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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Sismo a dois

Vi esta foto no blog Loucura Contagiosa (http://loucuracontagiosa.blogspot.com/2011/10/emaranhos.html) e não me aguentei: tive de escrever um trocinho.




Disseram: quem dorme junto mistura as almas. Não foi assim com a gente, as almas já vieram misturadas antes, ninguém sabe de onde. Nunca houve inocência entre nós - o que houve foi tesão logo de cara, se fôssemos só bichos eu diria que foi o cheiro, algum hormônio ativado de um no outro. Tanto que não aguentamos muita conversa, embora tenhamos conversado longamente. Mas o que a gente queria mesmo era sentir o gosto um do outro, e os nossos gostos misturados, você queria que eu sussurrasse no seu ouvido, eu queria que você gritasse que estava gozando. O suor: a gente queria verificar que aquele odor intuído era mesmo real, que nossos corpos se recompunham um no outro em corrente elétrica alquímica, sem receita, sem açúcar, assim amargo mesmo, como é o gosto das partes do corpo - cada uma delas guardava uma sensação mais secreta, que se amplificava em frase sem sentido, cada vez mais alta, cada vez mais baixa, uma putaria pela metade, porque a cabeça não funcionava, e íamos balbuciando raspas e restos do inconsciente, num sismo a dois, tremíamos e gozávamos.

O desleixo dos corpos: mal sabíamos que continuaríamos fazendo amor a noite toda, as pernas entrelaçadas, o hálito forte ao longo da noite, um pé confundido no outro, os pêlos em atrito quase doído, eu afogado no emaranhado do teu cabelo, do teu corpo, na confusão das  almas - era verdade, então. Disseram: quem dorme junto mistura as almas. Nunca foi assim com a gente, as almas já vieram misturadas antes. A inocência veio depois: acordamos juntos, na mesma hora, e não dissemos nada.


  

3 comentários :

Anônimo disse...

infinito assim.

Alê disse...

Lindo trocinho!

francisca disse...

traduziu o indizivel, contou uma historia conhecida, com belas palavras, mas quem te contou??? rsss...imaginario coletivo