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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Dois artigos acadêmicos, pra fechar 2010

Acabo de publicar dois artigos acadêmicos, na trilha recente que tenho aberto na literatura portuguesa.

O primeiro, sobre o poema "Canção" de Fernando Pessoa, está na Revista Desassossego, dos alunos de Pós-Graduação do Programa de Literatura Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo: https://docs.google.com/viewer?url=http://www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/desassossego/conteudo/04/ARTIGO_Carlos_Rogerio.pdf

O segundo, sobre o conto "O Largo", do autor português Manuel da Fonseca, foi publicado nos Cadernos de Pós-Graduação em Letras do Mackenzie: https://docs.google.com/viewer?url=http://www.mackenzie.br/fileadmin/Pos_Graduacao/Mestrado/Letras/Artigo_Carlos_Rogerio_Duarte_Barreiros1.pdf

Ambos os textos, com todos os desacertos que uma pesquisa em andamento contém, me deixaram muito feliz: publicar um artigo sobre um poema de Pessoa é, de alguma forma, ainda que ínfima, ingressar numa tradição que me orgulha demais, e que venho acompanhando há bons anos. Da mesma maneira, no texto a respeito do conto de Manuel da Fonseca utilizei teóricos que venho pesquisando há bastante tempo, e cujo pensamento venho maturando e matutando até agora.

Enfim, foi ano de mão-na-massa acadêmica, o que tende a melhorar em 2011.

Deixo os artigos também nos links à direita, pra alguém que eventualmente queira consultá-los.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Piropo, sem afobação

Primeiramente a explicação do vocábulo incomum pra mim, que o conheci recentemente, embora já o soubesse, sem dizê-lo. Depois, em dois vídeos, a explicação da canção - por mais que canções e amores não tenham de ser explicados. A palavra é pouco.

Piropo
■ substantivo masculino
Regionalismo: Portugal. Uso: informal.
expressão amável ou lisonjeira dirigida a outro; galanteio

Etimologia
esp. piropo (a1440) 'certa pedra preciosa', (1843) 'galanteio'; segundo Corominas, a extensão de sentido deve-se ao emprego poético do voc. como símbolo de preciosidade, tendo sido usado tb. como termo de comparação a uma mulher bonita, talvez a partir do sXVII; ver 1pir(i/o)-

Sinônimos
ver sinonímia de galanteio



segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Os verbos e a possibilidade da felicidade

Certamente alguns dos poucos leitores deste blog esperam que eu faça comentários gramaticais, mais ou menos à moda de Pasquale. Já escrevi por aqui o que a gramática normativa significa pra mim. Repito, talvez de um outro jeito, agora mais meditado, o que já disse em diversas salas de aula: a gramática deveria ser parte integrante de cursos de leitura, não o inverso. Só temos de aprender gramática para poder usá-la em nosso benefício, no ato da escrita e da leitura. De resto, ela serve pra pouco ou nada - só pra cair em provas de concursos ou vestibulares, o que tem me sustentado ao longo dos tempos.

Mas para dar verdadeiro sentido às afirmações acima, declaro que em 2010 aprendi muitas coisas, em termos pessoais e profissionais. Arrisco dizer que, em todas elas, tive de aprender a ser mais humilde e menos exigente; a preferir o arriscado ao líquido e certo, não porque aquele seja "mais gostoso", como quer o vulgo, mas porque aprendi a mudar e a aceitar mudanças.

Assim, do ponto de vista gramatical, proponho a troca da eterna, recorrente e agrilhoante locução verbal "ter de", que indica obrigatoriedade (ou "ter que", na versão mais moderna, não aceita pelos mais puristas, deus nos livre deles o quanto antes), pelo mais leve, flexível e bem-humorado verbo auxiliar "poder", indicando possibilidade, jamais obrigatória e sempre condicionada aos desejos de quem a enuncia e às intempéries que, seja lá quem as comanda, acabam por comprometer-nos os deveres. Aliás, que já fique extinto também o auxiliar "dever", no sentido de obrigação; prefiro o "dever" que expressa dúvida, muito mais humilde do que seu irmão gêmeo. O mundo está cheio dos iguais que acabam por odiar-se; seja deus, seja o diabo que o parta: chega de teres de e de deveres.

A vida é mais fácil com o poder, indicador de possibilidade, também antípoda de seu irmão gêmeo substantivo - tão arrogante, que acaba por acreditar que pode tudo. Já eu aprendi que posso ou não comprometer-me com o que quer que seja: basta experimentar primeiro, verificar as afinidades e aguardar com paciência por um daqueles momentos certeiros travestidos de acaso, que precedem toda decisão, de qualquer ordem, profissional ou afetiva. A decisão já está tomada - Riobaldo Tatarana diria que "passarinho que se debruça - o voo já está pronto!" - mas hesitamos sempre, porque decidir também é sempre perder alguma coisa. Vem aquele pensamentozinho e a maravilha - acontece alguma coisa da ordem do inexplicável que mostra pra gente o caminho certo. Mas esse caminho a gente só sabe qual é com uma condição, aparentemente boba, mas necessária: abusar do relaxamento do poder, verbo auxiliar, indicando possibilidade. Abusar do poder, substantivo, claro está, é coisa de quem ainda não se livrou dos teres de e dos deveres.

Olha só: abusando do aspecto contínuo, associado ao poder, verbo auxiliar, indicando possibilidade, talvez possamos ser felizes - moventes mais livres nas possibilidades variadas de que falam alguns poetas. Faz tempo que aprendi que não somos felizes na maior parte do tempo, e que a felicidade é passageira - mas pode acontecer, vez por outra, olha que beleza! Aprendi em 2010 que para abraçar os átimos de felicidade é preciso eliminar os verbos de ação - não é preciso fazer nada. Bastam os verbos de ligação para se poder ser ou estar feliz. Digo mais: é preciso aprender que se pode ser feliz, mas que às vezes pode-se deixar escapar a felicidade ou simplesmente pode-se perdê-la, porque assim foi, porque o acaso assim soprou, agora travestido de sina, maldição ou, nos casos mais graves, de tragédia.

Mas a recorrência do poder, sempre auxiliar, sempre no sentido de possibilidade, assegura que é possível ser menos infeliz caso o empreguemos - palavra feia, mas não me ocorre outra melhor agora - com mais recorrência. O estado de felicidade talvez seja aquele em estamos mais ou menos próximos do equilíbrio, atentos às possibilidades que sempre se nos abrem - se sabemos abraçá-las cientes de que elas podem ou não ser oportunidades. A maravilha e a felicidade podem estar simplesmente em curtir, sem ter de fazer nada, sem exercício do poder substantivo, irmão gêmeo do poder, grande auxiliar de 2010.

Ah, mas, no centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais juízo!

Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas