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quarta-feira, 29 de abril de 2009

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O grande acontecimento 27 - O linchamento de Baleia

Baleia não era propriamente o nome da protagonista desta história, mas foi com essa alcunha que ela viveu seu grande momento, será com ela que o descobriremos. Já lá vamos. É preciso antes saber que Baleia também estudava na Escolinha Tradição Infantil, em que era colega de sala de Altílio e Lídea. Baleia era repetente - espécie rara no Brasil do Futuro, onde a educação alcançara qualidade tal que todos os alunos obtinham aprovação. Quase todos, na verdade: Baleia era o ponto fora da curva, a exceção, o imponderável que as estatísticas não podiam prever.

Pior: além de ser burra - tinha treze anos e ainda frequentava a classe dos pequenos -, Baleia era gorda para os padrões da época. Tinha um metro e sessenta e adiposos setenta quilos. Era, pois, um poço de banha, que os colegas vilipendiavam com furor insaciável. Entenda-se: no Brasil do Futuro, os gordos eram considerados um problema de saúde pública, já que o Estado se livrara de muitos gastos por meio de campanhas pelo consumo responsável de comida; proibia-se aos gordos que andassem na rua, de modo a evitar o mau exemplo aos saudáveis; "ninguém é gordo - escolhe-se ser gordo", dizia o adesivo colado aos carros da classe média. "Fora o excesso de peso!", era a máxima das propagandas de tv e das reportagens da revista semanal de variedades mais vendida do país.

Lá está, na hora do recreio, Baleia isolada, solitária. Sua repetência se devia ao trauma de ter afirmado ao professor de matemática financeira - ela tinha apenas oito anos! - que não havia juros que lhe pagassem o prazer de degustar uma raspadinha na praia, num fim de tarde - motivo de risinhos de mofa e origem do apelido pelo qual a conhecemos. Baleia escrevia versos secretamente e, em vez de ler a biografia de Jack Welch para crianças, leitura obrigatória da segunda série, deliciava-se com os poemas infantis de Fernando Pessoa.

Mas foi na aula de geografia econômica que Baleia experimentou o silêncio ameaçador dos colegas, o mal estar que precedeu sua hora e sua vez. Foi ali que afirmou que os recursos naturais estavam à beira do esgotamento e que esse desgaste era sintoma de uma lógica que ela não entendia bem, mas que fazia que todos a repetissem eternamente; Baleia afirmou, também, que, no mais, não via futuro na humanidade, que essa lógica incompreensível não apontava nenhum caminho. O professor não teve como rechaçar a afirmação e resignou-se a concordar com ela, o que, para a turma, soou como ofensa ao mestre e acinte aos colegas.

No intervalo, passaram uma rasteira na monstra, que teve a cabeça chutada tantas vezes pelos coleguinhas que vive hoje numa instituição para debilitados mentais - que, no mais, são como os gordos, porque escolheram a própria insanidade.

sábado, 25 de abril de 2009

Pai e filho



Dia 27, fará seis anos que José Adriano se despediu deste mundo. Sorte dele, que foi andar a cavalo com Guimarães Rosa, pelos gerais; que foi trocar ideias com Rilke, porque estarão ao lado um do outro; que foi jogar paciência com o próprio pai, quietos ambos, que sempre foram assim, mas se entendendo - o que nunca puderam fazer neste mundo.

Minha terra tem Sabiá Semialbino



Feia percebeu que não era desejada por outros sabiás; por mais que se insinuasse para eles, piscasse, sorrisse, cantasse, eles preferiam sempre as feiosas todas coloridas ou todas branquelas. Feia não entendia: por que é que eles não gostavam dela? Ela tinha parte da alvura das azedas, parte da cor das esfuziantes. Um dia, cansada de ser perseguida apenas por predadores, abandonou o parque e foi à cata de um grande amor - a despeito do vaticínio do humano que a observava e que era o único que a admirava.

Feia imaginou que poderia ser admirada por outros humanos e cruzou a linha proibida - mergulhou no mundo deles. Descobriu lá que não havia grama para caçar, que a velocidade imperava, que os pombos inimigos andavam em bandos, apavorando os outros pássaros. Mas descobriu também a alegria cantante das maritacas, o êxtase de observar, do alto de uma ponte, os humanos enfurnados nos carros, ao lado de anjos, que protegiam os humanos, ela não sabia por quê.

Feia descobriu que a vida poderia ser muito melhor sem um parceiro -sobretudo se ele fosse preconceituoso como todos os machos que conhecera. Ela queria ter um macho, é claro - mas precisava ser um que a amasse.

E foi num dia que Feia descobriu uma casa, onde morava um velhinho sozinho, o mesmo humano que a observava no parque, que colocava comida para os pássaros e que passava o dia inteiro a admirá-los. E fascinou-se ainda mais com Feia assim que a reviu; e chamou-a de Linda; e que lhe admirava a cor; e Feia imaginou que a maravilha estava na diferença, quando o Velhinho leu para ela todo emocionado:

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o Sabiá Semialbino.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Saramago, Obama e Chávez - ou a estratégia de leitura

Leia aqui o texto de José Saramago a respeito do presente de Chávez a Obama - estratégia maravilhosa para fazer as pessoas lerem As veias abertas da América Latina.
Alguma celebridade bem que poderia indicar a leitura destes Restos e Fragmentos.

Visita

Jade chegou ontem para passar uns dias comigo. Sabíamos ambos que não seria fácil - ela acostumada ao bem-bom de ser servida pelos outros; eu afeito à independência completa, ainda que falseada. Queríamos, é fato, faz tempo, ficar juntos, sem muita gente por perto para atrapalhar. Aquela coisa de deitar um com o outro, olhar para o teto e pensar em nada, ela bem acomodada ao meu peito, eu aquecido pelo corpo dela.

Havíamos nos esquecido de como era bom ficarmos juntos - lembramo-nos, agora, de quando nos conhecemos, ela ainda assustada, muito mais jovem do que eu, surpresa da vida; eu, cético das relações, já não acreditava mais em nada, pagão inocente da decadência. Amparávamo-nos, passeávamos - ela sempre apressada, adiante, cansando-me; eu retardava o passo e dizia-lhe que tínhamos a vida toda pela frente, e que depois de uma praia viria sempre outra - e poderíamos andar até o fim do mundo, posto que o fim do mundo fosse apenas o Canal de Bertioga.

Não repartimos prato ou copo - Jade sempre comia aos poucos, ao longo do dia, enquanto eu, disciplinado compulsivo, me alimentava protocolarmente sempre nos mesmos horários, febril, relógio-de-ponto; ela ensinou-me, aos poucos, a retardar o horário do almoço, a degustar cada porção de comida, ainda que pequena. Em troca, mostrei-lhe as maravilhas da tranquilidade de quem já sabe que não vai ganhar o mundo todo. E bebemos, irresponsáveis, cervejas - conquanto ela, despreparada, se embriagasse com uns poucos goles, que me roubava, sorridente.

Ela corria em minha direção toda vez que eu chegava em casa exausto, beijava-me o rosto, e eu me esquivava de um carinho que não sabia ganhar; eu a acordava cedo, mesmo que ela reclamasse, para que passeássemos juntos no bairro antigo; em silêncio, íamos e voltávamos quietos, umas poucas quadras trilhadas, felizes por estarmos juntos. Jade sempre foi preguiçosa e me pedia com olhos irresisitíveis que retornássemos à preguiça fácil da casa.

Separamo-nos, é evidente - a vida tem dessas. Mas Jade veio ontem passar quase uma semana em minha casa, e, silenciosos, dormimos abraçados: nosso jeito de expressar amor.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O impostor

A vida tem dessas: depois que escrevi os textos para o Showlivre, descobri que o editor-chefe Rodrigo Carneiro conhecia Ronaldo Bressane, colega dos tempos da graduação - e agora retomamos contato pelo Myspace. Bressane escreve o blog Impostor e também colabora com a revista Pororoca. Recomendo.

terça-feira, 21 de abril de 2009

O artista lúcido

"A índole da nossa sociedade é tal que o criador está condenado à heterodoxia e à oposição. O artista lúcido não se esquiva a esse risco moral".

Octavio Paz

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O grande acontecimento 26 - Altílio e Lídea tiram dez

Banzo perdeu a vida porque queria ser amado; Macabéa virou estrela de tv num programa de fofocas: já se pode perceber que há momentos na realidade em que os fios do destino se encontram e os grandes acontecimentos ocorrem. O atropelamento de Banzo foi um desses - aquele instante também determinou a existência de Altílio, garoto que morava no prédio do ilustre, mas já agora jazente, jogador.

Altílio, aos oito anos, era o melhor aluno da Escolinha Tradição Infantil: tirava dez em todas as disciplinas; jogava bem qualquer esporte, de queimada a arremesso de peso; encantava todas as professoras com sua eloquência e sua maturidade, afinal ele já decidira que queria, quando completasse dezoito anos, ser tesoureiro de bancos de investimento. Impressionava os coleguinhas da sala, os pais deles, os professores e a própria família quando expunha as contradições das medidas de auxílio ao crédito e as crises sistêmicas do capitalismo financeiro.

Altílio havia escolhido a namorada segundo critérios que lhe favoreceriam a vida profissional futura:Lídea era menina que, embora menos carismática que Altílio, destacava-se entre os colegas, pelo brilhantismo nas aulas de biologia, disciplina que, no Brasil do Futuro, passara a ser ministrada desde a primeira série, como fomento à pesquisa científica. Era necessário estimular, diziam as empresas que investiam na iniciativa, a consciência crítica do cientista desde a mais tenra idade. Altílio via em Lídea uma futura esposa que teria seu próprio dinheiro, não dependeria dele; além disso, se ela fizesse alguma descoberta relevante, poderia trazer mais contatos para a lista telefônica de networking que ele guardava cuidadosamente no computador pessoal que levava consigo aonde quer que fosse.

No dia da morte de Banzo, Altílio brincava de Banco Imobiliário com Lídea, na entrada do prédio. Ambos ouviram o impacto do atropelamento, ambos correram à rua, ambos observaram friamente Macabéa, que se descabelava quase artificialmente. No meio da confusão, as duas crianças dirigiram-se ao corpo, que jazia no asfalto. Altílio, de olhos mortos, aproximou-se do corpo e pôs-lhe a mão no pulso, como se procurasse algum sinal de vida; Lídea percebeu que aquela era, também, sua hora e sua vez - e gritou a todos que ninguém deveria mexer no corpo, que o resgate fosse aguardado, caso contrário poderia haver comprometimento da espinha dorsal do acidentado. A multidão afastou-se e assistiu, indiferente, à tentativa inútil das duas crianças de ressuscitar o jogador.

No elevador, manchado de sangue, Altílio comentou com a namorada que aprendera primeiros socorros num curso que fizera no Corpo de Bombeiros - era bom para o currículo saber primeiros socorros. Melhor ainda era acumular atividades assistenciais e até heróicas, desde cedo, e um episódio como aquele certamente seria registrado na mídia, o que lhes daria destaque. Lídea sorriu e disse que percebera a intenção profissional do namorado, porque, ao tocar o corpo, notara que a vida já o havia abandonado - ela também fizera a massagem cardíaca com precisão, de modo a impressionar quem os via.

- Tudo que se faz no cotidiano nos abre mercado de trabalho, resmungou Altílio, que se arrependera por não ter feito uma massagem no corpo de Banzo. Contrariado, depois, ao perceber que, na tv, Lídea tivera mais destaque do que ele, Altílio terminou o primeiro e único relacionamento amoroso de sua vida, ciente de que não é possível amar quem disputa conosco as vagas no mercado de trabalho.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Por que não acredito na humanidade

O vídeo ilustra minha falta de fé na humanidade.



Serei eu?

Para muitos escritores de hoje


Embora não concorde com tudo que é dito no texto de Fernanda Carvalho (não gosto da ideia de que vivemos ausência de valores; prefiro a de que experimentamos uma revisão de valores), ela publicou na Mundo Mundano uma reflexão com que me identifico demais. Leia.

O futebol, essa doença (carta aberta ao meu irmão distante)

Meu irmão:

Sempre que assisto a um jogo de futebol lembro de você. Hoje você me lembrou, por email, de passagens de nossa infância e lembrei-me de tantas coisas que você me ensinou, quando eu estava farto das sujeiras dos cartolas.

Eu tinha um caderno pequeno com uma coleção de distintivos de clube. Lembro-me de nós jogando na sala da velha casa de nossos pais, nós, crianças de apartamento, sem rua para bater bola, sem amigos, a não ser um ao outro, para jogar uma pelada. Eu era atacante da Portuguesa; você, o goleiro do São Paulo. Só na nossa imaginação a Lusa poderia ser campeã, o pequeno poderia superar os grandes, não havia jogadas desleais, nem nos campos, nem nos escritórios dos dirigentes. Vivíamos o futebol puro, de sonhos, futebol-arte, mais arte do que o da seleção de 70.

Como é que você foi torcer para o São Paulo, meu irmão? Sei que você é meio sãopaulino, meio lusa, nem você nega; você ia a tantos jogos com papai, no Canindé, que jamais lhe faltaria afeto pela Portuguesa. Nosso pai era homem cumpridor, positivo; um pouco bruxo na vida semanal, um pouco fanático por futebol no fim de semana. Você me diz ter se reencontrado com ele por meio do futebol. Invejo você, meu irmão. Em mim perdeu-se a fé no futebol, em deus, no Brasil, na educação, nas crianças. E tudo se restituiu por meio de sua mensagem carregada de lembranças.

Saudades de você meu irmão - tão distantes estamos! - que sofre dessa doença que me remete às melhores lembranças de minha infância - o futebol.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Sempre Camisa de Vênus

Camisa de Vênus vai tocar na Virada Cultural. Marcelo Nova deu uma entrevista para o Clemente, no Showlivre. Renato Nunes também gosta do Camisa e nos prometemos, amigos virtuais, que escreveríamos um texto juntos, de preferência sobre o Camisa. E passei parte da noite de hoje afirmando que não acredito na humanidade, nem na progressiva evolução das pessoas, nem na efetividade das pequenas ações - elas não vão mudar o mundo, foi o que eu disse.

Mas este texto é enfadonho, cheira a mau-humor, não está repleto de ironias, perderá a atualidade em alguns instantes, diluído no mundo virtual. E o Camisa, na voz de Marcelo Nova, me ensinava, no distante 1986: não vai haver amor nessa porra nunca mais. Segue o Pai-Nosso:

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Enquanto o destino mo conceder, continuarei fumando, na tabacaria que escolherei

Só por causa da confusão toda a respeito do fumo nos bares e restaurantes: está certo, nenhum não-fumante tem de aturar fumacê de nós, os viciados; mas restringir o fumo em todos os estabelecimentos é exagero. Por que não deixar o estabelecimento escolher se será destinado a fumantes ou não-fumantes? Ainda vou debater mais essa questão, que já explorei antes na Mundo Mundano.

Meus alunos lá do Grupo de Humanidades já me contaram que há uma solução: pode-se fumar em tabacarias. A solução para nós, os párias, é abrir uma tabacaria que vende cerveja. E assim vamos.

(Nem me venham com conversas de saúde pública, com o papo de que essa é uma forma de desestimular o consumo de cigarro. Nenhum restaurante rejeita vender comida a um obeso para zelar pela saúde dele; nenhum boteco deixa de vender cerveja a um bêbado contumaz para preservar-lhe a família; nenhuma doceria chique proíbe chocolates a adolescentes deprimidas para que elas se consultem no terapeuta; por que é que não me deixam fumar num restaurante ou boteco destinado a público fumante, com garçons fumantes, com donos fumantes, até com mesas e copos que, no fim do expediente, fumam também?)

Se a ideia da tabacaria que vende cerveja não der certo, ainda tenho um último argumento: um dos maiores poemas de Pessoa, no heterônimo Álvaro de Campos, chama-se "Tabacaria". Vão censurar Fernando Pessoa por incitar o público ao vício nefasto do fumo? Ou vão colocar um aviso, em todos os livros do poeta, alertando que "fumar é prejudicial à saúde"?
Segue o trecho final do poema, que merece ser lido na íntegra:

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!,
e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Leituras sobre cretinos e cretinices

Na Revista Bula, que conheci via Twitter, um texto interessante a respeito de cretinos e suas cretinices. Vale a leitura: http://www.revistabula.com/materia/cretinos/1132

E mais: no blog do Professor Toni, um texto que critica o besteirol publicado por um dos maiores cretinos do Brasil: Diogo Mainardi. Leia.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Herança maldita

Da página 31 de Leite Derramado, novo romance de Chico Buarque:

Eu não queria ser Eulálio, só mesmo os padres me chamavam assim nos tempos de colégio. A me chamar Eulálio, preferia envelhecer e ser sepultado com meus apelidos infantis, Lalinho, Lalá, Lilico. O Eulálio de meu tetravô português, passando por trisavô, bisavô, avô e pai, para mim era menos um nome do que um eco.

domingo, 12 de abril de 2009

O grande acontecimento 25 - A hora e a vez de Macabéa

Os leitores jamais se surpreenderão se este autor lhes disser que a moça que esperava Banzo do outro lado da rua chamava-se Macabéa. Como a mãe adorava literatura! Como a mãe admirava Clarice Lispector! Que dizer de uma mulher forte, que abandonou o marido diplomata, para viver a própria vida afundada em literatura!

(A verdade, digamo-la agora: a mãe de Macabéa jamais lera um livro de Clarice Lispector, mas admirava-lhe a biografia e julgava que isso era suficiente para dar à filha o nome da escritora. Não a julgue, leitor, como este autor também a não julga: deixemos que cada um dê aos filhos os nomes que bem entende. Até porque nomear uma criança não significa marcar-lhe a pele à moda de gado. Cada um faz o próprio destino, nada está escrito nas estrelas, nem nas linhas das mãos, tampouco nas linhas tortas escritas por deus, que não existe nem é brasileiro no Brasil do Futuro.)

Macabéa fora contratada pelo conglomerado de que fazia parte a revista semanal de variedades mais vendida do país para atrair Banzo para fora de casa. O pobre jogador recluso viu na tv uma moça linda dizer que queria vê-lo, que era sua maior fã - o resultado já conhecemos. Resta saber por que Macabéa aceitara essa proposta.

Era simples: Macabéa era de fato fã de Banzo, mas era mais fã do dinheiro que ganharia. Foi abordada na rua por um estágiário do assistente de diretor de marketing da revista semanal de variedades mais vendida do país: ele propôs à moça que dissesse querer ver o jogador, para atraí-lo para fora de casa; Macabéa perguntou-lhe se teria ganhos por expor-se na tv, em cadeia nacional; depois da resposta afirmativa, afirmou que, para aparecer na tv, exigia um extreme makeover, para não passar vergonha na faculdade; finalmente, lembrou-se dos presságios de sua mãe, que lhe dizia que ela, Macabéa, nascera para ser uma estrela.

E foi o que aconteceu: quando Banzo foi atropelado, Macabéa pensou "é agora, é a minha vez!", correu para ele, abraçou-o, empapou-se do sangue dele, tentou colocar-lhe a clavícula no lugar, beijou-lhe os restos de rosto ralados pelo asfalto, jurou celibato por ele. Acompanhou os esforços de ressuscitação na ambulância, mas nessa ninguém mais acreditava no Brasil do Futuro, que não era mais um país religioso, graças a deus, com minúscula, porque é só jeito de falar, afinal para sermos um país economicamente forte precisamos esquecer que o lucro é pecado e lucrarmos sem entraves de ordem moral. Daí a proibição de quaisquer práticas religiosas.

Macabéa, sob a mira das câmeras de tv, chorou compulsivamente quando Banzo jazeu-lhe morto nos braços, bradou contra a puta da ex-esposa, que tirara ao jogador a vontade de viver, velou 0 corpo daquele momento até a hora do enterro e, depois de duas semanas de luto, estreou um programa de fofocas sobre celebridades no canal do conglomerado de que fazia parte a revista semanal de variedades mais vendida do país .

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Enquanto isso, em 1987, eu ouvia "My Way"




Roubando o título ao blog do Rodrigo Carneiro, segue no vídeo uma lembrança da música que eu mais ouvia quando tinha onze anos:

"Naqueles tempos
Eu era um menino
Que já sabia do meu destino
E caminhando de norte a sul
Eu vi muita gente tomar no cu
Eu entendi e não esqueci"

Pena é que não haja o vídeo ao vivo, com a gravação em Santos, no Caiçara Music Hall, registrada no disco Viva. Mas fica, de todo modo, a homenagem a Marcelo Nova, um dos pilares da minha formação, e ao Camisa de Vênus, primeira banda brasileira a gravar um disco forrado de palavrões (antes deles, só a bosta que o pessoal jogou na Geni). Sobre o Camisa e os palavrões, leia mais numa coluna que escrevi na Métrica do Grito.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O convite de Saramago

Olha só o que o Saramago me posta ontem no blog (dele, é claro, porque ele nem sabe que estes restos aqui existem):

Isto a que chamam o meu estilo assenta na grande admiração e respeito que tenho pela língua que foi falada em Portugal nos séculos XVI e XVII. Abrimos os Sermões do Padre António Vieira e verificamos que há em tudo o que escreveu uma língua cheia de sabor e de ritmo, como se isso não fosse exterior à língua, mas lhe fosse intrínseco.

Nós não sabemos ao certo como se falava na época, mas sabemos como se escrevia. A língua então era um fluxo ininterrupto. Admitindo que possamos compará-la a um rio, sentimos que é como uma grande massa de água que desliza com peso, com brilho, com ritmo, mesmo que, por vezes, o seu curso seja interrompido por cataratas.

Chegam dias de férias, uma boa ocasião para entrar nesta água, nesta língua escrita pelo Padre Vieira. Não aconselho nada a ninguém, mas digo que vou mergulhar na melhor prosa e vou desaparecer estes dias. Alguém quer acompanhar-me?

Salve, Mestre Saramago: aceito-lhe o convite. Vou ao Memorial do Convento, depois que acabar o Leite Derramado, de um seu discípulo.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Revanche

Dê-se o mérito a quem merece: este post foi roubado ao blog do Professor Toni, amigo de sala dos professores de mais de um cursinho, autor de um dos blogs mais críticos que já li.

Acontece o seguinte: o senso comum diz que "uma imagem vale por mil palavras". Neste caso, um vídeo do Youtube vale pela história recente inteira do Brasil. Curiosidade: versos de Fernando Pessoa, no início do vídeo, recitados no "Padrão Globo de Qualidade".

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O que eu gosto

O que eu gosto
nem todo mundo quer pra si
a despeito do meu desejo
de querer que a todos se dê
o que eu gosto.

E caraminholo os meios
de fazer que o que eu gosto
faça gosto aos outros
de que eu nem gosto
só conheço -
meu jeito de querer bem
não a quem eu não gosto,
mas ao mundo
tão malquisto
de mim e dos outros
de que eu nem gosto,
só conheço.

Aprendo, então,
aluno inocente da decadência,
ex-futuro professor descrente da humanidade,
que nem todos gostam do que eu gosto
e que a felicidade talvez esteja
em não dizer nem pensar em nada.

O grande acontecimento 24 - Banzo sai de casa

Chiquinho Toicinho enriqueceu e trouxe alegria aos torcedores da Francesa Desportiva: já vimos que o Brasil parava quando o time jogava. Banzo era o centroavante ágil desse time inesquecível, goleador, "homem-gol" para a imprensa; era assim que o chamavam os jornalistas esportivos - Deus os tenha, não há mais jornalistas culturais, porque no Brasil do Futuro já há cultura para todos os lados, para que noticiá-la? Banzo era um misto de atleta, bom-moço, casado, cristão convicto, festeiro, é verdade, posto que cumpridor e pontual nos treinos; o "queridinho do Brasil", perseguido pelos paparazzi, mas que os frustrava, porque não se excedia, salvo quando os caçadores de fofocas não podiam vê-lo. Banzo era nosso herói, porque marcara um gol decisivo na copa e trouxera a taça de volta ao país, e com ela o orgulho de ser brasileiro.

Banzo viciou-se no uso da Máquina de Lavar Alma antes de completar vinte e oito anos, idade de aposentadoria compulsória dos jogadores de futebol, porque ninguém queria restos e fragmentos de um atleta arrastando-se pelo campo: era ruim para o time, para o moral da torcida, para o retorno dos anunciantes e para a carreira de garoto-propaganda que o próprio Banzo levaria adiante, nos anos seguintes.

Banzo era artilheiro, daí ter sido convidado por uma empresa de armamentos para ser garoto-propaganda - o que ele aceitou sem pestanejar; ao contrário do que pode imaginar o leitor, também o público aceitou-lhe a opção: cada um cada um, o cara tem de sobreviver; sintoma, diremos, da evolução da consciência nacional, afinal finalmente o brasileiro optara pela lógica do trabalho em detrimento da cultura da preguiça, que tanto prejudicara a nação no passado.

Mas o uso da Máquina de Lavar Alma já tomara a vida de Banzo: ele dispensara a esposa, porque fazia sexo com a máquina; esquecera o filho, já que bastavam a Banzo os gols que deixara à posteridade e os gozos espirituais que a Máquina lhe dava; comia pouco, porque quem tem a alma lavada está de barriga cheia; não bebia, por viver inebriado de elevação espiritual (sem a fama, é verdade, que lhe fazia falta, como veremos); ficava em casa, purificado, com asco do contato com as pessoas, que sempre o desagradavam, o que acabava por obrigá-lo a usar mais a Máquina de Lavar Alma. Finalmente, perdeu o contrato com a empresa, por faltar a um evento de demostração de um modelo novo de pistola que fora lançado.

Deu-se o dia que, depois de tê-la usado por três vezes, a Máquina de Lavar Alma, não a pistola, bem entendido, viu na tv a declaração de uma moça linda, que se dizia apaixonada por ele, preocupada com seu desaparecimento momentâneo dos programas de celebridades e das colunas esportivas. Ela disse que o esperava, diariamente, na porta de casa, do outro lado da rua, para vê-lo, sem incomodá-lo, só vê-lo.

Um narrador maldoso diria que a vaidade de Banzo foi aguçada com tal declaração; este narrador não diz nada, apenas que Banzo se arrumou, só para verificar se ainda fazia sucesso, se alguém ainda o esperava na porta de casa, como nos gloriosos tempos em que alegrava o povo brasileiro com seus gols. Arrumou-se metodicamente, saiu pela porta prédio, viu a moça do outro lado da rua, sorriu porque se sentiu famoso de novo e morreu atropelado, dirigindo-se a ela.

domingo, 5 de abril de 2009

Chico Buarque, sempre

Vai sair no cinema o filme Budapeste, de Chico Buarque.

Problema 01: outro dia mesmo estava debatendo com uns blogueiros que personalidades como Chico Buarque não precisam - talvez até dispensem - de nossa divulgação marginal. Mas que vou fazer? Budapeste é um dos melhores livros que já li; assisti ao trailer e não aguentei:




Problema 02: não faz pouco tempo que defendo que, nos últimos tempos, Chico é muito melhor escritor do que cancionista. O último show foi, para dizer o mínimo, morno; os livros têm sido cada vez melhores. Gosto mesmo é do Chico do passado, de "Vai Passar", que já analisei em uma coluna da Identidade Musical;


Problema 03: Chico Buarque é uma unanimidade. Dizer que as últimas canções e os últimos shows dele foram chatos é heresia - dependendo do grau de histeria daquele com quem se fala. Pois bem: já disse. E os fãs incondicionais, cegos e surdos - e os há em quaisquer gêneros, vide as histéricas que ficavam gritando "Chico, casa comigo!" nos momentos mais introspectivos do show, os momentos que talvez o salvassem do tédio completo - esses fãs chatos e inconvenientes que durmam na pia;


Problema 04: Budapeste chega ao cinema no exato momento em que Leite Derramado (na ilustração) chega às livrarias. Acaso conveniente em termos de público e de mercado. Fato é que não vejo esses eventos como isolados nem os vejo como pecado. Ora, Walter Benjamin já ensinou faz tempo que toda obra de arte em nossa época é mercadoria - o que não lhe suprime o potencial revolucionário. Mas os fãs incondicionais de Chico resistirão a aceitar que a obra do mestre está inserida na lógica do capital. Está, hoje, mais do que já esteve ante antes. Repito: não há crime aí, Chico é artista, tem de viver de sua arte. Leia o livro, veja o filme, compre o CD.


Problema 05: Chico continua sendo um dos maiores artistas do Brasil. Leite Derramado será entregue em casa na segunda; leio no feriado e conto as impressões.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Todo Pessoa

Tudo, absolutamente tudo, que Fernando Pessoa escreveu pode ser encontrado aqui.

De Eduardo Lourenço, em seu livro Pessoa Revisitado, a respeito do Super-Camões: "Na verdade um contato inocente ou acintosamente ingénuo (livre) com a obra de Pessoa tornou-se impraticável. Nenhum deus escapa à perversão do ritual inventado para o tornar presente. Chega sempre um dia em que é necessário negá-lo para o sentir ainda vivo. Não tenho essa coragem".

Nem eu.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

"Felizes para Sempre", de Mário Bortolotto

A amiga Adriana Quintanilha faz parte do elenco de "Felizes para Sempre", peça de Mário Bortolotto. Trata-se de um espetáculo composto por três peças curtas.

Nelas, casais retratados em seus conflitos de relacionamento, em suas buscas por sentido, por acolhimento. Revelam fragilidades, carências, desejos e frustrações. Todos são jovens urbanos imersos em intensa solidão a dois. No silêncio da noite, na solidão de nossas cidades a dor da existência humana é exposta. Não há remédios. Achar que ter um companheiro ou companheira é resposta para o vazio de nossas almas é acreditar que possamos viver felizes para sempre. Abaixo, o teaser do espetáculo:



Nos Satyros 2, na Praca Roosevelt, 134
Às segundas-feiras, às 21h, de 20 de abril a 8 de Junho.

Direção: Simone Shuba; Iluminação: Paco Abreu
Elenco: Adriana Quintanilha, Henrique Zanoni, Felipe Ramos, Mariana Marinho

Produção: Cia. dos Viajantes