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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O menino que não sabia rezar

Eu desafio um qualquer a me contar uma coisa que me faça chorar - bradava o mendigo em plena Estação Vila Mariana do Metrô, perto da catraca, do lado de fora. Ninguém sabia de onde tinha vindo - ele dizia que era um achado nos perdidos da Sé, que lá fora encontrado por si mesmo e que tomara o metrô até à Vila Mariana - bairro religioso, ele declarava. Aqui tem mais igreja por rua do que puta por esquina no Centro - era meio poeta o mendigo, isso ninguém negava. Mas as pessoas passavam rapidamente, sem tempo para dar atenção a ele.

Não parecia bêbado, só parecia atormentado. Ajudou um cego a dirigir-se à catraca, e só não o levou ao vagão porque o Bilhete Único precisava de recarga; deu informações a uma velhinha, que queria saber onde faria o jorei, o mendigo disse que era logo ali, saía, passava a banca depois da escada da saída, entrava na rua, à direita, uma casa do lado esquerdo, Da Messiânica, não é? É na frente do colégio das freiras. A velha assustou-se com o mendigo bem informado de religiões, agradeceu e apressou o passo. Os adolescentes de uniforme escolar cor-de-vinho - o mais feio dos uniformes - fugiam ao homem que cheirava a bunda, pinga, chão de rua, monturo - riam dele, chamavam-no bêbado - e ele desafiava: Me contem uma coisa que me faça chorar, assim mesmo, o presente do subjuntivo adequadamente flexionado, era um mendigo-norma-culta, riu um advogado que passou apressado. Dois meninos adolescentes tiveram pena do bêbado e ficaram ali, olhando pra ele, como se cuidassem dele - talvez porque tivessem medo de ficar daquele jeito um dia.

Eu quero ver quem é que pode me fazer chorar com uma história bem triste, ele repetia. Os meninos não tinham histórias tristes pra contar - eram de classe média alta, bem cuidados, estudavam na escola das freiras, faziam Cultura Inglesa logo ali, iam ao cinema do shopping aos sábados, moravam bem, tinham família, iam contar o que? Não entendiam nada de tristeza. Mas os seguranças do Metrô chegaram, e disseram que ali o homem não poderia ficar, incomodava os transeuntes, o metrô não era lugar de ficar - era lugar de passagem, de circulação. O mendigo riu: sem cano? Ninguém me tira daqui. Se ainda fossem uns PMs de revólver, eu ia embora. Mas vocês? Sem arma? E os seguranças do Metrô não encrencaram: quem desafia assim é porque quer briga; maluco desses, sempre portador de HIV, morde a gente na briga, cospe na cara e no machucado, já viu. E o mendigo ficou festivo: quem me conta uma história bem triste, bem triste de eu chorar, pra eu sair daqui, não querer mais ficar nesta estação, deixar ela pra trás, só por causa da tristeza da história, quem me conta? Não tem, não tem, gritava: nesse bairro tem até drive thru de oração, onde já se viu? E os meninos riam demais, resolveram ficar ali, até a história se resolver.

Aí os seguranças se lembraram do senhor que tinha a loja de flores e que cuidava dos bichos abandonados na Estação Ana Rosa - tempestade de homem, sempre quieto, mas que sabia as histórias do bairro, e de mulheres loucas desaparecidas em manicômios, e de brigas terríveis entre irmãos por causa de dinheiro, e de filhos terríveis que abandonavam os pais, tratando-os mal. Uma dessas devia servir para correr o mendigo dali, pois não? Tentaram, chamaram pelo rádio; na Estação Ana Rosa, os seguranças explicaram a situação. O homem veio. O mendigo entendeu logo que o homem que vinha ali não era deste mundo, e que devia saber uma história terrível, de fazer doer as entranhas da terra, de calar os pássaros, de fazer o bairro inteiro descrer em deus. E sentaram num cantinho, perto do lixo, em que se abancaram os dois adolescentes do uniforme feio também.

Tinha um menino aqui no bairro, filho de um comerciante muito rico. O menino não sabia rezar. E ele passava na frente de todas as igrejas, de todos os centros espíritas, de todos os templos, de todos os terreiros, de toda macumbinha boa ou má nas encruzilhadas - mas ele mesmo não sabia rezar. Pediu pras freirinhas da escola aqui da esquina  ensinarem ele a rezar, mas elas disseram ao pai que o menino não tinha jeito não - não era pactário, o pai que não se preocupasse, diabo no corpo não tinha. Mas era vazio, coitado. Pense numa pomba saudável, com as asas, com o porte, à beira do parapeito, mas sem o impulso que faz voar. Tinha corpo, mas faltava alma: esse era o menino. Quem não tem alma pode rezar?


Ele mesmo, o menino, se você perguntasse, ele mesmo queria saber rezar - sentir os mistérios de fé, que ninguém explica mas que todo mundo sente, menos o menino, é claro, que era vazio de sentido, coitado. Quem não tem alma, tem pra onde ir? Esse menino andava para cima e pra baixo o bairro todo, com o pai trabalhando, e ele vendo as igrejas, queria entrar, entrava, mas não sentia nada. Nem quando a freira mostrou o dedo mindinho arrancado da santa o menino se emocionou. Não sentiu nada. Era caso perdido. Falavam de fechar o corpo de uns; o desse menino era caso de abrir. Mas se abrisse e nada tivesse? 


Aí foi que o pai se lembrou da sogra, cuja casa parecia uma loja de artigos religiosos. Do lado do preto velho tinha índio, uma mensagem de cardecista escrita pra ela, com uma dúzia de nossas senhoras, todas aparecidas em algum lugar, iemanjás, todos os orixás, santinhos, santos, santões grandes, escapulários, água benta, incenso, livros do chico xavier, buda de costas, jesus cristo bem no centro, a mãe dele bem do lado, do outro um jesus oriental, todos os santos do vaticano, que eu não falo porque todo mundo conhece, e os santos in partibus, esses eu quero dizer o nome, santos do povo, padre cícero, antônio conselheiro, frei damião, são raimundo nonato dos mulundus, santo vaqueiro, santo joão de santo cristo, e todos os livros, os sagrados evangelhos, os evangelhos apócrifos, os evangelhos gnósticos, o evangelho segundo o espiritismo, o evangelho segundo jesus cristo, a doutrina social da igreja, a teologia da libertação, socialismo uma utopia cristã, as pegadas na areia, cordéis de todos os santos, grande sertão veredas, o fausto, o talmude, o corão, o mahabarata, a arte da felicidade do dalai lama, kama sutra, o ponto de mutação, o livro azul dos alcoólicos anônimos, toda sorte de incensos (o cheiro da casa da velha era já o cheiro do próprio céu, por causa de tanta coisa de deus que tinha lá e por causa da idade da velha, que já era tanta, mas tanta, que ela dizia que a morte já morava com ela, preguiçosa de levá-la para o outro lado, porque o cafezinho com bolo de fubá que ela fazia era bom demais, e aí ela engordava a morte, e ia vivendo mais) - todos os santos de todos os lugares, que a fé da velha era muita, muita. O pai do menino deixou o menino na casa da velha uma noite, sem dizer nada - se o menino queria ser padre, que fosse: era uma conta a menos pra pagar.


Vó, que barulho é esse na cozinha? E a velha respondia: é um espírito-criança que vem bagunçar as panelas da sua vó, deixe ele lá que ele não pode brincar como criança normal que nem você. E o menino ficou sisudo, então, porque percebeu que era a avó que ia ensiná-lo a rezar, finalmente. E viu aqueles símbolos todos num altar na casa, e o quadro de Nosso Senhor Jesus Cristo e viu que era ali que ele ia falar com deus mesmo.


Vó, me ensina a rezar? Eu quero rezar pra ela... - e se atrapalhou e quebrou a imagem que trazia na mão, uma nossa senhora trazida de Portugal. Mergulha na água corrente a imagem, meu filho, pra santa voltar pro céu. Mas como fala com a santa, Vó? Você fala assim - e ensinou a ave-maria pro menino, que quando terminou quis repetir a oração, porque achou bonita demais demais, queria de falar tudo novo, mas de um jeito diferente. Vó, ele perguntou, tem de saber de cor? Que é isso de cor? A freira da escola disse que pra rezar não precisava decorar, mas tinha que falar o que vem do coração. A Vó ficou calada observando a criança - o menino estava à beira da fé, tinha as receitas todas, era só agora sentir o sopro de deus, ela pensava essas palavras. Cantar não é melhor, Vó? Porque se a gente canta a nossasenhorinha não fica mais feliz? E é mais fácil de lembrar, porque, quando a gente canta, a gente repete, não é Vó? 


E a Vó achou que a fé do menino ia começar ali mesmo. Então vou te ensinar a cantar, filho - ela fez. E foi: "A nós descei divina luz", que ela cantava quando era nova que nem ele, num tempo sem televisão, nem internet, nem carro, não tinha nada, nem eletricidade tinha na casa em que a velha morava quando era novinha, só a luz das velas - e era uma propriedade ali bem perto de onde hoje é o metrô Ana Rosa. E o menino pensou na luz que descia, e viu uma pomba no altar da velha - e era o espírito santo, que era o pai, e era o filho, e tudo junto. Mas se o super-herói do desenho pode voar, esse jesuscristinho não pode voar, Vó? E podia, claro que podia, tinha um folhetinho de missa, da época da ascensão de jesus, em que ele aparecia voando. Eu quero ver o cabeludo voando, Vó! Fecha os olhinhos e reza comigo, meu filho, que você vai ver. 


E ele estava vendo: e via um pontinho de luz que se mexia - é bonito, Vó. Fica rezando, meu filho, que você vai ver mais coisa, e o menino ficou de olhos bem fechados fazendo força pra ver o cabeludo voando, a mãe dele feliz, porque ela era tão triste. Agora pede, meu filho, pede pra deus o que você quer. E o menino pediu pra deus para o pai não maltratar mais as pessoas, nem os animais que ele chutava os cachorros e os gatos, nem as pombas doentes que ficavam no parapeito da janela e que o pai do menino precipitava lá pra baixo. Agora o menino sabia: podia ser o espírito santo! Como ia jogar lá pra baixo? O pai não podia machucar a pomba assim, mais, nem maltratar os meninos pobres do farol. Então o menino pediu pra deus com força, muita força, pra fazer o pai dele ser um homem bom.


E nessa hora a velha disse que esse pedido não podia ser - que os homens é que tinham de mudar eles mesmos, não adiantava pedir a deus. O menino ficou silencioso e descrente num átimo de segundo, porque o que mais queria era que o pai fosse um homem bom, que tratasse bem os bichos, as plantas e as pessoas. Mas isso não era possível, então o menino se calou e engoliu o choro, porque não aprendeu a rezar nem a ter fé, mas virou homem nesse mesmo instante. E esse menino vazio de alma e sem sentido de vida sou eu, que fico o dia inteiro naquela loja de plantas, cuidando delas e dos bichos que as pessoas maltratam, esperando o dia em que os homens mudem, para eu poder ter fé e descansar em paz.

E nessa hora o mendigo e os dois meninos adolescentes choravam muito, porque também eles tinham ficado adultos naquele mesmo instante - eles viam a realidade como ela é, sem fé nos homens. O mendigo aceitou ir embora da estação, disseram que foi pra um albergue de pessoas de rua e cuidou do problema de bebida. Os meninos adolescentes voltaram pro colégio das freiras, olharam a relíquia e não sentiram nada. O velho que vendia plantas e cuidava dos bichos abandonados pelos homens foi despejado da loja e da vida - porque a Vila Mariana é considerada, no crescente mercado imobiliário paulistano, a extensão da Avenida Paulista, com toda a infraestrutura de transportes, principalmente o Metrô. Assim, a maior construtora da cidade comprou todas as casinhas antigas, demoliu-as e transformou tudo num grande empreendimento.      

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