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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Prontuário 0061 do DEOPS, nos arquivos interditos de minha família: Antônio Candeias Duarte

Toda família tem seus arquivos interditos: aquilo de que não se pode falar. Casos de loucura, casos de extrema sanidade - cada família tem seus bodes expiatórios, ao mesmo tempo portadores da toda imundície e da salvação dos que ficam. Cada família tece na própria história as cortinas delicadas, que a protegem do sol que vem de fora, e oculta os panos de chão rotos, que ficam escondidos e acumulados nos cantos da casa, mas que servem pra limpar a sujeira das gerações que não param de nascer e de esquecer.

Nos arquivos interditos da minha família, figura um tal senhor Antônio Candeias Duarte:

Fotos dos arquivos do DEOPS, que encontrei no livro O Espírito da Revolta: a greve geral anarquista de 1917, de Christina Roquette Lopreato

Primeiro foi anarquista, depois marxista, português às esquerdas, acho que se pode defini-lo assim, tipógrafo e autor de livros subversivos, um dos líderes das greves anarquistas de 1917, tendo discursado às massas na região do Ipiranga e participado das negociações entre grevistas e industriais, como registram os arquivos a seguir:

Prontuário 0061
DEOPS

Antonio Candeias Duarte, vulgo Hélio Negro (entre outros pseudônimos), participou das negociações entre operários e industriais pelo fim da Greve de 1917. Ele foi redator do jornal O Homem do Povo [editado por ele e por seu filho, com textos de Oswald de Andrade e Pagu].

Em seu prontuário encontramos as seguintes informações: "com prontuário no Gabinete de Investigações sob o número 44.731 e que, em 1917 foi uma das figuras salientes da greve geral de então, tendo naquela época escrito um livro sobre bolchevismo. Até 1919 foi partidário do anarquismo. Depois se converteu ao marxismo, aderindo francamente ao Partido Comunista, mantendo uma atividade, em parte de expectativa, depois, por ocasião da Revolução de Outubro, concorrendo com dinheiro e literatura saída da sua pena para a vitória da sua causa".

DEOPS. Prontuário número 0061, de Antonio Candeias Duarte. São Paulo.


Os registros que encontrei seguem adiante: Candeias Duarte era proprietário de uma tipografia de livros subversivos, como ele próprio - a a Editorial Marenglen. É o que registra a professora universitária Maria Luiza Tucci Carneiro, da FFLCH da USP, na obra Livros Proibidos, Ideias Malditas: o DEOPS e as minorias silenciadas:

Antonio Candeias Duarte, proprietário da tipografia, envolveu-se diretamente com intelectuais da resistência interessados em multiplicar os conhecimentos sobre a URSS e o ideário socialista. Inclusive, Astrogildo Pereira chegou a procurá-lo em 1931 para imprimir os livretos "O que é o plano Quinquenal" e "Em Marcha para o Socialismo" garantindo que "a venda de um pagaria o serviço do outro". Pressionado pelas autoridades, Candeias Duarte confessou que, apesar de ter conhecimento de que aqueles livros tratavam da questão social, seu serviço era apenas de técnico. No entanto, a trajetória política de Antônio Candeias vinha de há muito tempo. E a polícia certamente mantinha seus arquivos atualizados.

Homem perigoso: andava com grevistas, publicava-lhes os livros forrados de ideias socialistas, procurado, fichado na polícia, solicitado por um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro. No mesmo livro, a nota de rodapé não deixa dúvidas:

Além de publicações deste gênero, a Editorial Marenglen foi acusada de imprimir jornais subversivos como O Homem do Povo, o que lhe valeu guarda diária da polícia. O próprio Candeias - apesar de afirmar às autoridades que estava afastado das lutas socialistas - chegou a escrever para esse periódico sob o pseudônimo de "Hélio Negro", até o momento em que se afastou por discordar de Oswald de Andrade. Candeias, que já era prontuariado no DEOPS desde 1917, possuía uma ficha bastante comprometedora: além de anarquista, era registrado como proprietário de uma oficina gráfica e figura de destaque da greve geral de 1917. Em 1919 escreveu em co-autoria com Edgard Leuenroth o livro "O que é marxismo ou bolchevismo: programa comunista".

Curioso perceber que o pseudônimo Hélio deu nome a meu avô paterno. Quem terá nascido antes, meu avô ou seu nome, espécie de alter-ego revolucionário do pai? Sei que meu avô odiava o pai porque este abandonara minha bisavó, para ficar com outra mulher. Sei também que Antônio encontrou-se com Hélio, este já maduro, e presenteou-o com um relógio, que meu avô destruiu na linha do bonde - é o que me conta minha avó Rina, esposa de Hélio.

De pai para filho, parece que certa inquietação... não, não se trata de inquietação - parece uma outra coisa, terrível e desejada, que vem da terra, das entranhas desta gente minha, da qual não posso nem quero me divorciar, parece que este sentimento quase indomável de negação do real e das autoridades como elas estão constituídas, tudo isso nos corre no sangue. Meu avô negava o pai - o que fazia dele mais filho de seu pai do que nunca. Minha mãe, filha de Hélio - mas que Hélio é este? o seu pai biológico ou aquele outro, revolucionário, que publicava livros à revelia das autoridades? - minha mãe ingressou cedo no mundo do trabalho, ela mulher que sustentava a mãe e as irmãs, depois da morte do pai, minha mãe padeceu no mundo do trabalho, mas contou, de certa forma, com as garantias pelas quais seu avô havia lutado. Mais: fez-se ali mulher de têmpera - à moda de que Hélio? Operou o trabalho, formou-se sujeito autônomo, na esteira das modernizações que o avô conquistara, ou ao menos tinha tentado, que a história se faz de lutas de classe, nos seus avanços e retrocessos - ao menos era isso em que acreditava o senhor se chamando Antônio Candeias Duarte.

Eu, o interdito ou dito fácil gracejado? Não haverá então alternativas a não ser a fratura entre mim e os que eu amo? Corre neste sangue aquele sismo terrível e desejado, de Antônio para Hélio, deste para Palmyra, dela pra mim? Se sim, tenho cumprido, para além das diferenças pessoais, nas quais tenho me apoiado e escondido, a missão - fazer deste um mundo de sujeitos mais autônomos? Ou sou apenas uma metralhadora giratória e impertinente de formular críticas que ninguém lê nas páginas da internet - que a rigor nem existem, se comparadas aos livros da Editorial Marenglen?

É tempo de mortos, é tempo de bruxas. Em mim, os mortos se fazem vivos, têm de se fazer vivos.

Um comentário :

francisca disse...

procurar por suas raizes, olhar para seu passado ajuda a explicar ou clarear muita coisa do teu presente....belo texto