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quarta-feira, 30 de março de 2011

Desaparecimento

"a escrita é destruição de toda a voz, de toda a origem. A escrita é esse neutro, esse compósito, esse oblíquo para onde foge o nosso sujeito, o preto-e-branco aonde vem perder-se toda a identidade, a começar precisamente pela do corpo que escreve".

Roland Barthes, "A Morte do Autor". E concluo que escrever é boa forma de desaparecer. Escrevamos.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Um poema medíocre

como são estes todos. E eu ainda procuro os sinais.

Poema comemorativo-digitado

O último dia do primeiro mês
não precisa dos excessos
dos últimos anos.

Pensei em dor crônica,
nos signos exagerados do correr da cinza,
mas me veio um travo saboroso.

Escrevi em caligrafia ébria
o líquido dos dias pretéritos,
mas descobri a fonte simples da mediania.

Esquizofrenei em desmedidas
as doses exatas da sandice e da razão,
mas tenho dormido a dosagem inepta da infância.

Inspirei-me-expirei as meditações simples
das intensidades inexatas do corpo,
mas entorpeci-me das carreiras inocentes das carícias.

Entupi-me dos lugares-comuns da autoajuda
e das terapias revezes do corpo e da alma
e engoli os emplastos todos, as flores astrais.

Sofismei sistemas completos, sublevei-me às escondidas,
transliterei e verti, em traduções ao pé da letra
do que não fui – eu cópia pessoa.

O último cigarro da vida
não esfuma a razão dos sentidos
nem oculta a impropriedade destes versos.

O empirismo e a psicologia barata
não comprometem mais que a credibilidade
adquirida do que nunca fiz nem escrevi.

Pensei em poeta maldito,
mas me ocorreu certo mal-estar de vida concreta
e escrevi mundo real em letras garrafais.

Pensei em romance além-da-vida,
mas me lembraram as contas a pagar – a falta de saúde:
e escrevi bem-dormir.

Pensei em escrever numa lápide
não vim no mundo pra ser pedra,
mas lembrei que não tenho muiraquitã.

Pensei em talento e em viver de escrever
– direitos autorais são ativos –
mas escrevi versinhos medíocres sem receber

E logo pensei em espaço pra todos,
obra de arte na época de reprodutibilidade técnica,
e logo escrevi sem função poética.

Pensei em processos metempsicóticos,
revelações, em conjunções astrais e subordinativas,
mas redigi este poema de mercado.

O primeiro mês do último dia
não precisa dos apreços e da desfaçatez
das mentiras dos últimos anos.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Revista Outros Ares

Transcrevo abaixo as informações sobre a Revista Outros Ares, encampada pelo amigo incansável Marcelo Barbão, que tem também os blogs Caderno de Escritura e Direto de Buenos Aires.

Se contos e relatos são ignorados pelo mercado editorial “normal”, só restam revistas e espaços alternativos para as chamadas histórias curtas. Mesmo sendo uma das mais finas artes literárias, com grandes representantes no Brasil como Machado de Assis, Lima Barreto, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector – sem contarmos os contemporâneos como Marcelino Freire, Luiz Vilela e Nuno Ramos –, o conto luta para sobreviver. Muitos ainda pensam que contistas são aqueles que estão “treinando até conseguirem escrever um romance”. Nada mais errado.

Por isso, a revista Outros Ares vem ajudar na divulgação do conto, abrindo espaço para novos escritores brasileiros. Apesar de não ser um critério excludente, daremos prioridades a autores inéditos em papel. Também abriremos espaços para outras narrativas curtas, como fragmentos de romances, crônicas, etc.

Além disso, a cada mês entrevistaremos um escritor consagrado, publicando também uma pequena amostra de seu trabalho.

A Outros Ares, seguindo as novas tendências de distribuição de literatura, além de poder ser lida aqui no blog também será colocada para download em formato de e-book, podendo ser lida em computadores, tablets e e-readers.

As contribuições não têm limitações temáticas. Teremos apenas uma preocupação em relação ao tamanho dos textos, que devem ter no máximo 5 mil caracteres (incluindo espaços). Os interessados em colaborar podem enviar suas produções para o e-mail revistaoutrosares (arroba) gmail (ponto) com.

Quem somos

Marcelo Barbão – (@barbao) escritor, tradutor, jornalista e editor. Publicou “Acaricia Meu Sonho” (Amauta – 2007) e “A Mulher Sem Palavras” (Vieira & Lent – 2010). Cofundador da Amauta Editorial (2004 – 2008). Desde 2008 vive em Buenos Aires e mantém os blogs Caderno de Escritura e Direto de Buenos Aires.

Rafael Rodrigues – (@entretantos) escritor, resenhista e editor. É editor-assistente do Digestivo Cultural, um dos principais sites de cultura do Brasil. Colabora com diversos veículos de comunicação, entre eles as revistas Brasileiros, Conhecimento Prático Literatura e Conhecimento Prático Filosofia, do jornal Rascunho e do Suplemento Literário de Minas Gerais. Atualmente mantém o blog Entretantos dentro do portal da revista Bravo!. Mora em Feira de Santana.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Escatologia no Mundo Mundano

Fábio não deu bom dia à moça gostosinha que distribuía o jornal, nem lhe sorriu como fazia diariamente, talvez um dia ela lhe desse o telefone, ou entrasse no carro, ou lhe dissesse uma boa sacanagem no ouvido, ou lhe pagasse um boquete furioso, ou o raptasse e lhe desse uma surra de xoxota, Fábio sonhava com uma putariazinha dessas, mesmo sabendo que a moça lhe sorria apenas artificialmente, era a orientação que ele próprio dava às suas vendedoras, melhor dizendo, consultoras, que sempre sorrissem, o trabalho era uma coisa, a vida pessoal era outra, e esta podia melhorar se aquele prosperasse, deus abençoe a todos os brasileiros, mas lembrou-se: deus morreu.

Menos eu

Estava correndo atrás do amor e de mim. Aí parei no coração do Brasil e lá fiquei, mudo e quedo, entre enormidades de rocha.

sábado, 12 de março de 2011

Vinde a mim todas vós ou Conto caboclo da mulher viúva

Rosilene estava desembainhando toda sua vida amorosa na minha boca e não cessaria porque aquilo era justo, e porque ligava-se a mim, sem volta, pelo mamilo esquerdo e por seus dedos enredados no meu topete celeste. A padaria onde era atendente jamais vira tanta luz. Nem Rosilene jamais fora tão redimida de sua viuvez. Eu, Jesus, não deixaria nenhum amor sem resposta.

terça-feira, 1 de março de 2011

"Taxi Driver", no Cine Xangai

o cineblog BANDIDOS DO CINE XANGAI TRAZ TAXI DRIVER PARA CARTAZ ESSA SEMANA...

É a história de Travis Bickle (Robert DeNiro) é um jovem veterano do Vietnã, que volta para as ruas de Nova York trabalhando como motorista de táxi. Conhecendo melhor todos os podres das vielas da cidade, seu caminho se cruza com o das jovens Betsy (Cybill Sheperd) e Iris (Jodie Foster), uma prostituta de apenas 12 anos, o que o faz se revoltar com tudo e com todos, explodindo sua raiva e violência que sempre demonstrou ter. Ele planeja um atentado contra um senador e, sozinho, ainda bate de frente com os cafetões de sua mais nova jovem amiga. Abaixo o linkão: