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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O grande acontecimento 19 - A promessa de Martí

O leitor certamente imagina ou deseja que, neste conto, com os mais melados recursos de estilo, seja narrado o grande acontecimento da vida de Seu Saodi; mais do que isso: o leitor espera que a punheta que ele ganhou da esposa desponte como novo arrebol de uma vida já desgastada.

Nem isto, nem aquilo. O marido de Dona Saodi experimentou momentos muito melhores do que uma simples masturbação – e nem em todos eles o marido estava ao lado da esposa. Assim é a vida real, posto que estes contos sejam histórias inventadas e não acontecidas.

É do cachorro de Dona Saodi que falaremos. Martí era seu nome, em homenagem ao cantor Rick Martin, que a filha de Dona Saodi adorava. O mundo de Martí era o apartamento e os poucos passeios, embora diários, que a dona lhe oferecia. Nem no Brasil do futuro os cachorros foram entendidos, daí a falta de vira-latas nas ruas: a despeito de todas as campanhas de caráter humanístico, digo cachorrístico, contra o extermínio dos cães de rua, venceram as autoridades graves, que viam nos animais um problema de saúde pública.

Martí entendia o que os humanos diziam, ainda que não entendesse palavra por palavra. Sabia que o dono o via como um capricho da esposa; que esta o via como um serviçal (o que só mudou quando Martí negou-se a ouvir os gritos de Dona Saodi e depois, como veremos, fugiu); e que a filha da dona o via como brinquedo. Martí decidiu, então abandonar aquela casa, em nome de uma vida menos ordinária.

Era de cortar o coração vê-lo descer a Rua Conselheiro Brotero, rumo ao Minhocão: as pessoas desviavam de Martí, como se ele carregasse consigo alguma doença. Só na altura do Minhocão Martí foi acolhido por um humano – um mendigo, contra o qual recaíam os mesmos olhares de nojo que haviam se debruçado sobre Martí.

E essa foi a melhor época da vida do cão, que passeou livre pela cidade, dormiu agasalhado junto ao mendigo que o acolhera, comeu de tudo que se pode imaginar, de gatos vivos a restos de lixo de Higienópolis. Mas um Audi apressado, que subia a Angélica, pôs tudo a perder: tirou a vida ao mendigo, além de acabar com a audição do lado direito de Martí. Sangrando, desesperado, sem compreender porque aquele monstro barulhento de olhos tão brilhantes havia machucado seu novo dono que o tratara tão bem, Martí rosnava, e gania, e chorava rouco ao lado do corpo do mendigo. Exausto, Martí adormeceu no próprio asfalto, prometendo jamais dar ouvidos a qualquer humano.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Novo blog da Identidade Musical

O amigo Tiago Barizon e eu seremos os redatores do blog da Identidade Musical, que entra no ar hoje. A proposta é ousada: além de dar continuidade à publicação das colunas da Máquina do Tempo (que já estão disponíveis, também, no blog), debateremos a cena musical independente e divulgaremos bandas, shows e eventos musicais. Longa vida ao novo blog!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O grande acontecimento 18 - Dona Saodi remoça

O barulho da composição de Vacâncio não assustou apenas os convidados do evento de lançamento do livro de Doutor Apolo e de Christian Dior Palha. Dona Saodi, uma senhora de muitos anos – ela não nos permite revelar quantos – assustou-se com aquela barulheira e resmungou ao marido que já era tempo de abandonar aquele bairro.

Higienópolis não era mais o lugar acolhedor de vinte anos antes! Ali, bem na esquina da Avenida Higienópolis com a Conselheiro Brotero, ela podia,no passado, passear sozinha, à noite, com a filha e o cachorro, ambos mortos agora, a filha de câncer, o cachorro de surdez, porque Dona Saodi, ao contrário dos ancestrais, perdia o controle com rapidez, e gritava com o cão que, da mesma maneira que o marido, aprendeu a ignorar a dona histérica.

Dona Saodi passeava diariamente com a filha e com o cachorro pelas ruas do bairro, até ser assaltada e trancar todos em casa, exceto o marido, que precisava trabalhar e tinha permissão para voltar às dezenove horas. Já sabemos a causa mortis do cão – o leitor já terá imaginado a da filha, que somatizara todo o pânico da mãe e adoecera rapidamente, deixando a vida com quinze anos de idade.

Depois de ouvir a canção de Vacâncio, Dona Saodi reclamou com o marido e tentou acariciar, no chão, o cachorro – que não estava lá; foi ao quarto da filha – que não estava lá; voltou para a cama e observou o marido, que dormia nu, de pênis mole pendendo para o lado, o pênis que ela tanto acariciara na juventude, na época do colégio, depois na faculdade, que os dois cursaram juntos, depois no Japão, em que passaram dois anos trabalhando para juntar dinheiro e comprar aquele apartamento. Dona Saodi percebeu que devotara à filha os nove meses de gestação, os quinze anos de vida e os três anos seguintes, de luto total, em que até o marido começava a perder o direito de sair de casa.

Dona Saodi remoçou com aquelas lembranças; tomou coragem, disse a si mesma que tinha apenas quarenta e cinco anos e acordou o marido masturbando-o, como não fazia desde a adolescência.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Igor Fediczko, o MP3 e o lançamento do DVD dos Los Porongas, ontem no SESC Pompéia

Dia memorável, o de ontem: além de dar aulas no pré-vestibular no velho pique (à exceção da dor nas costas, que já me persegue e que vou tentar sanar com yoga e academia), participei da banca de avalição do TCC de Igor Fediczko Silva, guitarrista e compositor da Fabulosa Banda do Curinga. Igor, que foi meu aluno no CPV em 2001, acabou de concluir a graduação na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo com o trabalho MP3: Socialização da música e perda de qualidade técnica na produção musical. Em poucas palavras, Igor e o orientador, Rafael Araújo, (neste link, leia o artigo dele intitulado "A cidade antropofágica") meu amigo provocador há mais de 15 anos, demonstraram que a compressão dos arquivos MP3 faz que as canções percam qualidade - e relacionaram isso com Adorno, Benjamin, Beatles, The Who, Radiohead; até NXZero, acreditem, entrou na arguição.

Para comemorar e debater mais música, fui com o Igor até o show do lançamento do DVD dos Los Porongas, no SESC Pompéia. Como sempre, a banda arrebentou na apresentação, esbanjando carisma e canções de uma qualidade musical e poética que ainda estou para encontrar igual na cena independente de hoje; além disso, agraciou o público com músicas novas (quase todas sem nome! "Nova 01", "Nova 02"...),"Come Toghether" dos Beatles, e uma última do Grupo Capu, banda de rock do Acre da década de 80. Foi espetacular. Tanto que já escrevi um texto sobre o DVD e o show no SESC, na Métrica do Grito. Abaixo, a canção "Tudo ao contrário", do próprio DVD, que pode ser encontrada no YouTube.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Para ser lido na internet - nota metalinguística virtual

Desde que comecei a escrever textos na internet, em 2007, para o Showlivre, aprendi, sobre a publicação virtual de textos, algumas coisas por experiência própria e outras em conversas com pessoas que tinham blogs. Sem rodeios: quem escreve quer ser lido; para saber que é lido, tem de ter o retorno e o comentário dos leitores - recurso inédito na história da humanidade, ao menos com a velocidade de hoje. Pois bem, segue abaixo o que aprendi:

01. O texto tem de ser curto e dividido em parágrafos ou itens igualmente curtos: pouquíssimos internautas estão dispostos a ler textos longos na tela do computador. Aprendemos, pois, que o livro não está fadado ao desaparecimento.

02. Se o autor de textos na internet quer que seus leitores não sejam apenas familiares ou amigos, deve escrever textos que vão além de seu cotidiano pessoal: se é para ficar falando de seu dia de trabalho ou da sua fascinação com a última marca de pasta de dente , vá beber um chope com os amigos ou frequente os almoços de família.

03. Ao mesmo tempo, dê um ar pessoal aos textos: as colunas do Showlivre e do Barizon Identidade Musical em que contei alguma experiência pessoal associada à análise de alguma música foram as que mais me trouxeram respostas de leitores desconhecidos. O desafio é encontrar a tal da justa medida: o texto não pode ser tão pessoal a ponto de ficar piegas, nem pode ser tão técnico a ponto de ficar chato (para quem lê, é óbvio; quem escreve e se dispõe a publicar na internet sempre acha que seu texto é o máximo).

04. Use imagens, links e vídeos: texto bom de internet tem de ter outras linguagens além das palavras. De certa forma, voltamos todos à infância, em que livro bom era livro com figuras.

05. Se é para escrever difícil, publique um artigo acadêmico ou um livro: a maioria das pessoas que lê na internet não tem muito tempo para refletir, sublinhar fragmentos do texto ou consultar bibliografia. Pronomes em início de oração, períodos simples em detrimento de períodos compostos, palavrões, gírias e abreviações - é assim a linguagem que boa parte dos internautas espera. Esqueçamos as mesóclises, períodos longos e termos técnicos.

06. Quem tem hábito de ler na internet quer polêmica: meus textos mais lidos e mais comentados foram aqueles em que trabalhei com assuntos polêmicos - a análise do Lobão Acústico MTV rendeu-me severas críticas dos fãs do cantor, no Orkut, (apesar de eu ter defendido o velho Lobo com unhas e dentes no texto), além de broncas de amigos e colegas próximos; minha declaração de voto nulo, na última eleição para a prefeitura, no Mundo Mundano resultou em vários comentários; mesma coisa para o texto sobre o cigarro, no mesmo site. Um dos textos que mais gostei de escrever, entretanto, continha devaneios literários que não tiveram repercussão nenhuma, porque, neles, a polêmica transformava-se em uma coisa difusa.

Walter Benjamin dizia que, com a abertura dos "correios dos leitores" nos jornais, não havia europeu que não tivesse "a garantia de uma tribuna para narrar a sua experiência profissional, expor suas queixas, publicar uma reportagem ou algum estudo do mesmo gênero". Essa afirmação isolada parece uma premonição do que ocorre hoje nos blogs e colunas da internet.

Mais do que isso: Benjamin afirmava que "a competência literária não mais se baseia sobre formação especializada, mas sobre uma multiplicidade de técnicas e, assim, ela se transforma num bem comum". Gosto da ideia de que somos todos escritores - mas repudio a de que, para sermos lidos, precisamos dominar as técnicas da internet que descrevi acima. Por isso, escreverei textos longos como este, evitarei sempre que possível expor minha vida pessoal e usarei períodos longos.

A liberdade de escrever na internet é extamente esta: poucos leitores terão alcançado o parágrafo anterior; redigi-o chato e pedante porque sei que ele será pouco lido. É um teste (para o leitor) e uma provocação (do autor).

Nem sempre, entretanto, consigo fugir da polêmica. Escreverei um texto defendendo as estrias, as celulites e os pequenos defeitos; demonstrarei que o Chico Buarque é feio; explicarei por que não acredito que o Obama vai mudar o mundo.

Afinal, quem escreve quer ser lido.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Livro da Semana - Joana a contragosto, de Marcelo Mirisola

Já comentei antes que há livros que nos procuram - e que não há como fugir a eles. Eles vêm de susto, talvez já os tenhamos namorado, mas o momento da descoberta do que vai naquelas páginas não pode ser descrito.


Foi exatamente o que aconteceu com Marcelo Mirisola e a sua Joana a contragosto. Descobri-os no blog do Rodrigo Carneiro, em que o editor-chefe do Showlivre indicava uma coluna de Mirisola sobre o documentário A vida até parece uma festa, a respeito dos Titãs. O estilo, a argumentação, sobretudo as porradas no estômago me impressionaram tanto que acabei chegando à Joana a contragosto, que devorei vorazmente e que indico sem pestanejar. A seguir, só um parágrafo, para que os leitores saibam do que estou falando:


Na verdade (descobri dois dias depois) Joana sabia que o fato de a nossa foda não ter sido tão boa quanto o meu comentário "o problema é seu" salvaria apenas o comentário. Quero dizer que não dá para trepar somente com as palavras, embora às vezes seja o mais prudente e necessário.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O grande acontecimento 17 - O refrão de Vacâncio

Basta de encontros e pontos de contato entre as histórias: o leitor virtual já terá se enjoado de buscar nos marcadores do blog, ao ler um dos contos, as personagens e as situações de outros, para poder entender os próximos. Quanto mais fios fazem que as histórias se encontrem, maior é o tédio do leitor, que esse ir e vir, voltar atrás e seguir adiante, isto é leitura do passado, limitada ao papel, cujo gosto e cheiro há de passar, dizem os preconizadores do hipertexto. Na internet, lê-se uma vez o texto na tela, emite-se um sorriso vago se a leitura quase agrada, procura-se um link para partir para o próximo texto, que será igual ao que já passou, e todos eles hão de ser sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa.

Pois bem: o garçom Vacâncio servia uísque aos participantes do evento de lançamento do livro de Doutor Apolo e de Christian. Suprimo-lhes os nomes: para Vacâncio, aquele era um evento qualquer, de gente afrescalhada que se amontoava em torno de uma mesa à cata de uma pilha de papel – que, na opinião dele, não servia para mais nada a não ser fazer fogo na churrasqueira, enquanto seus amigos tocavam as músicas que todos haviam composto, juntos, ao longo da semana.


Entenda o leitor que, no Brasil do futuro, é possível levar uma vida digna em profissões que exigem pouco do intelecto. Vacâncio era garçom porque tinha insônia, e as longas horas de trabalho, madrugada adentro, mantinham-no entretido até o início do dia. Ele tinha em casa todos os bens que garantem a felicidade e a qualidade da vida humana – TV enorme, de plasma; som; DVD; geladeira; máquina de fazer arroz; máquina de dar cheiro de praia; máquina de lavar roupa; máquina de lavar prato; máquina de lavar alma; e muito mais – inclusive um computador de larga memória, cujo software mais usado era o de produção musical. Ali, seus amigos se reuniam e criavam, com ele, as músicas que queriam; quando consideravam pronto o produto, disponibilizavam-no na internet, no site musical de relacionamentos, que os remunerava de acordo com o número de downloads das canções.


O leitor terá notado, também, que nem só de servir uísque se vive no Brasil do futuro; também é possível ser músico – mas, em qualquer tempo e lugar, todas as ocupações guardam dificuldades. A de Vacâncio e seus amigos era produzir uma música nova por semana, já que os ouvintes do futuro descartavam semanalmente as produções de semanas anteriores. Ficava assim garantida a diversidade da canção popular brasileira, cuja cultura será tão rica que terá milhares de hits semanais postados na internet.


Podemos ver Vacâncio no grande momento de sua vida: ao sair do estacionamento, passou na frente da saída do buffet, no bairro de Higienópolis, com o volume máximo de seu aparelho de som, tocando a música de seu conjunto, que liderava as paradas daquela semana, num ritmo que chamavam de tecno-axé-popular-industrial-lounge-samba-rock-pop-funk-psicodélico-forró, com arranjos clássicos de sonoridade brega com influências da canção hispano americana: “Eu insisto no refrão / No refrão, no refrão, no refrão / Eu insisto no refrão / No refrão, no refrão, no refrão / Eu insisto no refrão / No refrão, no refrão, no refrão / Eu insisto no refrão / No refrão, no refrão, no refrão”. E a seguir: “Eu repito o refrão / o refrão, o refrão, o refrão / Eu repito o refrão / o refrão, o refrão, o refrão / Eu repito o refrão / o refrão, o refrão, o refrão”.


A música fizera sucesso porque era interativa – o público, via internet, sugerira e gravara o seguinte trecho da letra: “A gente gosta do refrão / do refrão, do refrão, do refrão / A gente gosta do refrão / do refrão, do refrão, do refrão / A gente gosta do refrão / do refrão, do refrão, do refrão”.

Novo Acordo Ortográfico e os vestibulares

Transcrevo abaixo reportagem da Folha de São Paulo, publicada em 13 de janeiro de 2009, para a consulta dos meus alunos do cursinho pré-vestibular a respeito do Novo Acordo Ortográfico em alguns exames (no link, a página da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa a respeito do acordo). Também sugiro a leitura de três textos que já postei anteriormente neste blog: um de Marcos Bagno, um de José Luiz Fiorin e um de Carlos Alberto Faraco.

Minha orientação continua sendo a seguinte: o fato de as bancas examinadoras aceitarem, na redação, a grafia nova e a antiga não é, obrigatoriamente, um facilitador; recomendo aos candidatos que sejam coerentes, isto é, se adotarem o Novo Acordo no texto que escreverem, devem usá-lo de cabo a rabo; o mesmo vale os que escolherem usar as regras antigas.

Além disso, nas provas de múltipla escolha de Língua Portuguesa, é bem possível que as bancas verifiquem conhecimentos básicos dos candidatos a respeito das regras novas. Por isso, vale a pena tomar contato com elas antes dos exames.

O reportagem abaixo é de autoria de Luísa Alcântara e Silva:

Você terminou o ensino médio no ano passado ou foi para o último ano agora. Foram anos aprendendo a grafia certa das palavras e, agora, com a adoção do Novo Acordo Ortográfico, em 1º de janeiro, as normas têm de ser revistas.

Mas quem vai participar de processos seletivos neste ano não precisa entrar em pânico. Os vestibulares aceitarão a antiga e a nova ortografia até o final de 2012, prazo estipulado pelo governo para os brasileiros se adaptarem - até lá, as duas ortografias serão consideradas corretas. Fica para o vestibulando escolher a forma como prefere escrever.

É o caso da Unicamp. Quem está prestando a segunda fase, que vai até amanhã, pode escolher como quer responder. A Fuvest informou que vai adotar a nova grafia nos enunciados das provas deste final de ano. As questões serão redigidas de acordo com as regras recém-divulgadas, e os candidatos que chegarem à segunda fase - já que a primeira é só de testes - poderão escolher a grafia com a qual preferem responder e fazer a redação.

Na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que ainda não decidiu qual ortografia utilizará no próximo processo, a gramática não é tão cobrada. "Damos mais valor para o conteúdo que para a exigência da norma culta da língua portuguesa", afirma Luiz Otávio Teixeira Mendes Langlois, coordenador acadêmico do vestibular da instituição. "Pequenos erros em uma frase bem-estruturada não contam tanto no nosso processo seletivo."

Avaliação diferente tem a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). "Erros ortográficos diminuem a nota", afirma Vera Resende, coordenadora-geral da comissão permanente de vestibular da escola. "Mas, normalmente, pessoas que se expressam melhor conhecem mais a norma culta."A instituição ainda não decidiu quando adotará o Acordo, mas Vera diz que até março a UFMG deve tomar uma decisão sobre o assunto.

Na PUC-SP, os erros também contam negativamente, mas, de acordo com Ana Zilocchi, coordenadora-geral do vestibular unificado da instituição, os corretores costumam levar em conta a questão do (pouco) tempo que os candidatos têm."O aluno tem que saber que o seu texto passa por alguém que tem prazer em ler aquilo e que vai saber quando é um errinho ocasional ou não.

De acordo com Ana Zilocchi, os professores vão aprender as novas regras junto com os alunos. "Temos que começar de novo, desaprender tudo o que sabemos", afirma ela. "Mas até o fim deste ano os vestibulandos chegarão com tudo na ponta da língua."Não é o que pensam muitos estudantes, que dizem preferir responder com a ortografia que aprenderam na escola."Vou responder na grafia antiga mesmo", afirma Aline Oliveira de Brito, 17, que vai prestar direito na Fuvest pela segunda vez no fim deste ano. "Fico mais segura. Acho que é bem difícil se adaptar às regras em um ano", diz.Mas ela diz que vai tentar mudar o seu jeito de escrever. "Ainda não sei se vou voltar para o cursinho [ela estudou no Cursinho do XI no ano passado], mas vou aprender essas regras com mais facilidade se fizer [cursinho] de novo."

A mesma opinião tem Tamiris Lopes Ferreira, 18. "Até estou acompanhando a reforma, mas não vou arriscar fazer uma coisa a que não estou acostumada", diz ela, que vai tentar medicina pela terceira vez no fim deste ano. Já Daniella Leite, 19, diz que vai dar preferência ao uso da nova ortografia. "Acho que vou ter mais problema com hífen, mas consigo aprender até lá [o final deste ano]."

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O livro da semana - Vozes Anoitecidas, de Mia Couto

Nesta semana de preparação das aulas de literatura portuguesa na faculdade - em que vou ter de falar de literaturas africanas de língua portuguesa - , além da revisão no preparatório para o Itamaraty, despontou várias vezes o nome de Mia Couto (no link ao lado, em uma entrevista à Istoé), escritor moçambicano inesquecível. Quando fui a Portugal, trouxe o livro de contos Vozes Anoitecidas...

... que eu sempre quis ter. Abaixo, o "Texto de Abertura", só para motivar a leitura de Mia Couto:

O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.

Estas estórias desadormeceram em mim sempre a partir de qualquer coisa acontecida de verdade mas que me foi contada como se tivesse ocorrido na outra margem do mundo. Na travessia dessa fronteira de sombra escutei vozes que vazaram o sol. Outras foram asas do meu voo de escrever. A umas e a outras dedico este desejo de contar e de inventar.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O grande acontecimento 16 - A escalada social de Christian Dior Palha

O leitor já terá percebido as alterações substanciais que ocorrerão com o Brasil no futuro próximo: efetiva preocupação da classe política com as classes populares; crescimento do mercado editorial com obras de real interesse público; assuntos de relevância publicados na revista semanal de variedades mais vendida do país; desenvolvimento de vanguardas na área da moda que nos colocam à frente de outras nações no mercado de luxo. Falta-nos, agora, observar que a ascensão social será finalmente garantida, por meio do grande acontecimento da vida do fotógrafo Christian Dior Palha.

Comecemos pelo nome, híbrido de estilista francês com o sobrenome corrente no Brasil: a mãe de Christian, Sophia, manicure de Vênus, deu ao filho o nome que vira exaltado pela cliente inúmeras vezes – era uma forma de destinar o primogênito ao sucesso, por meio da arte da moda. Desde criança, Christian recebia retalhos de pano para costurar e passeava pelo Shopping Center Iguatemi, sem comprar nada, mas admirando as lojas de grife e prometendo à mãe que seria um estilista de sucesso. Digamos tudo: subtraídas as viagens ao Litoral Norte nos fins-de-semana, as compras, o acesso às escolas particulares, o intercâmbio nos Estados Unidos, a formação de Christian foi idêntica à de seu antípoda social, Doutor Apolo. Eis aí uma explicação possível para o desfecho da história, a que já vamos.

Acontece que Christian não tinha talento algum para ser estilista. Sem abandonar o sonho de sua mãe, que era já também o seu, terminou o colegial e, sem ânimo para cursar uma faculdade de moda, fez um curso rápido de fotografia e de Photoshop. Ao fotografar a progenitora, tirava-lhe, no computador, as rugas, as estrias, as celulites, os bigodes chineses, os pés-de-galinha, as pálpebras caídas, a papada, tudo que lhe poderia soar deselegante ou feio mesmo. Essa habilidade de reconstruir a própria mãe rendeu-lhe um portfólio interessante e até sensual, já que transformava uma senhora acabada de cinquenta e seis anos em uma jovem de trinta.

Esse talento é que o fez tornar-se fotógrafo de moda e das colunas sociais da revista semanal de variedades mais vendida do país; o leitor já terá adivinhado que foi ele quem tirou a fotografia do rosto assimétrico de Maria Fulam. Mas jamais terá adivinhado que a foto publicada escondia boa parte do cálculo confuso de botox do Doutor Apolo. Nem poderá supor que este convidou o fotógrafo para ilustrar a obra A Estética da Assimetria, em cujo lançamento solene – o grande momento da vida de Christian – encontraram-se as mães dos heróis. Vênus, impressionada por encontrar na Livraria mais badalada da cidade sua própria manicure, calou-se por um instante; por outro lado, à vontade por perceber que, finalmente, de alguma forma se realizava a sina que dera ao filho por meio do nome, Sophia sorriu para a antiga cliente e dirigiu-lhe a palavra:

– Dona Vênus por aqui!

E a outra, assustada e envergonhada por conversar com aquela mulher simples que lhe fazia as unhas:

– Que prazer, Sophia! Que você está fazendo aqui?

– É que as fotos do livro foi meu filho que tirou!

– E o livro foi meu filho que escreveu! Que mundo pequeno!

– Mundo pequeno...

E Sophia saiu sorrindo, porque não achava que o mundo era pequeno – era a injusta divisão de renda que se extinguia, como afirmava, naquela semana, a revista semanal de variedades mais vendida do país.