que postei no facebook. Só queria dizer que eles podem ser considerados como parte de uma série de postagens aqui do blog a respeito de educação e de leitura, que eu não planejei, mas que foi se constituindo aos poucos, a partir da minha experiência em aula. Os três principais textos dessa série são os seguintes: "15 teses sobre professores e educação"; "ler com os alunos, ler para os alunos"; "ainda sobre professores" (e há outros, menos importantes, mas com os mesmos pressupostos). Acho que as teses abaixo farão mais sentido se lidas com eles.

1. Na minha época do hoje chamado Ensino Fundamental, só li obras adaptadas de autores estrangeiros. Dos brasileiros, eu li uma coleção, que acho que não vingou, em que se alternavam passagens em quadrinhos e trechos originais da obra. Adaptar obras em língua materna: acho complicado. Só se for, sei lá, Os Lusíadas. Mas Machado? Alencar? Acho que não. Pra mim, a adaptação faz mais sentido nas obras de língua estrangeira;

2. Pra garotada, talvez possamos experimentar obras de língua materna adequadas à idade deles, não adaptadas. Ler Machado na oitava série talvez seja um equívoco: tentemos contos curtos dele. Se queremos romance, talvez o melhor sejam obras de autores recentes (sem serem aquelas coleções idiotas que reinam no Ensino Fundamental). Pergunto, sem ter resposta definitiva: o que é que se pode ler na oitava série que seja bem feito do ponto de vista da forma? É preciso testar autores contemporâneos, acho eu. O currículo fica muito preso ao cânone do século XIX - Machado, Alencar, Álvares de Azevedo. Gente boa escrevendo hoje é o que não falta - mas certamente sobram pais, professores e coordenadores tentando enfiar Machado de Assis garganta abaixo dos alunos de sétima série. Que tal Paulo Lins, Ferréz, Milton Hatoum, Angélica Freitas? (sem prejuízo de outros autores vivos, só disse os nomes que vi primeiro na minha prateleira - mas essa lista pode ter mais 200 nomes que valem ser lidos, no mínimo);

3. Quando eu dava aula pra Ensino Fundamental II, esse era o grande desafio: a leitura que eu pediria aos meninos. Mas acho principalmente que deve ser feito um trabalho de LER COM os alunos. Mas aí, os vestibulares pedem 10 livros + gramática, e não dá tempo de fazer nada... Escrevi sobre isso aqui: http://goo.gl/IFdXdD

4. Pra mim, ensino de língua materna tinha de ser: 1. leitura de livros, revistas, jornais, obras científicas e filosóficas COM os alunos; 2. redação (não aula de redação, mas prática de escrita, com correção comentada individualmente). O resto vem a reboque disso;

5. Aquele projeto, pra mim, é parte integrante do sistema de nivelamento por baixo do ensino, equiparado ao sistema de promoção automática e de sucateamento do ensino público. A adaptação em si não é o problema: o problema é que ela surge como a alternativa que supostamente fará os alunos lerem as obras e que terá mais chances de despertar o gosto pela leitura. Não posso acreditar nisso (mas que se faça o teste, sem problemas);

6. As obras adaptadas cuja história queremos ler são Moby Dick e Robinson Crusoé - romances cuja estrutura contenha algumas peripécias. Mas Memórias Póstumas? Não há história emocionante ali. O que há é a campanha do narrador pra chamar a atenção para si mesmo. Mesma coisa no Dom Casmurro. Muito mais ainda em outras obras. Não são romances de aventura, em que o que interessa é a história. Por isso que eu disse acima que talvez Os Lusíadas valessem adaptação: ali tem história pra contar, com aventura, e a linguagem do século XVI, essa está de fato bem longe da gente;

7. No mais, não vale a pena adaptar O Alienista: a obra é curtinha, vale a pena fazer força de lê-la com os alunos;

8. Não se trata de elitismo da minha parte, mas de criticar um projeto cuja pretensa finalidade de "acesso" à literatura parece escamotear o oportunismo de vender um suposta "solução". Insisto: se é pra estimular a leitura em língua materna, então comecemos a ler e a estimular a leitura dos autores brasileiros contemporâneos, vivos, que estão escrevendo neste exato momento;

9. Quanto ao "que fazer?" prático, nas escolas, agora, eu sinceramente não sei responder. Não sei mesmo. Eu não vejo como lecionar literatura numa escola e numa mentalidade completamente voltadas para o mercado. Talvez a gente tenha de aceitar que a escola (essa que aí está) não tem lugar pra literatura, mas só para as aulas que contam a história dos livros, pra preparar os alunos para as provas. Mas o tempo que a leitura (das adaptações ou dos livros integrais) requer não está previsto nos currículos;

10. A falência do ensino de que estou falando não tem classe social. O aluno da escola particular é tão incapaz de ler o Machado quanto o da pública. Mas a escola particular massacra a garotada com as aulas sobre os livros, os reforços etc. até o sujeito passar no vestibular. Na pública, o massacre é abandonar os alunos. O problema é a diferença dos resultados: toda a canalhice do ensino privado resulta em promoção social. A do ensino público resulta em exclusão. Pra mim o que não dá é supor que aquela proposta de adaptação de obra do Machado pode cumprir papel formativo. É o contrário: ela acentua a exclusão;

11. Pra acabar: e os autores de literaturas africanas de língua portuguesa, por que não lê-los? E os portugueses? Bora correr atrás desses autores. Se a intenção é estimular o gosto pela leitura com temas e língua atuais, acho que a adaptação do Machado de Assis tem de ser a última das alternativas;

12. [Último ponto, que me ocorreu antes de entrar no banho, postado cerca de 30 minutos depois dos onze pontos acima] Para um professor que não lê, não existe nada melhor do que um Machado de Assis adaptado e facilitado. Seria ingenuidade nossa não supor que a facilitação da obra também facilita a vida do professor. Até que ponto essa facilitação da obra também não aprofunda a falta de preparo do professor?

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O jardineiro

"Vós esperais uma postura do homem de letras, um bem falante que deveria pagar em leveza de espírito e palavras vossa generosa hospitalidade e vós tereis apenas um homem simples cujo gosto e desgraças transformaram em um solitário e que por única diversão, jardinando todos os dias, encontra em se relacionar com as plantas essa paz tão doce ao coração, que os humanos lhe recusaram"

Rousseau, em resposta a um aristocrata russo que lhe oferecera residir em seus domínios. Trecho citado em Música e Política: a Nona de Beethoven, de Esteban Buch, Edusc, 2001, p.61.
  

domingo, 17 de novembro de 2013

Aviso

Quando o tempo diz chuva
deveríamos respeitar o presságio
e fazer caso de desmarcar os compromissos
- mesmo em dia de domingo:
guardá-lo dos resguardos do trabalho
(que são ainda outra forma de labutação)

É tempo de abrigo em si:
em última instância, dirão os sábios,
é somente nos próprios interstícios
interditos que se pode encontrar
o transcendente.

Cingimos o vazio completo
de matéria abundante
talhada em movimento -
nunca em suspensão.

Quando o tempo diz chuva
deveríamos respeitar o augúrio
e guardar os lutos que violamos,
aos saltos,
ocupados em ministérios de nadas
ou em intervalos de consumo e dissipação.
  

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Ainda sobre professores

Estou preparando um texto longo a respeito da docência. Como talvez ele demore, resolvi postar esse trecho, que me pareceu razoavelmente inteiriço e que contém o fundamental do raciocínio todo:

há um consenso, homólogo às narrativas de família feliz e de superação, que insiste em dizer que a docência é mais do que uma simples profissão, que é ocupação que beira o sacerdócio – o que normalmente resulta em menor valorização profissional ao professor. Atribui-se ao professor uma importância simbólica (e de fachada) que supostamente transcende a lógica de mercado, pelo simples motivo de que todos sabem, mesmo que inconscientemente, que a educação, se for transformada em mercadoria, perderá seu caráter formativo – para dizer o mínimo. O resultado prático dessa armadilha é que, no plano discursivo, todos afirmam que a docência é mais importante das profissões – mas é precisamente por seu valor imensurável e inestimável, supostamente muito além do que poderia ser remunerado pelo mercado, que se arrocha o salário do professor. Grosso modo: como não dá pra pagar o que o professor vale, porque ele vale demais, então se paga o que dá – que é sempre uma miséria. Note-se que o contrário nunca acontece (eu, pelo menos, nunca vi acontecer): ninguém paga a mais ao professor, pecando pelo excesso, porque o que ele tem a ensinar não pode ser medido nos termos do mercado (ainda que seja bem pago, ele o é, na maioria das vezes, porque trabalha muitas horas, ou porque goza de prestígio tal a ponto de inverter o poder de barganha tradicional, sendo o mandante na relação com a instituição). Segundo esse raciocínio, aliás, pagar bem o professor corresponderia a assumir que o pressuposto de base é falso (isto é, aquele que insiste na docência como sacerdócio) – o que também não ocorre, em nome da preservação da exploração do trabalho e da depreciação de seu potencial inexplorado de emancipação. Por isso tudo, é prejudicial aos professores insistir que ser professor é uma vocação divina. Não é. Ser professor é uma profissão mal-remunerada precisamente para deprimir a faceta esclarecida e esclarecedora que essa ocupação pode ter – mas que não pode ser aprofundada nas condições precárias da maioria das escolas, inclusive as particulares, ao contrário do que se supõe.

domingo, 6 de outubro de 2013

Entre você

Para Patrícia Gondeck

Custei a abrir o seu presente -
talvez porque quisesse adiar o alumbramento
de ler um livro novinho, ainda cheirando bem
do frescor da sua escolha cuidadosa.

Decidi abri-lo hoje -
degustei as páginas todas e os poemas, cada um,
em júbilo, à sua memória, ainda antes da sua morte,
neste noviciado da nossa paixão.

O seu presente - era você própria
no traçado de cada um das linhas um contorno seu
no corpo da obra entretextos das tuas pernas
dos teus pés entrelinhas das tuas mãos
entrelaçados o meu nome e o teu
até depois da morte.  

sábado, 14 de setembro de 2013

Na menoridade

No dia do pleno horror,
da desesperança completa,
da menoridade absoluta -
em que um só homem terá escolhido por todos os outros,
mas já os terá abandonado imersos no caos -

então aprenderemos o valor
dos animais abandonados
dos doentes encarcerados
e de toda a sorte de excluídos e de desequilibrados,
porque eles é que saberão ensinar
como se escolhe a liberdade.

  

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Poema sensitivo

Para Stanley Kubrick

É preciso desligar-se do tempo -
grilhão de ponteiros atados ao centro
pontuando pacientes a espera
do que se repete indistintamente.

É preciso abrir a percepção às cores -
chaves, cada uma delas,
de portas misteriosas que
só podem abrir, mas nunca fechar.

É preciso ouvir o silêncio -
que está inscrito na cidade tomada pelas jornadas
que permeia as sinfonias, as tantas odes à alegria,
e que guarda em si horror indescritível da vida.
    

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Apoemático urbano


Com toda a barulheira,
todo o trânsito que impede a circulação,
toda a agressividade dos motoristas nas ruas,
toda a música no volume máximo no carro
fazendo tremer as janelas das casas,
todas as motocicletas
ensurdecedoras de cachorros-loucos acintosos,
todas as polícias e todo bandido,
todos os prédios empinados, emproados
erigidos em meio a casas e cidadãos
(pra que tanta gente?, meu deus)
cada vez menores e idênticos -

pretendo desistir da humanidade, do expediente, do protocolo
e das manifestações de apreço ao senhor diretor de marketing e propaganda
que celebra a especulação imobilária
dando-lhe lineamentos de progresso, distribuição de renda
e redução do déficit habitacional

(enquanto isso, tem um cachorro esfomeado na casa vizinha:
o dono não o alimenta para que ele seja
o mais feroz sistema de segurança de todo o oeste
e eu, falência completa de ser humano impotente,
tenho medo de denunciá-lo à delegacia de proteção dos animais
vai saber do que meu vizinho é capaz)

domingo, 11 de agosto de 2013

O terremoto


Com o passar dos anos, tornei-me um indesejado: meus amigos evitavam chamar-me para as festas, especialmente quando começaram a ter filhos. Não era apenas a inconveniência dos meus excessos – chegava atrasado, queria intervir nas conversas, falava alto, mudava o som, acabava com a cerveja, saía depois de todo mundo, não sem sujar tudo e não limpar; era também o medo de que eu machucasse as crianças. Era intolerável a minha insistência no passado: eu tinha saudades do tempo de mudar as coisas de lugar. Eu não podia.

            Os sons que me importunavam à noite, quando eu tentava dormir, eram pavorosos. Tentei remédios, tentei uísque, tentei fechar o corpo, mas não adiantou. Eu estava vazio: fechar o quê? Não eram saudades, anos depois nem era mais o apego ao passado. Era uma sensação que ainda não sei explicar. Todo o ruído da cidade me irritava, toda elevação de voz me agredia, nem dirigir eu podia mais, por causa das buzinas, das investidas ofensivas dos outros motoristas. Toda esquina cheirava a mijo ou a pólvora, todo restaurante virava balada num programa de calouros no volume máximo. Eu vivia sob o medo – medo da polícia e do bandido; medo de que a paz que eu tinha em casa fosse invadida por um boteco barulhento; medo de ter de acordar cada dia mais cedo para ir ao trabalho, até o dia em que teria de dormir lá, e nunca mais voltar para casa. Medo de que vissem que eu não podia fazer nada.

            Veio o verão: o calor brutal da cidade não me deixava em paz. Ao fim do dia eu estava revestido de pó, fuligem, suor de medo e desodorante vencido, com fumacê de cigarro que eu não podia largar. Eu tinha o veneno no corpo, nos olhos, na alma, mas não tinha vida social. Não largava nenhuma mania, escovava metodicamente os dentes, ouvia todo o dia as mesmas músicas, repetia os horários, salvo a hora de acordar e de sair de casa, que eram sempre mais cedo, até eu ter de acordar em plena madrugada para trabalhar no emprego que alguém havia dito ser tendência. Eu tinha quarenta e cinco anos de punhetas bem batidas, de pavores bem cultivados, de restos e fragmentos de vida guardados no armário do fundo da casa com as roupas do meu pai, que já havia morrido fazia dez anos – mas eu tinha medo de revirar as roupas dele e de encontrar ali alguma evidência de que ele me odiava, como os meus amigos. Eu tinha dez anos de TV a cabo, uma planilha imbatível de programação pra não perder nenhum clássico, uma dieta balanceada de restaurantes pra pedir comida na internet, a bunda mesmo eu limpava com papel comprado online, tudo perfeitamente organizado, metodicamente ordenado, conforme o figurino que eu imaginava que se esperava de mim.

            Era um fim de tarde quente de outono, o vizinho fazia um churrasco com o som no volume máximo, a mulherada gritava uhú como se entrasse na casa do BBB; o cheiro insuportável de gordura queimada na churrasqueira, de baseado vagabundo de faculdade, em gritarias e tragos tabaqueados de vontade de esmagar o mundo, a TV no volume máximo no jogo de futebol a que todos assistiam enquanto bebiam cerveja com uísque, como podia aquela gente fazer tanta coisa ao mesmo tempo? Gargalhadas de uma piada sobre a torcida adversária no Facebook punham-me em frangalhos os nervos, o assovio de convocação para mais uma rodada de carne, os trechos de conversa, Eu comprei, O meu carro, Eu comprei, O meu telefone, Eu comprei, A minha namorada, Eu viajei e comprei, O melhor, O melhor, O melhor – e a gargalhada longa, e a confissão de lado, assentida pelo interlocutor, Como é bom ser superior às borboletas! E alimentavam as crianças que gritavam insistentes por mais, e mais. A minha janela tremia das vibrações da caixa de som, no teto do meu quarto eu via os reflexos dos fogos que eles soltavam pra comemorar os gols, as compras, os brindes, as coisas. Era a alegria compulsória: não havia uma brecha para silêncio. Eu não podia ler. Eu rolava na cama de dor, de medo, de aflição, ninguém pode me entender. Foi aí que aconteceu.

            Primeiro pensei que alguém tivesse aumentado o som. Mas houve um, dois, três, quatro, seis segundos de silêncio – como se houvesse uma orquestra fazendo o mais brutal atonalismo, o horror no primeiro plano, o silêncio de fundo. Eu celebrei e fechei os olhos, porque já sentia as vibrações – eu esperava por elas havia anos. Ninguém poderia supor um terremoto nestas terras: nada estaria mais no lugar, naquele mesmo instante já os livros despencavam da estante, a TV do vizinho se espatifava no chão, mas todos estavam quietos: nem as mulheres gritavam, nem os homens bradavam macheza; as crianças, telúricas, aceitavam, mais próximas do transcendente, o que vinha da terra; alguns velhos sorriam porque se lembravam de alguma coisa parecida, outros faziam cara feia querendo dizer que preferiam a morte – tanto trabalho pra rearrumar a casa depois, pra ela mesmo assim nunca mais ficar do jeito que era.
  
          O cheiro era de terra molhada, de corpo de namorada que saiu do mar e beijou salgado na boca – eu tinha essa impressão clichê de que no epicentro do terremoto dava pra deitar no chão e dormir, como criança que se acostuma à barulheira da festa e se deixa embalar, ou adolescente que põe uma caixa de som em cada orelha e adormece ouvindo Rocket to Russia. Sem os fogos, sem a TV, sem a luz estroboscópica, era fim de tarde em São Paulo – como são bonitos os fins de tarde de junho, repicados de nuvens coloridas na esperança de que nem todas as cores sejam dos gases poluentes, algumas ainda podem ser naturais, espécie de aurora boreal nunca vista. Tudo mudou de lugar, todas as sensações eram novas, e o meu medo tinha passado.  

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A flor no banheiro do avião


No banheiro do avião havia uma rosa. Não viçava - estava até meio murcha, gasta de passar da mão do homem que a colheu, para a do transportador que a levou até o Ceasa, onde foi comprada por um lojista de flores, levada até à loja da Doutor Arnaldo, sempre em trânsito. No caminho ela própria, em semiconsciência de vegetal alienado da terra em que pôs raízes, temia quanto ao destino que teria: seria parte de uma coroa para mortos ou comporia com outras suas irmãs telúricas e de cor um ramalhete lindo que presentearia uma mulher amada, ou uma amante secreta, ou uma namorada nova, ou uma mãe aniversariante, ou uma debutante de quinze anos, ainda se usa debutar?

Pois antes de saber aonde iria acabar a vida, a rosa teve de penar o transporte até à loja, apertada entre outras rosas, milhares delas, todas em pacotes de papel pardo, todas transformadas em uma, todas sufocadas pelo cheiro de rosas, violetas, adubos, terras úmidas, terras secas, estrume, lixo, samambaias, pontas de cigarro, xaxins que não se usam mais, mas que ainda passam por baixo dos panos do mercado negro das plantas, que há tráfico e criminalidade até no que se refere a elas. Nos fundos da kombi só se podia sentir, para quem o soubesse e pudesse, o odor interminável do medo não apenas do desconhecido, mas também da plena ciência de que o descarte é uma realidade inevitável e assolaria cerca de metade dos vegetais, alguns ali já efêmeros, com expectativa de vida máxima de dias, alguns de horas, só de passagem pela vida humana.

Mas esta rosa era valente: comprimiu as pétalas, enrijeceu os espinhos e pôde suportar o transporte e o traslado para o balde de água gelada, além das seguidas supressões de alguns centímetros de talo, para durar mais. Na loja da Doutor Arnaldo, amortecida pela baixa temperatura em que se viu imersa, perdeu a primeira pétala - uma só, apenas aquela - espécie de lágrima frente ao pó, ao ruído e ao horror da vida humana na grande avenida. Presenciou um atropelamento, discussões de trânsito e gritos de guerra de torcidas organizadas. A vida e a beleza se lhe esvaíam lentamente, ela em delírio psicodélico vegetal, mergulhada em buzinas, ais, pregões, impropérios contra o governo e cantadas abusivas contra mulheres. No ápice do desacerto, alucinou uma flor sua irmã que rompesse o asfalto, mas isso era só poesia, que corre a seiva das flores, apesar do mundo.

Súbito, transformou-se em presente de aniversário: Rosa sempre funciona, a gente dá, elas gostam, insistia o florista ao comprador impaciente, de carro ainda ligado. A supressão de todos os espinhos relegou a rosa à passividade inerte de quem não pode se defender de nada - era agora um cotoco de beleza, cabeça vermelha reluzente e semimorta do mundo das mercadorias, o sorriso embaciado e fóssil de matéria às margens da decomposição.

E a seguir a rosa cumpriu seu último traçado: do banco do carro do ano, perdendo o viço no ar-condicionado, perdendo o ânimo na mesa-redonda do esporte, o escrete do fim da tarde. Dali às mãos pesadas que já faziam a mala e que a levaram ao nariz, num gesto último de esperança que já nasceu morta. Dali ao banheiro do avião, já em passagem para outra vida, a caminho do destino que não conseguiu completar.  
  

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Ler com os alunos, ler para os alunos

Os últimos vinte anos em sala de aula me dizem o seguinte: é preciso ler com os alunos. E ler com eles é muito diferente de ler para eles - o que os professores fazemos quase sempre.

Não é uma distinção difícil nem teórica, ao contrário: ler para os alunos os pressupõe como destinatários da leitura - e mais nada, infelizmente. Eles e o professor têm nas mãos o mesmo texto; o professor lê, enquanto os alunos acompanham com os olhos. Ao final, parte-se do pressuposto de que esse exercício foi suficiente para a compreensão do texto.

Ler com os alunos me parece mais fértil - mas é certamente muito mais trabalhoso. Primeiramente, é preciso fazer uma leitura completa do fragmento que se tem em mãos. Depois, uma leitura fragmentária, interrompida a cada dificuldade de vocabulário, a cada sentença de estrutura de difícil compreensão, a cada período que exige fôlego do leitor. Ler com os alunos exige tempo e paciência de todos. É preciso distinguir o que o autor diz do que acreditamos ter entendido, numa primeira leitura. Desaparece a ideia de que se deve ler um texto sem consultar o significado das palavras desconhecidas: cada uma delas é responsável pelas cadeias semânticas que levam à apreensão dos sentidos mais profundos do texto. É nessa altura que discriminaremos o que está inscrito e escrito no texto daquilo que queremos que ele diga - porque nós, quando nos envolvemos a fundo com ele, começamos a exigir dele o que ele não pode nos dar.

Ler com os alunos é exercício raro nas escolas brasileiras. Primeiramente porque os professores não estão preparados para tanto: ler com os alunos pressupõe dialogar com eles, deixar que levantem hipóteses sobre o texto, que perguntem a respeito dele, que riam do texto, que o estranhem. Poucos professores têm paciência para deixar os alunos atuarem de modo tão vibrante na sala de aula. Não temos a cultura do diálogo: nossas aulas são expositivas. Parte-se do pressuposto (patriarcal e opressor, digamos tudo) de que o aluno não é sujeito, porque ainda está por se formar. Impossível criar ambiente de leitura dialogada nesse meio.

Além disso, o professor evita ler com os alunos porque essa leitura conjunta exige uma outra, anterior, só dele. Preparar aula é atividade cada vez mais rara entre professores. De preferência, prepara-se aula uma só vez, de modo que ela sirva para sempre, permitindo que o professor desfrute de  algum tempo livre, afinal ele dá mais de quarenta aulas por semana, além de todas as burocracias que tem de cumprir. Na aula, a leitura perde espaço porque na vida ela também perdeu espaço: até professores não leem quase nada. Não poderiam mesmo criar espaços de leitura com os alunos.

É ainda a estrutura do ensino que impede esse exercício raro. Preferimos a quantidade de leitura à qualidade: os pais, a direção, a coordenação e a mídia querem saber quantos livros, em média, os alunos leem - por mais que o importante seja como os livros foram lidos. É o mercado: os alunos têm de passar no vestibular, para ganhar um bom emprego, para poderem ter um bom padrão de vida... não há espaço para leitura na vida do trabalho e da mercadoria, salvo leituras de superfície, que podem ser divertidas, mas que não são leituras do calibre a que me refiro neste texto.

É uma tristeza: há uma mentira coletiva, que virou verdade porque foi repetida à exaustão: a de que, depois de ter emprego, família e casa própria, o sujeito terá tempo de ler os clássicos. Deveria ser o contrário: sabendo que jamais haverá espaço pra ler os clássicos, deveríamos aproveitar o tempo de escola para fazê-lo. Mas não é o que acontece.

Afogados nas mais diversas atividades, os alunos fogem religiosamente às leituras escolares. Têm toda a razão: os clássicos estão cada vez mais distantes da realidade imediata de que fazem parte; o repertório de leitura dos alunos é bastante restrito, o que dificulta a leitura dos clássicos; as provas e a maioria dos vestibulares não exigem propriamente a leitura dos textos, mas a leitura dos resumos; quantidade de leitura de clássicos nunca empregou ninguém.

Resta perceber que, entre os bons motivos que professores, alunos, educadores e mídia têm pra não incentivar a leitura dialogada, uns culpam os outros. Professores dizem que não leem com os alunos porque não têm tempo - o mesmo argumento dos alunos; à direção interessa afirmar que os alunos leram muito - as listas dos vestibulares têm cerca de dez livros - mesmo que não tenha ocorrido leitura propriamente dita (mas não interessa a ninguém expor essa mentira); a mídia insiste na afirmação de que o Brasil é uma nação iletrada - o que só se pode reverter por meio da quantidade de leitura, o que foge ao projeto da leitura dialogada. Assim, todos têm boas desculpas para justificar o injustificável: nas aulas de língua portuguesa, dedica-se mais tempo à gramática do que à leitura. Somos especialistas em sujeitos simples.

Somente iniciativas isoladas conseguem, às vezes, romper essa cadeia de desculpas esfarrapadas. Há escolas cuja coordenação ampara os professores em projetos de leitura, com o apoio dos pais - todos abrindo mão do pragmatismo do mercado. Há turmas em que, magicamente, os alunos despertam para a maravilha da leitura. Há alunos que se encantam mais da literatura que das baladas ou dos games. Trata-se, contudo, de ocorrências isoladas.

Falta-nos a prática de pensar juntos, dialogando. Não sabemos deixar nossos alunos ousarem - porque nós mesmos ousamos muito pouco. Falta-nos a cultura do diálogo, que pressupõe o outro como sujeito de si, mesmo que mais inexperiente, mesmo que menos lido. Falta-nos a cultura do estudo alongado, da leitura aprofundada. Falta-nos o método da leitura dialogada.

(Este é o primeiro texto de uma série que pretendo escrever aqui, a respeito de leitura, professores e alunos. Devo essa ideia à Denise Bottmann, do blog Não gosto de plágio. No próximo, me farei uma pergunta simples: todo mundo tem de ler tudo?)        

Dez autores para os estudantes de ensino médio

A UOL Educação pediu na semana passada uma lista dos dez autores que julgo fundamentais para os estudantes. Enviei uma lista com os meus dez - que não foram todos publicados, por isso resolvi postar aqui o texto integral.

Certamente, criar a lista dos dez autores imprescindíveis para leitura dos estudantes é tarefa ingrata - no exato momento em que este texto for publicado, vou me lembrar de pelo menos outros dez autores que poderia ter incluído na lista. Por isso, uma forma de minimizar esse dano é adotar o seguinte critério: os autores indicados abaixo servem de porta de entrada a muitos outros. Também fiz questão de privilegiar a literatura de língua portuguesa em sete das dez indicações - porque nossa literatura e nossa cultura não deixam nada a dever a outras. Há, entretanto, uma indicação de autor de literatura estrangeira, porque uma lista apenas com portugueses, brasileiros e africanos seria injusta e míope. E há duas indicações de textos não literários, porque acredito que nosso repertório de leitura ganha muito se for composto, também, por textos teóricos. No mais, é preciso insistir que se trata de lista composta segundo meu repertório de leitura - e que será tão mais rica quanto mais for justaposta pelas leituras de outros professores e, especialmente, dos alunos, que podem e devem criar as próprias listas.

01. Camões
Embora a distância no tempo seja grande o suficiente a ponto de dificultar-nos a leitura, é preciso ler Camões com a mesma mentalidade com que investigamos um edifício antigo ou um museu: eles são patrimônio da nossa língua e da nossa cultura. Tanto a lírica (especialmente os sonetos) quanto a épica (Os Lusíadas) seguem fundamentais para a compreensão de Portugal e do Brasil, além de servirem de referência para praticamente todos os poetas dos anos seguintes.

 02. Fernando Pessoa
A leitura de Fernando Pessoa é o desdobramento natural da leitura de Camões. A tradição que este instituiu foi retomada e ampliada pelo poeta da heteronímia, que também inscreveu a poesia de língua portuguesa na Modernidade. A heteronímia, aliás, segue ainda como uma invenção poética inédita e inimitável, estudada, cada vez mais, no mundo inteiro, devido à atualidade do sujeito fracionário, cuja intenção era desdobrar-se em muitos para recompor-se depois; mas esse sujeito é também falhado, porque a alienação o levou à dissolução completa de si - em processo cruamente registrado nos poemas de Pessoa, tanto dos heterônimos quanto do Pessoa "ele mesmo".

03. Machado de Assis
Os cinco romances da maturidade de Machado de Assis assinalam a maturidade da literatura brasileira. Neles, pode-se observar a sociedade brasileira do século XIX, especialmente as arbitrariedades das classes dominantes escravistas, bem como sua debilidade com o processo de modernização conservadora pelo qual o país passou (e talvez siga passando, em andamento similar ao registrado por Machado). O resultado das descontinuidades entre, de um lado, escravidão e lógica do favor, na vida concreta, do cotidiano, e, de outro, as ideologias europeias que nossa elite insistia em repetir, no plano das ideias, dá o gume da atualidade e da amplitude da obra machadiana.

04. Mário de Andrade
Basta a leitura de Macunaíma para tomar contato com todas as hipóteses de interpretação do Brasil aventadas até à década de 1930: a mestiçagem, considerada degradante até os primeiros anos do século, agora valorizada; os limites difusos entre natureza e cultura, sempre pertinentes no que se refere ao Brasil desde sua origem, em que se combinam culturas de feições distintas; o valor da cultura popular como fonte inesgotável de formas e conteúdos da cultura erudita; o raiar da indústria cultural; a passagem do trabalho escravo para o trabalho assalariado no Brasil, e suas implicações - e muitos outros temas. Aliás, todos eles estão, de forma geral, contidos na obra crítica de Mário de Andrade, bem como suas cartas a amigos, ainda é pouco lida por alunos e professores.

05. Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas talvez seja a grande obra da literatura brasileira no século XX, seja pelo trato inconfundível dado por Guimarães Rosa à língua, seja pela universalidade que o sertão ganha no livro: "o sertão é o mundo", insiste Riobaldo, o narrador. De fato, ali há de tudo: narrativa épica, romance medieval, lírica amorosa, narrativa popular e obra faústica, plasmados pelo caráter intermediário e quase mediúnico da experiência nacional, cujo fio da meada é a memória amorosa do narrador por um companheiro de jagunçagem, Reinaldo ou Diadorim que, ao final, se revela mulher disfarçada entre bandos de homens violentos.

06. Mia Couto
Infelizmente, a maioria dos estudantes e dos professores brasileiros ainda não descobriu as literaturas africanas de Língua Portuguesa, que talvez tenha no moçambicano Mia Couto seu grande expoente. Pelo menos dois livros valem a leitura, para tomar contato com a obra do autor: as Vozes Anoitecidas, seu primeiro livro de contos, e Terra Sonâmbula, seu primeiro romance - em que o universo mágico-religioso se amalgama aos horrores da guerra.

07. Literatura periférica: Paulo Lins e Ferréz
É preciso registrar a importância de Cidade de Deus, romance de Paulo Lins que deu origem a um dos filmes de maior sucesso do cinema brasileiro recente, posterior à chamada retomada da década de 90. Trata-se, de maneira geral, para simplificar e complicar ao mesmo tempo, do Grande Sertão: Veredas das favelas cariocas, tanto no plano formal quanto no tema, aquilatado à dimensão da violência urbana. A temática da obra de Ferréz é a mesma, toda ambientada na periferia de São Paulo e com linguagem mais concisa. Trata-se de autores indispensáveis para a compreensão do Brasil atual, cujas vozes tradicionalmente reprimidas começam a se fazer ouvir na literatura brasileira.

08. Marx e Engels
Bastou a crise dos subprimes, de 2008, abalar os mercados internacionais para que os economistas, sociólogos, historiadores e pesquisadores em geral retomassem a leitura das obras de Marx e de Engels. Com efeito, o Manifesto do Partido Comunista merece releitura, senão por outros motivos, pelo menos pela descrição da burguesia como classe revolucionária que levará o capitalismo aos quatro cantos do globo: um presságio surpreendente do que se chamaria, quase 150 anos depois da redação do Manifesto, de globalização. Da mesma forma, segue atual a hipótese referente à mercantilização das relações afetivas. Em período de manifestações pelo Brasil e pelo mundo, não será demais reavaliar as análises de Marx e Engels - que estavam supostamente "superadas" para muitos intelectuais. Não é à toa que as obras desses dois autores foram reeditadas e seguem largamente vendidas no mundo todo. 

09. Walter Benjamin
Pelo menos uma hipótese de Walter Benjamin (levantada no famoso texto "A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução") merece avaliação cuidadosa: a de que, depois do desenvolvimento das técnicas de reprodução, a própria natureza da obra de arte foi alterada. Em termos bem simples: depois da reprodução em série da Monalisa, a natureza do próprio quadro de de Da Vinci foi alterada pelo prestígio que alcançou por meio da exibição prolongada ao longo dos anos. Que dizer da famosa foto de Guevara, transformada em produto-mercadoria? E, no que se refere ao tempo em que vivemos: um poema ou texto, publicado e compartilhado por milhares de pessoas numa rede social, pode ser, por essa ampla exposição, considerado obra de arte? Para responder a essa pergunta, certamente Walter Benjamin será autor imprescindível.

10. Edgar Allan Poe
Talvez a obra de Edgar Allan Poe seja a grande matriz da literatura ocidental desde meados do século XIX. Para entender a importância desse autor, talvez sirva o seguinte exemplo: Machado de Assis e Fernando Pessoa fizeram questão de traduzir o poema "O Corvo" para a Língua Portuguesa - que é, portanto, leitura obrigatória. Além disso, também vale conhecer os contos de Poe que contêm o nascedouro das narrativas policiais, bem como os textos teóricos, especialmente a "Filosofia da Composição.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Para refletir e meditar

Os acontecimentos de segunda à noite, em que as marchas tomaram as ruas do Brasil, foram tantos, às vezes tão dispersos e díspares entre si, e simultaneamente tão violentos e tão pacíficos - que a tendência natural é render-se a análises fáceis, a palavras de ordem supostamente "imparciais" e a mobilizações inoperantes ou acéfalas - que, no extremo, só servem ao inverso da proposta inicial, que está à esquerda da sociedade.

A maioria de nós esteve imersa (por mais ou menos tempo, pelos mais diversos motivos, com maior ou menor acomodação) na hipnose coletiva dos meios de comunicação de massa, durante muito tempo. Esse processo de cegueira, da mesma forma que qualquer estado da mente e da alma, não é superado de uma hora pra outra. Ninguém ama alguém subitamente, nem deixar de amar de uma hora pra outra. A dor do luto não passa em uma semana - às vezes nem em anos. Os olhos precisam de tempo para adaptar-se à luz de fora da caverna. Por isso, mesmo que estejamos convictos do propósito das marchas, podemos nos deixar abater por teorias da conspiração e pelo alarmismo gratuito, que em boa parte das vezes só resulta em pânico.

Insisto, por isso, no poder da reflexão e no da meditação.

Me parece, sempre sob o risco de errar feio, que refletir e meditar certamente são operações subjetivas que têm pontos de tangência e de intersecção. Os mais politizados têm larga experiência na reflexão, que entendo, grosso modo, como capacidade de análise para além dos fatos da mera aparência. A percepção, por exemplo, de que a ausência de repressão resultou em marcha pacífica na segunda-feira, em São Paulo, permite diversas análises, para além dessa constatação de primeira hora - que é real, mas que é ainda de superfície. É nossa capacidade de análise que nos leva, por exemplo, à conclusão de que indignação não é sinônimo de violência; que horizontalidade não quer dizer despolitização; e que pedir "sem partido" é uma forma, revestida da pretensão de paz, de politizar às avessas, parecendo alcançar uma unanimidade que é, mais uma vez, política - e corresponde aos interesses inversos das marchas, interesses conservadores a que o caos serve.

As operações de reflexão são mais complexas do que quer o estado quase permanente de imobilidade e de passividade. Pensar não é difícil, produzir análises coerentes não é pra poucos, como quer o senso comum - mas requer exercício que não costumamos fazer. E é preciso fazê-lo sempre, e o momento para fazê-lo é agora, sem se deixar levar pelo medo - consequência direta do desconhecimento. Mesmo os mais politizados talvez não tenham experimentado ainda o inverso da apatia do cotidiano, isto é, o estado permanente de radicalidade presente, que nos abre a todos paisagens desconhecidas - que sempre assustam. Por isso, mesmo as melhores lideranças progressistas podem equivocar-se nas postagens inflamadas do facebook, nas declarações públicas e nas entrevistas. É preciso corrigi-las oportunamente, porque radicalidade e horizontalidade pressupõem o processo de tentativa e de erro. Sem esse pressuposto, voltamos atrás, para dizer o mínimo.

Mas é evidente que um histórico reflexivo impõe racionalidade equilibrada, mesmo nas horas mais nervosas. Confesso que me impressionei muito positivamente com o temperamento equilibrado dos líderes do Movimento Passe Livre no Roda Viva: lá estão dois jovens cuja reflexão e formação anteriores ao calor da hora deu-lhes o pleno equilíbrio frente às câmeras e ao conservadorismo violento de pelo menos dois entrevistadores.

Quanto às operações da meditação, tomo-as aqui no sentido mais dilatado que o leitor conseguir supor - pra afastar o vocábulo meditação do campo da religião, tanto quanto for possível. A meditação é associada às atividades da mente, mas as transcende: encaminha-se no sentido do espírito, aqui também tomado de forma ampla, para poder abarcar desde os ateus até aos mais espiritualizados, sejam da religião que forem. Quero dizer com isso o seguinte: é mais do que hora de trazer para a análise essa dimensão, que existe, mas que é ainda muito ignorada quando se trata de questões políticas. Se ignorarmos que o estado de espírito das pessoas contribui para a violência ou para a paz, estaremos negligenciando um dado fundamental. A disposição para a brutalidade ou para o diálogo também passa por essa variável - normalmente desconsiderada.

Não me estendo no que se refere ao espírito e à meditação: estou aberto para debater a convicção de que um estado de espírito equilibrado conduz a uma reflexão de alcance maior, na mesma medida em que permite maior comedimento nas decisões tomadas no calor da hora. Talvez seja a hora, por exemplo, de investigar semelhanças entre o que se costuma chamar de ideologia, no sentido marxista, e samsara, do budismo tibetano. Quando gritamos "sem violência", mas partimos para o enfrentamento político (porque o é, por mais que muitos gritem "sem partido" querendo dizer "sem politização"), então é o diálogo que está no centro da proposta. Toda a experiência brasileira, entretanto, não foi de diálogo, mas de violência: eis o desafio. Para encará-lo, temos à disposição as armas da reflexão e da meditação. Pois aprendamos a usá-las.

domingo, 16 de junho de 2013

Uma pauta objetiva e uma luta pacífica

Se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar: eis a pauta objetiva das manifestações. Tenho visto muita gente, nas redes sociais e nas aulas que dou, afirmando que "falta um objetivo claro" à movimentação presente. Pois, ao contrário do que supõe esse senso comum, o objetivo existe, é bastante claro e retém em si, simbolicamente, todas as outras pautas que traz junto consigo. Mas é primeiro necessário vencer esta etapa inicial - de forma pacífica, "sem violência".

É importante que a redução da tarifa ocorra por uma série de motivos. O primeiro deles é simbólico: a vitória da demanda resultará em credibilidade para a luta e para os que vão às ruas por ela. Já é mais que hora de a classe política tradicional entender: quem encabeça as manifestações é o Movimento Passe Livre que, ao contrário do que faz crer a grande mídia, não começou ontem: têm quase uma década de lutas, sempre com a mesma finalidade. A liderança, portanto, não está diluída - mas certamente pressupõe, ao redor de si, muitos outros movimentos sociais, em relação de horizontalidade. (Quer entender o que é horizontalidade? Leia a definição na carta de princípios do Movimento Passe Livre)

As manifestações presentes servirão, portanto, de laboratório para a classe política tradicional aprender que terá, cada vez mais, de dialogar não nos seus termos, a portas fechadas, mas nos termos dos manifestantes - nas ruas, que afinal pertencem à população como um todo. O tom professoral e paternal da grande mídia, do governador e do prefeito não amedronta mais, nem convence: é preciso rejeitá-lo e fazer saber que a esmagadora maioria dos manifestantes não é de baderneiros ou vândalos. Não há diluição da pauta nem das lideranças.

Além disso, as manifestações servem de laboratório para os próprios manifestantes - que não se podem deixar abater por esses discursos, pela truculência policial ou pelo cansaço. Se é verdade que as gerações que estão nas ruas são inexperientes e ainda estão aprendendo a expressar-se, depois de anos de silêncio, então talvez um primeiro aprendizado seja o de que não se deve esperar que a classe política lhes dê o que querem: é preciso conquistar, e as conquistas são feitas também de persistência. É preciso ter sempre em mente que "se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar".

Para não recair na mesmice, é preciso potencializar formas criativas de manifestação. As expressões corporais e visuais têm de se fazer presentes, cada vez mais, em cada uma das marchas. Ficou famoso o dançarino que desviou das balas da polícia. Pois que cada um dos manifestantes seja um dançarino driblador, pra demarcar simbolicamente o espaço das ruas como espaço de criatividade, não de violência - mas com a firmeza que é necessária para atingir o objetivo da redução da tarifa.

Enquanto o poder público aprende a lidar com os manifestantes e a entender que as novas organizações sociais têm caráter político horizontal, que o eco Amanhã vai ser maior seja repetido em todas as praças e esquinas, em todas redes sociais, em todos os sites de mídia independente, em todo o planeta. Porque esse eco contém rigorosamente o futuro encaminhamento de outras demandas. No dia mesmo em que a prefeitura e o governo do estado reduzirem a tarifa, então será a hora de abrir novas pautas - porque aí os manifestantes estarão mais preparados para dar continuidade às demandas e já terão criado precedente para a intervenção nos seus termos: sempre partindo do pressuposto de que outro mundo é possível.