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segunda-feira, 26 de abril de 2010

Teoria e prática, sonho e vida

"Quando hás de, enfim, começar a viver virtuosamente?", disse Platão a um ancião que lhe pedia que escutasse algumas lições sobre a virtude. Não se deve apenas especular, mas é necessário também, de uma vez por todas, pensar em praticar. Mas hoje toma-se por sonhador aquele que vive de acordo com o que ensina.

Kant

domingo, 25 de abril de 2010

O sentido

O sentido está em não saber qual é o sentido, e, ainda assim, seguir acreditando, foi o que me disse o professor oriental de uma escola em que trabalhei, ele professor de química, eu iniciante, ainda no começo de carreira, encantado por frequentar salas de de professores, reuniões pedagógicas, conselhos de classe. Tudo era maravilha: as piadas dos professores mais velhos, os debates acalorados sobre política, as discussões a respeito de educação.

Fascínio que não tenho mais, claro esteja, as piadas hoje têm pouca graça, os debates escasseiam e as discussões redundam no lugar-comum. Ainda ecoam as palavras do senhor oriental, seja se não for um velhinho, que é mais gracioso chamá-lo assim, ele mesmo gostava. Acabaram-me com os sonhos, quem acabou não sei dizer, se os alunos desinteressados

(mas eles estão certos de não encontrar sentido no ensino, quem é que quer saber dos termos da oração ou ler Machado de Assis em pleno século XXI, ainda se lêssemos algo moderno, que lhe dissesse mais, ou se estudássemos algo que tivesse utilidade prática, é o que me pedem diariamente, mas nada na literatura ou na arte tem utilidade, é puro desfrute, e quem quer o desfrute? eu só, nas leituras pessoais e egoístas que estão cada vez mais raras, pego no livro e já durmo, amanhã é dia de acordar cedo)

se não foram os coordenadores e diretores

(lamento por eles, não imagino que sejam os culpados, perdidos entre as vozes que lhes devem ecoar na mente enquanto dormem, os pais de um lado, os donos da escola do outro, os professores abaixo, acima os alunos, todos rumorosos, todos cheios de razão, além dos problemas pessoais de todos eles, as separações, alcoolismos, traições, as drogas, os desempregos, os empregos assoberbantes, tudo que faz crescer e faz cair, todo dia nas mãos de pessoas simples, a quem se atribui a responsabilidade por tudo)

ou os pais de alunos

(na dúvida e na responsabilidade de ter um filho, e de fazê-lo bem-sucedido, se os pais cresceram pelo trabalho é a ética da rasteira, se nasceram em berço esplêndido é a lógica de ser servido, se nasceram pobres e assim continuam é a lógica de servir, com sorte a de revoltar-se, na maioria das vezes redundando na do trabalho, sobre as práticas ilícitas não sei nada, porque desconheço quem as adote, talvez conheça, mas prefiro não saber, deus me salve, eu mesmo não sei bem por que vim ao mundo, se quem me pariu me desejava como filho ou se me via como mais uma responsabilidade que lhe atrapalhava o curso da vida)

ou os outros professores

(que é que se pode querer de quem acorda tão cedo, dorme tão tarde, se doa pelos alunos na melhor das hipóteses, na pior escolheu ser professor por falta de escolha, deus me proteja de um paradoxo desses, e as vozes dos alunos, e sonhar com eles bagunçando, e saber que não tem voz, e que nos ditos populares somos sempre a parte fraca da corda, os de baixo, a falta de ferro na casa do ferreiro, a pedra dura que é atravessada pelos pingos d´água, se não forem cascatas, os alunos, a direção, os pais, a opinião pública, que nos joga nas mãos a responsabilidade pelo futuro do país, mais um clichê, que as escolas estão cheias deles, e mal sabemos quem somos e que país é este)

fato é que perdi a gana, tornei-me um professor protocolar, treinado, robótico, sem projeto, repetitivo, de piadas coladas umas às outras com a goma do meu travo de perder o sentido, apesar da falta, aprendi na faculdade, nas aulas de semiótica, mas a teoria toda se esvai, tudo que é sólido desmancha no ar, nada funciona, no eterno retorno da pergunta que reduz todo conteúdo e todo meu trabalho a nada: e pra que serve isso?

O sentido está em não saber qual é o sentido, e, ainda assim, seguir acreditando, é o que me responde o sábio ancião, professor de química, que está sempre calado quando o vemos, que costuma recolher-se ao laboratório, beber café no béquer, fumar escondido no banheiro, mas que é respeitado por todos.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

As coisas que não vemos

Não vejo. Os olhos quase que não me servem. Mas há coisas que tocam na pele da gente, que vêm no ar, assim como o vento e o cheiro da terra ou das flores. O amor é uma coisa assim mais ou menos. Tem cheiro. Cheira como a terra molhada com as primeiras chuvas. E bole nas nossas mãos como as aragens do sul, o vento palmelão, que transtorna o gado nas pastagens.

Alves Redol, em A barca dos sete lemes

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Um breve acometimento cardíaco

Para Daniel Groove, vocalista e letrista da banda O Sonso

Ontem tive um ataquezinho cardíaco. Não se assustem daí os poucos que me querem bem: foi pequenino o ataque, não foi suficiente para me fulminar, nem para que eu tivesse tantas dores no braço a ponto de ir ao hospital. Também não eram gases: sei a diferença entre gases e um infarto. Fato é que tive um acometimento cardíaco que me assustou, ontem, enquanto eu bebia cerveja e a banda tocava uma canção que me emocionou.

A sensação foi estranha, primeiro a impressão de que meu coração perdia o ritmo, a batida sofria uma virada estranha, desacelerava. Depois, formigamento no cérebro, não suficiente para que eu desmaiasse, mas bastante para anular-me por um instante a audição, como se tudo que eu ouvia ganhasse distorção. Não era mais a realidade, portanto, aquilo que me chegava à mente: era uma espécie de suspensão física, fúria desordenada em condensação de um verso que precedeu a pequena necrose do meu miocárdio, que já vai pras cucuias.

Não disse a ninguém que me assaltava a pequena lesão, que eu já conhecia. Tive a mesma sensação quando perdi o amor e o pai. Mas esta, ao mesmo tempo que me era familiar, também era nova, e era tudo mesmo assim: antes, o que me obstruía as artérias eram as perdas, numa inversão que desisti de entender há muito tempo; agora, era diferente: eu me sentia farto como se houvesse um estado pleno de estabilidade física em que é bom estar sempre, como se o átimo do salto de um verso para outro pudesse durar a eternidade do instante que me fez sofrer um pequeno ataque cardíaco.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Jair Naves e Los Porongas no Projeto Mais Massa



No dia 15 de abril, quinta-feira, a partir das 22h, na Livraria da Esquina, acontece mais uma edição do Projeto Mais Massa (www.maismassa.com.br), em que a banda Los Porongas recebe Jair Naves, de São Paulo.

Los Porongas (www.myspace.com/losporongas)

A banda que colocou o Acre no mapa da música brasileira começou sua trajetória em 2003, quando Diogo Soares (letras e voz), João Eduardo (guitarra, teclado, efeitos), Márcio Magrão (baixo) e Jorge Anzol (bateria) passaram a tocar juntos. O grupo logo chamou atenção da crítica especializada e se firmou como um dos mais talentosos e promissores nomes da nova safra do rock independente nacional. O CD de estréia, lançado em 2007 pelo selo Senhor F, foi gravado e produzido por Philippe Seabra (Plebe Rude) e reproduz em cada faixa a intensidade da banda. O CD figurou em dezenas de listas dos grandes lançamentos do ano, com destaque para a indicação entre os 25 melhores álbums de 2007, da revista Rolling Stone.



Em 2008, lançaram seu primeiro DVD, que faz parte da coleção Toca Brasil do Itaú Cultural. O trabalho mostra a trajetória da banda, suas influências e sua visão da cena musical independente através de depoimentos dos integrantes e de pessoas que fazem parte de sua história, como Philippe Seabra. O DVD também traz versões ao vivo de “Nada Além”, “Enquanto Uns Dormem”, “Suspeito de Si”, “O Escudo”, entre outras. O DVD foi lançado no programa “Altas Horas”, da Rede Globo.

Há quase três anos residindo em são Paulo, a banda prepara o lançamento de seu aguardado segundo álbum, depois de ter sido contemplada pelo Projeto Pixinguinha em 2009.

Jair Naves (www.myspace.com/jairnaves)

Araguari, primeiro trabalho solo de Jair Naves, chega ao público na forma de EP em janeiro de 2010. Na primeira audição e na passada de olhos pelos títulos das canções, percebe-se a homenagem à cidade que dá título ao trabalho e que fica ao norte do Triângulo Mineiro, celebrizada no cinema nacional pelo filme O Caso dos Irmãos Naves, sobre a prisão, tortura e morte de dois irmãos que confessaram um crime que jamais cometeram. Mas Araguari é também e principalmente um mergulho na memória do compositor, que passou parte da infância na cidade. As lembranças e experiências do compositor conduzem as canções, por vezes, ao lirismo das modas de viola e à nostalgia invertida das lacunas de quem se viu à margem; em outras, à volubilidade de quem não acredita mais no amor, mas que se vê surpreendido pela paixão; finalmente, ao travo da injustiça e do desajuste que Jair parece ter herdado da história da cidade.



Há uma gota de Álvaro de Campos, heterônimo do português Fernando Pessoa, especialmente na última canção do trabalho, como se o sujeito poético de Jair relesse a Tabacaria e as duas Lisbon Revisited e compusesse, à sua moda, de viola ou de guitarra elétrica, o imaginário pessoal cujo espelho é sempre uma Araguari, ao mesmo tempo, distante e presente, da infância e da vida madura, da falta e da completude. Finalmente: a Araguari deste mesmo Jair Naves da São Paulo de 2010 e de um outro, o que deixou a inocência na cidade mineira e que recupera, apresenta e confessa os fragmentos e desajustes de si próprio nas canções de Araguari.

Projeto Mais Massa
Jair Naves e Los Porongas

15/04/2010 - a partir das 22h
Na Livraria da Esquina - Rua do Bosque, 1254
R$ 15 ou R$ 10 com nome na lista: lista@maismassa.com.br

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Conferência sobre Clarice Lispector


Conferência sobre Clarice Lispector, com a Profa. Dra. Nádia Battella Gotlib. Imperdível.

Em tempo: ouçam "Clarice", do Volver, homenagem bonita para a escritora: