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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Política, religião e vida social em Pessoa

Quando é que despertaremos para a justa noção de que política, religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética - a estética dos que ainda a não podem ter? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos de sinceridade e coerência tiver acostumado as suas sensações a viverem independentemente, se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida.

PESSOA, Fernando. "Ideias políticas em geral: do contraditório como terapêutica da libertação". In: Obra em prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Lançamento do livro "Textos em Contextos: Reflexões sobre o ensino da língua escrita"

Uma das autoras desse livro foi e é minha professora de redação, Márcia Castaldo. Não lhe rasgo a seda. Basta dizer que devo a ela tudo que sei sobre questões textuais - eu era um poço de arrogância, e ela me ensinava a corrigir redação pacientemente. Estarei lá, sem falta.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

De profissões, lentes e terapeutas

Sempre disse em aula, quando os alunos me perguntavam por que eu escolhera o curso de Letras, que eu acreditava que a profissão adequadamente escolhida serviria como lente para viver a vida. Assim: sendo eu professor de literatura, acabava lendo tudo na realidade como ficção, metáfora, alegoria, realismo mágico ou poesia mesmo. O que me acontecia na vida cotidiana era interpretado e entendido como fabulação, no sentido clássico mesmo, ponto de partida pra escrever um conto, relatar as dores aos amigos no boteco ou ponto de fuga pra eu transcrever no meu espírito, à minha maneira, as dores que me afligiam ou as alegrias que grassavam na minha vida.

Bonito, né? Mas não pode, me ensinou a terapeuta professora de felicidade: não posso transbordar pra vida amorosa, pessoal, com amadas, amigos ou familiares, a profissão. Se eu fosse economista, como seria? Todas as minhas crises seriam decorrentes dos ciclos inevitáveis do capitalismo; se eu fosse médico, acreditaria que tudo são disfunções hormonais; se tivesse escolhido matemática, veria fórmulas em tudo, mesmo nos fatos mais inexplicáveis, que só o seriam devido ao desconhecimento de todas as variáveis envolvidas.

Mudei de óculos ontem, para ver a vida, as pessoas, a profissão, a realidade, cada um à sua maneira, como se me apresentam, sempre em contextos diferentes, sem deixar de lado o lirismo que a vida nos dá de surpresa, ou aceitando o realismo naturalista cruel dos fatos inevitáveis; mais: sem deixar de acreditar que é possível fazer as generalizações da crítica literária, sobretudo a minha preferida, de tradição marxista, em que a matéria histórica ganha contornos literários.

Mas é assim: cada amor é um, cada pessoa é diferente, cada relacionamento ganha novas feições, com variáveis de toda natureza. Minha lente agora é lupa, para explorar a maravilha de cada detalhe, por mais que seja passageiro ou não tenha utilidade prática no mundo das mercadorias; minha lente agora é telescópio, à cata das estrelas, que não têm explicação, mas brilham.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Proglotes e Interatombes de Tiago Barizon

O amigo, parceiro, sócio, conselheiro, bom bebedor, Tiago Barizon deu início, se não me engano, hoje mesmo, a um blog, as Proglotes e Interatombes, cujo endereço vai a seguir: http://barizon.net/blog/

Não perco tempo explicando o que sejam as proglotes ou interatombes do título, nem contando como conheci Barizon ainda na época do colégio, nem mesmo relato que o segui por shows em toda a cidade de São Paulo, muito antes de a Identidade Musical existir.

Conto apenas que o primeiro texto do blog do Bari foi sobre o amor - exatamente o mesmo tema da pequena fala que fiz na cerimônia de cremação do meu pai, que era da Geração do Amor, ao contrário da maioria dos leitores deste blog. Nossa Geração? Minha Geração? Nem sei se dá pra falar disso, sobretudo depois de décadas de neoliberalismo desenfreado. Nem mesmo sei se a paixão e o amor estão em primeiro plano para as últimas gerações, acho que não estão, é o que vejo: novas gerações (inclua-se aí a minha), que deveriam se revoltar contra as instituições, têm cada vez mais optado por ingressar o quanto antes nas estruturas para engrossar as fileiras, não para fazê-las ruir. Muito do ceticismo que faz arrefecer este blog vem dessa impressão.

Mas acontece que Barizon me dedicou o texto, texto sobre amor e paixão de ter escolhido fazer o que fazemos, logo depois de dedicá-lo ao filho e à esposa - e isso muda tudo.

Digo assim: a frase “The day you open your mind to music, you’re halfway to opening your mind to life”, de Pete Townshend, que fecha o texto do Bari, é a síntese do que aconteceu na minha vida nos últimos quatro anos: eu percebia, por meio das canções novas que aprendi a ouvir com ele, que havia novos conteúdos - afetivos, energéticos, sociais, políticos, psicológicos, familiares, amorosos, financeiros e tudo o mais que couber aqui - circulando, dos quais eu estava completamente alienado.

A impressão que eu tinha era a de que, por meio da audição das canções, eu tomava contato com um mundo - não um mundo novo, porque ele já existia há tanto tempo quanto aquele da bolha em que eu vivia - repito, eu tomava contato com um mundo desconhecido, que me obrigou a renovar-me, a deixar preconceitos para trás, a repensar minhas posturas políticas; digo mesmo sem medo que aprendi a me relacionar com as pessoas, pessoas concretas, e não com o poço de arrogância que eu era, ainda sou, mas tento deixar de ser, nem com as fantasias que eu tinha.

As canções que eu tenho ouvido me ensinavam a amar, ainda que eu estivesse atrasado na tarefa, empoeirada dos anos de dedicação apenas ao sucesso profissional. Nem sei se eu sabia amar antes.

E assim, na mesma semana em que eu aprendi a pedir desculpas e a falar dos meus medos, descobri que aprendi a amar. E enquanto eu amava, ao fundo, tocava uma canção que o amigo, parceiro, sócio, conselheiro, bom bebedor, Tiago Barizon, tinha me ensinado a ouvir.