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sábado, 24 de outubro de 2009

Leitura de Clarice, fim de semestre e a hora de ficar quieto

Uma menina colorida, que foi minha aluna, fez uma belíssima análise de um conto de Clarice Lispector, que vale a leitura, no blog Pequeno Rascunho. À direita, a foto de que mais gosto da escritora que menos entendo. Mas tento, insistentemente.

Quem lê este blog sabe que fim de semestre é sempre um problema para mim. Além do cansaço físico, entro em crise profunda com a profissão, fico cada vez mais convicto de que não vale a pena ser professor - e isso não só no Brasil. De todo modo, é por aqui que leciono, e a estrutura da educação me desagrada cada vez mais. Irritam-me também as ideias - sempre repetidas quando alguém descobre que sou professor - de que "dar aula para essa molecada não é fácil" e "é preciso valorizar mais o professor".

"Dar aula para essa molecada não é fácil": tive poucos problemas com alunos. Já os tive, é fato, mas eles se reduzem cada vez mais. Tenho perdido - ainda bem - a mania que a maioria dos professores têm de se meter nas vidas dos alunos. Se eles dormem na aula, é porque estão com sono, não necessariamente porque odeiam o professor; se leem o jornal, é porque estão mais interessados nos assuntos ali publicados - e, digamos tudo, certamente o jornal é bem mais interessante do que a maioria das aulas que os professores temos para dar.

Em poucas palavras, quero dizer o seguinte: minha vida de professor melhorou bastante (depois de anos de terapia) quando parei de achar que tudo que rola na sala de aula tem a ver comigo. Se o cara quer dormir, que vá dormir; se quer ler, que leia; se quer ir embora, que vá; se quer viajar antes de todo mundo, que não apareça na aula. Eu faria o mesmo, sobretudo se tivesse dormido pouco, se quisesse muito ler um livro, se tivesse de encontrar uma namorada ou se estivesse na véspera de uma viagem da Ilhabela. Não tem aula expositiva que possa competir com o sono, o interesse pela leitura, o tesão ou a praia.

"É preciso valorizar mais o professor": ah, por favor. É pra rir? Isso é conversinha pra boi dormir. Na hora das premências da vida prática, ninguém faz a escolha pelo professor. Levantem o braço no espaço para comentários as pessoas (elas existem, não tenho dúvidas, mas são pouquíssimas) que respeitam os professores como profissionais.

Percebam que escrevi profissionais, não escrevi sacerdotes - a palavra imbecil, que antecede todo comentário imbecil sobre professores. "Para ser professor é preciso ter o dom". Não tenho dúvida: para ser um bom professor é preciso ter algum dom. Da mesma forma que acontece com advogados, médicos, engenheiros, administradores, enfermeiros, chefs de cozinha e por aí vai.

Quero ver o pai de adolescente que acabou de tomar advertência na escola valorizar o professor - e não pedir a cabeça do professor. Quero ver a escola ficar ao lado dos professores quando eles tomam as atitudes de cabeça quente (parece que é proibido professores perderem a cabeça). Quero ver algum professor dizer "eu não sei" e não ter sua credibilidade manchada por causa dessa resposta honesta. Quero ver a escola preferir que o professor dê aula, em vez de escolher os bons burocratas, que preenchem direitinho todos os papéis que a coordenação e a diretoria pedem. Quero ver o pai de aluno de terceiro colegial das escolonas particulares brigar com filho porque ele opta por "se despedir da melhor fase da vida" - fazendo os maiores absurdos, que a burguesia sempre perdoa aos seus filhos. Quero ver a escola pagar um salário decente ou dar ano sabático para o professor que quer continuar pesquisando, fazendo mestrado, doutorado. Quero ver os professores estudando mais, sem se acomodar.

Valorizar o professor: frase de efeito, bonitinha para pai dizer na mesa de jantar na frente dos filhos, enquanto, na reunião de pais, ele segue dizendo que o filhinho é perseguido e precisa ser aprovado a qualquer custo. E, se não for, muda-se o moleque de escola: educação é investimento, certo?

Quero ver alguém admitir que a promoção automática não rola apenas nas escolas públicas, mas também nas privadas. Não pode, né? Admitir isso seria colocar no mesmo caldeirão os alunos bonitinhos das supostas super-escolas ao lado dos alunos feios da periferia, com que a classe dominante não que se misturar. Quem dá aula sabe do que estou falando: a diferença real entre os alunos da particular e os da pública é a grana - capaz de pagar, para os primeiros, o adestramento e o verniz cultural (na essência, um amontoado de conhecimentos supérfluos, que servem para aprovação, mais nada) necessários para entrar nos grandes vestibulares. E ponto final.

Falar mal da escola privada seria dar um golpe violento no "mercado" da educação: a escola privada tem qualidade, mesmo?

Claro que há quem se salve, claro que há escolas - públicas e provadas -, alunos, pais, professores que são exceção. Eu ajo assim: sempre preparo minhas aulas e as dou do modo mais honesto que posso, sem me importar se as pessoas dormem ou se leem jornal durante a aula. Se elas se empolgam com o assunto, eu me deixo emocionar também. Se me perguntam, respondo. Se ficam todos calados, sigo falando. Se ninguém se interessa, acelero a programação. Se todos falam, calo-me: já tive problemas sérios na garganta por tentar falar mais alto que meus alunos.

Já passou da hora de eu me calar.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

+ Massa


Amanhã acontece a primeira de quatro quartas-feiras do Projeto Mais Massa, que está devidamente explicado aqui. Digo sem medo: trata-se de pontapé inicial de algo que vai se tornar muito maior.

Tenho o prazer de particiapr ativamente do evento e espero todos lá.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Livre associação

Se eu pudesse escrever aqui todas as coisas que eu penso, ninguém conseguiria suportar a paulada negativa que me vai dentro. Pior é que já aprendi na igreja, na ioga, na auto-ajuda, na terapia, na literatura, na filosofia, em todas essas atividades aprendi que o melhor a fazer é pensar positivo, rumar à utopia do apaziguamento, pensar na minha própria vida, sem me importar com o que não é meu.

Mas a vida passa rasteiras, e o ideal seria que eu soubesse conectar-me com o transcendente, suposto que ele houvesse, ou com o vazio mental absoluto, suposto que eu conseguisse, para que fosse possível ao menos esboçar a rota que leva à morte, suposto que a morte seja ponto final.

Não cabe aqui tudo que me vai dentro, primeiro que não há meio de expressão que me aguente, sobretudo agora, em que começa a beirar os limites o vazio em que estou metido. Eu e a humanidade, é evidente, não só eu passo boa parte do tempo fazendo tudo que não interessa a ninguém, mas que é vendido como projeto acabado de felicidade. Eu queria ser feliz e ter tesão de bater punheta no carro novo, por causa do cheiro. Mas nem esse tesão eu tenho, meus fetiches são outros, o que eu quero mesmo é comer as pessoas de verdade.

Este texto não é literário, nem não-literário, nem outra coisa, nem o oposto disso, nem de coisa nenhuma. É uma livre associação de ideias - nem as ideias eu concateno mais, devem ter colocado alguma coisa na minha bebida, na minha vida. É uma tentativa de fazer sucesso, devem ter colocado isso na minha cabeça, na minha pele. É um grito, porque se o Rodrigo tinha esse direito, eu também tenho.

sábado, 3 de outubro de 2009

Carta ao Pai, completa


Na revista virtual Mundo Mundano, já é possível ler as 18 partes da Carta ao Pai. Basta clicar nos links do lado direito desta página.

Entenda o que é o projeto Carta ao Pai clicando aqui.

Tiago Barizon disse que vai musicar. Eriquinho disse que vai fazer virar filme. Deus os ouça e veja.