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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Engrossando o caldo

"Sim, qualidade literária e sucesso comercial são coisas tão distantes entre si quanto, digamos, sexo e automóvel (embora, como estes, possam se encontrar). Mas não, sustentar que um autor é bom porque ninguém o lê não faz o menor sentido – não mais do que dizer que a caixa registradora é o único crítico literário digno desse nome. A verdade é que no fim das contas, oh mundo cruel, não existe literatura sem leitores – poucos, muitos, mais ou menos – e tentar produzi-la no vácuo gera um volume insalubre de literatura de qualidade inferior".

Fragmento do post de hoje do Todo Prosa Sérgio Rodrigues, dando continuidade ao post de ontem, engrossando o debate. Estou virando fã desse cara.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Leitura pelo barato de ler

Num dia desses, fuçando na internet, descobri um negócio que me deixou cabreiro: uma Copa de Literatura. O post anterior versava sobre meu desgosto pessoal por não amar o futebol - me pergunto se serei brasileiro mesmo. Agora me vem uma Copa de Literatura.

O barato do site, acho eu, não é o paralelo com a Copa - oitavas-de-final, quartas, semis e depois a final. O barato são os textos dos "jurados" - alguns extremamente interessantes, pedantes outros, incompreensíveis alguns, todos eles divertidos. Aliás, cheguei à tal da Copa por meio do Todo Prosa Sérgio Rodrigues, que já coloquei aí ao lado faz uns dias. Pois bem, li nesse blog um dos comentários mais engraçados e verdadeiros sobre a literatura brasileira: "literatura brasileira, em geral, não é livro que se queira ler. É livro que se pretende estudar, analisar, discutir. Aquilo que parece um romance é, na verdade, um objeto de estudo — um livro praticamente didático", não do Sérgio Rodrigues, mas de Paulo Polzonoff. Dei tanta risada com essa frase, a um só tempo tão polêmica e tão certeira, que fui atrás dos romances só pra ver se o homem tinha razão.

Resultado: um dos dias do feriado foi inteiro de leitura, apostando primeiro no Galiléia (à esquerda), de Ronaldo Correia de Brito, só porque manjo um pouquinho mais de romances regionais. "Viajar não é mais do que parar num lugar conhecido e evitado, o lugar da solidão": marquei essa frase porque gostei, só isso mesmo, sem pretensões analíticas. Aliás, o que mais curti foi desfrutar a leitura sem ficar fazendo análise - a leitura pelo barato de ler. Demorei muito tempo, depois de sair da graduação, para voltar a ler despretensiosamente um romance. Melhor continuar sabendo ler assim. No fim de semana é a vez das Flores Azuis, da Carola Saavedra.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Eu e o futebol

escrevi aqui mais de uma vez: tenho sérios problemas com o futebol, mas acredito que ele seja mesmo um dos pilares da cultura brasileira. Segue a indicação do blog do Marcelo, amigo lá do Cidadão do Mundo: http://bretonicas.blogspot.com

Na foto, Eusébio, da seleção portuguesa de futebol. Um amigo meu do colegial contava a seguinte piada sobre o pai dele, português: "Pai, o Brasil é melhor do que Portugal em futebol, certo?". O pai respondia: "Jamais! Nós portugueses tivemos grandes jogadores, tão bons quanto Pelé!". Meu amigo se impressionava, e perguntava que jogadores eram esses, afinal ele não os conhecia. "Ora" - dizia o pai - "tivemos o Eusébio... o Eusébio..." e repetia indefinidamente esse nome.

Os tempos mudaram: hoje existe Cristiano Ronaldo. Mas eu sigo sem gostar de futebol.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Para entender o Creative Commons

Encontrei o vídeo abaixo no blog Música, Redes Sociais e blablabla. Pra quem não tinha entendido o que eram os Creative Commons, vale bem a pena.

Sobre palavrões

"Lendo qualquer texto que trate de tabus linguísticos (palavrões são os exemplos mais claros), descobrem-se dois aspectos aparentemente contraditórios de sua vida numa comunidade linguística. Primeiro: são controlados (e não propriamente proibidos), de forma que nem todos os falantes os empregam, ou os empregam impunemente. Digamos, para simplificar bastante, que são mais admissíveis para homens que para mulheres, e são mais admissíveis em lugares privados do que em público (estádios de futebol não valem como contraexemplo, está claro). Segundo: são valorizados, o que significa que os que proferem palavras proibidas são considerados de certa forma heróicos, corajosos, por terem a coragem de violar certas regras (ou de desafiar forças ocultas). Lembro como eram valorizados (os risos sorrateiros eram a prova) na minha terrinha os lavradores que berravam blasfêmias quando suas juntas de bois não lhes obedeciam, nas idas e vindas pelos morros, puxando o arado..."

O trecho acima é de Sirio Possenti, no Digestivo Cultural. Adoro palavrões e, modéstia à parte, há quem me conheça por pronunciá-los insistentemente. Já escrevi sobre eles na Métrica do Grito.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Simja Dujov e O Jardim das Horas, hoje à noite, na Livraria da Esquina



Hoje à noite, o argentino Simja Dujov se apresenta na Livraria da Esquina, às 23h, abrindo a temporada 2010 do Projeto Mais Massa para O Jardim das Horas. Batemos um papo informal com argentino, e falamos de tudo - tradições musicais, propostas e conceitos estéticos, profissionalismo na música independente, crise internacional, bigodes. Só não falamos de futebol.

Simja Dujov nasceu em Córdova, cidade argentina fundada em 1573. A Universidade Nacional de Córdova é a mais antiga do país (1613). Ao longo de um almoço no Sujinho, Simja nos conta que a história da cidade é bastante responsável pelo contato que ele tomou com canções tradicionais e populares. Uma experiência marcante foi a participação em um coral composto apenas por idosos e dirigido por um professor que frequentara músicos do quilate de John Cage. Nesse grupo, Simja era o único jovem - e o convívio com os mais velhos fez que o músico viajasse numa espécie não-fictícia de máquina do tempo. Daí o respeito pelas tradições e pela história.

"Mas não posso viver só de passado" - é o que ele faz questão de nos contar logo a seguir. Depois dessa experiência marcante e de estudar artes plásticas e música na universidade, Simja começou a formular a sua latin jewish balcan cumbia, em que sonoridades ancestrais e atuais se integram, pagando tributo à tradição, sem deixar de lado o que ele considera também fundamental: o espetáculo que diverte, que faz dançar. O conceito sonoro é que deu origem à identidade visual marcante do trabalho de Simja.

Muitas vezes, o artista independente - "que não se sabemos muito bem o que é", afirma o argentino - se acomoda nesse rótulo para fazer um trabalho pouco ou nada profissional. Para Simja, o espaço da música independente é maravilhoso, pela possibilidade de experimentação e pela chance de criação de propostas estéticas verdadeiramente criativas, mas também é pouco profissional, cheio de gente que não se aproveita dessas chances. Não é o caso dele. O figurino, a multiplicidade de instrumentos utilizados no palco, a fluência em várias línguas (ele fala bem português por ter parentes parentes no Rio de Janeiro, que frequenta desde a infância) e os bigodes à moda do pintor espanhol Velásquez são figurações do conceito que permeia a obra - e a vida - de Simja.

O bigode, aliás, chama a atenção de todos, enquanto caminhamos na Avenida Paulista, batendo papo. Engravatados, motoboys, indies de férias, todo mundo fixa o olhar em Simja, que se diverte com os sorrisos que ganha. Poucas pessoas sabem que o bigode é uma homenagem ao pintor espanhol: muitos se lembram de Salvador Dali, outros chutam - bem equivocadamente - que seja uma alusão a Charles Chaplin. Simja nos conta que seu nome quer dizer "alma alegre" - e que fica satisfeito por fazer as pessoas rirem. Mas isso não significa que suas canções sejam apenas feitas para mero desfrute. "A crise é o nosso segundo nome", afirma em uma delas, ao referir-se à Argentina e à América Latina. O megafone, um dos instrumentos que usa nos shows, é metáfora da postura de Simja, que consegue fazer música atuante sem ser panfletário. "Apesar de todas as crises e trapalhadas, ainda amo meu país".

O apreço e o carinho pela Argentina não impediram Simja de fazer uma turnê européia e de passar alguns meses em Nova Iorque, morando no bairro do Brooklin, gravando um trabalho cujo lançamento acabou adiado devido à crise financeira do ano passado. Pena. Quando o lançamento acontecer, ele avisa.

Simja adorou o público brasileiro, que lhe foi bastante receptivo na apresentação no Clube Berlin, na sexta-feira passada. O argentino contou com a participação do brasileiro Raphael Evangelista, da banda Dilei, no violoncelo, e do cubano Pedro Bandera, na percussão. Simja recebeu várias mensagens de pessoas que conheceram o trabalho dele naquela mesma noite, com elogios. Foi curioso: a rivalidade futebolística entre o Brasil e a Argentina não surgiu na nossa conversa nenhuma vez. Passamos pela política e pela crise internacional, pela popularidade internacional do presidente Lula, pelo espaço conquistado pelas igrejas evangélicas no Brasil, pela beleza de Buenos Aires, pela superioridade argentina na porcentagem de alunos matriculados nas universidades. O futebol, a Copa do Mundo, Maradona e Pelé ficaram de lado. Talvez porque haja, além dele, uma outra linguagem universal: a música.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Curso: Cinco Poetas Brasileiros e o Século XX, com Ana Rüsche


Um convite à leitura de poemas de cinco autores: Jorge de Lima (1893 – 1953), Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987), Patrícia Galvão (Pagu, 1910 – 1962), Ferreira Gullar (1930) e Ana Cristina Cesar (1952 – 1983).

Três dias para percorrer versos, biografias, fatos históricos, tentar enxergar traços de um panorama da poesia brasileira. O curso oferecerá material impresso e audiovisual para que os encontros possam ser dinâmicos e agradáveis, um instigar a novas descobertas e necessárias releituras.

Público-alvo: escritores, poetas, jornalistas, professores, críticos, leitores, enfim, todos os que se interessam por literatura.

No b_arco, Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426, São Paulo
Dias 26, 27 e 28 de Janeiro, das das 19h30 às 21h30
Valor: 200,00
Ministrado por Ana Rüsche
Mais informações: http://migre.me/genp

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A Imagem do Texto 07 - Jorro

Eu quero meu banho com minha jarra de prata, mesmo que demore mais, ouviu bem? Você deve achar que eu sempre fui assim velho, com essas roupas folgadas e puídas, como se eu estivesse de pijama o dia inteiro. Mas não é verdade. Eu também tive o meu tempo, época de esbanjar dinheiro, de ficar despreocupado de tudo, sem imaginar que a senilidade pode atingir qualquer um. A gente sabe que ficou velho quando começa a ter medo.

Eu não nasci em berço esplêndido, meu filho. Sempre fui bonito, assim forte como você, me vestia bem, mas nunca tive nada de mão beijada, trabalhei muito pra chegar aonde eu cheguei, trabalhei muito, ouviu? Qualquer emprego eu pegava, fui de tudo nesta vida, desde leão-de-chácara de puteiro, porque eu era um armário, até gerente da empresa em que eu me aposentei. Trabalhei no porto, depois fiquei seis meses num cargueiro ilegal, que levava travestis brasileiros para o mundo, enrabei meia dúzia deles, senão eles me enrabavam, não te conto porque você não vai acreditar. Até motorista de político eu fui, não digo qual, porque eles sabem de tudo, talvez você até trabalhe para a família dele, que lhe quer presevar a memória. Não mesmo? Não tenho medo: já vivi tudo, quem acreditaria num decrépito como eu?

Conto como foi: o doutor me contratou por causa da carta de recomendação que um presidente de multinacional me dera, pelos serviços sujos que eu tinha prestado, coisa de assustar namorado pobre da filha dele e de ameaçar grevista. E me disse o excelentíssimo deputado: você fica de motorista meu e da minha mulher, mais dela do que meu, na eventualidade de tentarem alguma violência conosco fique com esta pistola, não se sabe o que os terroristas podem aprontar, até embaixador americano eles sequestram, que diga eu, ou os meus. Aceitei sem perguntar.

E foi quando vi: a esposa. Ela era linda, das mulheres de novela, como se tivesse saído da tv diretamente para o meu carro. Não dizia nada, só "vamos às compras na rua tal", e era tão perto da casa, que nem de motorista ela precisava, um táxi servia, dava conta. Sentia-lhe o perfume, ela no banco de trás, eu na frente, melhor assim, ela não veria que eu estava excitado, a calça me apertava, eu suava perto dela.

E num dia, sem poder ouvi-la, já passando do horário combinado de levá-la ao encontro do senhor doutor excelentíssimo deputado, gritei por ela, e nada. Assustei-me. Corri pra dentro da casa, pistola na mão, poderiam ser os terroristas que lhe haviam invadido o quarto, já a teriam amordaçado e eu de bobeira na garagem da casa, era preciso agir em silêncio. Fui entrando sorrateiro, cada cômodo era mais uma conquista, fui entrando, e deparei-me com a mulher do senhor doutor excelentíssimo deputado corno. Ela tomava banho à moda antiga, enchendo a jarra de prata com água quente e perfumada, enquanto acariciava o próprio sexo, e me olhava, a sem-vergonha, sugerindo que eu a amordaçasse, e que fingisse machucá-la, e era assim que ela queria, me dá um tapa, me chama de puta, seu terrorista filho-de-uma-grande-puta-comunista, ou socialista, ou anarquista, que eu não entendo nada de ideologias, quem entende é meu marido, que está ali, atrás da cortina, está vendo, o que ele gosta é de me ver sofrendo, ele tem prazer quando me submeto.

E ela fazia jorrar a água da jarra de prata, é prata mesmo, viu, seu filho-da-puta, e a água quente corria por mim, fumegava, fazia borbulhas de lascívia, estávamos os dois encharcados, da água perfumada, essa jarra vem dos pais dos pais dos meus pais, de uma fortuna que você nunca vai conhecer, de uma ancestralidade que você não vai ter nunca, e o marido ria, e nos observava e dizia, cala a boca dessa piranha, tortura ela, dá-lhe uma surra, e assim íamos a tarde toda de sexta, porque ele nunca saía pra trabalhar às sextas.

A política mudou, o excelentíssimo senhor corno perdeu as eleições, mas seguiu adiante com a empresa, em que me deu o cargo permanente de gerente, até a aposentadoria, sob a condição de calar-me para sempre, aquilo não tinha sido, nunca fora. Deu-me até esta jarra de prata com que você está me dando o banho, esta jarra, você nunca vai ver outra igual, de uma família que você nunca vai conhecer, de um emprego que você não vai ter nunca.

Nunca disse nada a ninguém, exceto a você, para que me respeite, para que respeite a história, os jovens não respeitam nada, para que você saiba com quem está falando. Eu fiquei quieto, nunca contei essa história para ninguém, não vou me meter com aquela gente. A gente sabe que ficou velho quando começa a ter medo.

Foto de Ezyê Moleda em http://agoramomentoinstantepresente.blogspot.com/2009/10/blog-post_16.html

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Conheça o blog Cordel da Metrópole

Andou por muitas quadras desconhecidas antes de deslumbrar algum objetivo. Temia os pormenores, mas os raios de sol nas janelas dos carros e das casas e dos olhos o faziam confiante, apenas pelo conflito luminoso. Correu, trotou lentamente e sentou-se, antes de pedir um café. Olhou com entusiasmo os caminhos que se configuravam.

As panelas, junto com conchas, colheres e facas, estavam penduradas pelas paredes. Somavam-se ao entorno estantes de garrafas de cerveja, fósforos, carvão, miudezas e tranqueiras, embaixo do baleiro. Pediu no pequeno e antigo bar uma cerveja.


Leia o texto completo do poeta, escritor e jornalista Pedro Pracchia clicando aqui. A partir de hoje, o Cordel da Metrópole figura do blogroll logo ali, ao lado direito.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Mário de Andrade: Reinventando o Brasil

Pra podermos usar a obra do homem, precisamos entendê-la, por isso posto abaixo o documentário Mário de Andrade: Reinventando o Brasil. Para mim, o filme tem um sabor especial: as participações do Professor José Antônio Pasta Jr, que me trazem à memória aulas geniais de Romantismo e de Machado de Assis.









Ficha Técnica
Direção e roteiro: Hilton Lacerda
Produção: Malu Viana Batista
Realização: Pólo Imagem e TV PUC para a TV ESCOLA/MEC, 2001
Duração: 31’06”

Bob Dylan encontra os Beatles

Dos vídeos mais engraçados que já vi. Bob Dylan e os Beatles fumando maconha: John formula a ideia de I'm the walrous, Ringo tem visões coloridas e assustadoras e George curte larica com meditação.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Poder da síntese

Em resumo: no primeiro semestre de 2009, ânimos refreados de incertezas; no segundo, desaguaram as ações necessárias aos espíritos provocados de ressaca. Nas últimas semanas do ano, a avaliação necessária dos equívocos e dos acertos. 2010: maturidade de quem não aguenta esperar mais.

sábado, 2 de janeiro de 2010

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Belém do Pará

"Suas impressões não podiam ser nítidas. A cidade vagava num nevoeiro morno, com as suas fachadas fugidias, trilhos faiscando, as torres da Basílica entre as sumaumeiras, estas desfiando lenta sombra na calçada nos telhados. Seu olhar, memória e imaginação em nada se fixavam. A cidade ondulava sempre. E ao chegar à casa dos Alcântaras, nada mais queria senão dormir. Belém era uma embriaguez".

O grande acontecimento 34 - Mário descobre a muiraquitã

Para Fábio Cardelli, que me deu esta ideia, sem saber

Mas nenhuma alegria, nem a de Carlos Christian, poderia ser comparada à de Mário, quando encontrou, no chão da Rua Cerro Corá, uma pedrinha verde esculpida, que ele não reconheceu, mas que era uma muiraquitã, provavelmente perdida por algum turista que veio da Região Norte, talvez de Belém do Pará.

O pequeno batráquio pétreo encantou de pronto o garoto de apenas 13 anos. Mário vivia com a tia-avó, porque o pai sumira no mundo, a mãe morrera no bar, o irmão tinha se mandado pros Estados Unidos para tentar segurar a bronca de ter uma família tão complicada. Mas é como dizem: quem nasceu no meio da confusão, de pequeno aprende a se virar. E Mário era sensível e esperto, se afeiçoara logo à tia que vivia numa praça próxima à Cerro Corá, velha sem marido ou filhos, que cuidava dele bem, fazia-lhe as vontades e lhe dava as coisas, desde que ele não fosse como a mãe, era esse o compromisso.

Caminhando, em pleno primeiro de janeiro, logo cedo, Mário se deparou com o pequeno bufonídeo esverdeado no chão, brilhando, como que esperando por um dono. Mas na verdade era o contrário: a pedra mágica é que tinha escolhido o garoto, por achar que ele era merecedor da sorte que ela dava. Mário tocou a muiraquitã, encantou-se e embolsou-a. Sentiu a partir de então um não-sei-quê de força, que o fez responder alto ao velho bêbedo da padaria da esquina, que sempre mexia com ele, aquele velho merecia mesmo uma resposta torta.

Não havia na cidade uma grande revoada de pássaros que pudessem cantar, só uns poucos, mas os que havia apareceram e saudaram o garoto, fazendo uma barulhada mãe. O garoto reverenciou, porque nunca tinha visto tantos passarinhos juntos assim em São Paulo - embora a muiraquitã soubesse que poderia haver muitos, muitos mais. Na volta para a casa, descobriu a tia velha morta: não teria mais os cuidados dela, mas a herança seria dele: era um consolo e, afinal, ele já aprendera a ser sozinho mesmo.

O garoto tocou a pedra, acariciou-a pedindo proteção - ele ainda não sabia que por causa dela se tornara Imperador do Mato-Devastado e Rei do Igarapé Tietê.

Continua