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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Poesia e teatro, na Casa das Rosas

O ex-aluno e poeta talentosíssimo Paulo Ferraz, avisa que, até 15 fevereiro, estará em cartaz a dramatização do livro dele, De novo nada, na Casa das Rosas, no Paraíso.

Abaixo, alguns poucos versos, só para aguçar a curiosidade do leitor:



nossa mudez é absoluta,
mesmo a daqueles que pensam
ter o dom da fala, nossa
mudez virótica é o eco
do primeiro dia, sem forma e
vazia.

domingo, 25 de janeiro de 2009

O grande acontecimento 15 – Doutor Apolo e a Estética da Assimetria

Embora Maria Fulam tenha oferecido ao marido uma tarde espetacular de sexo, parte do grande acontecimento da vida dele, ela própria não experimentou em sua vida um momento memorável. Há dessas pessoas cuja existência passa em branco, sem que se superem ou que saboreiem um momento ímpar, seja de epifania, seja de libertação. Maria Fulam era espírita e deixou tal desfrute para a próxima encarnação.

Não subestimemos, contudo, sua passagem por este mundo: além de oferecer ao marido uma boa ideia, que rendeu a ele muitos votos, e um orgasmo especial, que o fez sentir-se mais homem do que nunca, Maria Fulam também contribuiu sensivelmente para que seu cirurgião plástico, o Doutor Apolo, especialista em beleza facial, vivesse um episódio revelador.

Apolo era neto de um grande escritor de livros de auto-ajuda, Fabiano – especialista em dicas para aprovação em concursos públicos. No Brasil do futuro, as editoras gozavam de isenções fiscais polpudas, desde que dessem espaço a escritores que fomentassem a livre iniciativa e a cultura no Brasil: era uma forma de, a um só tempo, erradicar o analfabetismo e estimular o espírito criativo de nosso povo. Fabiano ganhou milhões com incentivos como esse, e sua filha Vênus, mãe de Apolo, herói da nossa história, pôde desfrutar de uma vida de pompa e ócio, frequentando as clínicas de estética feminina de São Paulo, do Rio de Janeiro, até de Paris e Nova Iorque. Não contemos aqui que o pai de Apolo batalhou largamente na justiça pela guarda do filho, nem lembremos que a perdeu devido às influências políticas que o avô angariara quando ingressou na cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras: todos esses são fatos associados a um Brasil do passado, que já está sepultado no período em que se passa esta história.

Apolo cresceu em meio a cabeleireiros, cirurgiões plásticos, massagistas, personal-trainers, esteticistas, manicures, pedicures, instrutores de academia, dermatologistas, maquiadores, depiladores, todos os profissionais cuja única ocupação era embelezar sua mãe e sua avó, Angélica – esta, a mulher que o criou de fato, porque a mãe era ocupada demais.

Incentivado pela avó, inspirado na carreira do avô e nos afazeres diários da mãe, Apolo tornou-se médico especialista em cirurgia plástica e, em poucos anos, teve seu consultório procurado por artistas e políticos, modelos e intelectuais, todos abastados – Apolo dispensava os acidentados e os pobres, que lhe causavam, respectivamente, horror e desinteresse; bastava-lhe o nicho de mercado da estética dos milionários, porque era necessário oferecer beleza a quem não tem, um modo todo seu de fazer valer, na Terra, a justiça que Deus não teve a coragem de praticar no céu. Apolo teve um momento de glória quando recebeu do prefeito, Adhemar Fulam, a chave da cidade, porque o cirurgião embelezava o povo de São Paulo e uma população bela, argumentava o político, era sinônimo de qualidade de vida, da mesma forma que a boa educação, conforme foi possível observar num projeto bem-sucedido do mesmo prefeito, quando ainda era vereador.

Assoberbado pelo sucesso, meio embriagado com o vinho francês que bebera no almoço, Doutor Apolo injetou uma dose excessiva de botox no rosto de Maria Fulam – esposa daquele que o premiara e cliente assídua da clínica. Apavorado com o que via – uma sobrancelha direita saliente, que contrastava com a maçã direita do rosto, cujo inchaço a deixava mais avermelhada do que a outra –, lembrou-se dos textos do avô e argumentou com a cliente que a simetria dos dois lados da face era sinônimo de critérios superados de beleza. Maria Fulam impressionou-se por ser a cobaia do Michelângelo de seu século; a fim de fazer moda, foi a todas as festas da alta sociedade naquela semana – e sorriu torto quando viu sua foto estampada nas páginas das “Frases da Semana”, na revista semanal de variedades mais vendida do país: “Simetria é coisa do passado; o descompasso é a Renascença do nosso século”.

Para Doutor Apolo, a foto e a frase trouxeram muitas clientes; sua tese de doutorado, intitulada A Estética da Assimetria, rendeu-lhe uma vaga na cadeira 22 da Academia Brasileira de Letras, ao lado do avô.

O punk dentro de mim

No vídeo, a canção "Intolerância", dos Inocentes, é daquelas que adoro; neste link, uma das mais belas explicações sobre a essência do punk, por José Luís Peixoto, romancista português, cuja obra foi estudada a fundo pela minha amiga e "colega de trabalho" Katya Medeiros.

O grande acontecimento 14 - O discurso inflamado de Adhemar

Vinícius jamais conheceu os efeitos de seu temor que se transmutou em coragem. Havia entre os pais de alunos aqueles que se enterneciam da saudação do segurança. Maria Fulam era dessa estirpe de mulheres que, apesar de abastadas, não se deixam levar pela soberba do poder econômico. Tocada pelo sorriso diário do serviçal de seu filho, Maria Fulam exigiu do marido, Adhemar Fulam, respeitado vereador da cidade de São Paulo, que apresentasse um projeto de lei em que fosse exigida a cortesia “bom dia” no atendimento público ao munícipe.


Adhemar, ao ouvir a exigência da esposa, ficou atarantado. Como justificar esse capricho na redação do texto? Como apresentá-lo à imprensa? Maria contra-argumentou solenemente, afirmando que a boa educação era condição necessária para a qualidade de vida; que não havia motivos para contrariá-la; que o segurança da escola do filho a presenteava diariamente com aquele cumprimento singelo, capaz de dar àquela senhora já tão marcada pela vida uma perspectiva otimista de existência; e muitos outros raciocínios apresentou Maria ao esposo, alguns deles de agudeza e argúcia tal – não diremos ardilosidade, que não cabe tal palavra a mulher desse quilate – que o marido acedeu, imaginando algum meio de reverter a situação.


Acontece que a solidariedade assola a todos – sobretudo no Brasil do futuro. No discurso que fez uma semana depois, na Câmara dos Vereadores, Adhemar expôs, com lágrimas nos olhos, o raciocínio que explicava que a boa educação era condição necessária para a qualidade de vida; que cumprimentos singelos podem oferecer a quem tem pouco ou nada uma perspectiva de existência; que o munícipe já estava farto do atendimento público com livro de ponto, expediente, protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor, mas que não valorizava o homem do povo, o homem simples que todos os dias sorri para seus patrões, com a benevolência típica das classes menos abastadas, ainda que não esfomeadas, porque o Brasil mudara; que era esse homem que merecia uma contraparte, um bom-dia apenas que fosse, uma expressão sincera e singela de quem quer dizer “estou aqui para fazer a sua vida seja mais fácil, com o compromisso da Prefeitura de São Paulo e da Câmara dos Vereadores”.

Foi este discurso o mais significativo e marcante da carreira de Adhemar, porque lhe rendeu reeleição por mais dois pleitos e uma tarde e uma noite de sexo que foram além do papai-e-mamãe, aquela com a esposa, esta com a amante, sua secretária.

O grande acontecimento 13 - A diplomacia de Vinícius

Onírio não soube da repercussão de sua demissão: o aluno que o interpelou teve a certeza, no momento em que soube que o professor foi mandado embora, de que teria sucesso na vida profissional; a diretora dormiu tranquila; os pais de alguns alunos questionaram, em seu íntimo, a decisão tomada pela escola, mas a esqueceram na cerimônia de formatura dos alunos, em que todos se emocionaram com o momento solene do encerramento de uma fase da vida daqueles jovens; apenas um professor propôs debate a respeito do acontecimento, na sala dos professores, mas desanimou-se quando viu que os colegas não lhe dariam corda.


Para Vinícius, segurança da escola, entretanto, a demissão de Onírio foi uma perda. Vinícius recebia todos os professores, funcionários e alunos com um bom-dia acolhedor, orientação que lhe fora dada pela direção. Onírio era dos poucos que lhe retribuíam a saudação. Depois de perceber que perdera um de seus poucos interlocutores, Vinícius apavorou-se com a possibilidade de também perder o emprego: e se as pessoas se enfurecessem com seu sorriso, ainda que artificial, todas as manhãs? Gostariam todas aquelas pessoas de serem agraciadas com a frase que, apesar de calorosa, apenas cumpria a tarefa fática que fora destinada a Vinícius? Em contrapartida, teria ele alguma função além daquele cumprimento protocolar, mas diplomático?


Saiba o leitor que, neste futuro incerto, a grande ameaça que assola o Brasil não é mais a violência resultante da desigualdade social, já que a esmagadora maioria da população brasileira já saíra da linha pobreza; o que agora apavora a nação são as atitudes tresloucadas da nossa juventude transviada, que, à busca de boas risadas, abusa da violência e do sadismo.Ciente desse contexto, temendo apanhar de algum aluno e perder o emprego, valendo-se do famoso ditado que diz “quem tem cu tem medo”, Vinícius armou-se de coragem e enfrentou o pavor da demissão, experimentando, da seguinte forma, o momento mais valente de toda a sua carreira: na saudação de todos os dias, incluiu o nome da pessoa que chegava, precedido do tratamento “senhor” ou “senhora”.

O grande acontecimento 12 - A leitura de Onírio

O leitor virtual terá percebido o quão solta é a narrativa num blog da internet: as personagens amarram-se livremente, uma levando à outra; saltam-se os anos indiscriminada e irresponsavelmente, não há nada que possa ordenar o discurso, que corre para todos os lados, qual um ícone de mouse, seja ele uma seta ou uma mão. A existência efêmera de João Celerino levou-nos ao vômito de Onejar, apenas porque eles estudariam na mesma escola, não tivesse o primeiro falecido tragicamente – e os dois sequer se conheceram. É agora uma carta que nos leva à vida de Onírio, outro professor destes contos, porque é a escola o único universo conhecido pelo narrador; Onírio, ao contrário da professora de História de Aparecido, valorizava as palavras que Tréssio escrevera mais de vinte anos antes – a narrativa ganha, assim, subitamente, ares de ficção científica, porque investiga o futuro das salas de aula do Brasil.


Onírio é um privilegiado: trabalha numa escola particular, com todos os recursos tecnológicos que a mente humana pode conceber – lousa cujo conteúdo é transmitido por meio de um sistema wireless para os laptops dos alunos; sala de aula virtual em que os jovens podem experimentar a sensação de estar numa trincheira da Primeira Guerra Mundial, nos porões da Ditadura Militar ou nas Torres Gêmeas no dia 11 de setembro; acervo virtual com todo o material didático, que pode ser acessado de casa; e muito mais, basta fazer uma visita e tomar um café com os coordenadores que estão sempre preparados para atender você e seu filho, prepará-lo para as expectativas de mercado e fazer dele um case de sucesso, tudo isso com a qualidade e o atendimento personalizado que você já conhece.


Onírio é professor de geometria, trigonometria e, principalmente, matemática financeira, disciplina que se tornou obrigatória no Ensino Médio, mas acredita que o conhecimento humano é sistêmico. Por isso, secretamente, em suas aulas, pensa em frases de grandes pensadores, que poderiam sensibilizar os alunos – mas proferi-las render-lhe-ia a pecha de sonhador, além de colocar-lhe o emprego em risco. Num domingo, Onírio descobriu numa barraquinha da Feira do Masp, por simbólicos dez reais – considere aí o leitor a inflação de cá para lá, e considere também que ela segue rigorosamente controlada pelo COPOM até o ano em que estamos – a carta de Tréssio a seu filho. Onírio leu-a, emocionou-se, comprou- a e leu-a em voz alta em sala de aula, o grande momento de sua vida.


– E qual a relação disso com o mercado financeiro? Perguntou o aluno mais inteligente da sala.


Onírio não soube responder: hesitou longamente na frente da classe, riu nervoso e disse a verdade: “nada”. Na semana seguinte, foi demitido por justa causa, afinal estava fugindo aos conteúdos previstos no currículo escolar.

O grande acontecimento 11- A glória de Aparecido

Bendita a carta que faz os homens chorarem, porque homens não choram – ainda que o façam de outras formas, sem soluços ou lágrimas. Aureliano herdou do pai ensinamentos que este adquirira de uma hora para outra, devido a um susto que levara no trânsito, frente ao ridículo de vociferar contra uma senhora inofensiva. Bendita, pois, a motocicleta, que acabou por modificar a vida de dois homens, Tréssio e seu filho – Deus proteja, também, esta família, cujos membros todos têm nomes inusitados.


Mas a carta de Tréssio não deixou de tocar a vida das pessoas. Aureliano também teve um filho, João Aparecido, e costumava dizer a ele que lhe deixaria de herança uma carta do avô. O filho pedia com tanta insistência a posse de tal preciosidade, que Aureliano acabou dando-lhe a carta antes de morrer – era um adiantamento da posse dos bens. No mesmo dia, Aparecido levou-a para a escola, porque queria mostrar às meninas a que estirpe pertencia – a dos homens preocupados com o amor, com o próximo, desligados das posses materiais. Aparecido teve seu momento de glória quando a professora de História, preocupada com a agitação no fundo da sala, supondo que o papel que circulava na mão dos alunos fosse uma imagem pornográfica, percebeu que aquelas crianças se impressionavam com um documento pessoal do passado de uma delas e que uma pequena folha de papel escrita a mão tinha o poder de encantar a sala, o que ela, professora, há muito não conseguia fazer. Ciente de que era sua hora e sua vez de fazer os alunos entenderem a história viva, a professora leu a carta de Tréssio em voz alta, para todos os alunos ouvirem, mais de vinte anos depois de ela ter sido escrita.


Aparecido voltou para casa carregado de glória – e, nas semanas seguintes, comeu duas meninas da turma –, mas esqueceu-se de trazer consigo a carta do avô, que ficou com a professora. Esta, ciente do valor documental e histórico da carta, por conter utopias de que não mais se falava no mundo, foi à Feira do Masp e vendeu-a por um preço alto o bastante para pagar-lhe as cervejas da tarde de domingo.

O grande acontecimento 10 - A herança de Aureliano

Quando Tréssio teve sua epifania, Aureliano, seu filho, era ainda um bebê. Tréssio abraçou forte aquela criança gorda, saudável, que quando nasceu mamou mais de duas horas sem parar, e que queria sempre tudo para si, todos os brinquedos, todo o quarto, todos os carinhos. O pai já intuía no filho um certo sentimento de propriedade, de fome de bens materiais, que afligia e impressionava. Naquela mesma noite, apavorado pela idéia de que poderia morrer cedo sem ensinar nada ao filho mais velho, Tréssio escreveu-lhe uma longa carta, explicando-lhe o que aprendera com o estalo da motocicleta: que mais valia a pena estar vivo e amar os outros; que havia tempo para tudo, até para a morte; que os carros, as motos, o dinheiro, tudo isso eram só coisas, mais valia dar atenção às pessoas e aos sentimentos.


Mal sabia Tréssio que sua aprendizagem já se ampliara, basta ao leitor, para comprová-lo, que leia o conto anterior e compare as lições que esse passageiro protagonista extraiu do barulho da motocicleta com estas que acaba de escrever. O leitor há de considerar, também, que é possível que o narrador invente estas histórias semanalmente e as faça mudar de moral ao sabor do vento e dos seus humores. Fato é que o que lá vai escrito não é o que ficou registrado acima, o que nos leva à conclusão de que Tréssio angariou ainda mais sabedoria de uma simples explosão de escapamento.


Ao longo da vida de Aureliano, este se interessaria, entretanto, mais por uma moto do que pelas lições do pai, que lhe escreveu uma carta, mas que a esqueceu dentro do livro que lia naquela semana, a Carta ao Pai, de Franz Kafka. Aureliano cresceu, adolesceu, engordou ainda mais, ficou adulto, adoeceu de trabalho e de interesse e torceu secretamente para que o pai morresse, para que lhe pudesse por as mãos no carro antigo, que o progenitor jamais vendera ou emprestara, carro que dirigia num dia em que – contava sua mãe – o marido Tréssio voltara atormentado da rua, escrevera um texto que ninguém nunca havia lido e ficara mais carinhoso do que nunca, com ela e com os filhos.


Aureliano não dava atenção a essas histórias de família. Depois da morte do pai, apossou-se das chaves do velho carro e fez uma limpeza na biblioteca paterna, na expectativa de ganhar algum troco com aquela papelada, até deparar-se, por acaso, com o livro Carta ao Pai, de Franz Kafka, dentro do qual encontrou uma carta dirigida a ele mesmo, Aureliano, que chorou durante horas, porque descobriu que Tréssio lhe deixara mais que um carro, parte da casa e muitos livros velhos.

O grande acontecimento 9 - A epifania de Tréssio

O estampido seco da motocicleta – que é também uma versão da máquina do mundo, só que em duas rodas – não foi ouvido somente por Quissífodas. Também Tréssio o ouviu – no exato momento em que discutia, no curto intervalo de tempo de um farol vermelho, na Avenida Pacaembu, com um motorista que o havia fechado instantes antes. O estalo desconcentrou Tréssio, e os impropérios que dirigia a seu irresponsável e inábil interlocutor – uma senhora de sessenta anos – ficaram pela metade, como que sinalizando que o mal pode ser interrompido mesmo depois de ter começado.

Nesse momento de epifania, calou-se, porque, pensou ele, muitas vezes, o silêncio pode ser melhor que a fala exaustiva; fechadas violentas podem ocorrer não por maldade intencional, mas por inabilidade de quem fecha e de quem é fechado no trânsito; a velhice chega para todos, mas não no mesmo ritmo nem na mesma hora; e pode haver muita coisa boa num acontecimento que parece ruim.
Assim, tomado pela lição simples, dolorosa e reveladora que experimentou, deixando todas as ironias e as agressividades irem embora no eco traumático que desapareceu no tempo, aguardou pacientemente que o farol abrisse para ir para casa, em que o esperavam esposa e bebês.

Hóspede Secreto, de Miguel Sanches Neto

A indicação do livro da semana segue sob a forma de link para um texto que foi ao ar ainda agora, na revista virtual Mundo Mundano: http://www.mundomundano.com.br/v1/?com=secao_conteudo&secao=4&conteudo=277
E vem aí: coluna sobre rock e política. Em site novo! Aguardem.

Fim de semestre

Todo fim de semestre ou de ano, na última aula das turmas em que leciono - se o clima ao longo do período foi bom -, leio um fragmento de texto literário ou não. Dedico aos alunos, emociono-me, quase choro sempre, às vezes choro mesmo (saudosa turma do CPV de 2001) porque os textos escolhidos - um trechinho do Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa,
ou de A felicidade, desesperadamente, de André Comte-Sponville, entre outros - tiveram e têm grande relevância na minha vida. Essa leitura é um meio de despir-me da farda de professor e mostrar quem sou de fato, ainda que sob um véu textual.

Não minto: embora meus heróis tenham morrido de overdose e meus inimigos estejam no poder, ainda tenho o sonho de que as aulas que dou possam cutucar as mentes de algumas poucas pessoas. Sem idealismo, é claro: eu não ensino nada, as pessoas é que aprendem; cada uma delas retém das aulas não tudo o que eu queria dizer, mas o que elas estavam dispostas a ouvir.

Odeio a idéia de que "é bonito ser professor porque obtemos o reconhecimento no futuro, quando encontramos os alunos na rua". Faz mal para qualquer um não saber os resultados de seu trabalho - mas essa ausência de feedback, na minha profissão, acontece muito porque somos movidos a resultados objetivos, que servem para medir tudo, contaminados que estamos do mundo do capital. Os resultados objetivos e imediatos são o que menos me interessa na relação que tento estabelecer com os alunos. O que eu quero mesmo é saber dos resultados subjetivos - o que ele repensou da vida (se é que repensou)? Ele se dispôs a ler algum texto que indiquei? Ele foi tocado pela ânsia de ler mais textos literários? Daí minha impressão sobre as avaliações: elas são um mal necessário, mas sempre mal, porque acabam, dependendo da instituição educacional, mediando a relação com os alunos; as avaliações medem objetivamente um resultado que, na maioria das vezes, pode ser muito menor do que os resultados subjetivos - todos eles imensuráveis.
Também odeio a imagem do professor-sacerdote. Ora, sacerdotes costumam não receber salários, o que me desagradaria profundamente. Sou um profissional como qualquer outro: em troca do meu trabalho, recebo dinheiro. O risco de proprietários de escola, alunos e pais de alunos gostarem do discurso do professor-sacerdote é o de explorarem os mestres até a última gota: "você é sacerdote! Então sacrifique-se!". Pra cima de mim, não.


E apesar de tudo isso - de eu saber que não ensino nada, os alunos é que aprendem; que, muitas vezes, as pessoas assistem às aulas por motivos que não têm nada a ver com os meus; que algumas delas querem só "passar"; que algumas delas não me vêem como profissional, mas como sacerdote ou cordeiro pronto para o abate - apesar de tudo isso, ainda me emociono muito com minha leitura no fim dos cursos.


(Este post tem de continuar. Quero explorar os debates a respeito dos professores. Por exemplo: professores precisam parar de reclamar. E se o leitor entendeu bem o texto acima, tentei fugir ao clichê professoral de "sofro com meus alunos e com as estruturas educacionais, mas gosto, porque sou um sacerdote").


Chega por hoje. Amanhã tem aula de encerramento de um curso de Literatura Portuguesa, com Fernando Pessoa - preciso preparar os textos que vou ler com os alunos. E eu adoro preparar aula.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O grande acontecimento 8 - Quissífodas, a tese de doutorado e a máquina do mundo

Para Rafael Araújo, porque me ensinou que tudo que é sólido desmancha no ar


Vestida com todas as cores, Cassandra dispôs-se a conhecer a humanidade e tomou contato, nos meios universitários, com Quissífodas, jovem acadêmico, estudante de filosofia, filho de um grego especulador imobiliário e proprietário de revendedoras de automóveis importados com uma quatrocentona daqui de São Paulo mesmo. A sina maldita de Quissífodas era a paixão pelo saber – largamente alimentada pelo pai, porque todos os gregos carregam no sangue um pouco de Sócrates, Platão e Aristóteles, escalação digna da seleção brasileira, era o que Quissífodas pensava secretamente, e pela mãe, cuja família tinha contribuído sensivelmente para os quadros de professores da maior universidade do país. Acontece que os estudos de filosofia não entravam na cabeça do jovem estudante – muito menos o idioma alemão, único em que é possível filosofar, era o que todos os colegas diziam, a despeito dos protestos do pai.


A relação de Cassandra e Quissífodas foi efêmera, porque ele, de um lado, não suportava o cheiro de cachorro na casa dela; ela, de outro, rejeitou-o porque ele não se sensibilizava com as causas dos animais, ao contrário: só se preocupava com a tese de doutorado que deveria depositar dali a quatro meses, sem certeza alguma do que já havia redigido: um texto obscuro, de longos parágrafos .


Desolado com o final da relação, Quissífodas saiu a pé, debaixo de chuva, da casa de Cassandra. Não vá o leitor imaginar que ele tinha longos quarteirões a percorrer ou que corria risco de ser assaltado nesta cidade violenta: ela morava numa casa no Pacaembu, ele num apartamento em Higienópolis. E aquela caminhada deprimida ficou assim, além de filosófica e cinematográfica, preservada de sobressaltos de ordem social.


E foi na frente do glorioso Estádio do Pacaembu, em que assistira a muitas vitórias de seu time do coração, que Quissífodas teve a visão que foi o grande acontecimento de sua vida. E como se caminhasse lentamente, chuva na cabeça, perscrutando as razões intrínsecas daquele rompimento que o levava quase a carpir-se, Quissífodas tomou um susto quando viu, na sua frente, a máquina do mundo: um Ford T original, que guardava em si todos os segredos da realidade, todos os mistérios do homem, todas as verdades desveladas e as ainda ocultas à visão humana, todos os sistemas políticos, todos os modos de produção, todas as formas de poder, todas as formas de morrer por nada. E a máquina ainda tomou proporções maiores, ampliando-se em centenas de outras, todas tão antigas quanto ela, desfilando aos seus olhos, mas contendo todas os mesmos segredos, todos elevados a uma potência incalculável de tantos zeros que continham.


Mas todo esse esplendor foi súbita e violentamente interrompido pela explosão furiosa do escapamento de uma Harley Davidson, que interrompeu o vislumbre e a maravilha de tudo que lhe faltava à tese. Com as mãos pensas, as retinas fatigadas e um fio d’água entrando-lhe costas abaixo e atravessando a cueca, rumo ao ânus, gritou, filósofo:


– Que se foda.


Abandonou a tese, pediu ao pai um carro importado e foi trabalhar com ele, em uma das concessionárias.

Eu não pude resistir

Há quase um ano, quando comecei este blog, tive a idéia de abrir uma categoria especial para as discussões sobre Língua e Literatura, mas abandonei-a de pronto: se meus alunos lessem o blog e se empolgassem com as discussões, eu teria de responder eternamente aos comentários deles, e nunca mais sairia da frente do computador. Na minha mente doentia, eu teria de abandonar família, cachorros e emprego para ser um blogueiro.

De lá para cá, aprendi duas coisas. Primeira: uma aluna blogueira me ensinou que a freqüência das pessoas ao blog é construída, principalmente, por meio de interações com os leitores - o que vejo como uma reedição do pensamento de Antonio Candido no primeiro capítulo da Formação da Literatura Brasileira, que os alunos do cursinho estão cansados de ouvir. A segunda: minha terapeuta vive me dizendo que é preciso abandonar o mundo da fantasia e mergulhar nas experiências reais - ao longo de 2008, minha vida não acabou por causa do blog ou dos outros sites (Barizon, Showlivre, Mundo Mundano) em que escrevo, ao contrário: ela ficou melhor.

Abra-se, pois, mais uma categoria deste blog: "Língua e Literatura". Comecem os debates com os textos de Marcos Bagno, Carlos Eduardo Faraco e José Luiz Fiorin a respeito do Novo Acordo Ortográfico. Para leitores comuns, a leitura servirá apenas de mote para a reflexão ou debate virtual, que me comprometo a responder na medida do possível; para os alunos do cursinho, é mais do que isso - é tarefa para discussão em sala de aula (Samuel, por favor, se puder, avisa o pessoal que os seguintes textos estão disponíveis aqui!).

Marcos Bagno: http://www.marcosbagno.com.br/conteudo/arquivos/art_carosamigos-maio.htm

Carlos Alberto Faraco, em PDF (são só três páginas): http://www.marcosbagno.com.br/conteudo/arquivos/for_novoacordo.pdf

José Luiz Fiorin: http://www.marcosbagno.com.br/conteudo/arquivos/for_fiorin.htm

Ouvindo o Café del Mar

Num bar de alguma praia, já há algum tempo, ouvi um CD da série Café del Mar, o Volume Oito, e fiquei apaixonado: a paz que só se experimenta à beira mar, tomando uma caipirinha com cerveja, sentido a brisa e o cheiro da maresia poderia ser sentida em minha própria casa. E eis que me deparei com uma canção, a última do CD, em língua portuguesa: "Tanto Tempo", de Bebel Gilberto, o que me impressionou.

Ora, eu já sabia que a canção brasileira era muito ouvida no exterior. O que eu nunca tinha pensado era o seguinte: como será que um gringo literalmente ouve uma canção cantada em português? Explico-me: desde pequenos, quer dominemos o idioma, quer não o dominemos, ouvimos canções em língua inglesa. Sabemos que o idioma é estrangeiro e, dependendo de nossa história, tomamos maior ou menor contato com ele. Daí a impressão de familiaridade - ainda que o inglês não seja nossa língua materna - ao ouvir uma letra norte-americana. Mas qual será a impressão do ianque médio ao ouvir algo cantado em português? Está aí uma sensação que os falantes da "inculta e bela" (odeio esse epíteto, dado a nossa língua por Olavo Bilac) jamais teremos.

Será que os norte-americanos pensam que se trata de alguma língua exótica do Oriente Médio? Não me parece impossível, já que a maioria deles acha que Buenos Aires é a capital do Brasil - partindo daí, vale tudo. Terão eles medo daquela voz doce, porque ela pode estar enviando alguma mensagem terrorista implícita e oculta na entonação passional? Pensarão eles que a cantora é proibida de conversar com homens e, por isso, a tristeza que está expressa ali? Que imagens virão à mente de alguém que nunca tomou contato com a nossa língua?

O livro de Cesário Verde

Todas as semanas, passam por minhas mãos cerca de cem livros - eu contei, porque dá um trabalho desgraçado levá-los e trazê-los do armário para a escrivaninha, e desta para aquele. Alguns deles são conhecidíssimos dos freqüentadores do blog - fucei a Lira dos Vinte Anos, do Álvares de Azevedo, e reli a Senhora, do Alencar para dar aula na faculdade nas últimas semanas. Há outros que nem todo mundo conhece: eu mesmo nunca tinha parado para ler direito os poemas de Cesário Verde - autor português da imagem acima, morto em 1886, com 31 anos -, que tenho adorado.

Faz-se necessária, pois, neste blog, mais uma postagem: a do "Livro da Semana", em que me proponho a comentar, em breves palavras, pelo menos um dos livros que me passaram pelas mãos na semana.

E as aulas de Literatura Portuguesa já me deram a primeira das indicações: O livro de Cesário Verde, que ganhei de meu pai, que sempre me trazia livros quando ia a Portugal, rever os parentes. A edição que tenho é de bolso, da "Biblioteca Ulisseia (?) de Autores Portugueses", provavelmente barata, de papel de baixa qualidade, porque meu pai sabia que, quando moleque, eu preferia quantidade a qualidade, e me trazia vários exemplares de diversos autores. Só duas estrofes do poema "O sentimento dum Ocidental", para os leitores do blog experimentarem:

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nômades ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas, se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir estrangulados

Reflexões sobre o humor

No vídeo abaixo, uma explicação para o terrível mau humor de Cassandra, protagonista do conto "O humor e o cachorro de Cassandra", publicado neste blog na última segunda-feira. As perguntas que ficam no ar são inevitáveis:




a) Se os sintomas do mau humor crônico - a chamada distimia - são pessimismo, irritação, baixa auto-estima, isolamento e perda do prazer nas atividades, quais de nós não padecem dessa doença?

b) Cachorros podem curar a distimia? Não foi o que o especialista entrevistado no vídeo disse;

c) Terá este autor escrito o conto porque sabia da reportagem que sairia durante a semana? Ou o mau humor de Cassandra assola boa parte de nossa população, daí a redação do conto?

d) O mundo seria melhor ou pior se todos sofressem de distimia?

e) A entrevistada Isabel Clara disse que padece de mau humor quando encontra pessoas "burras, mal-educadas e limitadas". É ela uma versão real da minha Cassandra? Ou Cassandra é uma versão real da entrevistada e do autor?

f) Note-se que, segundo a reportagem, em 70% dos casos, a genética é responsável pela distimia. O inverso vale para o bom humor? Se valer, isso explica a alegria insuportável da família de Angélica e Fabiano, personagens dos contos "Angélica, bondosa e cidadã" e "Fabiano, o intelectual da família";

Última pergunta: no país do bom humor (sempre se ventila que os brasileiros são muito felizes) há espaço para o mau humor? E repito, de certo modo, uma das perguntas feitas acima: como seria o Brasil, se fôssemos todos mal-humorados?

Chega: meu humor está péssimo. É hora de dormir.

O grande acontecimento 7 - O humor e o cachorro de Cassandra

Dona Angélica não pode sequer supor que Cassandra, a moça antipática que a atendera no dia da votação, faria tudo para ver a mãe zelosa morta. Cassandra odiava política, políticos e cidadãos em geral. Depois da aula de literatura no colégio particular mais caro da cidade, ao descobrir os Ultra-Românticos, tomara para si a idéia de que a vida é árida e penosa, e aguardava ansiosamente por uma morte cênica e marcante. Rejeitava tudo: o convívio familiar, as regras impostas pelas freiras do colégio, os padrões de comportamento dos alunos mais populares da escola, as transgressões dos nerds revoltados. O pai de Cassandra, dentista bem-sucedido, saía de casa antes das seis da manhã, para dar aula na Cidade Universitária, e sua mãe passava o dia no clube, no coração dos Jardins, ou nas lojas da Oscar Freire. Na casa de Cassandra não havia café-da-manhã à moda de propaganda de manteiga; ela fumava o primeiro baseado no caminho para o colégio e passava a manhã zureta, zureta, aturando as falas dos professores e o besteirol dos colegas.

Mas mesmo um ser naturalmente mal-humorado e insatisfeito como Cassandra experimenta um grande momento nesta vida. Podemos vê-la, agora, ser aprovada na faculdade de arquitetura da melhor universidade do Brasil; para ela, esse teria sido o grande acontecimento, não fosse um outro, já lá vamos, leitores virtuais são apressados. Cassandra lia e desenhava compulsivamente, brilhava em todas as disciplinas, apesar de seus modos nada amigáveis e de seu visual assustador, com unhas, batom, roupas, olhos, tudo muito preto, exceto a pele, essa muito branca, ela se imaginava como um símbolo brasileiro do yin-yang. Dinheiro não era problema – tinha-o à vontade para comprar todos os livros, CDs e entradas em espetáculos que quisesse. Cassandra, embora desprezasse todas as regras, todos os padrões, todas as leis de comportamento, toda a humanidade, enfim, cumpria religiosamente e sem nenhuma vontade todas as tarefas que se lhe impunham, com o fito claro de livrar-se logo delas. Até que, um dia, solenemente, recebeu a intimação para trabalhar nas eleições – o que a deixou extremamente contrariada, porque ela adiara a emissão de seu título de eleitora para os dezoito anos; depois que não foi mais possível evitar o exercício legítimo da cidadania no Estado Democrático de Direito, punha-se em primeiro lugar na fila de sua seção de votação, no meio de velhinhos e velhinhas, para se ver livre daquela obrigação inútil.

É desnecessário dizer que Cassandra sempre votou nulo – até o dia em que teve de trabalhar nas eleições. Foi ali que viu, na hora do almoço, ser preso um rapaz de olhos radiantes, de um brilho misterioso e político que nunca vira antes, acompanhado de um cachorro enorme. Foi ali mesmo que ela assumiu a primeira grande responsabilidade de sua vida, atendendo ao pedido do rapaz, Cuida do meu cachorro?, pediu ele, num tom ao mesmo tempo doce e impositivo, que a encantou, enquanto era preso por fazer propaganda de boca-de-urna.

O rapaz nunca voltou como prometera – e Cassandra afeiçoou-se àquele cachorro como jamais se afeiçoara a nada nem ninguém neste mundo. Desde então, associou-se a ONGs que protegem animais, projetou canis que garantiam qualidade de vida a bichinhos confinados e vestiu-se com todas as cores.

O grande acontecimento 6 - Angélica, bondosa e cidadã

Não é necessário sair do lar de Fabiano para descobrir que Deus deposita bênçãos demais em algumas casas – deixemos de lado a constatação de que em outras, não há uma dádiva sequer, Deus escreve certo por linhas tortas, é o que diz o povo, é assim que deve de ser mesmo. Pois é a mãe de Fabiano, Dona Angélica, o pilar sobre o qual se sustenta toda a estrutura daquela família feliz, que certamente inspirou as propagandas de manteiga e os adesivos de carros: Dona Angélica preparou, ao longo de seus quase cinqüenta anos de casamento, o café da manhã para o marido e para os filhos, que debatiam, felizes, as leituras feitas na revista semanal de variedade mais vendida do país. Talvez o único deslize moral de Angélica tenha sido casar-se grávida, porque a libido do marido, na época em que eram namorados, era acentuada, Deus proteja o casal, eles se amam e amam os filhos, fazem tudo por suas crias.

Vemos agora, diante de nossos olhos, todas as provas de amor de Dona Angélica pela família: agora ela estaciona o carro em local proibido, impedindo a passagem de qualquer outro automóvel, na frente da farmácia, para comprar rapidamente os remédios para seu menino mais velho; agora ela atravessa o farol vermelho para chegar mais rapidamente à escola das crianças para não traumatizá-las, porque crianças que esperam muito pelos pais sentem-se rejeitadas; agora ela pede ao eletricista que faça um gato na ligação de TV a cabo do vizinho, para que as crianças tenham acesso à CNN, tão importante para a formação de indivíduos bem-informados; agora ela não paga a mensalidade da escola, para pagar a viagem à Disney, porque nem tudo na vida é estudo, as crianças também têm de se divertir, afinal o que se leva desta vida são esses bons momentos em família; agora ela mente ao irmão, dizendo-lhe que o estado do carro usado que vendeu a ele era perfeito, mas aquela carcaça não prestava para quase nada, porque Fabiano estragara a máquina nos rachas, mas o que interessava é que aquele dinheiro seria usado de entrada na casa que comprariam no condomínio fechado, o que garantiria a qualidade de vida da família; agora ela fecha os olhos aos largos maços de dinheiro que o marido traz para casa, certamente obtidos no bingo; finalmente agora ela não diz ao filho o que pensa a respeito do livro dele – para ela aquilo é uma montanha de bobagens escritas para tomar dinheiro a pessoas ignorantes e para vender-lhes sonhos que jamais serão realizados –, porque o que interessa é a felicidade do filho, todo sorridente e importante no dia do lançamento da sua primeira obra mais vendida.

Mas mesmo a vida de Angélica terá um grande momento – um momento ainda maior do que os relatados acima, todos importantes, todos marcantes, todos relevantes, porque demonstram o esmero com que aquela mãe cuidava daqueles filhos. Podemos vê-la agora, secretamente, na urna de votação, digitando os números de seu candidato – aquele cuja plataforma política defendia a honestidade na administração pública, o compromisso com a ética, o comprometimento com todas as classes sociais. Angélica é uma cidadã – ela sabe muito bem disso – e pode escolher livremente os políticos em que votará.

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O grande acontecimento 5 - Fabiano, o intelectual da família

Santa palavra aquela proferida por Aceite, desde aquele dia adotada com vigor, porque rendeu a ele a demissão, meses de desemprego e retorno à escola, por meio de um supletivo, em que conheceu a mulher de sua vida, casou-se e melhorou o próprio desempenho sexual. E foi na sala de aula do supletivo que Aceite estudou com Fabiano, rapaz de dezoito anos, filho de boa família trabalhadora, afeito mais às cervejas com os amigos desocupados, à lavagem dos três carros da família, aos rachas nos finais de semana, do que aos estudos, mas ninguém pode viver neste país sem estudar – ao menos é o que afirmava o pai, que também não tinha diploma, mas que sonhava – e de fato dera – para os filhos uma vida melhor do que a sua, perdida, segundo ele, na pequena burocracia de uma repartição pública.

Fabiano desistira dos estudos no primeiro colegial, mas cursava o supletivo para concluí-los – sob a condição paterna de ganhar um carro novo caso ingressasse na faculdade de Administração, qualquer que fosse. Para o pai, Fabiano, além de preguiçoso, era um ingrato, afinal desperdiçava a vida em vadiagens sem tamanho e adiava os estudos que lhe dariam uma carreira na iniciativa privada, a melhor forma de enriquecimento. Foi no supletivo que Fabiano tomou contato, pela primeira vez, com a revista semanal de variedades mais vendida do país, que, segundo o pai, era a fonte primeira de todo o conhecimento. Era por meio dela que Fabiano poderia tomar contato com o mundo da política, dos negócios e da arte moderna, também importante para um executivo de sucesso. Fabiano encantara-se com a dica do professor de Língua Portuguesa, que recomendara um livro de autoajuda – o primeiro da lista dos mais vendidos da revista – aos alunos que não conseguiam vencer as dificuldades que as provas lhes ofereciam. Leu o livro e leu alguns artigos da revista; embora tivesse a nítida sensação de que não lera nada, de que continuava rigorosamente o mesmo depois de árduas horas de esforço descomunal, citava trechos dos textos nas mesas de jantar da família, nas rodas de bar com os amigos, no drive-in com a namorada na sexta à noite – hábito que não se perdera, embora o automóvel em que trocavam carinhos já não guardasse o cheirinho de novo, que tanto excitava o casal.

Foi essa carga brutal de leitura que rendeu a Fabiano o grande momento de sua vida. Aprovado com louvor nas avaliações do supletivo e invejado pelos amigos devido ao carro novinho na garagem, nosso herói percebeu que seus colegas menos capazes padeciam de falta de estímulo para os estudos. Escreveu um livro de autoajuda para os estudantes que não conseguiam a aprovação – tarefa que só foi possível devido às sábias correções gramaticais do professor de língua portuguesa; o proprietário do supletivo, encantado com os frutos de sua instituição, abriu uma editora e publicou o livro, que foi best-seller durante anos. E foi na formulação do plano de marketing da obra que Fabiano experimentou o grande acontecimento de sua vida: a descoberta de que as listas dos livros mais vendidos eram compradas. De posse deste conhecimento, decidiu-se definitivamente pela carreira de escritor de sucesso, abandonando a carreira corporativa e a faculdade de Administração, o que, inicialmente, irritou seu pai. Mas com o tempo o progenitor entendeu o que acontecera e conformou-se, afinal os filhos não podem ser tudo o que os pais querem; aquele garoto não dava mesmo para a carreira corporativa, porque era fraco para enfrentar a competitividade da iniciativa privada: Fabiano era, afinal, o intelectual da família.

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O grande acontecimento 4 - José Aceite disse não

A descoberta de Das Dores foi, à primeira vista, um azar para José Aceite, que era um dos amigos dela, mas digamos tudo: era o de performance sexual mais insatisfatória que ela já experimentara. E assim foi até o dia da grande guinada na vida de Aceite, cobrador do ônibus em que Das Dores teve o orgasmo, mas sem ele, é evidente, homem que agradava a todos, aceitava-lhes as opiniões com parcimônia e não emitia um juízo pessoal sequer.

Zé Aceite, todos o chamavam dessa forma, não era assim por covardia ou submissão: o pai lhe ensinara que viver sem desassossegos grandes era uma arte. Aceite não brigava com os meninos da rua, não discutia com os professores e terminara a oitava série tranqüilamente, sem se meter em uma só briga ou discussão. Para conseguir o que queria, Aceite desenvolvera, pois, a arte da simpatia e do sorriso – era gentil com todos, fazia-lhes as vontades, lembrava-se dos aniversários, não faltava aos eventos sociais a que o convidavam, concordava com tudo e com todos, ouvia as aflições alheias. Nos lances mais delicados, como as fofocas da família, dos amigos ou dos colegas de trabalho, tomava momentaneamente o partido dos que lhe confiavam puxadas de tapete, traições ou roubos, para depois consolar as vítimas de atos tão condenáveis para todos, mas que para ele eram indiferentes. Aceite nunca fazia leva-e-traz e jamais dava recados: guardava para si os conflitos em que nunca se meteu de fato.

Foi essa placidez que encantou Das Dores – e todas as outras mulheres que Aceite tivera na vida. Mas Das Dores descobriu o orgasmo solitário e não demorou em dispensar seu amante menos fogoso – porque até na cama Aceite era neutro ao extremo, o que desagradava a inspetora. Desolado, Aceite foi para casa e embriagou-se exageradamente – mas solitário, para não incomodar ninguém. Como nunca havia ocorrido antes, perdeu a hora, deus nos livre de acordar às quatro para trabalhar depois de um rompimento amoroso e um porre. Depois de uma noite de sonhos violentos, em que fodia a Das Dores de quatro, acordou furiosamente com o toque do telefone; era o supervisor da empresa, que lhe perguntava se ele não viria trabalhar, ao que Aceite respondeu:

– Não.

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O grande acontecimento 3 - O orgasmo de Das Dores

Das Dores é a inspetora da escolinha “Tradição Infantil”. É ela quem recolhe os cacos das coisas que as crianças derrubam; é ela quem protege os alunos frágeis, como Onejar, da ameaça dos fortes; é ela quem diagnostica as doenças e decide falar ou não com a coordenadora, que tem pouco tempo para os alunos.

Das Dores é já uma senhora, mas ainda guarda em si os fogos que teve na juventude. Depois que o marido fugiu, já lá vão mais de dez anos, ninguém pode agüentar essa enormidade de tempo sem carinho sexual, Das Dores não se casou para não ter de cozinhar para ninguém, a não ser para si própria. Mantinha, pois, alguns amigos, cuja ausência ela dizia lamentar; na verdade, a ausência de um virava a presença de outro e Das Dores sentia-se satisfeita em não ser enganada e não enganar: era já na primeira noite que ela dizia querer uns carinhos mais íntimos – mas isso não queria dizer que fosse surgir ali uma relação fixa, no papel. E os amigos aceitavam, naturalmente, e Das Dores acreditava ser uma mulher moderna.

Foi no ônibus que Das Dores viveu o grande momento de sua vida. Sentindo o trepidar do motor combinado às irregularidades do asfalto, Das Dores sentiu prazer e, fazendo contrair os músculos da vagina, acompanhando as vibrações externas, teve um orgasmo vigoroso e solitário, o que não julgava ser possível.

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O grande acontecimento 2 - Onejar devolve tudo

Se Celerino tivesse sobrevivido, estudaria na escolinha “Tradição Infantil”, instituição fundada exatos sessenta anos antes de Celerino nascer. Lá, nosso herói de vida curta faria parte do grupo de alunos mais inteligentes, porque sempre receberia a nota máxima, sobretudo em língua inglesa, ensinada na escola desde o berçário. Seu antípoda seria Onejar, garoto apagado, feio, mirrado, sempre com uma nesga de escarro pendente do nariz, de pernas finas que não serviam para correr no campinho de areia. Mas a vida escolar, deus esteja conosco, não determina o destino de ninguém – Onejar tornar-se-ia, na vida adulta, presidente de uma empresa multinacional automobilística instalada do Brasil.

Agora, entretanto, podemos vê-lo brincar com miniaturas de carrinhos, cuja linha de produção e estratégia de marketing ele já sonha em administrar. Seus pais faziam-no visitar, desde a mais tenra idade, fábricas, grandes empreendimentos imobiliários, sedes de grandes empresas, com o fito de criar no garoto o gosto pelo empreendedorismo. Se saltássemos os anos e contemplássemos a vida adulta de Onejar, perceberíamos o gosto dos pais ao receber a notícia de que o filho tinha sido convidado por um head hunter para a presidência de grande corporação. Para eles, esse foi o grande feito de Onejar.

Trata-se de um equívoco, evidentemente: é no canto do campinho de areia que está o Rosebud de Onejar. Uma miniatura de uma Mercedez Amarela é todo o mundo do garoto; por ser franzino, entretanto, Onejar não é respeitado pelos coleguinhas mais fortes – exatamente aqueles que fariam companhia a Celerino, se ele tivesse sobrevivido –, que lhe pisam impiedosamente as miniaturas. Mas a partir de hoje, tudo mudará: é hoje o dia do grande feito de Onejar, é hoje a última vez que ele será humilhado pelos colegas.

Quando um dos garotos pisa-lhe a réplica do status, Onejar não tem dúvidas: mete dois dedos na garganta – assim como fazia Giselle, sua irmã adolescente, toda vez que exagerava no chocolate – e devolve ao coleguinha todo o todynho tomado no intervalo, dois tatus-bola que devorara secretamente no jardim e um resto de meleca de nariz que lhe ficara presa aos lábios.

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O grande acontecimento 1 - João Celerino e o lucro

Dizem que toda vida, mesmo que breve, sempre guarda um grande acontecimento. Os homens podem não ficar sabendo, os jornais podem não publicar, nem todos os seres viventes vão ao Jô Onze e Meia dar entrevistas – mas em toda vida há um ato digno de nota, um fato relevante, um momento que merece a atenção dos homens que estão assistindo aos vídeos do YouTube. Nem só os atos humanos merecem atenção: os animais, por vezes, ganham os noticiários, rebeldes de sua condição; as árvores têm os quinze minutos de fama ao destruir casas e carros nos verões de São Paulo.

Observe-se, por exemplo, João Celerino, morto com apenas três meses de idade. João nascera forte e gordo, pronto para ganhar o mundo. Síntese dos genes e dos nomes da mãe e do pai – Célia e Severino – João era criança cuja concepção fora milimetricamente planejada, bem como a data de seu nascimento, que aconteceu no período de férias dos progenitores que puderam, então, juntamente, como seria o ideal, educar o infante nos noventa dias de existência que teve. Célia, professora de inglês, conversava com a criança nesse idioma, enquanto lhe dava banho, e lia-lhe o longo romance ...Gone with the wind para que dormisse. Enquanto passeava no berço, Celerino descobria com o pai as maravilhas que experimentaria ao herdar-lhe a pequena empresa, aberta fazia dez anos, com muito esforço e muito trabalho, depois dos amargos anos de crise da década de oitenta. O pai divagava um pouco, é verdade, quando explicava ao filho as diferenças entre a declaração de imposto de renda com lucro presumido, de um lado, e a de lucro real, de outro; mas foi exatamente nesse momento, aos exatos três meses de idade, que Celerino disse a primeira e última palavra de sua vida: era “luco”, termo ainda incompreensível, devido à dificuldade de articulação verbal da pessoinha que ainda engatinhava no chão da língua, mas interpretado pelo pai como corruptela da palavra “lucro”.

A alegria de Célia e Severino durou pouco: no final da mesma tarde, apressadamente, Celerino morreu de falência múltipla dos órgãos, inexplicavelmente.

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Projeto para o final de um romance

Espero que os leitores deste blog, se os há, não me entendam mal, pela ausência de mais de três meses. A vida mudou de junho para cá: eu procurei aulas e achei - e elas são tantas que falta tempo para escrever. E descubro, então, que continuo o mesmo chato que eu decidira deixar para trás quando tomei a decisão de publicar os tais restos e fragmentos. Não faz mal: os alunos novos estão aí, trazendo-me vida, pedindo atualizações. Tomo, pois, novo rumo: que venha o que vier para os textos deste blog, sem critério, sem super-ego, sem super-eu.

Abaixo, um final de romance, escrito no final de 2006, bem à brasileira (porque contém uma avaliação da vida do narrador) e bem à Rogério (onde já se viu final de romance escrito, sem o resto do texto?). Há coisas que são melhores inacabadas e incompletas.

"Não posso dizer que minha vida foi ruim - fui amado e amei, apesar das traições que relatei nos capítulos anteriores. Mas a minha vida toda, minhas ações, meus atos violentos, que não escondo mais, tudo que fiz tinha como fito único obter o amor daquelas mesmas pessoas que me rodeavam na tarde chuvosa na casa de meu avô, em seu leito de morte. E o leitor terá percebido que, na maioria das vezes, alcancei o contrário disso. O que faço melhor - comprar os restos de sonhos das pessoas que têm coragem de criar e vendê-los a preço de ouro, depois de um banho de loja -, aquilo que me trouxe a celebridade era exatamente o inverso do que minha família esperava de mim. Nunca consegui me desligar dos olhos criteriosos de meu pai e do abandono súbito de minha mãe.

As lembranças nesta idade são difusas: não sei se tomei mesmo as decisões que mudaram a minha vida ou se fui levado a elas pelas circunstâncias. Às vezes, sinto um desejo interminável de abandonar tudo de repente, como fiz no meu primeiro emprego, e dedicar-me exclusivamente ao que me dá prazer. Queria sentir por um só instante o gosto de ver as contas enviadas por correspondência acumulando-se na caixa, os recados enchendo o celular, um número interminável de emails impedir o acesso à internet, tudo para verificar se a vida continua, mesmo sem o meu controle, sem a minha intervenção.

É claro que anda, responderá o leitor, pensando apressadamente que preciso de terapia. E até a escrita deste livro, ainda que tenha me servido de distração em alguns momentos, enfadou-me e tornou-se obrigação. Não houve na minha vida evento que eu não tenha transformado em trabalho; tudo foi planejado, cumprido a rigor - eu saía dos restaurantes nas horas cheias para que pudesse calcular precisamente o momento em que chegaria a casa. Esqueci-me de que minha filha se casava por amor - e transfomei-lhe a festa de enlace num grande evento para fazer networking com clientes em potencial.

Meus amigos da academia - que freqüento religiosamente nos mesmos horários - sempre me sugeriram que escrevesse um livro contando os sucessos de minha vida profissional. Enquanto descrevia minha primeira negociação com os lojistas dos Jardins, que trouxe a tranqüilidade financeira de que disponho hoje, percebi que florescia na vida profissional exatamente na mesma medida em que declarava falência no primeiro de meus quatro casamentos. Lapidei minha história com todos os recursos que pude: omiti os subornos aos fiscais, as sonegações de impostos, os meios de enganar meus interlocutores nas negociações, afinal esses relatos manchariam minha trajetória, o case de sucesso que a editora exigia que eu escrevesse; os faróis vermelhos que atravessei, as viagens em que conduzi meu carro completamemente bêbado não eram assunto para minha autobiografia - assim orientou-me o ghost writer contratado para escrever meu livro; evitei e minimizei os efeitos desastrosos de minha jornada de trabalho - talvez a única droga em que tenha me viciado. No momento de revisão das provas, percebi que aquele cuja história era contada não era eu - mas o eu em que eu fizera questão de me mentir".

Sem título, de 30 de março de 1998

Trinta de março de 1998. Não tenho a menor idéia do que estava acontecendo comigo para escrever o poema abaixo, em que há bons e muitos maus momentos. Não gosto da tentativa de usar o tu para as referências ao interlocutor, mas achei um barato a organização em estrofes de três versos. Fica aí mais esse fragmento.



No teu silêncio claro, minha dúvida mais atemorizante
se faz verdade: é então que me possuis todo,
de corpo e vida.

É nefasta minha tentativa de domínio da fala:
Deparo-me com as limitações, eterno motivo de tua vitória,
O feto disforme do fim.

Amalgamado em tua imagem e tudo que pretendo ser,
Reflexo de ti, deixando-me às escuras, por vergonha,
Distancias-te de mim, é só teu vulto que vejo agora.

Dependo do teu corpo, alimento, paradoxo dos conceitos que já se foram
Mas és tu que me draga, oblíqua e insolente,
Farta de mim, já;

Saco do bolso as estratégias gastas,
Que se renovam quando tocadas do teu dedo,
Turbilhão em que me perco, vivas-mortas que ficam.

Produzo em três dias o que já se encontrava no lixo
E imolo-o em tua homenagem; sorris:
queimei-me de novo.

Brinca comigo. Ludismo eterno dos que se amam,
És inocente e inconsciente, farta de mim,
Quando me divide ao meio para depois começar de novo.

Sem título, de 2003

Aprendi que a poesia não está no gosto ou no cheiro da fumaça,
Mas na leveza amorfa, que a faz dissipar-se no ar, simulando
Quase que fielmente os pulmões

Ao poema deve-se preito: há que se guardar consigo
O guardanapo manchado do restaurante e a sujeira da calça;
O nome do lugar, a esquina,
O carro daquele tempo passam: é a mancha o poema.

São Paulo, 2003

Mais ressaca do retorno

Com toda humildade do mundo: se o legítimo Pessoa pode ter dois poemas com o mesmo título, só mudando o ano, por que eu não posso ter dois da mesma noite?

São Paulo Revisitada (2001)

Joguei às favas as referências, pois o ranger dos carros
E dos dentes era mais alto que o meu choro
E então resolvi mudar de país.
Bradava a rua e eu não ouvi
Porque não quis;
Dormi sem que notasse ou era efeito da insinuação
Que eu queria evitar?
Mas acordei e perdi as referências de novo
E resolvi me despedaçar mais do que permitia
A poética moderna;
Em meio aos lugares-comuns fiz-me clichê
E repeti as tópicas todas de que tentei me livrar.

(E surgiu a sensação de que reproduzo, apenas
Mas se me deixar levar, fico parte do que não fui
E não sei mais por quê)

De assalto, ela brada novamente
São Paulo, ícone da decadência minha e sua
Rio de merda putrefacta envolta de
Fumaça e eventos culturais.

A ressaca do retorno

Tirando a poeira do blog: estive por três semanas em Portugal, recuperando as energias, revendo parentes, casando-me mais e mais com a Ana, aprofundando as amizades com Renata e Pixote e fazendo novos amigos – cujos nomes quero registrar aqui: José Adriano e Raquel, Tiago e esposa, a família Oliveira Cruz; Nuno, Catarina e os “miúdos” Zé Maria e Rafael; e uma estranha menina chamada Walmor. Nos links para as colunas do Showlivre e do Barizon.net, podem ser encontrados textos em que, de uma forma ou de outra, relato passagens da viagem.
Seria impossível pisar nas terras lusitanas e não recuperar todas as horas de leitura de Fernando Pessoa. Por isso, segue o poema abaixo, datado de setembro de 2001, época difícil e solitária.

São Paulo Revisitada (2001)

Frente às chagas do meu corpo
E às irregularidades da forma de Pessoa
Grito para a cidade, e ela nada responde.

Fraquejo: se não fosse a mulher,
A cidade seria a mesma.
Mas então não há inovação: reprodutor que sou
Dos cânones, fera para a beleza disto,
Grito aflito para a cidade, e ela nada responde.

Falta-me a palavra e o que possivelmente
Me configuraria revolucionário,
Como se fosse o grito uma única ressalva ou desculpa
(e fica a impressão de que escrevo panfleto).

Sou o que nasceu para analisar, não criar
Sou o que nunca foi, o miolo que se joga fora,
A metade duma coisa sem que possa ser outra
(e fica a impressão de que escrevo lamento).

E grita na janela a mesma cidade de antes
São Paulo, antro da impotência e do desprazer,
Musa do tangível, mãe da desgraça,
E reflexo da reclusão.
Cidade do meu antes,
De chuvas torrenciais fora de hora
E frio fora de estação,
A tua garoa me embaça a vista de mim
E do que nunca fui.

Soneto ordinário inspirado em Camões

Senhora, se do tempo em que não era teu
As lembranças me tornarem à mente,
Não te preocupes: são todas ordinárias,
Parte de mim que não se pode extinguir

Porque são o que me faz teu.
Também nos vale como brinde, diversão ou nada;
Lembra-te da história que temos por escrever:
Nosso, este soneto, senhora, que ainda que tente explicar

Pelo mais belo engenho, que são teus os meus olhos,
Que é teu o mais excitante dos cheiros,
Que é nossa a vida menos ordinária,

Não o consegue, porque é tamanha bem aventurança
O dar-te quanto tenho e quanto posso,
Que quanto mais te pago, mais te devo.

Mais desejo

Eu escapei ao meu desejo, assim intransitivo, desejo só. Nem sei quando comecei a senti-lo, talvez na mais tenra idade, já nem me lembro mais da última vez em que dormi tranqüilo. À noite, quando criança, na hora de dormir cedo para acordar cedo, eu olhava o teto e os pensamentos vinham, eu imaginava como era o sexo feminino, que eu ainda não conhecia, resolvia de cabeça as operações matemáticas que cairiam na prova do dia seguinte, murmurava em silêncio o que diria aos moleques que me batiam, ensaiava golpes de caratê que eu aprendera num seriado japonês, fingia que estava voando, essa infinidade de coisas e outras tantas de que não me lembro. Era o desejo em sua versão mais branda, imaginação pueril que prejudica o sono (mas que queima), quase só isso, sem as tantas implicações na vida diária.

Mas eu não tive parada - eu nunca tive parada, só muito mais tarde. E aconteceu que me afeiçoei à noite, às personagens dos bares que eu via nos filmes da tevê, àquela ambiência que eu nem sei explicar. Era o que é até hoje: a sensação de que a noite não pode nem deve acabar nunca, que sempre há mais tempo para o último gole, para o último cigarro, para o último café de graça, objetos de meu desejo por meio dos quais a saciedade nunca é alcançada. E é assim o meu desejo: eu quero muito, mas nunca tenho o suficiente. No começo, parece alegria de viver, o aproveitamento extremo da existência, propagandeado por aqueles que fecham os bares. Para a maioria das pessoas, o alvorecer do dia é deprimente, dormir até às quatro da tarde traz a sensação de dia perdido. Para quem tem esse meu desejo, não: trata-se de noite ganha, a vida se aproveita da meia-noite às seis. Dia é pra trabalhar. Eu diria até que passei boa parte de minha vida trabalhando para aproveitar a noite.

Com o tempo, especifica-se o conhecimento das noites da semana. Veja: o grosso das pessoas opta por sair nos finais-de-semana, sextas e sábados. Nada contra, mas os que têm esse meu desejo sabem que essas são as piores noites, bares lotados, filas nas portas das baladas, trânsito cheio de outros bêbados, além de você. A noite de domingo, desconhecida do grande público, é, talvez, a melhor delas: sair aos domingos faz que se comece a semana com cansaço, é verdade, mas ao menos elimina-se da vida a vinheta do Fantástico e a voz do Seu Sílvio. É um modo de tentar acabar com a depressão inevitável que começa no domingo à tarde, sob a influência dos jogos de futebol, dos jornais volumosos e do sono após o almoço, em que não há nada mais a dizer a não ser o que deve acontecer durante a semana de trabalho. A hora de dormir, para quem partilha desse meu desejo, é a pior, se não saímos: não há sono. Todos os manuais de vida saudável recomendam aos insones que só durmam na hora em que tiverem sono (o desejo vai muito além da insônia, é preciso lembrar); ora, para fazê-lo, é preciso ir além do cinema, do teatro, da pizzaria. É preciso dar alegria - ou o que pensamos ser alegria - ao domingo à noite.

Mas as noites de segunda é que são as mais animadas. É nelas que estão todos os acometidos desse meu desejo - afinal, quem é que se arrisca a sair no primeiro dia da semana, depois do cansaço da semana que mal começou? Quem tem esse meu desejo pensa assim: é apenas segunda, ainda há a semana inteira pela frente, a perspectiva do final-de-semana é tão distante que eu mereço uns goles e uns tragos na segunda. A noite de segunda é bálsamo na vida dos que têm esse meu desejo, porque faz de um dia morto da semana um dia de festa. Os lugares abertos às segundas guardam os casais mais apaixonados, porque não podem aguardar até sexta para se encontrar; as noites de segunda são a opção dos que têm pouco tempo a perder, dos que pouco se importam com a sonolência ou a ressaca. As noites de segunda são de gala, porque é nelas que começa uma semana que será bem aproveitada, ao menos para aqueles cujo fogo não se apaga. Dadas as devidas proporções, também são assim as noites de terça.
Na quarta-feira, também estão nas ruas aqueles cujo desejo é médio, aqueles que se contiveram nas segundas e terças, mas não podem mais fazê-lo. Digamos assim que as noites de quarta, para os que têm esse meu desejo, são equivalentes às de sexta, para os que não o têm. Pode-se sentir no ar a intensidade: aqueles como eu, já cansados da segunda e da terça, sugam ao máximo o brilho, a empolgação, as novidades, o braseiro daqueles que repousaram. Porque o desejo é assim: ele precisa de alimento. Então as noites de quarta, até meia-noite, uma hora da manhã, são pura celebração, porque a salubridade dos que não são como nós faz que tudo seja mais animado, vigoroso. E, apesar de essas pessoas irem dormir cedo, fica-nos, na mesa do bar, toda a sua vitalidade, os relatos que fizeram, o carinho que trouxeram embrulhado em saudades no abraço forte e nas promessas de nos vermos no final de semana.

Para os que têm desejo, quase não existe a palavra "não". Digo isso porque os compromissos que assumimos nas quartas são fundamentais para que as quintas sejam mais animadas. Quem tem desejo tem agenda: escolhem-se, nas quintas, os parceiros das noites de sexta e sábado, de modo a aproveitar a presença dos contidos, dos trabalhadores, dos eternamente cansados, dos não-fumantes, dos que estão mergulhados no amor, dos que estão meio sem grana para sair sempre (embora falta de grana nunca seja motivo para não sair: sempre há amigos que nos pagam doses mais baratas nos bares menos badalados: quem tem desejo tem lugares específicos para gastar mais ou menos dinheiro, para levar amigos mais ou menos próximos, para impressionar mais ou menos o convidado ou a convidada).

Para controlar o desejo, só com amor. O amor apaga o desejo. Ou, por outra: o amor é o desejo canalizado. Essa frase vai de encontro aos pensadores do amor - se é que existe tal bizarria. Afirmo, sem medo: o amor e a paixão sempre foram pintados com tintas exageradas, sempre foram associados à falta de racionalidade, à sandice, à cegueira, ao esquecimento do mundo, mas o que ocorre é o contrário - e quem tem o meu desejo sabe muito bem do que estou falando. Quem tem o desejo e se apaixona acaba abandonando a noite, os bares, as personagens. Quem ama vê tudo clareza, compreende sabiamente o mundo, não se mete em brigas de trânsito, não perde a hora, deixa pra lá as coisas do trabalho e as mazelas da família (todas as famílias têm mazelas, um pai ausente, uma mãe chantagista, irmãos ou tios que vendem as almas das próprias mães), tudo porque sabe exatemente o que quer: encontrar aquele a quem está amando. Aos que têm o mesmo desejo que eu, recomendo que amem.
Mas numa noite dessas, quando se imagina que o desejo está controlado, ele assoma e deixa transbordar tudo que estava guardado e os amigos parecem assassinos inimigos, nem o amor pode conter o desejo de meter a mão no fogo; quem tem esse meu desejo quer imergir na fantasia da solidão. Quando meu desejo se manifesta subitamente, todas as pessoas são suspeitas, as conversas têm cheiro de traição, tudo que é "não" está ao redor. E não é desejo de amor, claro está: é só desejo, na falta de palavra melhor. Quem tem esse meu desejo sabe do que estou falando: é a sensação de que vai acontecer alguma coisa, de que dormir é a última opção, de que os riscos de vida contém as maiores chances.

Dar aula de gramática

Ao longo de toda minha carreira de professor, sempre dei aula de gramática - foi por meio dessa disciplina que arranjei quase todos os empregos da minha vida. O problema é que, por causa disso, as pessoas sempre me olharam com receio, até medo, às vezes. Devem achar, em suas fantasias, que, no primeiro erro de concordância que cometerem, vou corrigi-las cruelmente, como uma espécie de pai que ensina aos filhos, na mesa do jantar, o que é certo e o que é errado falar. Bobagem: não sou daqueles professores eruditos, que conhecem a origem das palavras, que sabem a estrutura da língua latina e que enumeram e analisam "as vinte e duas ocorrências da palavra 'se' num discurso de Rui Barbosa" - e ainda bem que não sou assim.

Na verdade, a gramática, para mim, sempre foi mais um meio de sustento do que uma paixão. Gosto mesmo é de dar aula - pode ser a respeito de gramática, literatura, interpretação de textos, redação - mas meu negócio é ver o rosto transtornado de alguns poucos alunos quando eles, de fato, aprendem alguma coisa. E a palavra "transtornado", aqui, foi usada no melhor dos sentidos que pode ter, porque acredito que para aprender alguma coisa precisamos, de fato, de um pouquinho de sofrimento. E esse sofrimento, logo depois da dor, desperta alumbramentos, fascinações, paixões. Minha sorte: todos os meus professores de português - cujos nomes registro aqui, em respeito e homenagem: Gisela, Ana, Bido, Prado, Martinho, Márcia, Gaspar, Valter Khedi - despertaram em mim a paixão pela língua portuguesa. Não acredito em muitas regras gramaticais, não vejo importância real na classificação dos termos da oração, acho desimportante para a vida prática boa parte do conteúdo da disciplina. Já disse antes em sala de aula, e escrevo aqui, de novo: aula de língua portuguesa deveria ser aula de leitura e redação, aula para saborear o português; a gramática é conseqüência, deveria aparecer eventualmente, em função do texto, e não contrário. Não faltam trabalhos acadêmicos a respeito da metodologia de ensino de gramática, nem análises a respeito do preconceito perpetuado por essa mania que temos de ficar dizendo "isso é certo", "isso é errado", "isso não é português" e outras besteiras similares. Aliás, é aí que o trabalho de Marcos Bagno se destaca. Para quem quiser ler a respeito, fica a indicação da revista Caros Amigos, Edição 131, de fevereiro de 2008, em que há uma longa entrevista com esse lingüista. Para começar a entender o pensamento dele, além da entrevista, recomendo a leitura rápida e gostosa, mas profunda, de Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz. E papo encerrado.

Vira e mexe, me aparece (o pronome está junto da vírgula propositalmente) alguém perguntando a respeito da incoerência de ser professor de gramática e ser "contra" ela. Claro está: não sou contra a gramática, sou contra o preconceito engendrado por meio dela. Ora, para não cair no exemplo clichê do presidente, lembro aqui que já ouvi inúmeras histórias de empresários bem-sucedidos que prescindiram completamente do domínio da norma culta para obter o sucesso; gosto de pensar, também, em compositores populares que nunca pisaram na escola - e, se lá pisaram, acho que nunca levaram a sério as aulas de gramática - mas que encantam a faixa de público que Luiz Tatit, professor da USP e também compositor, chama de "elite popular", exatamente aquela que valoriza a norma culta. Convenhamos: o conhecimento completo das regras da gramática só tem utilidade, mesmo, para o professor de gramática, que vive disso. As pessoas normais já gastam bastante tempo em aula aprendendo tipos de orações, as coordenadas e as subordinadas; vão continuar pensando nisso depois que forem aprovadas no vestibular ou no concurso que estão prestando? Duvido muito. Elas sabem falar e escrever português desde pequenas. E as classificações e regras gramaticais ajudam pouco ou nada no ato da escrita ou da fala. Já imaginou se parássemos para pensar na regra de acentuação de todas as palavras que fôssemos escrever?

Pois bem: por isso é que sempre tento dar as aulas de gramática com base nas contradições da própria gramática. Chamo-as de casos em que "a pilantragem não tem limites". Só não percebe que a gramática é contraditória quem não a conhece bem. Ou a idealiza.

Na biblioteca do SESC Pompéia

De fato, deve haver anjos em bibliotecas. Essa idéia surpreendeu-me quando assisti ao açucarado filme com Nicolas Cage e Meg Ryan, e me fez bem imaginar que, onde há leitura, há anjos ao redor, divertindo-se com as palavras e as sensações humanas.

Já fazia tampo que eu não ia a uma biblioteca. Na adolescência, adorava ir ao Centro Cultural, fuçar os livros, lê-los, manuseá-los, procurá-los; mas - confesso - hoje, em perspectiva, percebo que não eram só os livros que me chamavam àquele lugar - era também a ambiência que me atraía, aquele silêncio só interrompido pelas respirações, pelos passos das pessoas, pelo folhear das páginas.

Dois lugares se opõem às bibliotecas - as livrarias e as igrejas, só hoje percebi. Depois de ter sentido a paz da biblioteca, de ter me maravilhado com os livros antigos, encadernados para não se esfacelarem, entendi que, nas livrarias, predomina o fetiche pelos livros; os apaixonados por eles farejam tudo com um ar de proprietários, como se estivessem à caça de uma propriedade ou de um carro - mesmo que o conteúdo dos livros seja o melhor possível. Daí as capas duras, as folhas coloridas, as bordas diferentes, as maravilhas da editoração, chamarizes, diferenciais de produto. Na biblioteca, os livros não são de ninguém: são de todos. As pessoas vão às livrarias para comprar, mas vão às bibliotecas para ler. Quanto às igrejas, tenho pouco a dizer: já senti nelas a leveza que experimentei, hoje, na biblioteca do Sesc Pompéia. Não mais: acho que os anjos mudaram de lugar.

O Espelho

Outrora eu era daqui,
e hoje regresso estrangeiro,
forasteiro do que vejo e ouço,
velho de mim.
Já vi tudo, ainda o que nunca vi,
nem o que nunca verei.
Eu reinei no que nunca fui.


Do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa

Olhei no espelho e não me reconheci. Talvez você não acredite; dirá que eu estava bêbado, bem me conhece. Não era. Aquele que estava ali não era eu, não tinha história.

Olha, não minto: até gostei, porque era uma forma de me deixar pra trás, como se os erros eu não tivesse cometido. Pensei que todo o passado era filme, ficção, bobagem ou história de alguém com que eu conversava. Não, não diga que era arrogância minha, que é chique, isso ou aquilo, contar uma história de medo: o outro me sorria, e eu não sabia quem era! Como se fosse um outro muito meu amigo que eu não via fazia tempo.

É claro que me senti forte! Tinha girado o contador do tempo, realizava o sonho dos velhos: “Ah, se eu tivesse a tua idade com a minha experiência...”. Toquei o rosto do não-eu e era outro: rugosidades de antes nunca haviam sumido, tudo puro, tudo eu sem mim, fenda infinita do que fui, mas não tinha mais vivido. Digo assim: se olhasse minha mão, as riscas teriam mudado de lugar. Lá fora – eu estava no banheiro, ela me esperava – a música parecia mais fresca. Tá, já sei que você vai dizer que eu tenho mania de achar que quando a música toca é pra mim, fez sol porque eu viajei, mas era mesmo! Ouvi a canção como se fosse nova. Bem entendido, eu sabia que ela existia, mas não era aquela que eu tinha ouvido, era outra, como eu.

Depois, amedrontei-me: “E se falo que não sou mais eu?”. A sensação não era nova, já disse que não minto, mas eu achava que era deja vu sempre que sentia, e o pior: quando passava, era como se fosse a mesma coisa do jeito oposto: eu achava que não tinha me sentido outro, parecia que eu tinha sonhado aquilo e que eu-outro não era mais eu-mesmo. E vai explicar? Problema era que eu estava ali outro, dizendo ao mesmo que não dava pra ficar assim: ou voltava novo e mudava de vida – porque não tinha mais que querer – ou voltava o de antes e ficava assim como aqui estou, te contando essa história.

Podia ser espírito que me tomava ou loucura mesmo. Minha família freqüentava a missa nos domingos e ia no terreiro nas sextas. E agora, se fosse belzebu, zepilintra, tranca-rua, pombagira que vinha pra me pegar? Não que eu tema: é problema se a entidade quer te tomar e você não quer; vê as estranhas coisas, não dorme de vozes, fica desmaiando na frente de imagem. Brinquei a brincadeira do copo um dia: explodiu, cara! Voou dali da mesa, depois de um sim dito a uma menina que perguntava da morte do pai e espatifou na parede. Mas aí parei, preferi pensar na loucura do outro que ainda me olhava.

Pior é que eu ficava sorrindo e dizendo as coisas que a gente vê no filme, de frente por espelho, em inglês: You are... You are... galã assim, sacana, engrossando a voz pra ver se parecia mafioso ou vilão do cinema. (Eu achava assim ridículo, mas – essa parte eu gostava – eu não controlava porque não era eu!). Depois ria alto, mas não dizia, no meio da gargalhada, “é fogo!”, mas “yeah!”. Americanidades...

Aí eu vi os olhos. Tinham não sei quê, pareciam mais não meus do que tudo. Assustei, porque – isso não te falei antes – mesmo que eu não me parecesse naquela outra minha versão, ainda tinha um traço meu numa ou outra coisa (a boca, por exemplo). Os olhos não, tinham jeito de braseiro que tudo ou qualquer coisa ou outra queimava, mesmo eu parecia que ia consumido por eles, devorado de mim, até sobrar nada. Eram os olhos do diabo, e esse não era eu; se muito, era a tal parte ruim, escondida, que eu nem ninguém nunca viu.

Fechei-os. Ela me esperava lá fora e fui mesmo assim, sem saber se eu que chegava lá era aquele que tinha saído antes ou o outro que tanto me apavorava e fascinava, que hoje ainda me faz menos eu do que sou, mais outro do que nunca fui.

São Paulo, 15/06/2000

Apresentação

Nos últimos trinta e um anos, vivi o fantasma da leitura e da escrita: meu avô era um apaixonado pela literatura, e foi na biblioteca e na poltrona dele que ensaiei os primeiros passos de ser um leitor contumaz; a imagem mais clara que tenho de meu pai é a dele, sentado no sofá ou na poltrona da sala, lendo; na faculdade de Letras, quase todas as pessoas tinham aquele ar de leitoras e, principalmente, de escritoras.

Demorei muito, muito tempo para perceber que minha vontade não é ler, mas escrever. Acontece que os defensores do bom-mocismo, do comportamento burguês padrão, do investimento seguro em nome de um futuro tranqüilo, sempre me avisaram, alertaram, apavoraram: é impossível viver de escrever. Talvez seja mesmo, para muitos de nós, eu incluído aí. E talvez não seja equivocada a opção por um emprego regular, até satisfatório, divertido dependendo do dia - minha opção desde sempre.

Ao longo dos anos, entretanto, poemas, contos, idéias mal escritas e romances não terminados foram se acumulando nas prateleiras. Restos de mim que, embora dispersos, muitos ilegíveis, a maioria deles desprezível, precisam ser despejados em algum lugar e que não cabem mais aqui em casa. São cacos de um objeto que nunca chegou a ter unidade e que ficarão disponíveis por aqui, para quem quer que tenha tempo livre para ler.