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domingo, 29 de março de 2009

O grande acontecimento 23 - A consagração de Chiquinho Toicinho

Meciê Robot não sabia, mas o recepcionista que o atendia diariamente no Copacabana Palace, Chiquinho Toicinho, era torcedor da Francesa Desportiva, time carioca que estava na segunda divisão do campeonato estadual - mas que lutava por uma vaga na primeirona. O Brasil do Futuro não alegrava mais o mundo com o maior futebol do mundo, não tinha mais a técnica, a graça, a alegria. Toicinho era chamado "o filósofo", "um cara cabeça" por seus amigos, pela habilidade com que conduzia os debates a respeito dos jogos, nos domingos e quartas à noite, na birosca do morro.

Quando não encontrava com os amigos, Toicinho assistia aos programas de TV com reflexões a respeito do futebol e se municiava de argumentos e termos técnicos difíceis. Adorou a expressão "falta de resiliência", que um comentarista utilizara a propósito da burrice de um técnico do Flamengo. Utilizou-a - a expressão, não a burrice, claro está - na roda de cerveja, o que levou a turma toda a impressionar-se; os homens calavam-se quando o filósofo falava. As mulheres o desejavam. Os garotos queriam ser como ele; as meninas, por sua vez, queriam-no como pai.

Toicinho ficara injuriado quando observou Meciê Robot entrando no hotel com uma mulher com cara de aproveitadora - era a professora de História, já sabemos - e com um objeto estranho nas mãos. Seguiu o hóspede e a acompanhante; observou-os sorrateiramente; entrou no quarto ao lado, que estava vazio, para ouvir o que aconteceria, e impressionou-se com o que ouviu - não o desempenho sexual de Meciê, mas o som e as energias e as vibrações que emanavam da Máquina. Toicinho era filósofo - e entendeu que a máquina que estava na sala ao lado poderia levar seu time à Primeira Divisão. Que o Brasil poderia voltar a figurar na constelação dos grandes países do futebol. Que aquela máquina poderia trazer a alegria de volta aos brasileiros. E sobretudo que ele poderia ganhar um bom dinheiro com ela.

Quando a professora de história saiu do quarto, completamente bêbada, Toicinho abordou-a, perguntando-lhe se queria ganhar dinheiro fácil - ele sabia que ela era ambiciosa como ele. Ela aceitou, evidentemente. Ele pediu a ela que voltasse ao quarto e propusesse ao magnata que lá estava que investisse num time de origem francesa - o que era extremamente interessante para Meciê. O investimento seria a utilização da Máquina de Lavar Alma na concentração dos jogadores, para eles poderem preparar-se para as partidas. A contrapartida seria uma boa parcela nas bilheterias do time que daria tantas alegrias para os cariocas e para os brasileiros.

É evidente que Meciê topou, que Toicinho tornou-se presidente do clube, que a professora de história escreveu um best-seller sobre a história do time, que os jogadores, quando utilizavam a máquina, sentiam-se extasiados e ambiciosos, arriscavam tudo que podiam, lembravam-se dos grandes jogadores da história do Brasil - Pelé, Rivelino, Tostão, Romário, Ronaldo, Ronaldinho - e faziam questão de dar alegria aos torcedores da Francesa Desportiva. E é mais que evidente que os cariocas e os brasileiros exultaram com o retorno do futebol-arte, da alegria de ser brasileiro, da felicidade de ter um time com capital estrangeiro trazendo recursos e jogadores para o país.

E todos os jogos da Francesa Desportiva eram como jogos da Copa do Mundo, do Santos de Pelé, que faziam o Brasil do Futuro parar, como se não houvesse mais futuro a alcançar.

sexta-feira, 20 de março de 2009

O grande acontecimento 22 - O jorro de Meciê Robot

Das Dores tinha orgasmos com as trepidações do transporte público; Fabiano excitava-se mais no próprio carro, quando levava a namorada ao drive-in, às sextas-feiras. Mas a Máquina de Lavar Alma tomou a todas as outras máquinas a capacidade de excitação dos humanos - digo humanos porque nem só os brasileiros se beneficiaram das lavagens de alma promovidas pelo artefato. O fato de ele ter sido inventado no Brasil, por pesquisadores estrangeiros que aqui estavam, não impediu sua difusão pelo mundo - eram essas as palavras publicadas na revista semanal de variedades mais vendida do país.

Observe-se Meciê Robot, francês que se instalara no Brasil havia alguns anos, depois de uma trepada homérica com uma rainha da bateria do carnaval carioca. Era herdeiro de uma fortuna imensurável, as empresas de sua família compunham uma holding importante na produção de carros de luxo. Bom-vivã de primeira, assíduo frequentador dos restaurantes mais caros e das festas mais badaladas do Rio de Janeiro, figurinha marcada das colunas sociais, morador de uma suíte do Copacabana Palace, por preguiça de procurar um imóvel para comprar e por ódio aos corretores de imóveis, Meciê se viu diante de um problema grave - a impotência.

Meciê parou de fumar, e nada; parou de beber, e nada; consultou uma mãe de santo, e nada; tentou transar com a filha da mãe-de-santo, uma mulata belíssima, que lhe pareceu exótica, e nada; consultou um sacerdote calvinista, e nada; voltou ao terreiro, à cata da mãe-de-santo, rezando para Cristo não deixá-lo encontrar com a filha. Lá encontrou uma professora de história, que havia adquirido uma tecnologia que lavava almas. Pelo valor de um carro popular zero, Meciê comprou, ali mesmo, aquela estranha máquina e levou-a para o hotel - não sem antes convidar a jovem professora de história a ir com ele. Sem nada para fazer e a fim de tomar uma cerveja às custas do ricaço, ela topou.

Já no quarto, Meciê tentou comê-la, e nada. Revoltado, ligou a máquina estranha que acabara de comprar: de súbito, foi tomado por uma onda sensações que não podia controlar - o cheiro mais inebriante do carro mais novo, do baseado da lata, do perfume francês mais caro; a sensação por toda a pele de tocar o tecido mais fino, a calça de marca mais confortável, o tapete oriental mais macio, o banco de couro mais rijo; a visão da modelo brasileira mais bela, do ator hollywoddiano mais sexy, do carro mais veloz em movimento, do avião mais rápido decolando, do público desvairado dançando, uniformemente, um hit lançado na semana anterior; e, ao mesmo tempo, o hit tocava, no volume máximo, com os graves acentuados; e finalmente, na boca, o gosto da champagne mais cara, do canapé mais requintado, do caviar mais seleto, e ao mesmo tempo, o da Coca-Cola gelada num dia de calor; todas essas sensações e a imagem das fábricas de Meciê que produziam mais, e mais, e mais, e mais...

Meciê gozou fartamente, num estranho frêmito que assustou a professora de história, que se embriagava enquanto assistia ao estranho espetáculo. Meciê dormiu profundamente por quinze minutos, acordou com um puta tesão, olhou para a professora, olhou para a Máquina de Lavar Alma e - depois de fazer uma ligação para seus sócios franceses, comunicando que descobrira o próximo produto que eles lançariam no mercado - apertou a tecla ON.

terça-feira, 10 de março de 2009

O grande acontecimento 21 - A invenção da máquina de lavar alma

Já vimos que Quissífodas, no Brasil do passado, teve a chance de contemplar a máquina do mundo - ocorrência que lhe foi suficiente para abandonar o doutorado e decidir trabalhar numa das concessionárias do pai. Trabalhou, trabalhou mais, ganhou honradas e suadas patacas e sagrou-se empresário de sucesso, posto que o grande momento de sua existência tenha sido o adeus à vida acadêmica.

Não devia estar mesmo na família o espírito reflexivo, necessário a todos aqueles que pretendem contribuir para a evolução da humanidade. Há, ainda, os que o fazem de forma diversa - foi o caso do filho de Quissífodas, jamais lembrado nos compêndios virtuais do Brasil do futuro, esquecido até por este autor, a despeito das pesquisas por ele empreendidas para que todas as histórias contadas aqui tivessem a mais vera procedência.

Ocorre que o inventor, depois do sucesso financeiro do pai, meteu-se a estudar engenharia na maior universidade do país. Desde criança dizia que seria inventor maluco, como o Professor Pardal das histórias em quadrinhos; queria, principalmente, inventar alguma coisa que entrasse na história da humanidade. Diplomado, deu-se conta de que as aflições humanas - e sobretudo as brasileiras - transcendiam os bens materiais, conclusão que o levou a mergulhar no estudo das religiões e da filosfia. Esta, abandonou-a rápido, dado o histórico familiar. Foi com aquelas que surgiu a máquina de lavar alma.

Numa reunião kardecista, munido de crucifixos bentos pelo próprio papa, bíblias protestantes, vestido à budista, com imagens pagãs de religiões de todo o globo, mas principalmente as de origem africana que tinham ganhado espaço no Brasil, invocou o demônio. Expôs-lhe com objetividade o que pretendia - criar uma máquina que lavasse a alma aos usuários e que o fizesse famoso. Em troca oferecia a própria alma. O demônio sorriu, afinal não era a primeira vez que recebia uma proposta nesses mesmos termos, mas incomodava-lhe a ideia de investir numa criação que aliviasse nossa melancólica humanidade. Havia na alma do próprio Lúcifer um espírito sacana - por mais que isso possa parecer redundante -, uma disposição maquiavélica que o levou a dizer não à proposta.

O inventor hesitou por apenas um instante e disse que, em troca da criação da máquina de lavar almas, abria mão da fama pessoal. Diante de termos tão absurdos de negociação, o demônio cedeu à tentação que o fustigava desde o início da conversa: tomou a alma do inventor, sem dar-lhe o crédito pela invenção, justificando para si mesmo que só a ganância da proposta já valia o inferno - era essa uma forma de justificar depois, nos relatórios burocráticos do além, o excesso populacional, que, por si só, já era infernal.

Uma das médiuns presentes, a jovem professora de história que ainda ganharia um bom dinheiro vendendo documentos pessoais de habitantes do Brasil do passado, viu a máquina de lavar alma, ali, na sala, sem dono; pensou que poderia ganhar um bom dinheiro com ela. Vendeu-a para uma empresa multinacional, que preservou secreta a tecnologia do aparelho e o nome do inventor.

segunda-feira, 9 de março de 2009

terça-feira, 3 de março de 2009

Reflexões sobre a classe média


Fuçando na Revista Virtual Mundo Mundano, encontrei uma crônica genial do Antônio Prata - que é também autor do famoso texto "Bar ruim é lindo, bicho!" e blogueiro do Estadão. Genial a reflexão sobre a classe média: de fato, o que nos define como classe social não é ideologia ou grau de escolaridade, mas o fato de sermos obrigados a "ter uma proximidade compulsória com os outros e, consequentemente, estar em constante negociação com o mundo. Afinal, você não está entre a minoria que faz as regras, nem junto à massa que apenas as seguem".

Aproveito e indico, também, "Classe Média Baixa Records", da banda gaúcha Walverdes - canção com os seguintes versos geniais:"Eu nunca tive pouco como muitos / E nunca tive muito como poucos / Eu nunca tive ferrorama complicado / Eu nunca tive quarto separado".



segunda-feira, 2 de março de 2009

O grande acontecimento 20 - A aceleração e a consciência de Ayrton

O leitor deve estar agastado com o atropelamento de Martí e torce pela sorte do cão. Mas há de convir que há fatos na vida e na literatura que devem ser deixados de lado, esquecidos completamente, para que se possa alcançar a paz interna, deus esteja conosco e nos proteja de motoristas embriagados em Audis possantes, mesmo no Brasil do Futuro, em que os acidentes de trânsito não foram reduzidos.

Podemos ver Ayrton subindo velozmente a Avenida Angélica, em seu Audi possante, suando frio, subitamente sóbrio – é o efeito da adrenalina – observando o humano que se espatifa no asfalto como uma marionete que ele nunca foi, porque mendigos, no Brasil do Futuro, só são os vagabundos, os preguiçosos, aqueles que não querem trabalhar, já construímos nosso próprio brazilian way of life, é o que Ayrton repete a si mesmo, mas volta os olhos para o retrovisor e vê agora o cachorro que late, que ensaiou persegui-lo, mas que retornou ao dono, manca de uma perna, sangra de um lado, aleijei um cachorro, meu deus, matei um cara e aleijei um cachorro, caralho, é o que Ayrton balbucia, mas também, por que raios o homem tinha um cachorro, isso é proibido, o Brasil é um país diferente agora, não tem animais indigentes pelas ruas, eu fiz um bem à nação, tirei das ruas uma besta irracional que a polícia não tira, eu vou ligar para o meu pai que tem um amigo juiz, se alguém anotou a placa, eu me fodo, se a porra da minha esposa descobrir que eu estava bebendo eu me fodo.

O raciocínio de Ayrton seguiu intrincado e complexo até sua casa, ali perto, na Rua Maranhão, em que, felizmente, sua esposa não o esperava. Ligou a TV, percebeu pelo noticiário que ninguém havia anotado sua placa e relaxou ainda mais. Assistiu ao reencontro do cão atropelado com sua dona original, uma senhora japonesa, até que era gostosa a coroa, dava pra comer, foi o que ele pensou, mas imaginou que seria muita sacanagem, quase doença, foder mais uma vez com a velha, ela que já tinha sofrido com o cão atropelado. No mais, ela declarou ao repórter que seu cachorro fora roubado pelo maníaco que ali morrera – e que havia notícias dos comerciantes do minhocão de que ele, digo o mendigo, claro está, se aproveitava sexualmente do cão. Ao ouvir essa frase, o repórter não pôde controlar o riso, mas Ayrton sentiu a consciência aliviar-se. Tirou a roupa, dirigiu-se à máquina de lavar alma, que comprara recentemente e dormiu o sono dos justos, argumentando a si mesmo que tirara ao mundo um mendigo preguiçoso, ladrão de animais de estimação e maníaco sexual – se a TV disse que ele era isso, é porque ele era isso mesmo –, fizera papel de intermediário entre uma dona e seu cão perdido, além de ter se dado bem, sem problemas com o Departamento de Trânsito. Ayrton, no final, sempre se dava bem – era o que lhe passava pela cabeça no momento em que adormeceu. Ayrton era um herói – o nosso herói.