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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Patrícia Palumbo

Acabo de incluir o site de Patrícia Palumbo na lista dos meus preferidos, à sua direira: http://patriciapalumbo.com/. Dia 11 de maio, terei a chance de aprender muito com ela, lá no Itaú Cultural.

Aqui está a lista de edições do programa Vozes do Brasil, que ela leva na Eldorado: http://int.territorioeldorado.limao.com.br/eldorado/audios!getAudios.action

quinta-feira, 28 de abril de 2011

O jovem House

Um House mais feliz e jovem, ao piano, ao lado dos amigos. Depois viriam dinheiro, opiáceos, vaidade - tudo carregado de certo cinismo, que não deixa acreditar no amor.

A generosidade humana, segundo Rogério Duarte

Só não há generosidade humana para aqueles que, como eu, sempre foram incapazes de exercê-la.

deus, segundo Saramago

Deus é uma criação humana e, como muitas outras criações humanas, a certa altura toma o freio nos dentes e passa a condicionar os seres que criaram essa ideia.

Em Outros Cadernos de Saramago.

Arte & Biblioteca - Música Popular Brasileira Contemporânea, no Itaú Cultural

Terei a chance de participar do debate abaixo, no dia 11 de maio, ao lado da jornalista Patrícia Palumbo, no Itaú Cultural. Se puderem, apareçam.


Aqui o link: http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2841&cd_materia=1568


Atual cenário da música brasileira é tema de palestra
Mesa discutirá relação entre tecnologia e música e questões como acesso, produção e divulgação musical

A música popular brasileira contemporânea abre o ciclo de palestras e oficinas promovidas pelo Centro de Documentação e Referência/Observatório Itaú Cultural, em um debate com a presença da jornalista Patrícia Palumbo e do produtor e professor Rogério Duarte.

A mesa discutirá o atual cenário da música brasileira com o advento da tecnologia e das novas mídias, perpassando questões como acesso, produção e divulgação. Patrícia Palumbo fala das características estéticas desta produção e Rogério Duarte foca no mercado e na divulgação musical.

Durante os próximos meses, profissionais ligados à arte e à cultura participam de atividades como essa. Acompanhe a programação pela nossa página no Facebook ou pelo Twitter!

Patrícia Palumbo é jornalista, apresentadora dos programas Vozes do Brasil na Radio Eldorado, Conversa Afinada na TVE Brasil, Sesc Instrumental na rede SescTV e Canal Brasileirinho na TAM. Escreveu os livros Vozes do Brasil vol.1 e vol.2 pela editora DBA e atualmente presta consultoria para o desenvolvimento da Enciclopédia de Musica Brasileira do Itaú Cultural. No ano passado, apresentou, no instituto, uma palestra sobre o acervo da Midiateca. Confira as fotos!

Rogério Duarte é diretor de conteúdo da produtora Identidade Musical e do selo independente Baritone Records. Formado em Letras, é professor há mais de 15 anos e pesquisador de literatura e canção popular. Defendeu mestrado a respeito das relações entre a canção "Faroeste Caboclo", da Legião Urbana, e duas obras da literatura brasileira: Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.

Serviço

Arte & Biblioteca - Música Popular Brasileira Contemporânea
quarta 11 de maio
19h30 às 21h30

entrada franca - ingresso distribuído com meia hora de antecedência
(70 lugares)

classificação livre

Itaú Cultural - Sala Vermelha | Avenida Paulista 149 - Paraíso - São Paulo SP [próximo à estação Brigadeiro do metrô] informações: 11 2168 1777 | atendimento@itaucultural.org.br

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Sobre boquete

Para as americanas, o boquete era o gran finale ideal de qualquer boa ficada. A progressão normal da ficada era o boquete. Pagavam boquete com enorme facilidade, adoravam, lambiam os beiços - e depois batiam no peito pra se dizer virgens, que estavam se guardando pro homem dos seus sonhos. (...)

Para as brasileiras, o boquete era sexo. Era algo que só se fazia com o homem com quem já se estava transando, depois de estarem mais íntimos e confortáveis com seus corpos.



Texto do Alex Castro, é claro: http://www.interney.net/blogs/lll/2011/04/27/a_funcao_social_do_boquete/.

Conferência: Poesia Portuguesa Medieval


A quem possa interessar.

Download: novo disco dos Los Porongas


Faça download do segundo disco dos Los Porongas clicando aqui

terça-feira, 26 de abril de 2011

Cambuci Roots



Saiu no Catraca Livre uma matéria sobre o Cambuci Roots - desses espaços que agregam pessoas espetaculares que conheci nos últimos quatro ou cinco anos. Diria o seguinte: em termos de mercado fonográfico, de um lado, e de ousadia e riqueza artística, de outro, vivemos um tempo espetacular, que não deve nada às gerações anteriores. Melhor ainda: talvez este tempo seja único exatamente por causa de espaços como o Cambuci Roots, em que as equipes de produção e de criação compõem um todo coerente, cuja finalidade única é a arte.  

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Um trecho de Dostoiévski

Mas sabeis, senhores, em que consistia o ponto principal da minha raiva? O caso todo, a maior ignomínia, consistia justamente em que, a todo momento, no mesmo instante do meu mais intenso rancor, eu tinha consciência, e de modo vergonhoso, de que não era uma pessoa má, nem mesmo enraivecida; que apenas assustava passarinhos em vão e me divertia com isso. Minha boca espumava, mas, se alguém me trouxesse uma bonequinha, me desse chazinho com açúcar, é possível que me acalmasse. Ficaria até comovido do fundo da alma, embora, certamente, depois rangesse os dentes para mim mesmo e, de vergonha, sofresse de insônia por alguns meses. É hábito meu ser assim.

Fiodor Dostoiévski. Memórias do Subsolo. Tradução de Boris Schnaiderman. Editora 34, p.16.

25 de abril



Há de chegar o dia em que não haverá ilusões de controle dos homens e em que o povo ordenará nas cidades.

domingo, 24 de abril de 2011

O grande acontecimento 34 - Martim Crestado queima o filme

Até grandes acontecimentos demoram a acontecer. Diga-se: há tempo de cozinhar, há tempo de comer. Mas é o breve instante entre preparar a primeira garfada, farejar o odor do prato longamente preparado, aproximá-lo da boca sem abocanhá-lo, já os leitores percebem a pobreza vocabular do autor, tatear, num instante breve, o alimento nos lábios, para certificação de que não serão queimados, até finalmente saborear a feijoada cremosa, misturada à couve, a boca ainda amarga da caipirinha de Espírito de Minas, que também sem a cachaça, ninguém segura esse rojão.

Martim Crestado queimou a boca num almoço de negócios, na Vila Madalena. Não que fora sua culpa: era novato, foi perdoado depois, os leitores não precisam preocupar-se com a sorte de nosso efêmero protagonista, outros virão, porque estão retomados os grandes acontecimentos. Mas Martim queimou o filme: elogiou o produto do concorrente, fazendo torcer o nariz aos superiores e aos inferiores. Ficou vermelho - desnecessário dizer, já no nome carrega a cor, ainda que pudesse estar queimado a ponto de tostar feito leitãozinho a pururuca e ficar preto-carvão, está criado mais um nome de cor para acentuar as vendas das lojas de roupas do mesmo bairro.

Não foi propriamente elogio - foi alusão elogiosa à estratégia adversária. Seguiu-se ao mal-estar uma desconversa de quebrar o gelo - por mais que a coisa tivesse esquentado e que Martim estivesse queimado, era preciso quebrá-lo, pedir mais um gelinho para a caipirinha, diluir a pinga em água, transformar a água em vinho, bebê-lo, e corrigir o traçado do papo. Desse modo, Martim procrastinou quanto pôde, sorriu amarelo, este é um texto sinestésico à moda de quem não tem mais o que escrever, mas o faz apenas pelo desfrute, apenas pela retomada da mão, que de filmes queimados também este autor está farto, gelos já não sabe mais quebrar, Martim, dizíamos, retomou a compostura e pediu desculpas: propriamente o grande acontecimento de sua vida, que pedir desculpas tem caído de moda, deixa-nos a todos vermelhos, mas faz recuperar a integridade, quebra o gelo e repõe a vida nos trilhos - esta última metáfora já especialmente gasta, de modo a encerrar o texto num lugar-comum, para não criar expectativas.    

Câncer em São Paulo


sábado, 23 de abril de 2011

O dia do demônio

Foi num desses dias de fazer nada: não era domingo, mas tinha missa, e os espíritos agitados, desses que fazem andar a vida, tinham me ocupado a mente, o corpo, o espírito. Era dia de não fazer nada – eu teimoso, fui e fiz. Gente como eu devia viver um dia de cada vez, ficar limpo pra não machucar o alheio. Mas pergunto: e se o alheio nos machuca, devemos dar a outra face? Isso é que não faço.
Mas era destes dias: o homem vai, sonha os maus sonhos, se ocupa nos tubos pra não estragar tudo. Porque veja: há pessoas queridas. E essa gente como eu – pra estragar os dias, machucar os entes próximos, é um pulo. Não tem nada, ninguém viu. A alma da gente fica como se fosse cachorro brabo, à espreita, esperando o pássaro. E não vê nada, não percebe que é bonito o pássaro voar, você já viu cachorro comer pássaro? É só o desejo de romper o voo, pular mesmo no infinito, atingir o bichinho em pleno desplante de liberdade. E quando cai, bico torto, asa ferida, é só brincar com ele, fazer carinho, se compadecer do animalzinho que a gente mesmo feriu.
Você me aponta bem: há pássaros e pássaros. Tem os que pedem pra gente agarrar no ar, tem os bobos que se metem aqui embaixo, onde vive esta gente que nem eu. Nestas terras, não somos cachorros, somos lobos, eu mesmo já os vi em caçada, qualquer detalhe eles percebem, a audição fica aguçada que um passinho a mais, atacam; a visão também – mas não se vê tudo que se quer? Você me entende: as histórias todas contadas têm lacunas, passagens que ninguém viu, nem mesmo os personagens. E essa gente que nem eu é boa de contar as vantagens: e pra impressionar quem ouve, usam os espaços todos das histórias para colocar fraquezas à moda de fortalezas. Essa gente que nem eu pode não ter vivido nada: um vai, ficou trancado em casa a vida toda, saiu só pra compra de comida, arranjar uns reais, até sujos, barbados ficam. As mulheres você nem quer ver. E se apegam aos bichos – não tem aquela mulher vizinha sua que tem trinta gatos em casa, não interessando quantos sejam antigos, quantos tenham vindo hoje? Essa gente que nem eu não se cuida, não se vê. Mas são bons pra contar o que não fizeram – sonhos de noites mal-dormidas, não calculam o que é estar acordado, o que é estar dormindo.
E as histórias vão: não tem herói – eles mesmos, na maioria das vezes – que precise conquistar força, ajuda, orientação num mestre. Nasceram prontos. Eu mesmo calculo que sei de tudo, que já vi tudo, as pessoas todas eu classifico em duas ou três categorias. Não conto isso pra mais ninguém – tenho vergonha. Se me pedem pra contar a história, hoje, calo: melhor ficar no escuro, ninguém fala de mim, se me percebem, vou pra sombra pra não verem que estou doido pra virar sol.
O mal é todo esse: virar sol, neste tempo, carece de preparação, cuidado, estudo, experiência, conversas de tudo e nada, que essa gente como eu se esqueceu de cumprir. Os escolhidos – é assim que essa gente como eu se vê; os coitados – é o que somos.
Eu dizia: nas histórias, não tem pedaço mal-contado, todo detalhezinho vago vira uma contação – pode ser história nova pra daqui a pouco. Mas sujeito vai, conta tudo do jeito que pensa ser e cai na armadilha: se são assim as histórias que eu vivo, não são assim as dos outros? Que tem nas lacunas? E sujeito tem duas opções: preenche os espaços com os maus sonhos sonhados a noite toda – porque hoje é daqueles dias de fazer nada, dia do demônio; ou preenche tudo com as histórias vagas dos outros amados, que sujeito não viveu, mas pegou pra si.
Hoje é dia de demônio, de não fazer nada – eu teimoso, faço. Gente como eu devia viver um dia de cada vez, ficar limpo pra não machucar o alheio.

Escrever

Escrever é abalar o sentido do mundo, dispor nele uma interrogação direta, à qual o escritor em último suspense, se abstém de responder. A resposta é cada um de nós que dá, pondo nela a sua história, a sua linguagem, a sua liberdade.

Roland Barthes

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Páscoa

Muito provavelmente, Cristo não desceu ao mundo dos mortos e voltou: tudo não passa de uma criação primitiva, que vem sendo repetida há séculos para a manutenção do poder e a mortificação dos homens. É primitivo, também, supor que o que se comunga na missa sejam o corpo e o sangue de Cristo, bode expiatório das atrocidades que os homens cometem, para que possamos dormir tranquilos, afinal ninguém mais acredita que vai pro inferno, ou que tem mais garantido um lugar à direita de deus pai, se adotar uma vida ascética. Deixemos de lado a mitologia: corpos, sangues, sacrifícios, imolações - tudo isso cheira à existência primitiva da humanidade. Deixemos de lado a escola e o ensino religioso, a confusão Estado e Igreja, assumamos a vida humana no que ela tem de fascinante - o amor, em primeiro, a arte que vislumbra uma realidade diferente, logo depois - e no que tem de mais selvagem - os horrores do cotidiano.

Se é pra rezar na Páscoa, que façamos um exercício introspectivo, livre de deuses e de sentimentos de bom coração que caberiam numa reportagem vagabunda da revista veja. Abandonemos a esperança. Se é pra se privar de alguma coisa, que seja da alienação em que a esmagadora maioria de nós se acomoda largamente. Se é pra distribuir algo, que sejam intenções reais de comprometimento com a realidade concreta. Se é pra amar, que seja de verdade, não um amor na logiquinha medíocre do mercado de compra e venda. Se é pra viver, que seja na dor do cotidiano, não na alegria cega dos manuais da felicidade por meio do consumo - e experimentando, de vez em quando, a efemeridade gostosa de algumas pequenas alegrias que a vida traz.

Sinto-me hoje como um certo professor descrito por Machado de Assis. Já estas linhas, estas que escrevo agora, não têm outra finalidade que não seja despejar virtualmente este turbilhão que me vai dentro. Senti vontade de gritar às velhinhas na frente da casa que não havia mais jeito: a vida seria ainda pior; pensei em urrar às crianças que brincavam no parque que aproveitem, que o futuro é mais obscuro do que elas esperam; joguei as bitucas no chão, não reciclei as latas, deixei a luz acesa sem necessidade, desperdicei água, desandei todos os convívios familiares com frases que desconcertavam a todos, comprometi todas as alternativas de saída da humanidade com um só pressuposto teórico.

Já deixei esta mensagem antes, aos meus poucos leitores. Repito-a, porque ela se faz mais atual - eu mesmo não consigo levá-la adiante, mas tento:  

“Trata-se, na ordem teórica, de crer um pouco menos e de conhecer um pouco mais; na ordem prática, política ou ética, trata-se de esperar um pouco menos e de agir um pouco mais; enfim, na ordem afetiva ou espiritual, trata-se de esperar um pouco menos e de amar um pouco mais”.

No livro A felicidade, desesperadamente, de André Comte-Sponville.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Sobre a semana e as vagas no estacionamento

É bem capaz que esta pequena semana tenha sido a pior das que vivi nos últimos, sei lá, quinze anos. É bom ficar velho, contudo, pra aprender que semanas como esta passam.

Os poucos que me acompanham neste blog certamente conhecem meu grave emputecimento com gente folgada, que acha que pode tudo. Aí o professor Toni postou o vídeo a seguir, que me deixou felizão, porque brigo demais com gente folgada que estaciona em vagas para deficientes ou para idosos.


Esta vaga não é sua nem por um minuto from Bruno Siqueira (malha) on Vimeo.

Me lembrou, desculpem a falta de modéstia, um texto meu, que publiquei na Mundo Mundano, sobre gente que trafega no acostamento: http://www.mundomundano.com.br/v1/?com=secao_conteudo&secao=6&conteudo=579.

Peço o que li no muro daquela escola que tem na frente do Mercearia, segunda, acompanhando de bons amigos que têm me ensinado a viver: "Mais amor, por favor".

Uma voz

Alex Castro tem 37 anos

E eu, hoje, também com trinta e sete anos, também com a saúde perfeita, também planejando não parar até morrer, sei que vai chegar o dia do meu derrame, infarto, câncer, glaucoma. Pois se até esse homem morreu, que esperança eu posso ter? Ele escreveu essas linhas e teve mais dezoito anos. Eu, quantos anos terei?

A vida é curta. Se, no dia do infarto, eu tiver sido escritor (mesmo que fracassado, medíocre, deslido) mas não doutor, minha vida vai ter valido a pena. Se não tiver sido escritor mas sido doutor renomado, crítico celebrado, professor festejado, autor de diversos e sensacionais estudos sobre a obra dos outros, estudos esses escritos em detrimentos da minha, vou morrer triste, desgraçado, fracassado.

Os pouquíssimos que acompanham este bloga sabem que gosto do Alex Castro. Leia o texto todo aqui: http://www.interney.net/blogs/lll/2011/04/20/alex_de_volta_ao_brasil_de_vez_faq/

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Pitangas

"Pitangueira deu frutos. Forrou o chão de vermelho alaranjado. Ficou bonito, coloridinho e diferente. Combinou com o dia claro. E imagino: mais combinará com o fim de tarde. O pôr-do-sol avermelhando o céu, como a fruta fez com o chão. Bonito de ver a aproximação das nuances. E o fruto em harmonia com todo o resto. 
Um recorte sobre a finitude das coisas. Da vida... 
E por isso - pelas boas efemeridades do dia - chorarei pitangas. Apenas pitangas. Uma pitanga para cada lágrima guardada. E estarei salva".

Da menina colorida, que sempre vale a pena ler.

Eu estrangeiro

"Só me enxergam estrangeiro 
Só não faço teu consenso, então
Eu também sou daqui
Dispenso a negação
E essa lama nos teus dedos
Não traduz o meu desejo, em vão
Meu vício é bem maior
Na minha solidão
"

Ah, Bruno Souto: você escreve tudo que eu queria escrever.

"Pai e mãe", Gilberto Gil

Por incrível que pareça, não achei a música no Youtube. Então vai a letra, de Gilberto Gil:


Eu passei muito tempo aprendendo a beijar
Outros homens como beijo o meu pai
Eu passei muito tempo pra saber que a mulher
Que eu amei, que amo, que amarei
Será sempre a mulher como é minha mãe
Como é, minha mãe? Como vão seus temores?
Meu pai, como vai?
Diga a ele que não se aborreça comigo
Quando me vir beijar outro homem qualquer
Diga a ele que eu quando beijo um amigo
Estou certo de ser alguém como ele é
Alguém com sua força pra me proteger
Alguém com seu carinho pra me confortar
Alguém com olhos e coração bem abertos
Para me compreender

Crianças em minha casa

Neste domingo, a casa esteve cheia de crianças. Não eram minhas, claro está. Eram filhos queridos, de amigos queridos: exatamente as crianças que figuram em um porta-retratos em minha sala. Há outras fotos por aqui, todas de pessoas mortas, que tiveram importância em minha vida, por mais que não as tenha conhecido: há líderes políticos e poetas, basicamente. As crianças que vieram aqui, entretanto, acotovelam-se entre personagens históricas e as fazem calar. Em lugar de discursos acalorados, frente a multidões por vezes emocionadas, por vezes enraivecidas, os dois meninos gritavam palavras de ordem retiradas de desenhos animados, abecedários aprendidos nas escolas, máximas que os pais lhe ensinaram - "por favor, Tio Rogério" ou "Obrigado, Tio CR", para uma pequeno grupo, este apenas amortecido da vida, mas renovado de brincadeiras pueris, frases soltas, carícias inesperadas que os pequenos apresentavam em espetáculo mambembe.

Não há poeta que ombreie os textos produzidos pelos dois pequenos: em lugar de rimas, divertiram os adultos com trocadilhos infantis que valeriam uma epopeia. Eram dois heróis os meninos que estavam aqui, enfrentando o mundo, monstros gigantescos, talvez o próprio Adamastor, só com um sabre imaginário e uma pistola descascada das piscinas e parquinhos em que já foi usada. Os carrinhos são as Máquinas do Mundo; a energia dos heróis foi recuperada com água de coco, pipoca, comida chinesa que pedimos, para evitar preparar alguma coisa que nos desse trabalho e que nos desviasse a atenção do maior espetáculo da Terra. Os meninos.

Havia algo de subversivo naqueles dois meninos que vieram ontem a minha casa: não me deixaram falar de política, nem de literatura, nem das pernas no metrô, pra que tanta perna, meu deus? O homem atrás dos óculos e do siso foi surpreendido pelos moleques que corriam, gritavam, enchiam a piscininha, pintavam a parede com pincéis reais e com tinta imaginária. Os dois não tinham horário, nem guardaram rancor quando lhes reprimi carreiras desabaladas - eu, menino que tinha medo de tudo, invejei os meninos que não temiam nada.

Na hora de ir embora, beijei o rosto dos pais, todos nós taciturnos, mas nutrindo grandes esperanças, não nos separamos, já há vinte anos temos as mãos dadas e passamos muito tempo aprendendo a beijar outros homens - nós, esses amigos - como beijamos nossos pais. Não há Drummond que registre ou Gil que possa compor a maravilha do abraço de despedida dos pequenos no Tio, "Dá aquele abração no Tio, agora um beijo". De volta à sala, líderes políticos, poetas e professor - todos em reverência, todos mais vivos agora.    

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Sobre professores

Nada mais análogo à vida de um professor, essa criatura impassível que possibilita aos mais novos serem diferentes do que são, ao obrigá-los a recordar o que lhes foi legado pelos que já se foram. Seu apego à memória é a medida mesma de sua força. Daí sua aversão à rapidez, à inconstância, à variação, a tudo aquilo que pode colocar em risco a integridade do frágil mundo. É seu guardião sedentário e aguerrido.

Que é que preciso dizer sobre Julio Groppa Aquino? Autor do trecho acima, do livro Instantâneos da Escola Contemporânea, pontua minhas aulas, em termos práticos e teóricos, desde sempre.

Pela manhã

Acordo com o gosto de ressaca e de sono, mas não posso mais dormir. Eu preciso acordar, estar de olhos abertos, eu preciso da luz do dia pra não abandonar-me em desabalada carreira pra noite. Então que comece cedo o dia.

Preciso de banho: água purifica, tira os traços de perfumes alheios da noite anterior, tira a carga dos restos de cerveja que respingaram em mim, hálitos, invejas, com sorte alguma admiração, mas duvido: não sou admirável à noite. Invisto de sentido todos os lugares comuns de revistas de saúde: livro-me das toxinas, entro em conexão com todas as formas de purificação, mentalizo as melhores ideias, proponho-me metas, objetivos de curto, médio e longo prazo, abro os poros, imagino diversidades cromáticas, mas ainda segue o desejo de vestir preto.

É preciso fechar os canais, é preciso carapaça espiritual, é preciso diferenciar realidade de fantasia. Para fechar os canais: uma hora de esteira, com seriado americano na TV, os problemas do House podem ser os meus problemas, posso livrar-me deles humilhando lacaios que não tenho, me entupindo de remédios, mas isso não é realidade - é fantasia. No mundo concreto, posso fazer esteira. É preciso cansar-me, desviar as atenções da mente, usar o corpo, desfrutar do suor, imaginá-lo purgando as fantasias que não me permitem experimentar a realidade. Tenho de pôr os pés na realidade e fazer alongamento antes e depois da esteira. Tenho de fazer o corpo esgotar-se de modo a que as fantasias se enfraqueçam, elas podem morrer de cansaço e inanição.

Mas não vejo a hora de acender um cigarro.

É preciso despejar estes restos na internet, espécie de imolação ficcional de mim, este não sou eu, este é o narrador que criei, este não sou eu - expliquei aos meus alunos nesta semana, Nome Próprio. As gírias dos mais novos me irritam, os preconceitos postados no Facebook me enfurecem, as ironias do House me deprimem porque não posso cometê-las, mas ainda tenho mais meia hora, até que o paciente tenha mais uma convulsão, ou dores excruciantes, ou hemorragia, ou derrame, mas esta não é a realidade, corre o suor, estou puragando as impurezas.

A carapaça: é preciso atenuar o foco na mente, cansar o corpo, beber menos cerveja, fumar menos cigarro, não escutar "Menos", dos Porcas Borboletas, trabalhar mais, levar-me menos a sério, aprender a jogar conversa fora, parar de pensar, parar de pensar, parar de pensar. A carapaça: despejar estes restos na internet, abandoná-los amanhã, dormir mais cedo hoje, acordar mais cedo amanhã, corre a esteira.

"Pra Deus implorar", Volver

Ontem foi bom demais encontrar Bruno Souto, Kleber Croccia e Fernando Barreto.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Poemas

Do vício no Facebook

Saí do facebook porque perdia tempo demais por lá. Tornou-se um vício: eu acordava cedo e dava uma olhadinha no facebook, pra ver as novidades, verificar se estava tudo bem com todo mundo, quem tinha sido o último bêbado que deixara lá suas pirações. Pouco antes de trabalhar, mesma coisa: uma fuçadinha, porque muita gente não havia acordado tão cedo quanto eu, e poderia ter colocado lá alguma informação importante. O tsunâmi no Japão, o Massacre na Escola de Realengo - tudo isso fiquei sabendo, antes, no facebook, com contribuição do twitter, claro. Antes de dormir, uma entradinha, ver se encontrava algum amigo que está morando longe, bater aquele papo, verificar se havia algum evento bom na noite.

Assim, quando não havia nada interessante, eu tinha a desculpa perfeita para clicar nas frases do House, nos trechos da Clarice, cultivar uma fazenda, ganhar respeito nas ruas do Mafia Wars, fuçar na vida alheia, porque ninguém é de ferro. Nem eu: investiguei secreta e ou invejosamente em páginas e fotos alheias, gargalhei, chorei, padeci de vergonha alheia - afinal, no facebook, como antes, no Orkut, tem louco pra tudo. Irritei-me e bloqueei pessoas; briguei com alguns, outros simplesmente abandonei. Encontrei amigos antigos, que não via há anos. Com alguns, reatei velhas empatias, mas também descobri, com outros, por que é que não preserváramos a amizade: não tínhamos nada em comum no passado, não temos nada a dizer no presente, a não ser nos lamentar pelos cerca de trinta e cinco, ou mais anos, que já se foram.

Depois foi a fase da autoajuda. Cientes todos de que nossas vidas estão expostas aos amigos que aceitamos, acabamos despejando no facebook as carências, as frases feitas, a sabedoria popular, as intimidades mais escatológicas, as piores músicas e vídeos da história da humanidade (mas que têm significado pra nós), o oco da autoajuda, enfim: tudo que é resto, sobra, aresta, imperfeição. O facebook transformou-se numa espécie de repositório de todas as nossas frustrações, do íntimo que não mostramos - a não ser no facebook, em que tudo é deletável, os rastros podem ser apagados, e a glória é ter mais de dez pessoas curtindo a sua postagem, depois de ela ter recebido mais de vinte comentários. Às vezes eu tinha a impressão de estar lendo um grande livro de autoajuda, forrado de máximas bastante abrangentes - fórmula que, no mais, funciona há bastante tempo nos horóscopos de jornais.

Não quero dizer com isso que o facebook é ruim. Lá encontrei bastante gente querida, que eu não via desde o começo do Orkut; lá divulguei diversos eventos, que tiveram público. Também lá despejei minhas besteiras, em noites de porre, regadas a YouTube e Facebook, o que foi bom pra relaxar. Encontrei amigos de madrugada, com quem sonhei, ri, chorei - com alguns deles experimentei a maravilha de superar a tecnologia, por meio do diálogo "que é que estamos fazendo, conversando no computador? bora beber agora!", seguido de sorrisinho, uma desconexão imediata e diversos goles sôfregos minutos depois, na Vila Madalena. Avisei aos alunos que estava doente, antes mesmo de avisar aos cursinhos; debati política, defendi a candidatura da Dilma, encontrei blogueiros, músicos, escritores, artistas plásticos. Até uma namorada encontrei.

Mas é hora de parar. Não porque tenha me exposto demais, nem porque queira fazer tipo. Mas porque o facebook me tirou o tempo de escrever neste blog, e no da Identidade Musical. Porque se eu somar todo o tempo que gasto no facebook, ganho boas horas por semana, pra encontrar as pessoas de verdade. Além disso, sempre é tempo de voltar, se eu quiser, e há ainda outros meios de comunicar-me com as pessoas: a arcaica visitinha, o já superado telefonema no fixo, a ligação madura e rápida no celular, os modernos mensagem e email, o ainda jovem comentário no blog.

Pior: nos tempos de autoajuda do facebook, deixei por lá versões de mim das quais não me orgulho. Como tudo é deletável, os rastros puderam ser apagados da tela, mas não de mim. Por isso, deixo aqui estes restos e fragmentos que, por mais que sejam desimportantes, ou ocos de talento, são mais pensados do que os que eu deixava no facebook. Também aqui não me ocupo da vida alheia - besteira que todo mundo faz, mas de que não me orgulho.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Um poema (não meu, evidentemente)

SIM, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.


Não é meu, evidentemente. É de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa. Mas eu poderia ter escrito, facilmente, se tivesse talento pra ter uma obra.

Nosotros na Nova Brasil FM


Ouça: http://www.myspace.com/nosotrosmusica. Trata-se do primeiro lançamento da Identidade Musical que vai às rádios. E esse é só o começo...

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Classes dominantes e literatura

é revoltante o preconceito segundo o qual as minorias que podem participar das formas requintadas de cultura são sempre capazes de apreciá-las – o que não é verdade. As classes dominantes são frequentemente desprovidas de percepção e interesse real pela arte e pela literatura ao seu dispor, e muitos dos seus segmentos as fruem por mero esnobismo, porque este ou aquele autor está na moda, porque dá prestígio gostar deste ou daquele pintor. Os exemplos que vimos há pouco sobre a sofreguidão comovente com que os pobres e mesmo analfabetos recebem os bens culturais mais altos mostram que o que há mesmo é espoliação, privação de bens espirituais que fazem falta e deveriam estar ao alcance como um direito.

Antonio Candido, de novo, no mesmo texto "O Direito à Literatura".

A literatura

...podemos dizer que a literatura é o sonho acordado das civilizações. Portanto, assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura.

Antonio Candido, claro, no texto "O Direito à Literatura".