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sexta-feira, 29 de maio de 2009

A Imagem do Texto 3 - Rubor


Esta é a minha noite, por isso, no banho, massageio os cabelos com xampu, suavemente, depois deixo agir, depois espalho o condicionador e deixo agir ainda mais, ainda eu vou agir hoje à noite, esta é a minha noite. E o sabonete corre suave por mim, e deixa o cheiro pelo corpo, que toma o banheiro, que toma a casa: é a primeira noite que ele vem aqui, e tudo precisa recender a acolhimento, esta minha casa será nosso lugar, ninguém veio nunca aqui; depois que cheguei a São Paulo, mão atrás, outra na frente - e estudar sem conhecer ninguém, e morar nas pensões, que não eram lares, e ouvir as músicas no fone de ouvido, as músicas eram meu espaço - depois que cheguei a esta cidade a pele ressecou, a unha ganhou um amarelado desgastado, recurvou-se, como se eu fumasse um cigarro enorme, cuja fumaça fosse deterioriando-me o corpo, depois amortecendo-o, depois anulando-o, emagrecendo-me os desejos, a unha sem corte e esmalte, a sobrancelha engrossava, ressurgiam as espinhas da adolescência, mas sem o rubor de antes (eu era toda rubor quando menina), a pele morta debaixo dos braços, de tanto raspar, e todos os pêlos que cresciam, e vestir mais roupa para escondê-los, ainda bem que em São Paulo faz frio nessa época, senão todos achariam que sou a Cláudia Ohana, enfim a cidade e o trabalho deixaram-me a madre seca, assexuada, eu que era toda rubor quando menina.


Mas hoje tirei as sobrancelhas, e fiz as unhas da mão, e depilei-me, e fiz as unhas do pé, e pintei-as de vermelho, porque ele disse que se apaixonou pelo meu pé antes mesmo de me ver o rosto, nem sei como, que meu pé estava mal cuidado, ele deve ser meio pervertido e, eu nem lembrava, mas é assim mesmo que eu gosto, com um fetiche. E o apartamento que aluguei faz dois meses tomou vida, eu trouxe flores, e tomei banho, e acendi o incenso, e em toda a casa se evola o bálsamo de que ele precisa, e o eflúvio que sai do banheiro dá à casa a umidade gostosa do verão (nem parece São Paulo). E perfumo tudo, as mangas da cozinha trago para a sala, e abro a porta do banheiro, e a fragrância do sabonete se espalha pela casa, a essência é de bogari, de tamarindo, o creme suave que passei na pele é de caju, e a casa toda bafeja e inspira a minha expectativa, também eu parece que ganhei vida. E já deixei pronto o jantar, da cozinha emana o aroma da carne que ele gosta, e o vinho tinto que vai bem com ela. No forno, aqueço o pão feito com a receita da minha terra, cujo cheiro se espalha pelo prédio todo.


Campainha. É ele, vejo pelo olho mágico, é ele cheio de rosas vermelhas nas mão. Me abrançando, ainda sinto o odor das rosas, ele roça o nariz no meu pescoço e diz, as mãos fechadas perto da minha bunda, Que cheiro bom, gostosa.


* * *


O dia vai nascer, ele já dormiu faz um tempo mas estou ainda desperta, e vou à janela, abro-a e deixo São Paulo se contaminar dos odores da minha casa, agora não só adocicados, mas com um travo gostoso e forte que me toma os pulmões, ainda há pouco gritei alto, mas ainda a cidade não acordou, agora acorda, a esses odores todos ninguém resiste, nem São Paulo. Observo a cidade tomada agora das fragrâncias que saíram de mim, que eu produzi, que eu criei; de relance, ao fundo, observo o que talvez seja uma explosão sem som, talvez uma outra como eu tenha ateado fogo à casa, não é isso, não é incêndio, não é explosão, mas sobe rasgando as árvores, como se as deflorasse, como se fosse explosão, mas sem som, movimento só, agora calor, e luz, muita luz, amarelo, vermelho, mais vermelho: já vai nascendo o dia novo, todo rubor.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

segunda-feira, 25 de maio de 2009

O grande acontecimento 31 - Égide dorme solitária

O leitor há de ter perguntado a si mesmo por que é que a ex-esposa do poeta o abrigou com tanta facilidade, ele que estava internado na Casa Verde e poderia ser ameaça à integridade física dela - ela se chamava Égide, a ex-esposa, não a casa, que já se entendeu ser verde; essa coisa de ficarem as personagens sem nome só confunde e generaliza.

Égide tornara-se ex-esposa do poeta depois de tentar, inúmeras vezes, protegê-lo de si mesmo: ela sabia que ele acabaria na Casa Verde. Égide não chegava a questionar o funcionamento do Brasil do Futuro, mas sabia muito bem que o país jamais admitiria uma alma livre e anárquica, como a do poeta, à solta, sem freios - desenvolvimento econômico exige limites nas asas da criatividade, que devem voar apenas à altura e no sentido do empreendedorismo, era o que dizia a pesquisa psiquiátrica publicada na revista semanal de variedades mais vendida do país.

Ah, mas que gosto viver com o Poeta, seus devaneios e observá-lo criar inspirado nas coxas dela; Égide o recebia, tarde da noite, depois das bebedeiras na Rua Augusta, em que ele fazia o périplo dos bares cheios de outros poetas, nenhum tão livre quanto ele, que não tinha nada a perder. E ela adorava abrir-lhe a porta, tarde da noite, para treparem como animais, fazerem todas as sujeiras, darem asas a todos os fetiches, dizerem todas as sacanagens. E finalmente, esgotado, ele dormia como criança, completamente nu, úmido de suor e de líquidos dela misturados aos dele, e ressonava como criança.

Mas Égide sabia que aquela liberdade toda acabaria por levar o Poeta à Casa Verde - ele que já vinha causando polêmicas nos jornais virtuais de poesia, por não associar-se a nenhum movimento estético, por criticar todos os que existiam, porque tolhiam aos escritores o potencial criativo. E assim é, sabia-o Égide: o que as pessoas não entendem tende a ser destruído por elas. O poeta foi acusado de louco, e Égide, prenhe de razão, não lhe deu guarida quando as perseguições começaram, porque sabia que ao poeta era impossível calar-se. Veio a internação. E o grande momento da vida de Égide foi a noite em que dormiu solitária, aflita, imaginando que o poeta voltaria um dia a sua cama, mais amargo, é verdade, mas também mais maduro.

domingo, 24 de maio de 2009

Ressaca, domingo e 24X Sampa

O post de hoje é curto, porque as Noites do Bem, ontem hoje, foram até tarde, com o pessoal dançando animado até às tantas. Também porque domingo é dia de descansar até dos Restos.

Meu ex-aluno Guga Nagib é o autor do blog 24X Sampa. Recomendo.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Noites do Bem, com Madame Saatan

noites-do-bem_definitivo1

Dia 23 de maio, sábado, acontece a primeira edição das Noites do Bem, festa promovida pela Identidade Musical e por Marcelo Estraviz, empreendedor social e criador do conceito de Ativismo Social Musical. Em poucas palavras: nossas Noites são do Bem porque todos os convidados, além de ouvirem boa música e se divertirem, poderão aliar música e atuação social. E todos estão convidados, evidentemente.

As Noites do Bem acontecem na Livraria da Esquina, na Barra Funda, na Rua do Bosque, 1254, que tem aberto espaço para as bandas independentes.
A banda que abre a primeira edição das Noites do Bem é o Madame Saatan, de Belém do Pará, cuja canção "Prometeu" já analisei na Métrica do Grito.

Esperamos todos lá no dia 23, para trocarmos ideias enquanto batemos cabeça.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Mais Leite Derramado

Leia aqui uma análise consistente do romance Leite Derramado, de Chico Buarque, publicada por Jardel Dias Cavalcante no Digestivo Cultural.

Para os alunos de Letras: todos deveríamos ser capazes de produzir um texto como esse, quanto à forma e ao conteúdo, ao final do curso.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Carta ao Pai, parte 04


Na revista virtual Mundo Mundano, leia a quarta parte da Carta ao Pai - não a de Kafka, bem entendido.
Entenda o que é a Carta ao Pai clicando aqui.
Leia a primeira parte da Carta ao Pai, clicando aqui.

A imagem do texto 2 - Solidão de dois minutos entre estações


Aquela filha-da-puta me tratou como um cachorro, ela não me ama mais. Como é que vou fazer agora pra trabalhar, sem ela me ligar no almoço e falar besteira, eu até bato punheta depois que a gente se fala. E vou trabalhar feliz, como se tivesse bebido, nada me interessa na empresa, os outros funcionários, cada um na sua baia, todos competindo, aquele tec-tec-tec estalado dos teclados de computador, todos querendo mostrar que trabalham mais do que os outros.

Eu não: depois que conversamos, é como se ela me desse paz, assim, para não me importar com nada do que está ao meu redor, ela me envolve com as palavras, do mesmo jeito que faz com as pernas, quando a gente se vê. E eu gosto tanto dela que é como se não houvesse outras pessoas no mundo, só eu e ela, só eu e ela, só eu e ela. Ninguém sabe que eu amo essa mulher. E agora essa filha-da-puta vai me largar, a gente brigou, eu sabia que não podia nem falar de morar junto com ela, esse seria o motivo da nossa separação, mas eu não podia ficar sem ela durante a semana e falei, foda-se, se ela me ama, ela vai ficar comigo.

Ela esbravejou, e me botou pra fora, e são cinco para meia noite: atravesso a catraca e entro no último vagão, do último metrô que vai sair da estação hoje. E para meu desespero e êxtase, não tem ninguém, pelo menos até a próxima estação, e agora eu posso fazer o que quiser aqui, posso bater uma punheta para imaginar que ela está comigo, posso escrever nas paredes que a odeio, porque talvez ela pegue este mesmo vagão amanhã, posso escrever que ela é um puta, uma piranha, e colocar o nome e o telefone dela pra todo mundo ver, porque o que eu não ganho eu leso, posso chorar alto, e gritar o nome dela, e quebrar a alavanca de emergência e quando vierem me buscar posso gritar o nome dela, mais uma vez, agora a todos, para que liguem para ela, e ela virá me buscar, posso quebrar o vidro do metrô e me jogar entre o trem e a linha, posso até morrer, se der sorte, mas, se ficar vivo, ela terá de viver com essa culpa na cabeça, e eu terei vencido, ela terá minha imagem na cabeça por toda a vida.

Próxima estação: Clínicas. E recuperei a sanidade, de medo que aquela gente toda que entrava no meu vagão descobrisse o quanto eu amava aquela mulher.

Foto de Ezyê Moleda, no endereço: http://agoramomentoinstantepresente.blogspot.com/2007/05/meiodelocomoosubterrneo.html

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O grande acontecimento 30 - Nasce o poeta

Já vimos correr o poeta, em fuga da Casa Verde. Não vá achar o leitor que esse evento é o grande acontecimento da vida dele. Não é. Há pessoas que vivem tanto e tão intensamente que experimentam até mais de um momento significativo em vida. Tudo é questão de ponto de vista: haverá poetas cujos olhos são tão encantados com o que veem que dirão que cada dia vivido é uma maravilha que a vida lhes dá (vivam eles grandemente ou não, na perspectiva de quem está de fora).

Pois este poeta que agora parte correndo da Casa Verde, rumo à casa da ex-esposa que, ao contrário de todas as expectativas, lhe dará abrigo, comida e uma folha de papel para escrever, este poeta que conseguirá publicar mais do que um livro em uma grande editora depois da internação, este poeta afirmará, no dia em que receber um prêmio literário, oferecido pelo Ministério da Educação, que o grande momento de sua vida ocorreu aos sete anos, quando percebeu que servia de sustento a toda a família.

O poeta nascera menino fraco, seco, destinado à morte, numa família que morava no túnel de acesso à Radial Leste, na Praça Roosevelt; ali nascera, ali começara a carreira de angariador de esmolas para os familiares. Criança mirrada que era, sensibilizava o público frequentador da praça, à cata de espetáculos alternativos de teatro e de música. Era uma forma de atuar socialmente, pensavam os que davam moedas aos pais do futuro poeta. E ele chorava sonoramente, como que pedindo e agradecendo ao mesmo tempo àqueles que contribuíam com o sustento da família.

A lógica da concorrência, entretanto, fez que um medigo solitário da mesma praça percebesse que sua barba longa, seus olhos vermelhos de cachaça, suas roupas sujas, de um cheiro acre de mijo, de asfalto e de jornal, não tinham o mesmo efeito que o choro insistente do futuro poeta. Roubou-o, uma noite, da família, e carregava-o pelos faróis, de modo a conseguir alguns trocos pela cidade, bem longe da praça, para não ser encontrado pelo pai que supunha enfurecido por perder a principal fonte de sustento. E o futuro poeta cumpria facilmente seu papel, chorando alto nos braços do mendigo, arrancando aos motoristas de carros importados um bom dinheiro.

Assim foi, até que um policial tomou a criança ao mendigo, que chorava como criança ao perder a guarda do garoto. Com menos de um ano de idade, o futuro poeta mudava de emprego pela terceira vez: era adotado, agora, por uma família de artistas de circo, que percebiam na criança o potencial artístico de que precisavam. E assim foi, até que o futuro poeta, aos sete anos, seria a atração principal do circo, passando, no final do espetáculo, para a comoção da platéia, o chapéu, para que o público contribuísse com o trabalho da trupe.

domingo, 17 de maio de 2009

O professor que abandonou a sala de aula

Parece incrível, mas quase todos os meus melhores amigos, da época do colégio, viraram professores, em um ou outro momento da vida. Quando conversamos, às vezes, nossas reuniões de amigos se assemelham a salas dos professores - cheias de risadas, lamentos, reclamações, debates, café e diversão.

Mas eis que agora temos um estranho infiltrado em nossa turma: um de nós abandonou a sala de aula. Assim, sem mais nem menos, prestou concurso público, passou e se diz mais que feliz - pois ele jamais pisará em uma sala de aula novamente. Todos os outros, às vezes, tentamos demovê-lo dessa decisão - porque queremos insistir em dar aula ou porque tememos ter a coragem que ele teve?

Depois de uma bebedeira, regada a uma discussão acalorada sobre dar ou não dar aula, viver ou não da docência, pedi a meu amigo que escrevesse um texto que eu pudesse publicar aqui no blog, para levar a discussão a mais gente. Segue abaixo o texto "Por que abandonei o magistério", escrito por ele, que me visitou neste fim de semana:

Se cego ruim é o que não quer ver, o que se dirá de um indivíduo perfeitamente são, capaz e abastado que não dá a mínima por manter seu intelecto pueril? Foi me fazendo esse tipo de pergunta a cada vez que deixava a sala de aula, que resolvi abandonar o magistério.

Feliz foi o tempo em que um estudante resolvia abraçar a carreira de professor, porque tinha motivos para isso. Profissão respeitada, necessária e digna. Responsável por fincar os pilares da sociedade e alavancar o desenvolvimento de um país. Capaz de alterar opiniões, criar sonhos, apresentar soluções. Não vivi este tempo, apenas ouvi falar. Mas insisti. Entrei na carreira acadêmica, a despeito das queixas dos meus mestres e seus dissabores: baixos salários, pouco reconhecimento, falta de incentivo, discentes desinteressados. E lá fui eu, teimoso e iludido.

Num tempo em que as estratégias capitalistas se sobrepuseram a tudo e a todos (olhe à sua volta), a educação não passou incólume. Alguém um dia imaginou que comercializar conhecimento seria um bom negócio. E foi. Só se esqueceu de entregar o que prometeu vender. Ou melhor, entregou. Mas como seu cliente não sabia diferenciar o produto bom do ruim, a aceitação da qualidade duvidosa tornou-se regra. E a educação era apenas mais um produto no mercado, entupindo as prateleiras com os mais diversos cursos fantasmas, escolas de papel e universidades de mentirinha. Há quem responsabilize o Estado, que deixou aberto um nicho que lhe cabe ocupar. Porém, a invasão arrebatadora de ganhadores do dinheiro alheio transformou a educação numa bolsa de valores. Valores baixos, diga-se. Formou-se uma horda de empresários da educação, todos prontos a colocar mais um aluno na sala de aula, e garantir a saúde de seus cofres.

E, o que poderia ser a contra resposta a este movimento, foi a bancarrota. O público discente em potencial acabou por aceitar a sedução do diploma fácil, do curso enlatado, do ensino médio em 3 meses (já há até mesmo a graduação em ano e meio!?!). Perderam a capacidade de raciocinar e de pensar, cegos pelo pouco esforço necessário a progredir na escola. Seduzidos pelas facilidades tecnológicas e promessas de que isso basta. Incapazes de perder mais que meia hora numa busca de informação.

Esvaiu-se a prática do ensino crítico e emancipador. Afinal, é mais fácil trabalhar assim. Não há cobrança e, consequentemente, não há perdas. Criou-se uma relação sem dores entre o aluno e seu processo educativo, algo que todos aceitaram comprar. E comprar barato.

Não seria difícil demonstrar isso aos rebeldes e lutadores, aos precípuos cidadãos em formação sedentos de oportunidade. Mas esses não achei. Vasculhei por vários cantos, e não vi. Ou vi, mas à razão fracionária. E não há nada que desiluda um indivíduo mais que ver a alma de seu trabalho se deixar levar pelas facilidades imediatistas e inconseqüentes.

Pense. Critique. Indague. Questione. Aprenda a fazê-lo. Você é feito de otário a cada minuto que vive. Se acha que dá muito trabalho, e que teria de dispor de muito tempo ou força, só me resta lhe desejar boa sorte nas compras da quitanda.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Saudades de quando não éramos nada



Michel tem saudades de quando não éramos nada. Combinamos, quando ele voltar de longe, uma cerveja irresponsável, conversas sobre tudo e sobre nada. Precisamos fazer uma pausa para o luto, porque ainda não nos demos tempo para falar de quem partiu: somos muito ocupados.

E beberemos, e voltaremos tarde, perderemos o horário do trabalho, sem responsabilidade; dançaremos bêbados nas ruas da Vila Madalena, e cantaremos Pearl Jam, Nirvana, apoiando um no outro; e abancaremos num boteco fuleiro e só sairemos de lá com dia cedo. Mas não me tire do bar antes da hora, quero retardar a passagem do tempo, para as crianças o tempo passa devagar, e é isso que somos, crianças que vestem barba, jeans, camiseta de banda.

E arranjaremos briga, num jardim obscuro fumaremos algo obscuro, que nos fará rir à farta, sem motivo. Depois iremos a uma lanchonete mais vagabunda que o boteco, mataremos a fome, com cachorros-quentes, batatas fritas molengas e cheias de óleo. E pediremos mais uma.

Aí umas meninas tão loucas quanto nós conversarão consoco, e daremos risadas, e descobriremos que elas estudam com amigos nossos, e conhecem o Barizon, por causa da aranha tatuada na mão. E debateremos música, literatura de ficção, porque o Michel leu tudo do Philip K. Dick, discutiremos peças estranhas de teatro, porque não entendemos, mas sabemos que pega bem. E pediremos mais duas, porque tem mais gente na mesa. Mas não vai rolar nada, porque a gente é meio bundão, só trocamos telefones com as minas.

E faremos piadas infinitas sobre portugueses e judeus, porque nós podemos. E pediremos a última; mais uma; a última. Porque não temos nada, absolutamente nada para fazer amanhã. A não ser ir ao Cartoon de novo.

Slow down, you crazy child.
You're so ambitious for a juvenile.
But then if you're so smart, tell me why are you still so afraid?
Where's the fire? What's the hurry about?
You better cool it off before you burn it out.
You got so much to do and only so many hours in a day.

Don't you know that when the truth is told
That you can get what you want or you can just get old?
You're gonna kick off before you even get halfway through.
When will you realize Vienna waits for you?

Slow down, you're doing fine.
You can't be everything you wanna be before your time,
Although it's so romantic on the borderline tonight, tonight.
Too bad, but it's the life you lead.
You're so ahead of yourself that you forgot what you need.
Though you can see when you're wrong,
You know, you can't always see when you're right, you're right.

You've got your passion. You've got your pride,
But don't you know that only fools are satisfied?
Dream on, but don't imagine they'll all come true.
When will you realize Vienna waits for you?

Slow down, you crazy child.
Take the phone off the hook and disappear for a while.
It's all right you can afford to lose a day or two.
When will you realize Vienna waits for you?

Don't you know that when the truth is told
That you can get what you want or you can just get old?
You're gonna kick off before you even get halfway through.
Why don't you realize Vienna waits for you?
When will you realize Vienna waits for you?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

terça-feira, 12 de maio de 2009

A poesia toma o poder

Leia aqui um texto impressionante de Sérgio Vaz, poeta e criador da Cooperifa, movimento cultural que há sete anos congrega pessoas na periferia paulista em torno da poesia. Merece, sem dúvida, entrar na lista de blogs dos Restos e Fragmentos.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

O grande acontecimento 29 - A organização secreta e a decepção de Libério

Parauacu e todos os internos da Casa Verde jamais poderiam imaginar que seriam libertados de uma hora para outra: tudo responsabilidade de um dos enfermeiros, Libério, participante de uma organização secreta que, em reuniões secretas, planejava ações contra o que seus integrantes julgavam ser, no Brasil do Futuro, instituições que tolhiam a liberdade aos homens.

Nas escolas, os integrantes da organização infiltravam-se como professores e, em vez de ensinar os cânones aos alunos, liam com eles poetas contemporâneos; nas empresas em que trabalhavam, entravam pontualmente às oito e saíam às cinco, sem trabalhar um minuto a mais, para evitar a exploração.

É evidente que ações como essas foram vistas pela revista semanal de variedades mais vendida do país como absurdos. Entenda bem o leitor: as empresas em que trabalhamos nos dão sustento e trabalho, por meio dos quais alcançamos bens e realização pessoal. Empresas são amigas, não inimigas, entendido está: vistamos a camisa. Deus proteja os redatores, os editores e os acionistas da revista, que, com essa postura, faz que o Brasil se modernize cada vez mais e que a lógica do trabalho, em detrimento da preguiça, predomine em nosso país.

Perceba também o leitor que a subversão não anda à solta, com hordas violentas de pessoas lutando por melhores salários ou direitos nas ruas: essa gente já saiu de cena, a história acabou, não há mais ideologias ou partidos. O Brasil vive o período do consenso, sem diferenças que acentuem os conflitos. Não se vá dizer que há populações nas periferias que não participam do modo brasileiro de viver e sonhar; não se vá dizer agora que os habitantes da Casa Verde estavam à margem da vida e do sonho, porque pensavam diferente.

Mas que se há de fazer se há sempre uns revolucionários, barulhentos e do contra? Lá agora está Libério abrindo aos confinados da Casa Verde o caminho rumo à liberdade. Os outros funcionários não fazem nada, porque temem os detentos. Ali vai correndo o poeta, que cuspia longe os remédios que lhe davam e que sabia onde estava e o que fazia ali; atrás dele vai a faxineira, porque se sentia tão presa àquele lugar quanto os detentos, ela que nunca tomou sequer um tarja preta; em seguida corre um jornalista que resolveu contar a verdade sobre o tráfico de menores para Brasília; manquitolando, logo depois, passa um jogador de futebol que foi incentivado pela direção do clube a consumir drogas para desenvolvimento muscular e que, ao perder parcialmente o movimento das pernas, escreveu um livro contra os cartolas. E depois de todos eles, corre um louco, que loucos também os há - nem no Brasil do Futuro eles podem ser entendidos.

A maioria dos loucos, entretanto, não se move. Libério insufla-os à fuga, discursa, empurra alguns na direção do portão, mas eles correm desesperados para seus quartos. Libério agora chora, insiste, tenta dar o exemplo, ele mesmo saltando com os dois pés para fora e para dentro, argumentando que, se quisesse poderia ir e vir. Mas cada um dos loucos mantinha-se em silêncio, olhando as próprias mãos, movimentando objetos preciosos e escondidos dentro dos bolsos, dialogando com o vazio, dizendo impropérios para o céu, escrevendo num caderno qualquer ou nas paredes. Libério implora a todos que saiam, que as autoridades estavam para chegar e vê, atrás de si, o portão ser fechado calmamente por alguns policiais, enquanto seus antigos colegas de trabalho, agora seus enfermeiros, dirigiam-se a ele com as injeções que lhe aplicariam.

domingo, 10 de maio de 2009

Em nome da sobriedade

Dois posts na última semana me impressionaram muito positivamente: o de Rodrigo Carneiro, a respeito de Júpiter Maçã, e o de Danislau Também, da banda Porcas Borboletas.

Seguem abaixo as palavras de Danislau, dos maiores poetas brasileiros de hoje:

O poder de uma balada.

Quem é viciado em drogas - como o álcon - ou que padece de ressacas físico-morais devastadoras, ou que sofre com a flecha preta do ciúme enfiada na garganta qdo avista o ex pendurado em pescoço inimigo com aquela cara de hoje-tem, costuma maldizer a noitada

a noite é do cão

tenho preferido um bom chá, um bom livro
quero acordar cedo e tomar ducha, curtir a manhã, sabe como é
a noite machuca

venenos da noite estão aí, para o bem e para o mal

E plagiando Carneiro: o almoço de família de hoje foi maravilhoso.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Suspeito (o torpor)

a euterpia hesitava tocar em veneza
e me dei conta de que fazia tempo
de que o torpor não me tomava o corpo
era a cerveja

não há conexões neste texto
porque as palavras são o que são:
em si mesmas, não podem contemplar
que sou suspeito

e no torpor do dia em que as veredas
do grande sertão inspiraram um jovem,

um só jovem

já parece uma vitória
apesar de apenas cinco pessoas nos ouvirem.

(nunca escrevi poema na internet
e que importa?
amanhã a postagem será outra)

e preservo arrigo barnabé
ele não está no computador
nem no gravador
ou o que quer que seja

canto de memória

quarta-feira, 6 de maio de 2009

terça-feira, 5 de maio de 2009

A imagem do texto 01: Porta cerrada

Meu avô era homem cumpridor, ordeiro, positivo, mas já sempre grave demais quando o conheci: sua maneira de lidar com os desgostos. Na juventude, fora dos acadêmicos mais estróinas de sua faculdade, e experimentara a delícia da fartura e das mulheres fáceis que lhe frequentavam os fundos da pensão, quarto mínimo, quase sendo lavabo com colchão, no centrão da cidade, que também vicejava. Meu vô estudava direito no largo, bradava contra o Getúlio, pegara em armas até - em parte pela liberdade, em outra, mais escondida, por maior que seja, pelo gosto da confusão.

O senhor entenda: meu vô não estava preocupado com as ideologias nem pretendia a carreira política. Uma vez, eu ainda pequeno, ele me disse que se apaixonava era mesmo e só pelo movimento. Por isso abandonara a família de lavradores do sul para tentar e conseguir a vida em São Paulo. Aqui se fez, como ele dizia; aqui se criou, como ele se enganava. Comprou e vendeu, engambelou uns, foi engambleado por outros, acumulou uns tantos e cursou direito já maduro, com as economias que retivera.

Já advogado, meu vô conheceu minha vó - esta sim de família rica, também bacharel, encantada pelo menino pobre que vencera a cidade. E ganhou de dote, ele brincava, a casona de porta dupla, talvez fosse mesmo um palacete, próxima ao centro.

E era uma recorrência de festas, e pessoas que iam e vinham pela porta dupla, sempre aberta. Meu vô brilhava na carreira, no escritório que abrira com minha vó, que só interrompeu a profissão para mais nunca depois do primeiro filho, meu pai. Meu vô agora escrevia nos jornais, comemorava o desenvolvimento do Brasil, a fundação de Brasília, a bossa-nova e Vinícius de Morais.

Mas foi depois de uns dez anos que ele começou a morrer. Fechou a porta da casa - a ausência de minha vó, levada pelo câncer fez do velho um recluso. Meu pai desaparecera num rabo de foguete, eu junto, mas não me lembro. Morreu minha mãe em circunstâncias suspeitas. E, em todas as ligações que meu avô fazia em defesa de meu pai, batiam-lhe com o telefone na cara, desrespeitavam o velho, diziam-lhe que se cuidasse para que não fosse ele também preso.

Quando voltamos, eu e meu pai, de Portugal, já meu vô tornara-se um ser decrépito; vivia da herança de minha vó, que mal dava para pagar as contas. A casa estava descuidada - e eu, que ia e vinha da escola em silêncio, porque preservava a memória de minha mãe, era obrigado a entrar na casa pelos fundos, porque a porta dupla, imensa, estava agora sempre fechada.

Foto de Ezyê Moleda, no endereço http://agoramomentoinstantepresente.blogspot.com/

Em memória de Augusto Boal

Quando fiz teatro no colegial, participei de uma montagem da peça Revolução na América do Sul, de Augusto Boal, dramaturgo nascido em 1931 e falecido no fim de semana. Foi nessa altura que tomei contato com o Teatro do Oprimido - em que o teatro é associado à intervenção social: "O Teatro do Oprimido oferece aos cidadãos os meios estéticos de analisarem seu passado, no contexto do presente, para que possam inventar seu futuro, ao invés de esperar por ele".

Alguns anos depois, no Rio de Janeiro, encontrei o próprio autor, por acaso, na praia, e fascinei-me com sua gentileza e sua humildade: ele divulgava seu trabalho e suas ideias nas ruas, à beira da praia, como se não fosse uma personalidade já conhecida internacionalmente.

Tudo que aprendi com a obra de Augusto Boal e com esse breve encontro de alguns minutos permanece: é possível, por meio da arte, formular ações para criar alternativas de futuro.

No blog do Professor Toni, como sempre, é possível encontrar uma das melhores coletâneas de textos disponíveis na internet a respeito do dramaturgo.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O grande acontecimento 28 - A falta de asseio de Parauacu

Baleia sofreu, é fato, mas não vá o leitor ter pena dela; a sociedade brasileira futura não pode tolerar exceções ou párias. "Uma sociedade limpa se constrói como o asseio no Metrô de São Paulo" dizia a propaganda do governo; "Tolerância zero". Esta foi a política que, entre outras medidas, trouxe a paz e a limpeza aos paulistas e paulistanos.

Deus esteja com eles e conosco, mantenhamo-nos sempre limpos, a fim de evitar algum engano: não vá o leitor deixar de tomar banho um dia, porque pode ser considerado um mendigo, pelo cheiro, e acabar na Casa Verde - nome que recebeu a instituição que abrigava loucos como Baleia. Escovem-se os dentes, faça-se a barba, as mulheres depilem os sovacos, os homens mantenham-se depilados nas costas. Tanta limpeza, que do corpo contamina o espírito, que alguns estrangeiros passaram a crer que o Brasil era uma espécie de Meca da purificação.

Deixemos de elogios ao Brasil: observemos Parauacu, rapaz jovem, de longas madeixas, que agora deixa escorrer no chão do pátio da Casa Verde uma baba densa, que enoja quem por ali passa, seja louco ou não, que a medicina da cabeça também tem lapsos. Os braços estão forrados de pêlos, os cabelos, já o dissemos, são longos, as pernas são o mesmo que os braços e o resto do corpo.

O leitor terá estranhado o nome da personagem; ele próprio explicava, quando estava são, que era filhos de pais ripongas, e que o nome que tinha deveria ter algum significado que desconhecia. Parauacu fugia aos hábitos dos pais: depilava-se inteiro, a fim de conquistar as meninas mais bonitas da escola. Mas eis que um dia - exatamente o dia que em combinara com uma coleguinha o roubar-lhe um beijo no banheiro feminino - esqueceu-se de fazer a barba que, como o leitor pode imaginar, era fechada como a selva amazônica.

O resultado foi que os pequenos pêlos que apenas cresciam no rosto de Paruacu machucaram os lábios e o rosto da moça; embora ela tivesse se excitado com o raspar de barba no rosto, seus pais pediram a prisão de Paruacu, sob a justificativa de que, além de ter forçado a moça a beijá-lo, o rapaz era sujo - e não merecia conviver entre os asseados brasileiros.

O grande momento da vida de Paruacu ocorreu um pouco antes de sua primeira dose de eletrochoques combinados a tranquilizantes - Paruacu observou os cabelos que cresciam, os pêlos bastos do rosto e do peito, e sentiu-se imundo como um homem qualquer.

sábado, 2 de maio de 2009

The fuck show e Joy Division

Aninha está apaixonada por outro homem: Ian Curtis, vocalista do Joy Division. Ela assistiu a Control, filme a respeito desse rapaz, e só fala nele. Fuck!



Pior é que o homem toca bem:



Ok: eu aceito que ela se apaixone por ele. Mas só por um tempo.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Todos precisamos de feriado (Novos Baianos, para descansar)

Todos precisamos de feriado. Até a literatura precisa dele, para se esconder dos olhos curiosos dos leitores, que mais tomam a ela do que lhe dão. Em São Paulo, o dia é de sol, mas corre incessantemente um vento frio que não deixa o feriado ter cara de verão. Tanto melhor: até as férias precisam de feriado.

Para descansar, Novos Baianos, sugestão da Aninha, que também estava precisando de feriado: