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terça-feira, 31 de maio de 2011

"Tiny Tears", Tindersticks

Claro que é pra desconsiderar o visual e só ouvir a música.



You've been lying in bed for a week now
Wondering how long it'll take
You haven't spoken or looked at her in all that time
For that was the easiest line you could break
She's been going round her business as usual
Always with that melancholic smile
But you were too busy looking into your affairs
To see those tiny tears in her eyes

Tiny tears make up an ocean
Tiny tears make up a sea
Let them pour out, pour out all over
Don't let them pour all over me

How can you hurt someone so much you're supposed to care for
Someone you said you'd always be there for
But when that water breaks you know you're gonna cry, cry
When those tears start rolling you'll be back

You've been thinking about the time, you've been dreading it
But now it seems that moment has arrived
She's at the edge of the bed, she gets in
But it's hard to turn the opposite way tonight

"Affection", The Lost Boys

Claro que é pra desconsiderar o visual e só ouvir a música.



Trash and vaudeville
Tight dresses and painted faces
It's time to free the lions
From the circus cages

Jaded baby
Come whisper in my ear
Better come closer 'cause
The music is loud here

I'm the monkey that you've always been afraid of
I'm the spirit that haunts your dreams
Deep inside
Don't you have a little bit of sympathy

Don't you want to
Give me some affection
Why is it so hard

Don't you get tired
Same smilin' faces
Don't you get a little bit lonely
Hiding in crowded places

Don't trust the stranger
You should know better
But this heart of darkness
Can be your shelter

I ain't rich enough I really don't belong here
I don't want to meet your mommy and daddy
I ain't good lookin' but you get used to it like I did

Don't you want to
Give me some affection
Why is it so hard

Stones



I was born in a crossfire hurricane
And I howled at my ma in the driving rain
But it's all right, now, in fact it`s a gas
But it's all right, I'm jumping jack flash, it's a gas, gas, gas!

I was raised by a toothless, bearded hag
I was schooled with a strap right across my back
But it's all right, now, in fact it's a gas
But it's all right, I'm jumping jack flash, it's a gas, gas, gas!

I was drowned, I was washed up and left for dead
I fell down to my feet and I saw they bled
I frowned at the crumbs of a crust of bread
I was crowned with a spike right thru my head

But it's all right, now, in fact it`s a gas
But it's all right, I'm jumping jack flash, it's a gas, gas, gas!
(6x)
Jumping jack flash, it's a gas

Tecnologia

Toda a minha coleção de VHS eu vendi, porque chegou o DVD. Agora querem que eu me livre de tudo, para comprar em Blue-Ray, seja lá isso o que for. Me nego: não compro mais filmes. Sabe-se lá o que vem depois: rogo para que as locadoras, nem que sejam de alguma coisa, ainda existam no futuro.

Os meus livros em papel eu vou vender, e substituir tudo por versões para Kindle. Pra que ter uma edição de A Moreninha em casa? Fica na net, quando eu precisar - se eu precisar - acesso o domínio público e converto pra arquivo Kindle. Libero mais espaço em casa, tenho menos sujeira - menos risco de pragas - e gasto menos dinheiro com mobiliário e livros.

O meu armário com 700 CDs não serve pra nada: agora tenho mais discos no computador. Melhor fazer arquivos virtuais e vender tudo. Guardar os CDs pra quê? As músicas estão todas disponíveis.

Mas na hora de ouvir uma música, não tenho mais som. As caixas do computador são ruins. O leitor de CD não funciona, ou CD está velho.

Resta ouvir uma música velha, em má qualidade, no YouTube.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O Rejunte e as histórias de avô

Pois eu digo à senhora Juliana, essa de nome artístico Julli Pop, que dá pra rejuntar coisas sim, ora como não? Foi assim que aprendi, foi meu pai que me ensinou: que de todo copo quebrado pode nascer um cinzeiro - que pode ser feio, mas é pra pôr cinza, deixa feioso mesmo; se tiver pontas perigosas e afiadas, a gente apara e arredonda; também me disse meu pai que prato que cai no chão tira mau-olhado - por isso é bom que quebre - e que é bom dar esse prato às crianças, pra brincarem com os pedacinhos já arredondados, como se pudessem afastar o invejoso e grudar a gente mais na visita anunciada pelo garfo ou pela faca, que também despencaram da mesa: todos os objetos caem. Pedaços de janela quebrada meu pai não podia ver: já recolhia os cacos, moía, misturava com bastante cola pra perder o fio e ia texturizar a neve, ou a chuva, ou o pólen, nos desenhos que fazia com os netos; pedaço de telha que voava ele recolhia, ia colocando todos num canto, esmigalhados que ganhavam forma: quando víamos, já tinha ali um caminho meio traçado entre os arbustos do jardim. Ninguém nunca sabia, ele também não respondia, onde ia dar aquela vereda: todas as coisas caem e quebram, mas não quer dizer que não tenham a chance nova de ter uma outra utilidade.


Mas a senhora é artista de palavras, melodias e formas, estou me estendendo à toa aqui - a senhora sabe transformar telha, sabe fazer versos, sabe olhar o porvir, sabe de tudo isso que meu pai sabia. Eu fico calado à noite em casa - sei pouco desses mistérios, só mesmo agora é que estou aprendendo -, ouvindo suas músicas e cismando se - será se a senhora não faz rejuntes com as palavras e a melodia, com o marido? Eu acho que sim. E respondo humilde que - sim, tudo é rejuntável, não só os copos, os pratos, as telhas - as pessoas e os tempos são também. Gente também cai e quebra, tempo acaba. Mas tem diferença: gente não é pra ter utilidade - nem as suas músicas. E é aí que fica bonito: as pessoas todas tropeçam, erram, às vezes fazem até maldades - mas sempre vem duas outras pessoas: uma mais velha, se não for pai ou mãe é como se fosse, pra rir da desgraça, ajudar a levantar e aparar as arestas pra que elas percam o corte; uma outra, se não for criança é como se fosse, pra fazer a mágica de transformar a ponta arisca que o avô arredondou em topos de morros de onde se vê o infinito.

Assim: infinito é pra frente, mas é pra trás também. Acho que nem todo passado é descartável - tenho aprendido mesmo que a gente precisa respeitar o que ficou pra trás, mesmo as coisas que a gente desgosta, pra fazer o sumo do rejunte; nem todo futuro é esperável - tudo se despedaça, até o que foi rejuntado, pra virar outra coisa, depois outra - mesmo se ficar só pó, pode virar areia de praia, pra virar castelo, de uma criança que brinca despreocupada, ouvindo histórias de avô.

Finlandia e Agridoce no Studio SP



Nessa terça-feira tem show do Finlandia no Studio SP. O grupo, que tem produção da Identidade Musical e foi lançada pela Baritone Records, está na tour de divulgação do terceiro trabalho, "Carnavales". Nesse show eles contam com a participação especial de Rodrigo Barata (da festa Criolina) na bateria e de Bruno Kayapy (Macaco Bong) na guitarra.

Na mesma noite ainda tem o primeiro show do Agridoce, projeto de Pitty Leone e Martin Mendezz, que vão mostrar ao público o seu "fofolk", o folk fofo produzido pela dupla.

A Noite Fora do Eixo da terça-feira, 31 de maio, noStudio SP tem um sabor especial de lançamento.Agridoce, projeto paralelo de Pitty Leone e Martin Mendezz, estreia nos palcos uma outra faceta dos músicos, mais minimalista e introspectiva. Finlandia vem da Argentina durante a turnê que passa por 12 países de 4 continentes, mostrando as músicas do disco recém-lançado “Carnavales”.

As melodias de Agridoce “são suaves aos ouvidos, mas letras nem sempre leves ao coração”, segundo Pitty Leone e Martin Mendezz, que cita como influências de Nick Drake, Elliot Smith, Velvet Underground, Iron&Wine, Leonard Cohen, Jeff Buckley e Sean Lennon. Quase um ano depois de anunciar as primeiras músicas no myspace, a dupla se prepara para o primeiro show do projeto.


Finlandia busca combinar elementos da música latinoamericana, focada nos países de origem, com sonoridades contemporâneas. O duo mescla ao vivo programações com instrumentos acústicos como o piano e acordeão (Mauricio Candussi) e o violoncelo de Raphael Evangelista e realiza turnê para lançar o novo disco passando por Brasil, Portugal, Alemanha, Finlândia, Andorra, Itália, México, Honduras, Costa Rica, El Salvador e Colômbia.

Além das bandas, também se apresentam o DJ Barata (DF) e os VJs do Clube de Cinema. A Banquinha Fora do Eixo traz produtos de cultura independente como cds, livros, camisetas e acessórios. A Noite Fora do Eixo começa às 21h no Studio SP (Rua Augusta, 591). A entrada é R$25, mas com nome da lista amiga o ingresso fica R$15.

Agridoce (São Paulo)


Pitty Leone e Martin Mendezz, respectivamente vocalista e guitarrista da Pitty, se juntaram na empreitada Agridoce com o objetivo de alcançar um novo som. “E de repente era um dia de chuva. As nuvens no céu, e a gente ouvindo Nick Drake e pensando: também quero’. Nasceu o esboço, o violão dedilhado, o piano minimalista, as letras ora lúdicas e fofas, ora pesadas e melancólicas. Agridoce”, explicaram ao lançar as primeiras músicas no myspace em junho do ano passado.
www.myspace.com/somagridoce

Finlandia (Argentina)


Etimologicamente, Finlandia tem muita semelhança com o nome de outros lugares escandinavos como Finnmark (condado de Noruega) e Finnveden. Alguns destes nomes são claramente derivados de “Finnr”, palavra alemã que descreve a um “viajante. A particular combinação de pianos, acordeões, bases eletrônicas, violoncelos e sons místicos estimulam com vigor o interesse de quem escuta. Desta forma, os viajantes conceituais do som convidam para sua próxima apresentação.

www.finlandiamusica.com

DJ Barata

DJ Barata é um dos integrantes da Criolina, organização que atua com produção cultural, discotecagem, programa de rádio, artes gráficas a agenciamento de bandas e DJs. Atualmente, o DJ Barata faz a gestão da curadoria dos DJs nos projetos da Casa Fora do Eixo.

www.criolina.com

Noites Fora do Eixo

A Noite Fora do Eixo é um projeto encabeçado pelos pontos presentes em mais de 70 cidades do Brasil e contabilizou mais de 500 edições em 2010. A ideia do projeto, que até hoje convidou cerca de 1.500 atrações desde sua criação (e, em alguns lugares, soma à programação mostra de filmes e exposição de fotografias), é unir bandas nacionais e latino-americanas, além de DJs convidados, em atmosfera impregnada de boas vibrações.

Em São Paulo, a Noite Fora do Eixo acontece em parceria com o Studio SP, bem como o projeto semanal e gratuito Cedo e Sentado Fora do Eixo e o mensal Macaco Bong e Convidados. A Casa Fora do Eixo também transmite diariamente o programa #AoVivoFdE, com apresentação de Ynaiã Benthroldo (baterista do Macaco Bong) e shows ao vivo, e promove os Domingos na Casa, com as portas abertas para uma despojada reunião entre os agentes do cenário da cultura independente.

A passagem dos artistas pela capital paulista faz parte do programa da Música Fora do Eixo e inclui hospedagem no território de vivências da Casa Fora do Eixo (localizada em um amplo sobrado entre a Liberdade e o Cambuci); e atendimento da equipe especializada em produção cultural que mora e trabalha no local.

Serviço

Fora do Eixo Apresenta

Noite Fora do Eixo

Terça-feira, 31 de maio, a partir de 21h

Shows a partir de 22h
Agridoce (SP)
Finlândia (Argentina)

DJ
Barata (DF)

Ingressos
R$15 com nome na lista amiga do Studio SP
R$25 na porta

Studio SP
Rua Augusta, 591 – Centro – São Paulo, SP
Capacidade: 450 pessoas
Censura: 18 anos
(11) 3129-7040

Jair Naves na Livraria da Esquina, 03 de Junho


Sexta-feira, 03 de junho de 2011, Jair Naves vai lançar o single "Um passo por vez", lá na Livraria da Esquina. Apareçam.

Abaixo, o release que escrevi sobre o trabalho, a pedido do próprio Jair:

Depois do EP Araguari, lançado em fevereiro de 2010, Jair Naves agora apresenta ao público duas novas canções de seu trabalho solo – “Um passo por vez” e “Minha cúmplice, minha irmã, minha amante”. Nesse trabalho, Jair nuança o universo temático particular explorado em composições anteriores e aprofunda as entoações que ganharam fãs ao longo de toda a carreira do compositor.


Primeiramente, “Um passo por vez” soa como progressão quase matemática – portanto, organizada de forma racional – de um emaranhado afetivo que vai, em dolorosa gradação, compondo os passos que constituem e implodem o sujeito da canção. Os primeiros acordes lembram a ambiência sonora de “Araguari I (Meus Amores Inconfessos)” – mas os contornos que delineiam o sujeito são aqui definitivamente menos nostálgicos: o sujeito é “pouco mais que a soma de incontáveis hematomas”, à moda de andrajo melódico “de um percurso errático, sobre escombros”.


“Dar um passo por vez” é, assim, espécie de mantra subvertido para consolar e dar sobrevida a uma identidade constituída sobre o fracasso e a fratura. A relação falhada com o irmão, perdida no tempo cego do orgulho, e a incapacidade de apaixonar-se são as expressões desse sujeito que hesita em vincular-se devido a certa onipotência que fica desvelada na melancolia da progressão melódica: não há quem o detenha, ele não admite exceções à regra. O descompasso entre a experiência subjetiva e a vida concreta vem marcado entre aspas, pois o emprego, a rotina e a mulher amada não correspondem às incongruências ilimitadas que por vezes contaminam o cotidiano e mergulham o sujeito na mais funda solidão. Finalmente, “dar um passo por vez” é o refrão de um sujeito viciado de si, em tentativa permanente de reabilitação da própria vida afetiva por meio de uma conta simples e precisa, compassada, da ordem da razão – exatamente para evitar perdê-la.


Mas, em “Minha cúmplice, minha irmã, minha amante”, o sujeito poético de Jair Naves deixa vazar no tom declamatório dos versos e na pequena extensão da canção o desejo de “fugir da solidão”, a esperança pelo milagre de “nascer de novo” e de “recuperar o gosto pela vida”. É a perda da cúmplice do título que pontua a entoação marcada ao piano: a predestinação maldita do eu – que permeia toda a obra de Jair Naves, seja nas canções solo, seja nas do antigo Ludovic – se espraia à cúmplice, à irmã, à amante, levada pelos policiais e chorada à entrada do presídio. Amante e amada estão amalgamados pela má sorte, pela “existência que não se justifica”, que remete ao Drummond do “Poema de Sete Faces”. Os pontos de fuga, aqui, são a “luz de alcance curto rastejante sob a porta” e a lembrança carinhosa da menina mais bonita – pequenos lampejos líricos (daí a impressão, em alguns trechos, de que se ouve um poema declamado) de um sujeito fraturado que está à cata – um passo por vez, de bar em bar – da reconstituição de si próprio por meio do amor, a despeito da vontade de dormir pra sempre.

Forma e Conteúdo

A melhor forma é a que tira o maior proveito do tema – não existe, na ficção, outra definição do significado de forma. O livro bem feito é o livro em que tema e forma coincidem, não se distinguindo um do outro – o livro em que toda a matéria é usada na forma, em que a forma expressa toda a matéria. Onde existe discordância e conflito entre ambas, haverá coisas de mais ou de menos.

Percy Lubbock, A técnica da ficção. 

domingo, 29 de maio de 2011

O Grande Acontecimento 38 - Carlos Marques vê a mobília dançante

- Vai, Carlos, ser gauche na vida - disse o pai de Carlos, à beira da morte - Coragem para a luta - ainda insistiu o velho Ricardo, marceneiro conhecido das famílias ricas de São Paulo, que garantira os estudos aos filhos forrando as casas dos ricos com armários embutidos, estantes para livros e mesas de centro. Foi isso o que disse pouco antes de partir desta pro vazio absoluto, ao menos foi assim que pensou Carlos, cuja orfandade era, de certo modo, um nascimento. Não teve mais que fazer: Carlos recolheu os objetos pessoais do pai, guardou os que tinham algum valor para partilhar com a irmã, livrou-se do que não prestava, vestiu o cadáver com o melhor terno que havia no armário, chamou parentes e amigos, e velou o corpo em casa mesmo, como era costume da família.

Foi exatamente no velório que começaram as alucinações, ou delírios, ou paranoias, chame-as o leitor como quiser, que eu de nomes não curo. Primeiramente, confundiu o choro da irmã com a gargalhada que ela costumava bradar quando assistia às vídeo-cassetadas na TV aos domingos. Ocorreu-lhe que ela poderia estar feliz porque herdaria a Parati 87 - mas as lágrimas aos olhos, dela e dele, o demoveram desse pensamento mesquinho. Logo depois, ao observar o marido dela, entretido na turma que costuma ficar do lado de fora do velório, fumando e contando piadas de defunto, imaginou que o cunhado o observava com desdém e cobiça, como se pudesse arrancar a Carlos algum resto obscuro de herança, que eventualmente a família desconhecia. Se precisar de alguma coisa, conta comigo, foi o que o cunhado disse, sem chorar, mas com o rosto transtornado, com a face distorcida, como se risse. Mais uma vez, o órfão abandonou o pensamento sinistro, todo ele informado da experiência concreta de Carlos no colégio, cercado de colegas ricos e interesseiros, que dominavam o Grêmio Escolar, que diziam agir em nome dos alunos, mas que só se mobilizavam por interesses pessoais. De uma Parati 87 aos interesses pessoais do presidente do Grêmio: assim pode observar o leitor a sandice em que se via metido o protagonista, que, para evitar mais pensamentos infaustos, rabiscava, com a mão esquerda, em tinta encarnada, no canto do velório, pequenas planilhas quase incompreensíveis numa folha qualquer de papel - um levantamento do pouco capital que o pai deixara disponível.

E foi nesse momento que Carlos pode jurar que viu a mesa de jacarandá e seus banquinhos, todos feitos pelo  velho Ricardo, artesão de primeira ordem, dançando em ciranda. Os banquinhos moviam alegres as perninhas, se é que se pode chamar a pernas os pés-do-banco, deus nos livre das catacreses, mas já estamos novamente imersos nelas, porque os pés-da-mesa tinham passo mais marcado, como se a mobília mais nobre da casa celebrasse em ritual sinistro da morte daquele cujas mãos tinham-lhe dado forma - e agora vida. Carlos viu que agora as mercadorias todas da casa se animavam: a mesa-de-centro era o centro das atenções, decorada de revistas de decoração, e também elas dançavam, fazendo correr as páginas num colorido que inebriava; a Parati 87, na garagem, roncava forte, como se quisesse dar ritmo ao ponto entoado pela banda do jacarandá; o rádio ganhava o volume máximo, empinando, fálico, a antena; a luz da TV conferia a ambiência de casa noturna ao velório - e o volume do som fazia que as pessoas se calassem, ou que pronunciassem frases disformes, soltas, sem sentido, enquanto assistiam, inscientes, ao espetáculo.          

José Miguel Wisnik e a Norma Culta

Ainda sobre o debate a respeito do material didático de Língua Portuguesa e a reportagem criminosa do Jornal Nacional, vale ler o texto de José Miguel Wisnik, professor de Literatura Brasileira da USP e compositor: http://sergyovitro.blogspot.com/2011/05/dona-norma-jose-miguel-wisnik.html

sábado, 28 de maio de 2011

"Enquanto uns dormem", Los Porongas (Versão Cambuci Roots)

Salvem, Los Porongas e Cambuci Roots.



Talvez eu vá me esconder em mim.

A minha geração e a Marcha pela Liberdade

[Atualização às 21h40: leia aqui um texto do Sakamoto sobre a marcha]

No exato momento em que escrevo este texto, está rolando a Marcha pela Liberdade, uma semana depois da repressão exagerada da Polícia à Marcha da Maconha. Nem preciso dizer que as imagens lembraram a repressão do período da Ditadura Militar, todo mundo viu. Hoje, as fotos estão carregadas de flores, mensagens de tolerância, pedidos aos policiais que não machuquem os manifestantes. Pedro Alexandre Sanches tuíta compulsivamente, se emociona, declara que ama o Brasil, e por aí vai.

Não pude ir à Marcha porque estava trabalhando. De certa forma, foi bom que eu não tenha ido: não estou pra emoções fortes, e pelo que estou vendo enquanto escrevo, ia acabar me empolgando demais com estes tempos em que vivemos. Me explico.

Acho que a minha geração (os nascidos, sei lá, entre 1972 e 1980, mais ou menos) foi completamente desacreditada pelas anteriores. Ninguém se empolgou com a gente, nunca. Não nos envolvíamos politicamente tanto quanto a turma dos sessenta e setenta achava que devíamos, isto é, nossas críticas não tinham tantos fundamentos quanto as dos caras que nasceram de 70 para trás. Minha namorada disse uma vez que minha geração é intermediária em tudo: ao mesmo tempo que retivemos, de forma muito fugaz, a experiência das Diretas Já!, encabeçamos a acéfala Cara-Pintada. Pegamos o tempo da inflação, das corridas aos supermercados, todos os pacotes econômicos, os tempos de "Pânico em SP":



Um amigo de minha geração diz que somos gratuitamente violentos: bebemos e fumamos em exagero porque não somos das gerações seguintes, mais saudáveis. Tudo talvez esteja ligado, sugere ele, à repressão sexual que experimentamos, devido à AIDS. Segundo ele, a orientação, em nossa época, era "não trepe", ao contrário do que ocorreu com a turma dos anos seguintes, que passou a ouvir "Trepe sempre, goze, mas com camisinha", o que faz uma puta diferença. Ora, gozar sem medo ou culpa é certamente algo que muda a vida das pessoas. Mesmo que tenhamos experimentado, depois, a estabilidade econômica e política, nunca nos recuperamos das sequelas de viver um tempo que ainda guardava silêncios, tabus, repressões.

Se essas hipóteses são verdadeiras ou não, se podem se aplicar a toda geração, ou se apenas ao setor de classe média, ao qual pertenço, eu não sei. Sei apenas que, por experimentar a vida exatamente na perspectiva de minha geração, fico feliz demais com a Marcha pela Liberdade, por muitos motivos.

O primeiro deles é o mais óbvio: trata-se de movimentação popular legítima, que demonstra que aquela suposta alienação generalizada não é tão verdadeira assim. Além disso, foi organizada principalmente por meio da internet, o que quer dizer que ela presta pra alguma coisa além de difusão de spam.

Me agrada demais a ideia de que a Marcha esteja ocorrendo num contexto em que a palhaçada da Rede Globo, cheia de preconceito linguístico, tenha sido desbancada em diversos blogs e textos na rede; acho um barato quando as pessoas começam a se movimentar contra discursos preconceituosos oriundos de um bairro de classe média alta - a questão da estação de metrô, aliás, que deu início à discussão, serviu para mostrar a verdadeira cara de boa parte dos moradores do bairro. Também acho um tesão quando a outra parte dos moradores, os que querem o metrô, se manifestam; mas lamento notar que, apesar de todo o discursinho a respeito da "pluralidade das etnias" no Brasil, persiste o preconceito contra os judeus, manifesto no mesmo episódio - é preciso estar atento para que manifestações legítimas não deem margem a outros preconceitos. Mas fico ainda feliz quando a Presidência da República é ocupada por uma mulher, depois de ter sido ocupada por um operário, a despeito do monte de "toma-lá-dá-cá" que isso custou. Exulto quando há reportagens a respeito das contradições ideológicas e éticas do PT e da implosão interna do PSDB. Pra resumir: toda essa merda no ventilador parece estar dando vazão às coisas que minha geração sentia, quando era mais nova, que estavam entaladas na garganta, calados que éramos pelos "Machos Adultos Brancos sempre no comando" de que falava Caetano Veloso em "O Estrangeiro". Tenho a impressão de que hoje vivemos num Brasil mais concreto - não sei se melhor ou pior, mas certamente mais concreto, em que os embates de classes, discursos gerações se dão de fato, como parece estar ocorrendo hoje, se não estou enganado.

Por tudo isso, estou feliz pra caralho. Tempo bonito este em que vivemos. Há espaço pra discutir todos os preconceitos, há meios de supervisionar partidos políticos, cabe tentar encontrar meios-termos, sonhos, utopias; dá pra desvendar ideologias e apresentar realidades concretas. Cabe tudo, a despeito de Bolsonaros, skinheads e outros conservadores. Próximo passo é encontrar um projeto de país. Fica cada vez mais urgente estudar, informar-se, ler os intérpretes do Brasil: Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes, pra começar. É hora de corrigir a rota. Não sei se estou empolgado demais, mas sinto que o momento é este. (Eu avisei: essa manifestação me deixou otimista demais. Mas não me envergonho).

(Neste momento -cerca de 18h15 -, Ronaldo Bressane, escritor, que foi meu colega de faculdade, tuíta: "Somos 10 mil na praça Roosevelt!"; a Casa Fora do Eixo transmite ao vivo a Marcha, explicando detalhes, tranquilizando as pessoas, declarando vitória completa da paz, inclusive da polícia, que não se indispôs, mas que esteve presente, como era natural).

A Marcha pela Liberdade está brigando pela liberdade de expressão, garantida historicamente pela Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, no Artigo 5o., IX: "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença".

Mais do que isso: a marcha fez frente ampla contra o conservadorismo reacionário que tem grassado em São Paulo, especialmente nas administrações estaduais do PSDB e na prefeitura antigozo de Kassab, que pretende ter desdobramentos no neomoralismo cristão de Gabriel Chalita - todos homens que me lembram os que calavam a minha geração. Faces novas de preconceitos e intolerâncias do passado. Sigamos mobilizados contra eles.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A psicologia do Abstinente (eu de nomes não curo)

Já lá vão dez dias sem fumar. Não tive tanta força de vontade quanto aquela que habita as histórias de muitos ex-fumantes: tentei o adesivo, não deu certo; tentei a balinha de nicotina, me deu enjoo no estômago; tentei o chiclete, doeu-me o maxilar. Agora usei um super-remédio, de uma super-empresa farmacêutica que funcionou bem. Não gostei de linká-lo, mas acho que ele pode ajudar as pessoas a parar de fumar. Assim seja.

Mas ninguém disse que o tal remédio resolve tudo: houve síndrome brava de abstinência, claro. Privo os leitores - que tendem a diminuir, já que abandonei o facebook, agora definitivamente, o que aliás tem a ver com parar de fumar - dos detalhes escatológicos que acontecem na abstinência. basta dizer que tudo no corpo se altera, depois de vinte anos fumando. O cinema e os reality-shows estão forrados de cenas de abstinentes trancados em quartos, suando, vomitando, fazendo besteiras, enganado as pessoas, fugindo pelados de médicos, sempre à cata de alguma droga - os abstinentes, claro. A minha, por sorte, era apenas a nicotina - experimentei cenas feias, algumas dignas de filmagem, mas não enlouqueci a ponto de virar protagonista de episódio do House. Já é alguma coisa. No mais, aos que tentam parar de fumar: acompanhamento médico e terapêutico ajudam demais. Quem não ajuda são os anúncios que ficam aparecendo no blog, todos de clínicas de reabilitação e similares. Tempos de Google AdSense: ele faz a varredura do conteúdo do blog e anuncia de acordo com as palavras que mais encontra.

Interessa falar aqui dos outros efeitos da abstinência - os da alma, se assim os quiser chamar o leitor, que eu de nomes não curo. São misteriosos, mas perceptíveis; estão relacionados aos sentidos, mas vão além deles e dos sentimentos - rebatem na alma, como acabei de escrever. Primeiro, a sensação revigorante de que o cigarro, que eu imaginava necessário à minha imagem de mau menino, é dispensável. Há o que fazer com as mãos e com o tempo que sobra - quando se pára de fumar, acaba sobrando tempo, vejam que coisa estranha em plena Modernidade, ou Pós-Modernidade, escolha o leitor, que eu de nomes não curo. Alguns perceberam que os posts no blog, posto que repetitivos, têm sido mais frequentes: também tenho estudado ainda mais, avançado bem na pesquisa do doutorado, mergulhado na leitura de A Arte da Felicidade, do Dalai Lama com Howard Cutler. Que dizer? A idade chegou, o que aprendi na página 175 do livro:

Está em grande parte nas nossas mãos no presente o tipo de futuro que surgirá. Ele será determinado pelo tipo de iniciativa que adotarmos agora.   

Parar de fumar me fez repensar a vida toda de fumante - e temo o tipo de futuro que possa ter construído para mim no passado em que eu fumava. São as tais energias, coisas que a alma capta, mas que não têm explicação concreta: quando se fuma como eu fumava, bebe-se; fuma-se pra não beber o dia todo - e aí vai um ciclo de pensamentos ruins, de exageros nas sensações, de atração por pessoas tão vazias quanto eu era - embora muitas delas fossem inteligentes, bem-formadas, de esquerda -, de dependência das aparências em detrimento dela, de novo: a alma.

Sei que o texto soará autoajuda demais para muitos leitores. Lamento por eles, mas não me desculpo: é assim mesmo. Frequentar bar demais dá bode; fumar e beber como estilo de vida põe pra baixo. O que não significa que seja proibido beber ou fumar eventualmente, para muitas pessoas. Quero dizer que, para mim, a impressão que a boemia deixava na alma era extremamente deprimente. Não se tratava de ressaca física - que conheço bem - nem de ressaca moral - que conheço melhor ainda. Mas de um vazio eterno no dia e na noite, sob o verniz de "jogar o papo fora" no botequim, às gargalhadas, ou papos sérios, ou políticos - situação que escamoteava uma sede não de chope, mas de alma; um vazio não de fumaça, mas de energia que projetasse o presente em si, nas suas feições mais feias e belas, em equilíbrio. Vi outro dia, em algum programa de TV: "não há cura química para um problema espiritual". Clichê e autoajuda. Mas verdade.

Nada de passado pra mim, salvo o que retive em síntese marxista da alma - agora perdi mais sei lá quantos leitores, mas o raciocínio é rigorosamente esse, não me desculpo de novo, nem me incluo entre quaisquer teóricos, que eu de nomes não curo; nada de futuro para mim, salvo o que constituirei por meio do presente. 


quarta-feira, 25 de maio de 2011

Onde termina a dor



Vai com deus ou num disco voador
Eu vou num barco de papel
Te encontro onde termina a minha dor

Ouça mais Volver: http://www.myspace.com/volverbrasil

Carpinejar, Alex Castro e a liberdade

"A sorte não brinca comigo. Eu me vejo como resultado da insistência. Não espero facilidades e recompensas do acaso. Trabalho desde cedo para me aposentar tarde". 

Trecho brilhante do Carpinejar sobre a sorte e o trabalho. Leia o texto completo em http://sergyovitro.blogspot.com/2011/05/fabricio-carpinejar-cumulo-do-azar.html. Também é dele a frase que abre o site: "Liberdade na vida é ter um amor para se prender" - que só diz tudo sobre mim atualmente.

Outro que entende de liberdade é o Alex Castro que, em suas últimas semanas nos EUA, mantém uma rotina matinal invejável - um dia eu chego lá - e tem escrito em pé: http://www.interney.net/blogs/lll/2011/05/25/escrevendo_de_pe_aamp_minha_rotina_diari/. Um dia eu chego lá, também.

As coisas mais difíceis da vida talvez sejam escolher a liberdade e exercê-la. Pra hoje ou amanhã, ainda prometo a "Psicologia do Abstinente", depois de mais de uma semana sem fumar.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Letargia

Para entender o que é letargia não é necessário ir ao dicionário. Letárgico é o estado de não-ser: é o estado da dúvida constante, sem intensidade na máxima voltagem.

Há quem diga que a letargia é o estado humano por natureza, aquele por meio do qual se vive a realidade concreta, fundada nas bases da infraestrutura material - e que materialista dialético sou eu pra dizer que não? Só digo que deve haver um horizonte para além, entendo pouco disso, me disseram a vida inteira pra não voar. Pode ser isso, ou posso ser eu o desvio. Pouco me interessa - e hoje digo, sem triunfalismo: não fumo mais, volto pra casa cedo por opção. Basta de mim, eu vejo: melhor é calar.

A onipotência máxima. Fico quieto, não há forma textual que dê expressão ao oco do nada: o amor é tudo, pois, na tentativa reeditada e clichê de ser original pra dizer que eu te amo, há uma tradição e uma tradução interminável de poetas e acadêmicos: resta-me entrar na fila, contratar uma boa assessoria de imprensa, tudo na lógica de mercado, que grassa nas melhores e piores intenções. Esta é certamente a minha hora literária de desencarnar, mas como a vida é muito filha da puta e pouco artística, é capaz de eu enterrar essa gente boa toda, mesmo tendo parado de fumar.

Então foda-se a conclusão. Ainda devo viver mais, agora que não fumo: expectativas na medida do concreto, revisão da rotina.

Drummond, então:

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Sobre Esquerda, Redes Sociais e Mobilização Política

Eu ia me meter a escrever sobre participação política, mas aí o Sakamoto publicou isso aqui (http://blogdosakamoto.uol.com.br/2011/05/23/perai-quem-esta-controlando-os-protestos-de-rua/), que é dos textos mais legais que já li - e que supera, muito, qualquer texto que eu poderia ter escrito.

domingo, 22 de maio de 2011

Ela não fala, ela só grita (Silêncio)

perguntei ao miguel se já tinha namorada. disse que sim, a nicole. então perguntei se ela já havia dito que gostava dele, ao que respondeu: "ela não fala ainda. ela só grita". fiquei impressionado como que uma criança com menos de 3 anos já conhece tão bem as mulheres.

Rafael Araújo, a respeito do filho dele, no Facebook

São Paulo, 2011

Miguel: Nicole, você gosta de mim?
Nicole: Aiwawawnnnnn!
Miguel: Meu pai quer saber se você gosta de mim.
Nicole: Iewwwwwwwaia!
Miguel: Nicole, tenho apenas três anos, mas quero saber, objetivamente, o que é que você quer.
Nicole: (Silêncio)

São Paulo, 2031 

Miguel: Nicole, você gosta de mim?
Nicole: ah, Miguel, de novo essa conversa? Não me chateia.
Miguel: Gosta ou não gosta? Pretendo planejar minha vida com você, preciso saber se você quer ficar comigo.
Nicole: Miguel, não me pressiona, eu preciso de espaço, preciso da minha liberdade.
Miguel: Mas eu não estou te pressionando, só quero saber se a gente tem futuro.
Nicole: você pega demais no meu pé.
Miguel: mas afinal, de uma vez por todas, o que é que você quer?
Nicole: Iewwwwwwwaia!
Miguel: você grita comigo há vinte anos. Me diz de uma vez, o que é que você quer?
Nicole: (Silêncio) 

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A Psicologia do Viciado

A superfície: tudo é desculpa pra fumar. Já ouvi todas as teorias - vivo cercado de fumantes viciados como fui, não sou mais. Há quem diga que toda vez que se coloca algo na boca, chama-se um cigarro; há quem realce o gosto do leite, do café, do chiclete, do vinho, da cerveja, do uísque, com cigarro. Sou suspeito pra falar: quando fumava e bebia, fazia-o pelo gosto mesmo, pela encenação, que se tornou prazer, que se tornou vício. Alguns desfilam com carrões ou motos barulhentas; outros exibem os músculos adquiridos na academia; uns urram o nome do time do coração, vestindo uniformes coloridos e infantis; tem quem esbanje erudição em conversas inteligentes: eu batia papo fumando e bebendo. Ouvi histórias: conheci gente que fumava pra acordar.

Na verdade é o seguinte: talvez todos fumemos porque não podemos beber o dia todo - ou consumir outras drogas mais ou menos fortes. De certa forma, o cigarro é fortaleza, mordam-se de ódio os antitabagistas: a vida já é dura demais para ser levada sem droga nenhuma; a realidade é insuportável, se não fossem as drogas e as falsas consciências. Dessa forma, fumar e ler livros de autoajuda não é crime, não implica sonegação de impostos, mas fumar é melhor: posso consumir dois maços de cigarro por dia sem prejudicar meus reflexos no trânsito, o que não acontece com alguns goles de cerveja e dois ou três capítulos de um livro de Gabriel Chalita.

Acontece, suponho eu, que o cigarro escamoteia e, corrijam-me daí todos os psis - psicólogos, psicanalistas, psiquiatras - habita o espaço atemporal do inconsciente, e é aí que a coisa complica. O projeto é simples: consumir uma droga supostamente inofensiva, porque não dá um barato alucinógeno, parece criar a ilusão de que estamos sempre curtindo um barato - de modo que possamos asfixiar a própria vida, no que ela tem de concreto, portanto de mais terrível. Refiro-me à iminência da morte dos entes queridos e da nossa própria, da impossibilidade de controle do que quer que seja externo a nós, além dos horrores do mundo.

As entranhas: brigou com a pessoa amada, um cigarro; atendeu a um telefonema grave, um cigarro; começou uma reunião difícil, um cigarro; antes do almoço, pra relaxar, um cigarro; depois, outro; uma pausa no trabalho estressante, mais um; sentiu ciúmes, outro; ligação do banco, acende mais um - e assim sucessivamente, até acordarmos fumando, à beira da cama, porque o próprio dia que vem pela frente é batalha, mata-se um leão por dia, diz o povo; eu diria que ele é morto lentamente, sob tortura, à moda da Causa Secreta, com pontas quentes de cigarro, que não deixam morrer, mas que também procrastinam-lhe o bote final, se é que "bote" é palavra que se pode usar para leões. O fumo é o adiamento ilusório da maldição de viver. Já citei a "Tabacaria" do Álvaro de Campos, do Pessoa, aqui, antes:

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

Ainda as entranhas: quem quer fumar mesmo acaba procurando outras drogas - sem repetir aqui o discursinho idiota da mídia e de Serras e Alkmins (aliás, sigo achando absurda a intolerância contra os fumantes). Desculpem-me o esoterismo, mas deve ser questão de energia: depois de anos, o fumo deprime, faz rolar ladeira abaixo. Quem fuma procura o bar, pra tomar com cerveja; mesmo que fique em casa, quem fuma talvez tenha um bar mais aparelhado do que quem não o faz. O fumante procura outros fumantes, à cata de inconscientes que também adiam encarar o mundo como ele é: hediondo, mas com ainda alguns consolos, uns pouco momentos efêmeros de alegria. A maioria das mães pára de fumar na gravidez e na amamentação; muitas delas nunca mais fumam: a gestação e o nascimento de uma criança, ainda que neste mundo, são ainda  momentos de vida em estado puro, pelos quais vale a pena parar de fumar. O mesmo se pode dizer do amor,  outro átimo de vida em que tudo é visto com clareza.

Os homens fumam desde sempre, mas neste nosso momento histórico parece que fumar perdeu o caráter ritual e tornou-se mais um produto - mais ou menos, com o perdão da viagem errada, o que aconteceu com a obra de arte, segundo Walter Benjamin: ela perdeu valor de culto para ganhar valor como realidade exibível. Da mesma maneira, chuto que o cigarro perdeu seu valor de desfrute ritualístico para ganhar valor como realidade de mercadoria e de exibição. Antes, fumava-se em ocasiões especiais; hoje, fuma-se pra exibir-se ou pra ocupar os vácuos da vida, em paralelo com o que ocorre com a música no volume máximo. Um vazio do caralho, em suma.

Mas mais vazio, ainda, é percebê-lo, quando se decide parar de fumar. As mãos não têm que fazer - por isso ficam paradas. Há tempo disponível - por isso lê-se mais, na melhor das hipóteses; pode-se escrever no blog sobre o processo de parar de fumar, o que espanta leitores. Há um oco na barriga - por isso come-se mais. Há nada no espírito - mas não dá pra fumar, melhor evitar beber. Aí é hora de apelar para as rezas. Ou para o amor.

A loja de fotos antigas

Numa lojinha escondida de uma galeria da Domingos de Moraes, onde funcionava um antigo sebo em que eu comprava e vendia revistas em quadrinhos, flagrei a seguinte placa:

FOTOS ANTIGAS
Encontre a sua

Parecia piada: como poderia alguém ter uma foto minha, escondida sob milhares de outras? Mais do que isso: ainda que houvesse no suposto catálogo uma fotografia minha, como poderia alguém - eu mesmo - encontrá-la em meio a tantas pilhas e pilhas de fotos velhas e amareladas?

Não pude conter a curiosidade: entrei. Ao fundo, um velho japonês, cara de fotógrafo, lia atentamente um livro que não pude reconhecer. Só sei que o livro também era velho. Olhou-me de cima a baixo, perguntou-me o nome, se era do bairro, quem era meu pai. Temi que aquele fosse um golpe para colher meus dados e infernizar-me pelo telefone. Mas o velho permanecia impassível, observando-me o rosto, sem pedir meu número. Quando voltou a falar, perguntou-me onde eu estudara, respondi. Ah, sim, foi o que ele disse, subindo uma escadinha em caracol, que dava provavelmente para o mais vasto catálogo da vida alheia. Aguardei-o com paciência.

O velhinho me trouxe quatro fotos: as duas primeiras eram 3X4, provavelmente arrancadas dos catálogos escolares, pois eu vestia o uniforme do colégio onde estudei quando tinha cerca de dez anos. Impressionou-me o olhar alegre daquele eu-jovem retratado: sorria nas duas fotos. Estranhei meu cabelo em uma delas, mais certinho do que eu gostaria que fosse, mais arrumado do que eu fiz questão de me esquecer. Na terceira fotografia meu cabelo estava longo, como fora depois, na adolescência, e eu sustentava um rosto sisudo, fazia cara de intelectual, como se conversasse sobre algo sério.

Mas foi a quarta fotografia a que mais me surpreendeu: nela eu já adulto não estava sozinho, e os que me acompanhavam não pareciam ter vida. Embora eu expressasse alegria e tivesse o cabelo longo, sem perder a sisudez, não conseguia reconhecer nenhum dos rostos das pessoas que abraçava. A foto continha certo movimento, que comprometia o reconhecimento das feições, e fora tirada numa câmera antiga, sem a definição das máquinas digitais de hoje. O resultado era um eu quase artificial, o antigo comprazimento bem ao fundo, contrastando com o primeiro plano de manter aparências, cercado de uma multidão sem rosto, num panorama agitado sem motivo aparente.

Perguntei ao senhor do balcão quanto me custariam aquelas quatro fotos, e ele me propôs um preço absurdo, com um sorriso no canto da boca, sem olhar-me nos olhos. Não aceitei.    

terça-feira, 17 de maio de 2011

O Grande Acontecimento 37 - O delírio semiagonizante de Leon Decrepyt

Leon Decrepyt completara cinquenta anos: não era, portanto, nem velho, nem jovem, nem adulto. Vivia numa espécie de limbo, já que, desde a mais tenra idade, filiara-se a um partido de extrema esquerda. Participara ativamente do movimento da Anistia, aterrara-se com os atentados do Rio-Centro, atuara nos bastidores das Diretas Já, chorara com a queda do Muro de Berlim, revoltara-se contra a edição do debate entre Collor e Lula - enfim, considerava-se testemunha e agente da história da luta de classes no Brasil.

Mas aos cinquenta anos, sumariava-se em professor universitário, contador de histórias nos botequins da Vila Madalena, para os antigos colegas da USP, e de Perdizes, para os alunos da PUC, dentre os quais apaixonou-se por Cássia, estudante de Sociologia, que gostava de meninos e meninas, tomava drogas por questões religiosas, fazia meditação, não comia carne vermelha e frequentava a academia mais cara de Higienópolis. Em suma, tratava-se de um choque afetivo, político, partidário, ideológico, figadal e estomacal para Leon, que durante semanas desviara bravamente o olhar das insinuações de Cássia. Mas a carne era fraca, a dele, não a dela, bem entendido, e o policiamento ideológico tinha diminuído sensivelmente. No mais, Leon jamais se havia casado: dedicara a vida às massas, não às musas, sem ter tempo para tragédias subjetivas de caráter pequeno-burguês.

Na primeira vez em que saíram, Leon enrolou-se todo no Starbucks: pediu um café curto, mas a atendente sugeriu-lhe um latte-mas-não-morde; Leon pediu-lhe um expresso qualquer, mas ela retrucou que a oferta do dia era um mocassin-gosto-de-sola-de-sapato-embora-não-o-fosse. Leon tomou qualquer coisa, gostou, tomou mais dois, ficou alegrinho de café, quem diria, um produto que serviu de exploração a milhões de braços escravos, e ganhou o sorriso de Cássia, o que lhe valeu o dia. À noite, depois de uma tarde de sexo selvagem, que Leon não fazia há anos, maconha, uísque e cerveja, foram a uma casa noturna na Rua Augusta, assistir a um show de uma banda alternativa: Leon gostou das músicas, mas, em certa altura da noite, afligiu-lhe o coração, que acelerava seguidamente.

Era natural que Leon enfartasse: canções tão boas quanto as do seu tempo, o café estranho que tomara, o sexo, as drogas, o rock and roll, o clima de liberdade ideológica sem alienação, ou de alienação sem prescindir de posicionamento político e comportamental, ele não entendia bem que tempo era aquele, que pessoas eram aquelas, se eram pessoas ou se eram produtos, se as mesas dos bares ou os próprios bares tinham tomado a vida às pessoas que cantavam no palco, ou se elas é que sugaram ao balcão e ao telão a vida que tinham - tudo numa vertigem do sorriso de Cássia, que o fascinava e que parecia fascinada em fasciná-lo, numa troca que a ideologia burguesa chama de amor: era natural que Leon enfartasse.

(Num ambiente silencioso, de fundo vermelho, sempre vermelho, com uma brisa quente à esquerda, sempre à esquerda, Leon encontrou-se com Mário de Andrade, Não se apavore, Leon, é só amor, Mas e se ela me maltratar? e se ela me deixar? e se ela me alienar?)

Chama a ambulância, gritava Cássia, Não dá tempo, dá um choque nele com o amplificador mesmo - e essa sugestão que terá surpreendido o leitor não foi rejeitada por nenhum dos presentes, não havia nada a fazer, a casa estava lotada, até levarem o velhinho para a rua, até chegar a ambulância, até fecharem a comanda dele e da namoradinha, como pode um velho desses com essa puta gata, deve ser golpe, até tudo isso acontecer já virou presunto, abotoou o paletó, vai comer grama pela raiz, ninguém suspeitava que Leon queria ser cremado. Deram-lhe o choque com uma caixa de som velha, mais à mão, que ainda rugia algum som. Não funcionou: naquele mesmo instante o DJ soltara uma MPB que namorava o axé, vagabunda, pra fazer o pessoal tirar o pé do chão sem deixar de ser cool.

(Deixe disso, Leon: se você amar não aliena, não. Também você já fez a sua parte. Deixa a menina cuidar de você. Tudo vai dar certo.)

Outro choque, agora com o volume máximo: Leon não recuperou o pulso. O DJ agora se empenhara na reanimação: tentara um pop rock dos anos 90, com mensagens de autoajuda que, supunha, poderiam reanimar o velho comunista. Nada.

(Olha aqui, ó, Leon: você não acreditava no amor? "All we need is love"? "Imagine"? "God"? Lennon? O pessoal do protesto nos festivais? Era tudo sobre o amor, Leon, vai, aceita.)

E assim foi: alguém teve a ideia de tocar Lennon, pediu "God", julgando que o Pai Eterno intercederia naquele momento de desespero e todos puderam ver o que em verdade vos digo: aos primeiros versos da canção, o choque despertou o coração de Leon, que voltou para casa com uma certa ressaca e dormiu como a criança que nunca fora, no colo de Cássia, que o acolhia como a um menino.



God is a concept,
By which we can measure,
Our pain,
I'll say it again,
God is a concept,
By which we can measure,
Our pain,
I don't believe in magic,
I don't believe in I-ching,
I don't believe in bible,
I don't believe in tarot,
I don't believe in Hitler,
I don't believe in Jesus,
I don't believe in Kennedy,
I don't believe in Buddha,
I don't believe in mantra,
I don't believe in Gita,
I don't believe in yoga,
I don't believe in kings,
I don't believe in Elvis,
I don't believe in Zimmerman,
I don't believe in Beatles,
I just believe in me,
Yoko and me,
And that's reality.
The dream is over,
What can I say?
The dream is over,
Yesterday,
I was dreamweaver,
But now I'm reborn,
I was the walrus,
But now I'm John,
And so dear friends,
You just have to carry on,
The dream is over.

Comentem o blog!

Um pedido de Alex Castro:

http://www.interney.net/blogs/lll/2011/05/16/aos_meus_leitores_nao_malucos_um_mimimi/

domingo, 15 de maio de 2011

Duas gerações no palco

Ontem à noite, Los Porongas fizeram uma apresentação histórica em Belo Horizonte, lançando o disco O Segundo Depois do Silêncio em terras mineiras, ao lado de Bruno Gouveia, do Biquíni Cavadão: duas gerações, cantando "Silêncio", dos Porongas, e "Tempo Perdido", da Legião Urbana.

sábado, 14 de maio de 2011

Uma canção de amor

Uma linda canção de amor, de Maria Gadú, pra aliviar a semana recheada de preconceitos.



"Altar Particular"

Meu bem que hoje me pede pra apagar a luz
E pôs meu frágil coração na cruz
No teu penoso altar particular

Sei lá, a tua ausência me causou o caos
No breu de hoje eu sinto que
O tempo da cura tornou a tristeza normal

E então, tu tome tento com meu coração
Não deixe ele vir na solidão
Encabulado por voltar a sós

Depois, que o que é confuso te deixar sorrir
Tu me devolva o que tirou daqui
Que o meu peito se abre e desata os nós

Se enfim, você um dia resolver mudar
Tirar meu pobre coração do altar
Me devolver, como se deve ser

Ou então, dizer que dele resolveu cuidar
Tirar da cruz e o canonizar
Digo faço melhor do que lhe parecer

Teu cais deve ficar em algum lugar assim
Tão longe quanto eu possa ver de mim
Onde ancoraste teu veleiro em flor

Sem mais, a vida vai passando no vazio
Estou com tudo a flutuar no rio esperando a
resposta ao que chamo de amor.

A classe dominante imutável, o metrô e o neomoralismo

A repercussão sobre a postura dos moradores de Higienópolis quanto à estação de metrô na Avenida Angélica não pára: o Sakamoto reviu a história de São Paulo e os muros que protegem a classe dominante; no Vi o mundo, Rodrigo Vianna explica por que o churrasquinho que vai rolar no sábado é importante; o poeta Sérgio Vaz, Vira Lata da Literatura, conclama: "se eles não querem , manda o Metrô pra gente!". Na mídia tradicional, a Folha já avisa que o Ministério Público vai investigar a real motivação do abandono da construção da estação:

O promotor Mauricio Antonio Ribeiro Lopes pediu ontem esclarecimentos ao secretário dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes. "Quero saber se ele cedeu a uma pressão da elite ou se a questão foi técnica. Se a questão foi de quem pode mais chora menos, é um absurdo para a cidade."


Finalmente, todo mundo viu no Facebook o evento "Churrascão da gente diferenciada": mais de quarenta mil pessoas confirmaram presença num churrascão na frente do Shopping Higienópolis, sem bom senso e com "farofa, carne de gato, cachorro, papagaio, som portátil, carro tunado e tudo o que sua consciência social permitir".

Se o Brasil ainda for o mesmo que todos conhecemos, essa história não vai dar em nada, infelizmente. Não haverá metrô em Higienópolis, que seguirá sendo um dos metros quadrados mais caros do país; o Ministério Público vai apurar a questão, mas provavelmente ninguém sairá culpado, talvez a cabeça de algum bode expiatório do escalão médio do serviço público seja servida numa bandeja de prata para a imprensa; o Bolsonaro seguirá a Cruzada Santa da Família e da Propriedade e provavelmente terá mais adeptos. E assim vamos: por mais que se modernize, o Brasil não muda. Ou, de outro jeito: cada arrancada nossa rumo a práticas progressistas acaba por nos remeter a um atraso que não é ultrapassado.

Sempre gosto de lembrar que o bairro do Pacaembu, também ele nobre, sofre de uma infestação de cupins. Talvez o incômodo metrô seja o cupim de Higienópolis; talvez traga também outros insetos, como formigas trabalhadoras. Macunaíma - também uma expressão da forma de pensar da classe dominante imutável -, cujo antípoda também morava em Higienópolis, dizia que um dos males do Brasil era "muita saúva", talvez uma alusão ao trabalho, que nosso herói sem nenhum caráter repudiava. É a mentalidade patriarcal, atrasada, segregadora, apesar dos vernizes de elegância - essa elite já estava toda no Rei da Vela, de Oswald de Andrade. A mesma elite que se julga moderna por trazer para São Paulo os avanços novaiorquinos, que escamoteiam a mentalidade obscurantista-antigozo-moralista que tem imperado nas administrações de Serras, Alkmins e Kassabs. Pra quem achava que este é o fundo do poço, tudo pode piorar: há quem diga que Gabriel Chalita será candidato a prefeito em São Paulo - e que tem grandes chances de ganhar. Sobre este rapaz, que é uma pérola de valores e uma máquina de escrever livros, reproduzo um trecho de Julio Groppa Aquino:

Com ele, aprendemos que seria possível superar a baixíssima qualidade do ensino brasileiro por meio de um modelo de conduta profissional baseado em um tal "afeto pedagógico", agora alçado à condição de pedra de toque do projeto educativo nacional. Ciências, artes e humanidades, para quê? Os pobres precisam mesmo é de pão, circo e alguma doçura.


A reboque da queixa generalizada de uma tal "perda de valores", a cantilena pedagógica agora se volta para a inculcação moral a crianças e jovens das camadas populares. Já não importa difundir o legado racional, mas "resgatar" valores supostamente solapados pelos novos tempos. Daí a silenciosa cooptação das práticas pedagógicas pelo discurso religioso - signo máximo do abandono do projeto de uma educação democrática para as massas. (...)


Chalita e seus irmãos são a ponta do iceberg neomoralista que ameaça chocar-se contra as conquistas da educação brasileira nas últimas décadas. Um pesadelo interminável, cujos efeitos apenas a lucidez da vigília constante pode dissipar.

Ora, a rejeição de muitos habitantes de Higienópolis à estação de metrô revela, mais uma vez, o descompasso entre os discursos pretensamente modernizantes de nossa classe dominante - somos supostamente modernos porque em São Paulo não se fuma nos bares, porque aqui se trabalha no ritmo americano - e a realidade concreta, que diz o inverso: não fumamos em lugar nenhum, por causa de uma cruzada moralista, politicamente correta e intolerante, de fundo eleitoral e verniz americanófilo; trabalhamos em ritmo americano porque temos de pagar contas, a despeito da exploração e do esmagamento dos direitos trabalhistas. Esse descompasso já está explicado nas "Ideias fora do lugar", de Roberto Schwarz, pra quem quiser entender um pouquinho melhor a cabecinha dos higienopolitanos que, na essência, não são muito diferentes da classe dominante brasileira do século XIX.

Acabou em churrasco e não em pizza

Atenção à fala do rapaz na marca do um minuto e dez segundos.



Se eu não tivesse dado aula, teria estado no churrascão. Ainda escreverei mais sobre esse assunto.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Autoginógrafa (ou a celebração do próprio corpo do texto)

Foto de Sabrina Duran, que inspirou o texto

Então que seja meu próprio corpo a celebração escrita de mim. 

Eu-ágrafa da infância já demarcava figuras incontáveis nas paredes, nas folhas de papel que me ofereciam para não dar ao mundo a imundície das deformações de mim ainda sem sociedade, sem os limites da boa educação: eros puro que vazava nas representações - mas que eu via como realidade, meus ancestrais em Altamira. 

Foram as primeiras letras, então, o bode expiatório: ao mesmo tempo portador dos meus desajustes e pecados, vaso constritor dos devaneios que eu registrava irresponsável onde quer que fosse; e redentor das nomeações, a descoberta da palavra: a nomeação delimita a existência, em mágica que eu já intuía antes, mesmo sem explicar, como se eu pudesse portar o mundo por meio de vocábulos, reduzindo-o a eles e abrindo-o em mim - eu sem-limites agora. A palavra esteja.

Eu-mãe então, gestante dos mundos que não tinham expressão e que agora haveria: minhas imundícies explodiam em miríade sinestésica das impressões do inconsciente; eu-madre dos amores, o primeiro toque: a experiência táctil ancestral já registrada nos genes, o gosto amargo do corpo, a umidade completa do subsolo fértil, o instante cadavérico do gozo, pra renascer depois em ciclos. Eu-mãe das narrativas misteriosas do corpo, dos ciclos, dos mitos.

Mas rasgaram-me as páginas: as flores que eu cultivava, mesmo as feias, nascidas no asfalto, que eu insistia em proteger dos ônibus e das pernas (pra que tanta perna, meu deus?) foram colhidas com violência, despetaladas sem poesia: a palavra dilacerada. Eu-cicatriz, eu-cicatrizes: os homens não são tão bons assim. Eu-memória: a caverna era escura, mas lá ao menos indiferenciava-se a forma da realidade. Eu-subversão, na gestação do sujeito-objeto.

Grafem-se em mim os horrores dos homens, que também são os meus; registre-se em mim cada tropeço cotidiano, cada reviravolta da narrativa, cada contradição do herói degradado, no mundo degradado; inscrevo em mim o percurso gerativo do sentido, mesmo que este não haja, do nível mais profundo e simples ao mais superficial e complexo; todas as figuras e todos os temas: nada me é alheio. E a cada passo da fabulação eu própria liricamente assinalo no corpo a metáfora crua e vã da laceração dos meus dísticos, se não for um só verso difuso: Eu Autoginógrafa.        
      

"O herói hesitante: autobiografia de um anônimo", de Danislau Também

Danislau Também é vocalista do Porcas Borboletas e um dos maiores poetas desta nossa geração. E ponto final. Heróis não devem ficar na estante, como ele mesmo diz. Daí a versão virtual do livro:

terça-feira, 10 de maio de 2011

"Cochise", Audioslave



"Cochise", composição de Chris Cornell

I've been watching
While you've been coughing
I've been drinking life
While you've been nauseous
And so I drink to health
While you kill yourself
And I've got just one thing
That can offer

chorus)
Go on and save yourself
And take it out on me

I'm not a martyr
I'm not a prophet
And I won't preach to you
But here's a caution
You better understand
That I won't hold your hand
But if it helps you mend
Then I won't stop it

(chorus)
Go on and save yourself
And take it out on me

Drown if you want
And I'll see you at the bottom
Where you'll crawl on my skin
And put the blame on me
So you don't feel a thing

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O Grande Acontecimento 36 - Miss Lexotan descobre que toma drogas (Clarice esteja)

Veja agora o leitor como este narrador imparcial, observador dos fatos, onipresente, onisciente e onipotente - sobretudo, onipotente - agora perde a onipotência e desce ao mundo dos reles mortais, das personagens, deus as tenha, todas elas fictas, para observá-las mais de perto, na farmácia ao lado da padaria, quase na esquina de casa. É Miss Lexotan que está a meu lado: está bem vestida, mas falta-lhe elegância; é bonita, mas falta-lhe brilho, os olhos estão em branco, o andar é desaprumado; é educada, mas falta-lhe tato com a farmacêutica. Como pode a receita ter passado do prazo?, verifique o leitor que a linguagem é falseada, deve ter dito, Coméque passou do prazo?, mas me parecem vulgares as palavras sem trato de diálogo. Dizia a Miss, Passou do prazo? Mas como pode?, e a farmacêutica, também ela sonolenta, como se estivesse embriagada da mesma medicação, Passou, senhora, essa receita é coisa séria, não posso vender esse remédio fora do prazo, é coisa séria, bem séria.

Volte-se-me o leitor o olhar: eu já havia me apoiado no balcão como se sentasse num bar, minha medicação era igualmente grave, também me faltam elegância e brilho, mas tenho ainda olhos de reparar na revolta da Miss, que argumenta à toa, Já disse antes, cada vez que venho aqui, parece que estou comprando drogas! e revoltava-se. Eu dizia a mim mesmo que ela estava mesmo comprando drogas, mas a prazo, sob prescrição, com preços de tabela, remunerando o Estado com impostos, temos até embalagem colorida, não é a mesma coisa, embora seja: todos os nossos remédios e obras são patrocinados pelo refrigerante mais popular do mundo e que nem por isso nos paga nada, nós é que pagamos a ele, refrigerante esse espalhado por todos os países. Aliás foi ele quem patrocinou o último terremoto no Haiti. Apesar de ter gosto do cheiro de esmalte de unhas, de sabão Aristolino e plástico mastigado, Clarice esteja.

Ao que respondeu a farmacêutica, com aspas e grifo nosso, "mas a senhora está comprando drogas". Miss Lexotan acedeu, resmungou, mas agora ganhou brilho, imagino que pensasse, Estou comprando drogas, essa é boa fala pra responsabilizar quem quer que seja pela minha desgraça, sou drogada, meu deus, Quem não é? interfiro eu, por mais que acabe ferindo as suscetibilidades de quem frequenta as academias. E Miss Lexotan viu-se pela primeira vez definida como pessoa humana, deus nos proteja das tautologias, podia agora completar a frase Eu Sou com o Predicativo do Sujeito que lhe convinha, Eu Sou Drogada - era pouco, talvez não fosse bonito, mas completava a lacuna.

Sorri para a farmacêutica, escrevi meus dados nos espaços em branco no verso da receita, comentei que, mais dia, menos dia, todos nos apoiaríamos no balcão, quase inertes, taciturnos, de olhos em branco, mas nutrindo grandes esperanças nos avanços da farmacologia.  

Novas canções de Jair Naves

Mais uma vez, tive a chance de escrever um texto, pedido de Jair Naves, a respeito de duas novas canções que ele disponibilizou na internet. Ouça e baixe as canções no http://tramavirtual.uol.com.br/artistas/jair_naves.
Abaixo, o texto:

Depois do EP Araguari, lançado em fevereiro de 2010, Jair Naves agora apresenta ao público duas novas canções de seu trabalho solo – “Um passo por vez” e “Minha cúmplice, minha irmã, minha amante”. Nesse trabalho, Jair nuança o universo temático particular explorado em composições anteriores e aprofunda as entoações que ganharam fãs ao longo de toda a carreira do compositor.

Primeiramente, “Um passo por vez” soa como progressão quase matemática – portanto, organizada de forma racional – de um emaranhado afetivo que vai, em dolorosa gradação, compondo os passos que constituem e implodem o sujeito da canção. Os primeiros acordes lembram a ambiência sonora de “Araguari I (Meus Amores Inconfessos)” – mas os contornos que delineiam o sujeito são aqui definitivamente menos nostálgicos: o sujeito é “pouco mais que a soma de incontáveis hematomas”, à moda de andrajo melódico “de um percurso errático, sobre escombros”.

“Dar um passo por vez” é, assim, espécie de mantra subvertido para consolar e dar sobrevida a uma identidade constituída sobre o fracasso e a fratura. A relação falhada com o irmão, perdida no tempo cego do orgulho, e a incapacidade de apaixonar-se são as expressões desse sujeito que hesita em vincular-se devido a certa onipotência que fica desvelada na melancolia da progressão melódica: não há quem o detenha, ele não admite exceções à regra. O descompasso entre a experiência subjetiva e a vida concreta vem marcado entre aspas, pois o emprego, a rotina e a mulher amada não correspondem às incongruências ilimitadas que por vezes contaminam o cotidiano e mergulham o sujeito na mais funda solidão. Finalmente, “dar um passo por vez” é o refrão de um sujeito viciado de si, em tentativa permanente de reabilitação da própria vida afetiva por meio de uma conta simples e precisa, compassada, da ordem da razão – exatamente para evitar perdê-la.

Mas, em “Minha cúmplice, minha irmã, minha amante”, o sujeito poético de Jair Naves deixa vazar no tom declamatório dos versos e na pequena extensão da canção o desejo de “fugir da solidão”, a esperança pelo milagre de “nascer de novo” e de “recuperar o gosto pela vida”. É a perda da cúmplice do título que pontua a entoação marcada ao piano: a predestinação maldita do eu – que permeia toda a obra de Jair Naves, seja nas canções solo, seja nas do antigo Ludovic – se espraia à cúmplice, à irmã, à amante, levada pelos policiais e chorada à entrada do presídio. Amante e amada estão amalgamados pela má sorte, pela “existência que não se justifica”, que remete ao Drummond do “Poema de Sete Faces”. Os pontos de fuga, aqui, são a “luz de alcance curto rastejante sob a porta” e a lembrança carinhosa da menina mais bonita – pequenos lampejos líricos (daí a impressão, em alguns trechos, de que se ouve um poema declamado) de um sujeito fraturado que está à cata – um passo por vez, de bar em bar – da reconstituição de si próprio por meio do amor, a despeito da vontade de dormir pra sempre.

Los Porongas e Finlandia, lançamentos da Baritone Records, em tour pelo Brasil

Faltando somente alguns dias para o cd do Los Porongas chegar da fábrica e com sua versão digital liberada para download, a agenda do grupo começa a ser preenchida. Nessa semana eles vão para Belo Horizonte para dois shows, na FNac do BH Shopping e no Studio Bar, sexta e sábado respectivamente.

Depois do debut de 2007 esse é o primeiro registro de inéditas da banda que fez barulho na época, tanto com público como com crítica, e promete não ser diferente dessa vez. A banda assumiu a produção do disco e investiu o prêmio do Projeto Pixinguinha da Funarte na aparelhagem do Cambuci Roots, um estúdio coletivo que passou a ser o ponto de encontro, criação e registro de vários artistas residentes na capital paulista. O primeiro single do disco, "Sangue Novo", contudo, foi produzido em parceria com Dado Villa-Lobos (Legião Urbana) e gravado em seu estúdio, o Lobo Mao, no Rio de Janeiro. O novo trabalho chegou ao mercado pelo selo independente Baritone Records. Com 12 faixas inéditas o disco marca o amadurecimento do grupo e o flerte com novas sonoridades. O vocalista Diogo Soares considera que a banda expandiu as possibilidades sonoras, desde a introdução de outros instrumentos como metais, viola caipira e piano até a participação de outros artistas como Hélio Flanders e Maurício Pereira, dentre muitos outros amigos. “É um disco mais sofisticado em relação ao primeiro. Aqui a poesia é mais direta e a música mais plural. O disco é sobre esse nosso longo passeio, sobre saudade de casa e sobre o Brasil se encontrando e se descobrindo em São Paulo”, afirma o vocalista.



Outro cd que logo mais está chegando da fábrica  é "Carnavales", do Finlandia. Assim como o Los Porongas o duo viaja no fim dessa semana, mas para o outro lado, para participar do Festival Lupaluna, em Curitiba, junto com gente de nome como Otto, Tulipa Ruiz, BNegão e Charme Chulo, entre outros.

Formado pelos músicos Mauricio Candussi (Argentina) e Raphael Evangelista (Brasil), o duo apresenta músicas instrumentais tocadas ao vivo com a presença de violoncelo, acordeão, teclado e programações eletrônicas. O show, muito elogiado pela imprensa nacional e internacional, passeia pelas sonoridades tradicionais dos países da América Latina, com foco no Brasil e Argentina. Estilos como tango, bossa-nova, cumbia, milonga, flamenco e baião são apresentados em um ambiente contemporâneo. Em 2010 o duo passou por 6 países na tour de divulgação de seus dois primeiros discos “Nandhara” e “Nandhara-Extensión”.

O novo disco do projeto Argentino-Brasileiro abrange ritmos de carnavais de países da América do Sul

Saya, frevo, huayno, ciranda, baguala, copla, candombe, maracatu e uma mescla de Milonga e Forró, da Argentina e do Brasil, na experiência musical intitulada “forronga”, fazem parte do disco inspirado também na música eletrônica, a ser lançado em uma grande tour com mais de 50 shows já confirmados, somente nesses três primeiros meses.

Geralmente nos meses de Fevereiro e Março, os povos da América do Sul celebram a festa popular do Carnaval. Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Brasil, Paraguai, Peru: todas essas nações comemoram tradicionalmente o carnaval, cada uma à sua maneira, por meio de costumes e músicas ancestrais, mitos, vestimentas, cores, danças, bebidas e comidas típicas. É essa diversidade cultural que o duo Finlandia pretende sintetizar em seu disco Carnavales.

Serviço:

Los Porongas na FNac BH Shopping
Dia 13/05, sexta-feira, às 19h
Rodovia BR-356, 3049, Belo Horizonte, MG
Gratuito

Los Porongas no Studio Bar
Dia 14/05, sábado, às 22h
Rua dos Guajajaras, 842, Lourdes, Belo Horizon, MG
R$ 20 (H) e R$ 15 (M)

Finlandia no Festival Lupaluna
Dia 13/05, sexta-feira, às 22h20 (os shows começam às 20h)
BioParque, Av. Sen. Salgado Filho, 7636, Curitiba, PR
R$ 40 (pista)
Site oficial: http://www.lupaluna2011.com.br

Curso: A Jornada do Herói e os Filmes de Quentin Tarantino

Tudo que Guilhermoso Wild Chicken faz eu indico.

A JORNADA DO HERÓI E OS FILMES DE QUENTIN TARANTINO

Dias: 10, 17, 24 e 31 de Maio – as 19:30

O escritor, e analista de roteiros, Christopher Vogler faz a seguinte observação em sua obra A Jornada do Escritor - Estruturas Míticas para os Contadores de Histórias e Roteiristas:

“Vamos nos guiar por uma idéia simples: todas as histórias consistem em alguns elementos estruturais comuns, encontrados universalmente em mitos, contos de fadas, sonhos e filmes. São conhecidos como a Jornada do Herói”.
Este comentário serve como ponto de partida do curso proposto: Utilizar o estudo da Jornada do Herói como base para o entendimento estrutural do roteiro cinematográfico.

Além de Vogler, Joseph Campbell e a escola Junguiana servirão de mentores para os nossos estudos. E, para exemplificar a Jornada do Herói, escolhemos três filmes do genial roteirista, ator e diretor, Quentin Tarantino.

1ª AULA
Apresentação da Jornada do Herói: Os Personagens e as Etapas Básicas

2ª AULA
Pulp Fiction – Herói ou Vilões?

3ª AULA
Cães de Aluguel – O Herói e o Fora-da-Lei

4ª AULA
Bastardos Inglórios – Heróis e Catarses

DURAÇÃO: 8 horas.
DATAS: 10, 17, 24 e 31 de Maio; das 19:30 às 21:30.
INVESTIMENTO: R$ 
165,00 na inscrição + 1 parcela de R$165,00
LOCAL: Sede da Território Geográfico – Perdizes-SP
INSCRIÇÕES PELO TELEFONE: (11) 3862-5251

domingo, 8 de maio de 2011

Insistência



Devem ter sido bons os tempos em que se bradava que o amor é a resposta. Ao mesmo tempo, deve ter sido sofrido experimentar o inverso disso, na repressão brava do período. Insisto no amor, nestes nossos tempos meio mornos, que escamoteiam as violências.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Arte e burguesia

O pensamento burguês, vinculado, como a própria sociedade burguesa, à existência da atividade econômica, é precisamente na História o primeiro pensamento ao mesmo tempo radicalmente profano e a-histórico; o primeiro pensamento cuja tendência é para a negação de tudo que é sagrado, quer se trate do sagrado celestial das religiões transcendentes, quer do sagrado imanente do devir histórico. É essa a razão fundamental, parece-nos, pela qual a sociedade burguesa criou a primeira forma de consciência radicalmente inestética. O caráter essencial do pensamento burguês, o racionalismo, ignora em suas expressões extremas a própria existência daa arte. Não há estética cartesiana ou spinozista, e até para Baumgarten a arte não passa de uma forma inferior de conhecimento.

Lucien Goldmann. A sociologia do romance. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976. p.28.  

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Grande Acontecimento 35 - João Víscido e os adesivos de família feliz

Ora, João Víscido subitamente viu-se aflito: não tinha em seu carro os adesivos de família feliz. Estava humilhado: o Viegas, dono da corretora de imóveis em que João trabalhava, já colara os seus, ainda que tivesse setenta anos e mais cachorros do que filhos, depois de duas esposas perdidas, que religiosamente aderira, etéreas, no porta-malas do carro importado, além da cocota de trinta anos que lhe chupava as partes e as economias; o Dias, corretor medíocre, mas que ganhava as maiores comissões, aderira superlativamente a esposa, os dois filhos, a namorada de um deles e o namorado do outro à traseira do hatch prepotente que comprara em quarenta e oito prestações, arrogando-se de ser um homem de cabeça aberta por aceitar a orientação sexual do caçula; até Eliciane, a faxineira, adesivara a mãe, Das Dores, e o namorado churrasqueiro ao Fusca velho e amarelo, em caricatura banal, em que ele empunhava um espeto fálico. O carro popular, dum cinza automotivo tipicamente brasileiro, tinha de ser marcado da glória do clã dos Víscidos.

Acontecia, contudo, que João não tivera filhos;  a namorada não aceitava mudar-se para a casa dele - o que todos na imobiliária sabiam: João, quando bebia, contava o que não devia e alisava Eliciane, sob o bafo da cerveja de sexta. Não havia que fazer: render-se à expressão adesivada e solitária que experimentara desde que a mãe morrera, ou virar a mesa e dar um ultimato à amada.

Mas ela não se dobrava aos convites e às promessas de João - a mulher tinha a própria vida, pagava as contas, não ia submeter-se aos caprichos de um grudento, digamos tudo. João não teve dúvidas: colou o adesivo de casal mesmo assim, orgulhoso de si, na esperança de que a representação caricata de uma família feliz pudesse constituí-la.

E assim foi: a namorada encantou-se da declaração de amor mais singela que se lhe fizera e mudou-se para a casa de João, que ostentou, orgulhoso, no estacionamento da imobiliária, o adesivo simples do casal que acabava de se constituir em família feliz.

domingo, 1 de maio de 2011