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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Um novo casmurro

Depois de ler e reler um fragmento de Machado de Assis, que já transcrevi aqui, a respeito do professor Rudgero Barata, agora me debruço sobre trechos iniciais de Dom Casmurro:

Uso louça velha e mobília velha, o que não me importa: são apenas objetos. Enfim, agora, como outrora, há aqui o mesmo contraste da vida exterior, que parece pacata, ao menos se comparada à interior, que é ruidosa, mas que segue controlada com remédios: as doses diárias do Emplasto Brás Cubas, se me fizeste o favor de ler outro texto que escrevi. É preciso orientar o leitor, sempre que se faz necessário, para que não tome por remédios aquilo que são apenas textos. Cristo! É preciso explicar tudo, e essa tarefa já me enfada.

Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce, apesar de fetichista: tento deixar o passado para trás e tento abandonar as vaidades que outrora me orientaram as ações; envergonha-me encontrar amigos que me conheceram desfigurado pelo ego que eu levava nos olhos, hoje brancos de um medicamento anti-hipocondríaco. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal - ao menos, nas duas últimas noites. Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro. Desisti: melhor escrever um post no blog.

O meu fim evidente era desatar as duas pontas da vida, abandonar a adolescência e finalmente alcançar a velhice, que ela chega para todos, por mais que seja moda ou muleta fugir a ela. Pois, senhor, tenho tentado recompor, em perspectiva, o que fui, já com os olhos do que sou, bem diferentes daqueles olhos vaidosos e ciumentos - de casmurro, vá lá, se o leitor quiser. Em tudo, se o rosto é igual, embora envelhecido, a fisionomia é diferente: mais calma, pausada e refletida.

Como é cedo, esfreguei os olhos: não me parecia o Casmurro que conheço desde os quinze anos, idade em que o romance de Machado de Assis me caiu no colo pela primeira vez. Suspeitei do texto - eu mesmo digo a meus alunos que sempre suspeitem do narrador machadiano, sobretudo dos narradores mais abençoados, e é o caso deste aí acima - porque as frases me soaram embaralhadas, e me pareceu enfraquecida a tinta da melancolia de que falava Brás Cubas, nas suas Memórias. Mais: o estilo me pareceu comprado de livros de autoajuda - o que não pode soar estranho, já que o próprio Machado inaugurou a literatura psicografada no Brasil. Concluí que muitas vezes são os olhos do leitor que fazem o livro - frase misteriosa, de efeito, boa pra acabar o post. 

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O Grande Acontecimento 40 - A gnoma Gipseida e os caminhos desta minha terra

O leitor não sabe, mas cada uma das tecnologias desenvolvidas pela humanidade desde o século XIX – e até antes, dirão alguns historiadores – está baseada na exploração de seres semi-inanimados. Trata-se de gnomos, estranhas criaturas feiosas submetidas a ocupações exaustivas e repetitivas. Mas tudo pode piorar: criaturas como essas – dizem-lhes os criadores – são recompensadas com a própria existência. É assim: nascidas e criadas para labutar sem descanso e para acabar em lixões – ou mais recentemente em centros de reciclagem, deus proteja os homens criativos, que agora deram vida digna ao lixo -, essas quase-pessoas são educadas sabendo exatamente a parte que lhes cabe deste latifúndio, acreditando que suas vidas são dádivas inestimáveis – e que tudo é melhor que o vazio de não existir.

Gipseida é gnoma vocal, nascida e criada para orientar os verdadeiros humanos, destinada a viver eternamente dentro de um aparelho de GPS. No começo, a vida até que não é difícil, já que o primeiro carro em que Gipseida trabalhou foi uma Mercedez amarela, conduzida por um motorista, empregado de um empresário, cujos filhos tinham de ser levados à escola, às academias, às escolas de língua. Assim, o dia era agitado, mas, à noite, Gipseida podia descansar. Nossa heroína deleitou-se nas primeiras semanas, em que sua voz era o centro das atenções e sua tecnologia – ela própria, digamos tudo – era inédita no Brasil. As crianças adoravam ouvi-la dizer Após quinhentos metros, vire à direita; o motorista se divertia com ela, quando não lhe respeitava a rota e a obrigava a refazer o caminho, Refazendo a rota: após trezentos metros, vire à esquerda.

Foi exatamente a teimosia desse motorista, Severino seja ele, que ensinou à Gipseida algo que ela desconhecia: que era possível escolher os caminhos. Os mais curtos não eram necessariamente os mais bonitos ou menos congestionados; nos mais longos, às vezes, era possível aprender alguma coisa: Este é o Masp, Museu de Arte de São Paulo; Nesta padaria come-se o melhor sanduíche de mortadela depois daquele do Mercadão, era o que diziam os humanos no carro – e Gipseida acumulava essas informações religiosamente. Foi aí que lhe brilhou na mente uma ideiazinha que seus captores, os homens que arregimentavam a gnomada toda, jamais puderam imaginar: e se ela pudesse orientar os homens pelos caminhos mais bonitos ou mais úteis, sob outras perspectivas, além da menor distância?

No dia em que decidiu que falaria a Severino, Gipseida foi vendida para um amigo de um dos filhos do empresário, que a vendeu para um amigo da faculdade, que a vendeu para outro, que não gostou dela porque sua tecnologia já estava superada: Gipseida era um trambolhão, se comparada a outras gnomas de GPS. Gipseida virou uma pechincha e acabou nas mãos de um recém-formado em Administração, que a batizou com o nome que já conhecemos. E ele conversava com ela, carinhoso: Olha, talvez virar à direita não seja uma boa; Hoje não vou te obedecer; Faz o caminho, Gipseida, que eu te sigo; Essa é a Gipseida: sabe tudo! Ela sabe dos caminhos desta minha terra... ele até cantava para ela.

Era inevitável que Gipseida se apaixonasse por esse humano tão atencioso, com quem teve a chance de conhecer o amor. A ele, se pudesse, se não os distanciasse a condição degradante da semi-pessoa, ela dedicaria todas as informações para além dos caminhos mais curtos: recomendaria os melhores restaurantes se ele estivesse com grana e os mais baratos e bons, se estivesse sem; sugeriria roteiros de paisagens bonitas todos os dias, criando as rotas mais agradáveis, sem trânsito nem ocorrências policias; e recitaria as canções bonitas que ouviu nos rádios dos diferentes carros em que esteve.

Decidida a reverter o vazio repetitivo de não existir para aquele que amava, Gipseida não cumpriu o destino que lhe fora previamente traçado no dia de sua concepção: declarou-se ao condutor, sugerindo-lhe, na rota traçada, que, antes do trabalho, fizesse uma parada no Parque, para apreciar a natureza. E nesse dia conheceu os homens: sua declaração de amor foi interpretada como defeito de funcionamento, que a levou à loucura e ao desaparecimento num Centro de Reciclagem.


terça-feira, 28 de junho de 2011

Leitura de poetas mexicanos contemporâneos, na Casa das Rosas


O Selo Sebastião Grifo e a Mantis Editores, com apoio da Casa das Rosas e do Consulado Mexicano, convidam a todos para nos dias 28 e 29 de junho participarem da leitura de quatro poetas contemporâneos do México, cujos livros foram publicados em edições bilíngues português e espanhol e serão apresentados ao público brasileiro. As leituras ocorrerão na Casa das Rosas, a partir das 19h30. Trata-se de boa oportunidade para conhecer um pouco da produção atual do México e sua tradição literária.

Armando Alanís - Ritual do dito cujo - trad. Rafael Rocha Daud
Luis Aguilar - Os olhos já desfeitos - trad. Paulo Ferraz
Jeannette Clariond - Deserta memória - trad. Ana Rüsche e Felipe Sentelhas
José Javier Villarreal - A Santa - trad. Paulo Ferraz

ARMANDO ALANÍS PULIDO nasceu em Monterrey, Nuevo León. Pelas suas experiências com a linguagem e seu modo de tratar a poesia (uma mistura de canção ranchera com haicais e elementos da cultura pop, bem como um romance permanente com atmosferas urbanas) é considerado como um dos autores mais brincalhões e propositivos na nova geração de poetas no México, em 2005 a Universidad Autónoma de Nuevo León UANL lhe concedeu o Premio a las Artes por sua trajetória literária.
Desde 1996 coordena o projeto Ação Poética que consiste em escrever em uma espécie de grafite poéticos versos nas paredes e muros abandonados de sua cidade natal e na área metropolitana


LUIS AGUILAR nasceu em Altamirano, Tamaulipas, é jornalista, escritor e professor de Literatura Comparada e Crítica de Artes na Universidade de Autônoma de Nuevo León. É autor de diversos livros de poesia, contos e ensaios. Ganhou o Premio Nacional de Poesía Joven Manuel Rodríguez Brayda (1988) e o de conto Sobre Rieles (2001). Em 2006 obteve o Premio Nacional de Periodismo Cultural Fernando Benítez, outorgado pela Feria Internacional del Libro de Guadalajara. Foi vencedor do XIII Premio Internacional de Poesía Nicolás Guillén, com o livro "Fruta de temporada", cujos poemas foram lidos no Brasil em 2010.
Sua obra foi traduzida para o português, catalão, francês e inglês. Seu livro O entranhável costume ou El libro de Felipe, foi traduzido por Fábio Aristimunho Vargas e publicado em 2008 pelo Selo Sebastião Grifo e Mantis Editores.


JEANNETTE CLARIOND nasceu em Chihuahua, é poeta e tradutora. Sua obra foi traduzida para o português, inglês, francês, italiano e romeno. Obteve as seguintes distinções: Prêmio Nacional de Poesia Ramón López Velarde (1992), Prêmio Nacional de Poesia Efraín Huerta (1996), Prêmio de Poesia Gonzalo Rojas (2001), Beca Rockefeller/Conaculta (2000) e a Bolsa para Tradutores Banff (2004). Com a colaboração de Harold Bloom, Jeannette traduziu e publicou uma antologia de poetas norte-americanos, além de trabalhos de Alda Merini, Primo Levi entre outros.


JOSE JAVIER VILLARREAL nasceu em Tijuana, Baixa Califórnia. É professor da Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad Autónoma de Nuevo León, Mestre pela University of Texas at El Paso, Doutor pelo Colegio de Michoacán e membro do Sistema Nacional de Creadores de Arte (2006-2009). 
Como tradutor publicou "En una estación del metro" de Ezra Pound em colaboração com Carol Cotsonis, "Preparación para la muerte" de Manuel Bandeira, "Poemas" de Oswald de Andrade, "Estrellas pájaros 32 poemas brasileños del siglo XX", "Un libro de cosas luminosas" de Czeslaw Milosz em colaboração com Martha Fabela e "Al otro lado del mundo" de Murilo Mendes. 
Desde 1998 é produtor e locutor do programa de poesia as Aventuras sigilosas para Radio Nuevo León 102.1 FM. Obteve as seguintes distinções: Prêmio Aguascalientes de Poesia, Prêmio Nacional de Poesia Alfonso Reyes e Premio a las Artes de la UANL. Sua obra foi traduzida, parcialmente, para o inglês, francês e português.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Jornalismo B: Mídia e Intelectualidade

Diz um jornalista marginal que hoje os jornalistas funcionários das grandes empresas de comunicação não passam de cumpridores de tarefas. Assino embaixo. A mídia brasileira está cada vez mais afastada da intelectualidade. Se os grandes nomes do jornalismo de décadas recentes eram intelectuais forjados em mesas de bar, em contato com o povo, com a rua, os mais famosos jornalistas atuais são os mais fiéis empregados dos grandes conglomerados. Se o olhar apurado, a capacidade crítica e a qualidade textual eram os requisitos para bom jornalismo, vestir a camisa da empresa e virar as costas para as ruas são as atitudes mais valorizadas.

Esse é o fragmento inicial de um belo texto publicado no Jornalismo B. Vale a pena ler.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O hospital das plantas, a carnificina dos ratos e a minha infância

Houve época de minha vida em que eu trabalhava com as plantas e brincava com um animal de estimação, todos os dias, na floricultura de meu pai. Impressionante como é possível ressignificar tudo, o que me leva a crer que a memória às vezes é apenas uma reformulação de eventos do passado. Evidentemente, naquele tempo, dos meus onze ou doze anos, até os dezessete, eu não racionalizava a maravilha de regar as plantas e quase senti-las agradecer-me por isso; o contato com a terra úmida, quando eu plantava alguma árvore de natal, ou transferia uma samambaia de um vaso menor para outro maior, suplantava a crueza do asfalto, mas eu não percebia o quanto havia de troca naquela pequena ação.

De certa forma, alimentava-me o espírito entregar um ramalhete de flores a alguma aniversariante, que me sorria largamente por eu ser o portador daquela surpresa, mas eu não sabia quão importantes são os pequenos presentes. Só aprendi depois, talvez agora, bem recentemente, e ainda estou aprendendo. Compadecia-me das violetas que perdiam as flores e que, portanto, perdiam seu valor comercial: guardava-as todas no fundo da loja, esmerando-me em adubá-las e fazê-las florescer, para que, a um só tempo, pudesse ajudá-las a figurar ao lado de outras, mais jovens, que acabavam de chegar do Ceasa e para que pudesse minimizar a perda financeira de meu pai. A lógica de mercado ocupa todos os espaços, até os supostamente naturais: as poucas violetas que eu salvava não equilibrariam o balanço instável das contas da floricultura, mas era reconfortante ao espírito restituí-las gratuitamente, incondicionalmente, à condição de produtos de qualidade, não só por meio de minha insistência e trabalho, mas sobretudo por meio da beleza que nascia delas, de modo intrínseco, e que eu potencializara e cultivara. Era uma forma ingênua de subverter o mercado.

As avencas - estas, de todas, eram as mais delicadas. Qualquer traço de sol, por menor que fosse, queimava-lhes as folhas cruelmente, e quase sempre era impossível recuperá-las; uma brisa de vento bastava para fazê-las perder o viço, que estava exatamente em sua delicadeza - o limiar entre a vida e o desaparecimento, num verde brando, de folhas finas, que também dispensavam o excesso de água. Nos fundos da loja, ao lado das violetas sem flor, comecei a guardar as avencas queimadas, e também as rendas portuguesas que murchavam, num espaço a que acabei por dar o nome de hospital das plantas - meu lugar secreto, frequentado apenas por mim e pelos ratos que havia no fundo da loja e que raras vezes eu vira cara a cara, mas cujos rastros eu reconhecia: restos de alimentos e fezes, alguns objetos roídos, ruídos de fuga, às vezes, quando eu me aproximava rapidamente da enfermaria. Vivíamos em harmonia, arrisco dizer, embora temêssemos um ao outro.

Meu primeiro animal de estimação, sob exigências de meu pai, para controle da infestação de ratos, foi um gato preto: Gerânimo, mistura de Gerônimo e Gerânio, com que eu brincava, correndo pelos fundos da loja, de bolinha amarrada ao barbante, ou que dormia em meu colo enquanto eu lia no escritório de meu pai. Eram esses os meus espaços infantis: numa São Paulo de concreto, violenta, ainda numa década de extrema crise e de inflação galopante, eu podia ler no escritório dos fundos, cercado de arquivos e de notas fiscais, brincar com um animal de estimação, ainda que a portas fechadas, e conviver com as plantas, posto que num hospital. Cheguei a cultivar rúcula, que vingou, e que misturei secretamente em algumas de minhas saladas. Mas o que eu queria, mesmo, era ver as plantas crescerem.

Mas São Paulo não deixava - nunca deixou, até hoje - de dar seus recados na forma de pânico, atropelamentos, sirenes, incêndios e violências de toda sorte: a Cidade que não pára. No chão e nas paredes da floricultura, era possível sentir o sismo do metrô, cuja linha azul passava embaixo da loja. E não demorou muito para que Gerânimo, depois de uma noite de sono inquietante, desaparecesse, por ter sido atropelado na Domingos de Morais. Sem ele, os ratos proliferaram - a cada habitante da cidade correspondem muitos ratos, que transmitem doenças - era o que meu pai dizia. Não me esqueço dos guinchos agonizantes dos filhotes de rato, descobertos por um funcionário de meu pai, afogados no querosene; os que insistiam em viver foram queimados, numa espécie de ritual que não entendi bem, como se oferecêssemos aqueles animais a algum deus, sem expiação de pecados - eram oferendas vazias, cuja única função era proteger-nos da iminência da leptospirose. Eram eles ou nós, foi o que me disseram.

Não demorou para que declarassem: a causa de tudo, que acumulava lixo nos fundos, era o hospital das plantas, desativado imediatamente. As que tinham algum potencial de venda foram recolocadas na gôndola; as outras acabaram no lixo comum, da mesma maneira que os filhotes de rato. Mas meu pai era homem bondoso: a partir de então, quando algum parente ou conhecido reformava a casa, despejava o entulho nos fundos da floricultura, onde antes havia meu hospital. Tudo isso acabou: meu pai morreu, vejo poucos  parentes, a loja foi fechada; em seu lugar, está em construção um conjunto moderno de escritórios.      

Hoje reguei as plantas de meu jardim. Às vezes faço isso com pressa, acuado pela premência de outros compromissos; hoje tomei o tempo que se fez necessário. E experimentei tudo de novo: não falei com as plantas, porque tenho vergonha - também aquele-eu, que quase conversava com elas, já não existe mais -, mas pude senti-las agradecendo-me a gentileza, o tempo está seco, até para nós, todas plantas de sol que estamos acostumadas às altas temperaturas. Durante a maior parte do ano, não há tempo para cuidar delas: tenho um jardineiro que lhes aduba a terra e as poda com frequência.

Mas hoje percebi que as plantas estavam secas, por isso dei-lhes água, adiando algumas tarefas práticas do dia. Numa das lacunas do jardim, devo plantar coléus - plantas resistentes ao sol, de folhagem escura, grave, que, crescendo, podem até proteger as outras, não tão fortes.        

quinta-feira, 16 de junho de 2011

As três meninas de Camila Conti

Essa, Maria, na minha opinião, foi a que mais se estrepou. Levava lá a sua vida de menina, curtindo cabras e bezerros, fazendo pãozinho no fim da tarde e sonhando com um marido bonzinho que a sustentasse. Aí vem Deus e fode com tudo. Como sempre, manda lá um de seus puxa-sacos pra dizer pra pobre coitada que tem UM FILHO NA BARRIGA DELA! Um filho que ela não esperava e que ela não queria. Pra piorar, ela ainda era virgem, mas ninguém ia acreditar nisso e certamente seu sonho de um bom marido foi pro beleleu. Tá, tem o José e tals, mas alguém me diz onde ele estava na hora da crucificação do filho “deles”? Ele foi o pai que assumiu e deu a pensão. Só. Maria se ferrou a vida inteira: viveu o preconceito por uma trepada que nunca rolou e por um filho pelo qual não havia pedido. Ainda teve que segurar a onda de ver o cara morrendo, 33 anos depois. Virou santa. Mas… será que, se pudesse escolher, ela optaria por tornar-se santa à base de tanto sofrimento e às custas de um filho assassinado cruelmente? Será que ela teria optado por continuar virgem? Será que ela não tinha o direito de ter um filho na hora que bem entendesse? Em uma época onde o mundo era infinitamente mais cruel com as mulheres do que é hoje, não teria Maria o direito de dar a sua (mesmo que única) trepada?

Além de desenhar bem pra cacete, Camila Conti escreve bem pra caralho: leia o texto completo clicando aqui.

Roberto Carlos com Nosotros é mais legal



A rota ascendente dos Nosotros não pára: depois do lançamento do EP, no ano passado (disponível para download aqui), e de um belo show no Sesc Vila Mariana, eles têm aparecido cada vez mais.

Estiveram na TV Trama:



Depois, folheando a Rolling Stone deste mês, encontrei nota sobre eles. Agora, lançaram um blog colaborativo dos integrantes da banda, com o vídeo acima, em que eles fazem uma canção do Roberto Carlos, que com os Nosotros é ainda mais legal.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Sakamoto anuncia ventos de mudança: leituras na internet

O fato é que temos por aqui um capitalismo de brincadeirinha, sem a parte boa das liberdades individuais. É dever possibilitar mercados livres, mas a pessoa não conta com o mesmo benefício. O Estado é xingado se meter o bedelho nos negócios de particulares, mas elogiado quando diz com quem me deito, o que consumo e o fim que dou ao meu corpo. Dia 2 de julho, na capital paulista, haverá nova caminhada, agora sob o nome Marcha da Maconha. Aos intolerantes, que gozaram loucamente com o som das bombas de gás lacrimogênio estouradas em quem queria apenas defender sua causa, gostaria de dizer uma coisinha: perderam mais essa. E é bom se prepararem com um bom anti-ácido, pois os ventos de mudança não vão parar por aqui.

Para ler o texto completo do Sakamoto, clique aqui. Aliás, o Blog do Sakamoto é daqueles que consulto diariamente, leitura que, junto com outras, vem substituindo a Folha Enfadonha e o Estadão Autoritário.

Hoje, dos grandes só assino mesmo o Valor Econômico - e já expliquei meus motivos de assiná-lo aqui. Acabei de cancelar minha assinatura da UOL, que tinha sei lá quantos anos - exatamente porque nada ou quase nada do "conteúdo exclusivo" me interessa. O que eu faço para tentar me informar é o seguinte: leio o Valor, nas partes que me interessam, entro no meu blog para dar uma lida nos textos novos de outros blogs, que estão na lista à direita, além de consultar os sites que estão numa caixinha, também à sua direita, intitulada "Para Além da Mídia Tradicional". Depois de tudo isso, abro a página da UOL, em que geralmente só clico nas besteiradas enormes - vídeos de bichinhos ou quedas monumentais de modelos, em desfile. O Estadão Autoritário faz tempo que não presta. A Folha Enfadonha, mesmo, raras vezes tem algo que merece leitura: a página de Cotidiano virou uma espécie de arremedo comportado do saudoso Notícias Populares - que era muito mais divertido; a Ilustrada tornou-se uma espécie de Revista Caras de verniz elegante, quase no Padrão Globo de Qualidade; quando fala de literatura, fala quase sempre dos mesmos autores; quando fala de música brasileira, restringe-se aos monstros sagrados - porra, tanta coisa boa acontecendo hoje na música e os caras requentam a velharia, que pode ser boa, mas que não é unanimidade; os cadernos de política e economia são bem inferiores aos do Valor. Vou ter "conteúdo exclusivo" da UOL pra quê? Pra ler Veja? Ah, faz favor. [Atualização, às 7h30, do dia 16 de junho: a amiga Dulce Rosell (que, aliás, trabalha na UOL e escreveu um belo texto a respeito do novo trabalho do Sepultura) avisa via Facebook que faz tempo que a Veja não faz parte do conteúdo exclusivo da UOL. Agradeço a lembrança. E sorte nossa: quanto menos gente ler a Veja, melhor para o país].

Nunca achei que me empolgaria tanto com a internet. De fato, poder informar-se para além da mídia tradicional me parece algo fantástico, que ainda não entendemos bem. Estou já escrevendo um texto inspirado nos posts sobre Bernard Stiegler, Boaventura de Sousa Santos, misturando com ChomskyEduardo Galeano, associando tudo isso com Identidade Musical e música independente, Fritjof Capra, entre outros devaneios.   

Apesar dos horrores, vivemos um tempo maravilhoso.  

Lançamento: África lá em Casa, disponível para download, com show no Centro Cultural

O amigo Guilherme Chiappetta avisa por email que, no domingo dia 19, tem lançamento do álbum novo do África la em Casa, que está disponível para download no link a seguir: 


http://www.africalaemcasa.com.br/ALC-Sozinhos_entre_Fatias.zip

O show vai rolar às 18h no Centro Cultural São Paulo, na Rua Vergueiro. A entrada é gratuita. 










terça-feira, 14 de junho de 2011

O Grande Acontecimento 39 - Giselle Padrão não tem nada a dizer

Eu tenho vontade de matar essa criança.

Assim declarou Giselle Padrão, âncora renomada do telejornal vespertino repleto de histórias de sexo e violência, enquanto jantava com o marido e a filha de dez anos. Estes dois coitados não souberam que dizer: esperavam que Padrão completasse com uma brincadeira, ou uma justificativa, ou um desabafo desbragado, ou um arroto que exalasse champanhe - tudo que pudesse restituir ao pai a tranquilidade de si e a segurança da filha, e à filha a confiança na mãe: não é todo dia que se dorme com um barulho desses, ainda que Padrão não tenha gritado, nem dito a frase num tom aflito. Ao contrário: embora lindíssima, ainda com a maquilagem do programa, tinha os olhos brancos, vazios de cor - era tão bonito o verde dos olhos dela na rede de tv da faculdade, repetia sempre o marido, nos programas de turismo em que ela fazia esportes radicais, uhú, ele lembrava desse grito. Mas fizesse o que fizesse, a jovem Padrão nunca perdia a entoação que a caracterizava, sempre no mesmo tom, acento, volume e timbre, até quando gritava uhú, saltando de pára-quedas, ou planando de asa delta, ou fazendo rafting, ou escalando picos, ou suando em trilhas selvagens, ou cruzando rios da Amazônia à procura de pássaros exóticos - nem quando ouviu o canto mágico do uirapuru ela se encantou, nem quando raiou a aurora boreal ela perdeu a impostura vocal.

A frieza de Padrão levou-a rapidamente ao estrelato nacional, no telejornal vespertino repleto de histórias de sexo e violência - antes dela, uma outra jornalista estragara o programa debulhando-se em lágrimas porque assistira ao vivo a um suicida lançar-se da cobertura do Copan; o substituto desta coitada se emocionara demais ao comentar uma reportagem a respeito de clínicas de aborto, em que imagens de fetos despejados no lixo comum o fizeram perder a linha em cadeia nacional, admitindo que já forçara uma namorada da adolescência a fazer um aborto - o que resultou no pedido imediato de demissão, há fracos que perdem um emprego desses por dilemas de consciência, assim entenderam a produção do programa e a direção da emissora. Padrão não, esta se afirmara na frieza do comentário, no equilíbrio da entonação e da dicção, na objetividade jornalística que um programa como esse requer, sem subjetivismos que comprometam a qualidade da informação.

Acontece, entretanto, que Padrão declarou à mesa que tinha vontade de matar a própria filha. O marido, depois do estupor inicial, perguntou, Coméqueé?, Que história é essa?, a menina desatou a chorar e foi acolhida por Eliciane, a faxineira, cozinheira e interlocutora da menina, que todos precisam de uma interlocutora nesta vida, mesmo quem é filho de celebridade televisiva. O marido sacudia a esposa, Quéisso, Gija?, ao que ela respondia, Já tive vontade de amarrá-la ao pé da cama, por meses; já fantasiei que você me traía com a empregada, para que pudesse cortar seu pau fora, outra vontade grande que eu tenho; senti tesão na empregada e quis fazê-la cativa no porão, para que abusássemos dela seguidamente, por anos, até que fôssemos encontrados e condenados à prisão perpétua; na faculdade mesmo eu tinha vontade de subir no alto do castelinho e fuzilar o pessoal da engenharia, às vezes eu acho mesmo que seria uma serial-killer, queria entrar na sala de aula do colégio e com um olhar deixar todos os meus colegas fulminados; você mesmo, além de cortar seu pau, eu queria arrancar seu coração com as mãos, depois fritar, depois comer, olhar nos teus olhos e gozar com o prazer de vê-lo perder a vida, de degustá-la esvaindo-se aos poucos, captar o momento exato da passagem entre a vida e a morte, tudo isso me dá tesão, prazer, necessidade, vontade, eu me masturbo pensando nisso.

E continuaria infinitamente, se este narrador tivesse mais crueldades a inventar, será ele mesmo um psicopata? terá pensado o leitor, mas não há porque dar asas à imaginação, nem aguçar os piores sentidos, nem ativar os recônditos irracionais que todos temos, é o que dizem os psicanalistas, deus abençoe os shopping-centers, em que podemos deixar vazar nossas pulsões, e ainda que não os haja, sempre haverá vídeo-games violentos que nos saciem parte desse monturo que se chama irracionalidade humana. Mas Padrão não continuou, é escusado dizer que declarou aquelas monstruosidades todas sem perder o ritmo, como se entoasse as notícias do dia, escorreita, fluente, natural - o horror mesmo do marido interrompeu-a, ele que não pôde dizer nada, não sabemos se por medo de perder o pênis, ou se por já ter percebido que a esposa gemia na intimidade da mesma forma que gritava uhú, quando era jovem, no programa de tv da faculdade, esse uhú fora seu primeiro bordão, depois se estendera aos brothers que ingressam na casa, momento mágico da tv brasileira e mundial que se repete anualmente. Dizíamos que ela gemia, culminando sem ápice, porque era monocórdia, com os ais, que tesão, mete mais, goza pra mim, essas frases de alcova, todas elas da mesma forma, como se apresentasse aos telespectadores, no início do programa, o panorama geral das notícias da nossa trepada, foi assim que ele pensou, sem deixar de notar que Padrão gostava de foder com a tv ligada, Como se alguém estivesse assistindo à nossa foda, ela dizia assim, mas meio sem tesão - e o marido se consolava com a perversão da frase em si, desprovida de ser sensível que a proferisse, ainda assim era frase tesuda, de filme pornô, a que ele assistia secretamente, à cata de uma variação vocal que fosse, qual casamento não tem os seus problemas? era assim que ele pensava, em tentativa de conformar-se, porque gostava mesmo da mulher, vai fazer o quê? dizia ele aos amigos no chope, eu gosto dela assim, ué.

A gente precisa ver isso, Gija, você está com problemas, se quer mesmo fazer isso tudo, a gente tem de consultar um psiquiatra sei lá. Mas Giselle não tinha mais nada a dizer, nem mesmo isso ela disse, abraçou forte o marido, exausta, e chorou por horas.


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Nova coletânea de crônicas de Machado de Assis

O texto abaixo foi publicado no caderno de fim de semana do Valor Econômico. Como se refere a textos raros do Machado, achei que valia a pena postar aqui.


A sublime lenga-lenga de Machado
Luís Antônio Giron, Valor Econômico, 10/06/11

O texto abaixo refere-se ao livro Machado de Assis - Crônicas - A + B e Gazeta de Holanda, Organização de Mario Rosso, Loyola, 264 págs., R$ 48,00

A canonização de Machado de Assis (1839-1908) ajudou a restaurar a reputação da crônica de jornal. Mais de um século de estudos machadianos criou condições de trazer à tona um gênero visto como nada nobre até bem pouco tempo atrás, sobretudo entre os pesquisadores acadêmicos. O volume traz à luz textos raros do escritor, organizados e estudados pelo professor Mauro Rosso. Trata-se de mais um capítulo na redenção da crônica como gênero literário nobre.

Segundo levantamento do organizador, Machado redigiu crônicas ao longo de 31 anos de carreira. Publicou 384, em um total de 728 artigos, sob títulos, gêneros e pseudônimos diversos. Sua produção se estende de 26 de junho de 1859 - do primeiro de uma série de folhetins teatrais que escreveu para "O Parahyba de Petrópolis" - a 4 de novembro de 1900, com a famosa crônica do sineiro da Glória, publicada na "Gazeta de Notícias".

A atividade jornalística corresponde ao período de elaboração de toda a sua obra ficcional, poética e teatral. Ele publicou séries de folhetins para o "Correio Mercantil" (1859-1864), "O Espelho" (1859-1860) e publicações menores. Mas sua maior produtividade se deu para a "Gazeta de Notícias", diário liberal monarquista fundado em 1874 que dividia o mercado com o conservador "Jornal do Commercio" e o republicano "O Paiz". Machado começou no jornal publicando a série de crônicas "Balas de Estalo", de 1883 a 1886 - já vasculhada pelo historiador inglês John Gledson.

O volume recém-publicado traz duas séries de crônicas que se seguiram a "Balas de Estalo" na "Gazeta de Notícias": "A + B", sete crônicas em formato de diálogo publicadas entre setembro e outubro de 1886, assinadas por João das Regras, e "Gazeta de Holanda", 48 textos em verso, de 1º de novembro de 1886 a 25 de fevereiro de 1888, assinadas por Malvólio. Trata-se de uma produção relativamente ignorada, que não integra, por exemplo, a edição das "Obras Completas" da Aguilar. A primeira série foi incluída em "Diálogos e Reflexões de um Relojoeiro", de 1956, de Raymundo Magalhães Júnior. A segunda saiu nas "Obras Completas de Machado de Assis", da Jackson, de 1937.

A reunião desses textos em um volume é importante para entender aquilo que Rosso denomina "veia cômica" do escritor e seu engajamento com a realidade sociopolítica do Brasil imperial. Mais ainda, a leitura do material (sem esquecer a série "Bons Dias", entre 1888 e 1891, também na "Gazeta de Notícias") permite obter uma noção do que se passava no cérebro do autor no auge de sua carreira, nos anos em que se envolveu com a redação de um de seus romances mais importantes: "Quincas Borba" (1892). De 1886 a 1891, ele trabalhou com a história do pensador louco e seu cão filósofo, que fez publicar nesse período na revista "A Estação". Logo depois escreveria o romance "Dom Casmurro" (1899) durante parte de sua derradeira série de crônicas, "A Semana", de 1892 a 1900.

Tanto "A + B" como "Gazeta de Holanda" trazem coleções de pilhérias e ironias que se referem a realidades cujo sentido escapam ao leitor atual. O fato é compensado pela grande quantidade de notas de rodapé. Mas, mesmo assim, pipocam passagens incompreensíveis. Na primeira série, A conversa com B sobre os mais variados temas em debate naqueles anos: desvios financeiros, falsificação de cédulas de dinheiro, emendas ao Orçamento aprovadas no Senado e o sistema parlamentar.

Os assuntos de Malvólio (nome inspirado no personagem da comédia "A Décima Segunda Noite", de Shakespeare) não seguem apenas na economia e na política - a criação de um novo banco, negociatas, eleições municipais, dívidas e perdas do Tesouro, aspirações políticas frustradas, processos judiciais, eleitores fantasmas, o regimento interno da Câmara Municipal, divergência entre a Câmara e o Senado. Também abordam temas como a negligência na proteção dos animais, o aluguel de títulos universitários, a luta da capoeira nas ruas, a fuga de uma onça.

Na crônica em "versiprosa" de 30 de agosto de 1887, Malvólio toca em um tema delicado para o escritor: a escravatura, debatida na Câmara. A certa altura do texto, o cronista descreve o teor da discussão: "Uma lengalenga longa, / Uma longa lengalenga,/ Áspera, como a araponga,/ E tarda como um capanga (...) Saiba Sua Senhoria/ Que, em coisas parlamentares/ A minha sabedoria/ Vale a de um ou dois muares". O tom de Malvólio é de desconversa e de falsa modéstia. Como sabemos, apesar de monarquista e criptodefensor da abolição da escravatura, Machado não queria se comprometer demais nesse debate. Por esses e outros motivos, o esquivo cronista adotava pseudônimos.

As crônicas machadianas colaboram na busca entre o nexo íntimo entre a criação literária e a jornalística, além de oferecer uma espécie de frescor eterno. O leitor tem a impressão de conversar com o escritor, de ouvi-lo dizer quase automaticamente suas impressões aguda, ironias s e sublimes lenga-lengas, no calor do que ocorria nas ruas do Rio no fim do Império.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

"Para uma sociedade melhor: desmercadorizar", de Boaventura Sousa Santos

Encontrei esse texto precioso aqui. Leia mais sobre o autor, Boaventura de Sousa Santos, clicando aqui.

Desmercadorizar é um imperativo incontornável na busca de uma sociedade melhor. Sobrepostas às crises financeira, económica e social que acompanham o capitalismo desde o seu início, as crises ecológica, energética e alimentar vieram conferir um grau de convicção maior a algumas constatações que até agora não tinham merecido a atenção do cidadão comum. Eis algumas dessas constatações.

Primeiro, conceber o desenvolvimento como crescimento infinito assente na apropriação intensa da natureza é uma conceção que nos conduz ao desastre. A natureza está dar múltiplos sinais de que os seus ciclos de regeneração vital têm vindo a ser violados muito para além do que é sustentável. A natureza aguenta bem o uso por parte dos humanos mas não o abuso. O planeta não é inesgotável. O estilo de vida nos países desenvolvidos é energívoro e submete as energias não renováveis a uma pressão insustentável.

Segundo, a redução do bemestar ao bem-estar material, baseado no consumo de bens disponíveis no mercado, deixa de lado muitas dimensões da vida (a espiritualidade, o cuidado, a solidariedade, os valores éticos) essenciais ao florescimento humano. Tornam-se necessários outros indicadores de bemestar.

Soa hoje menos absurda ou exótica a iniciativa de um pequeno país budista entalado nos Himalaias, Butão, que, em 1972, decidiu criar um índice de Felicidade Interna Bruta (por analogia com Produto Interno Bruto) para medir o desenvolvimento humano com base nos valores da sua cultura.

Terceiro, como qualquer outro fenómeno histórico, se o capitalismo teve um início, certamente terá um fim. Aliás, a crise ecológica está a mudar os termos dos desafios que enfrentamos: se o problema não for o de saber se o capitalismo sobreviverá, é certamente o de saber se sobreviveremos ao capitalismo.

Quarto, o capitalismo, por mais dominante, não conseguiu nunca erradicar totalmente outras lógicas de relações económicas que não passam nem pela acumulação infinita de riqueza nem pelo lucro a qualquer preço; essas lógicas (algumas existiam antes do capitalismo e sobreviveram, outras surgiram com o capitalismo e para lhe resistir) contêm um repertório de inovação social e económica que pode ser precioso num contexto em que se aprofundam as crises social, ecológica, alimentar e energética.

Refira-se, a título de exemplo, o conceito de "viver bem", Sumak Kawsay em quéchua, que os indígenas do Equador lograram transformar em imperativo constitucional, ao mesmo que atribuíram à natureza (Pachamama, a terra mãe) a titularidade de direitos próprios dela e não dos humanos.

Desmercadorizar significa impedir que a economia de mercado estenda o seu âmbito a tal ponto que transforme a sociedade no seu todo numa sociedade de mercado, numa sociedade onde tudo se compra e tudo se vende, inclusive os valores éticos e as opções políticas.

O imperativo de desmercadorizar envolve a promoção do mais amplo conjunto de iniciativas, muitas delas já testadas pelo tempo e pela capacidade de criar bem-estar para os que nelas participam. Com algumas adaptações, as propostas pela desfinanceirização da Europa estão hoje a ser avançadas a nível mundial.

Constituem um dos núcleos centrais do objetivo de desmercadorizar a vida pessoal, social, política, cultural.

Com o mesmo objetivo, muitas outras propostas e iniciativas têm vindo a ser apresentadas. Fazem parte da consciência antecipatória do mundo e vão esperando a hora da vontade política para as levar à prática. Entre muitíssimas outras, eis algumas.

-Promover formas de economia social tais como cooperativas, economia solidária, sistemas de entreajuda e de troca de tempo e de trabalho -Submeter ao controlo público (não necessariamente estatal) democrático (não burocrático) a exploração e gestão de recursos e de serviços essenciais ou estratégicos -Desmercadorizar a natureza na medida do possível -de que é bom exemplo o pacto internacional da água, há algum tempo em discussão -promovendo uma nova relação entre seres humanos e natureza assente na ideia de que os primeiros são parte da segunda (não existem à parte dela) e que por isso deverão respeitar os ciclos vitais de regeneração da natureza, sob pena de suicídio coletivo -Definir uma nova geração de direitos fundamentais: os direitos da natureza, os direitos humanos à água, à terra, à biodiversidade e a consequente consagração de novos bens comuns insuscetíveis de serem privatizados -Interditar a especulação financeira sobre a terra e os produtos alimentares a fim de evitar a concentração de terra (está em curso uma contrarreforma agrária) e a subida artificial dos preços dos alimentos -Transformar a soberania alimentar em eixo de políticas agrárias para que os países deixem de ser, na medida do possível, dependentes da importação de alimentos -Regular estritamente os agrocombustiveis pelo impacto que têm na segurança alimentar e na soberania alimentar. O impacto destes projectos na agricultura e na vida dos camponeses não é difícil de imaginar - Aumentar a vida média dos produtos manufaturados. Um carro ou uma lâmpada podem durar muito mais tempo sem acréscimo de custos -Tributar de forma agravada alguns produtos agrícolas que viajam mais de 1000 km entre o produtor e o consumidor, criando com a arrecadação um fundo para apoiar o desenvolvimento local dos países menos desenvolvidos -Incluir a diminuição do tempo de trabalho entre as políticas de promoção de emprego -proibir o patenteamento de saberes tradicionais e reduzir drasticamente a vigência de direitos de propriedade intelectual na área dos produtos farmacêuticos e agrícolas -Aproveitar ao máximo as potencialidades democráticas da revolução digital para promover uma cultura livre que recompense coletivamente a criatividade de artistas e investigadores, generalizando a inovadora experiência do movimento do Open Source Software, e da Wikipedia.

Estas são algumas imagens da consciência antecipatória do mundo.

Dir-se-á que são utópicas ou eivadas de romantismo. Sem dúvida.

Mas devemos ter em conta algumas cautelas ao estigmatizar a utopia.

Muitas destas propostas, quando detalhadas tecnicamente, dispõem de medidas de transição e são susceptíveis de aplicações parciais.

Acresce que uma ideia inovadora é sempre utópica antes de se transformar em realidade. Finalmente, porque muitos dos nossos sonhos foram reduzidos ao que existe e o que existe é muitas vezes um pesadelo, ser utópico é a maneira mais consistente de ser realista no início do século XXI.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Entrevista com Bernard Stiegler (Valor Econômico, 03 de junho de 2011)

Talvez alguns leitores deste blog estranhem minha citação ao jornal Valor Econômico. Antes que me julguem, explico: não sei onde foi que li o Noam Chomsky (deve ter sido no livro que Chomsky explica nesta entrevista aqui) afirmando que os jornais econômicos, destinados a empresários e presidentes de grandes empresas, são boas fontes de informação. Pelo menos, nesses jornais, tende a desaparecer o discurso mentiroso de que "a imprensa é livre, independente e parcial". Todos sabemos que ela não é nada disso; nem sempre conseguimos identificar com plena clareza a que interesses ela responde. Mas o público leitor de jornais como o Valor tende a ter mais possibilidade de verificar supostas tendências ou movimentos da realidade apresentados pelo jornal, tal é o poder (financeiro) que esse público tem. Aí a publicação tende a ser mais responsável - e às vezes até a ampliar os horizontes ideológicos para bem além do que esperaríamos.

Pois bem: no caderno do fim de semana do Valor, que sai às sextas (o jornal não é publicado aos sábados e domingos), descobri a entrevista preciosa que segue abaixo. Coloquei título, data e autor, para respeitar ao máximo os direitos autorais. Mas tinha de divulgar aqui, porque há conceitos bons demais pra não debater.

Por exemplo, o trecho a seguir:


Para Karl Marx, a proletarização é a perda de um saber. O saber fazer, no início, mas isso tende a se estender para todas as formas de saber. É isso que vivemos hoje. A perda de saberes engendra a perda de sabores, esse é um jogo de palavras instrutivo. Quando não temos mais os saberes, perdemos o gosto da vida. O problema do consumismo é que ele destrói saberes.        

Demonstrar por a mais b - e parece que o tal Bernard Stiegler, o entrevistado do Valor Econômico, faz isso nos livros, que vou comprar já - que "o consumismo destrói saberes" me parece ser uma reflexão de utilidade prática enorme. Seguinte: perder saberes - consumir desvairada e irresponsavelmente - implica perder sabores, isto é, o desfrute da mercadoria em si (me ajudem aí os leitores dos primeiros capítulos dO Capital, do Marx: perdemos a noção do valor de uso e só experimentamos o fetiche da mercadoria, certo?). Agora, ampliar essa constatação para a Crise de 2008 e para a especulação no mercado me parece ótima chave de compreensão do mundo em que vivemos. E compreendê-lo é condição necessária (não suficiente, mas muito necessária) para mudá-lo.

Voando mais baixo: perder o gosto pela vida porque não temos saberes é mais ou menos o que acontece com muitos de nós, quando mergulhamos no universo da pulsão, sem a mediação da libido. Deixa o homem explicar:

A libido é o verdadeiro desejo, sublimado, que conhece seu objeto. A pulsão é o ato imediato, que não consegue se segurar. É a representação de algo com que nos confrontamos todos.

Depois, na sequência:

Quarenta porcento das crianças americanas de um ano já veem TV e isso tem efeitos reconhecidos pela pedopsiquiatria. Déficit de atenção, hiperatividade, perturbações graves. O consumidor não é mais desejante, como dizia Gilles Deleuze, mas pulsional. É uma regressão psíquica, mas também social. Começou com Thatcher e Reagan e acabou com toda forma de autoridade. Hoje, a única força de autoridade é a policial. Estamos à beira de uma explosão social.

Se o consumidor não é mais desejante, mas é pulsional, o ato do consumo é imediato, espécie de ejaculação precoce, ou de masturbação pensando em si mesmo masturbando-se, sei lá. Só sei que - como disse minha namorada filósofa quando comentei com ela o texto - onde não há objeto não há sujeito. Eis aí a tal regressão psíquica e social. E digo mais: não me parece estranho que tudo tenha começado com Tatcher e Reagan - a maldita década de 80, a respeito da qual especulei aqui, quando aconteceu a Marcha pela Liberdade. Retomando aquele trecho do texto: me parece que a violência e o descontrole da minha geração têm a ver com esse desaparecimento da autoridade. Digo o mesmo a respeito das crises que a escola vem vivendo no mundo todo.   

Gostei ainda mais do tal Stiegler quando ele afirmou:

Cada vez que muda a forma de publicação, há uma grande mudança política. Foi o caso da imprensa, que desaguou na revolução francesa. Com a internet, há uma transformação da publicação. Não haveria revolução tunisiana sem Wikileaks, que vazou telegramas de Ben Ali. O espaço público está em mutação, porque a publicação está em mutação.

Era exatamente a impressão que eu tinha no dia da Marcha pela Liberdade: eu não estava lá, mas a estava divulgando e comentando - isto é, o espaço público se ampliava naquele momento, porque a internet propiciou isso.

Chega. Os poucos que chegaram até aqui podem ler a entrevista:

[Atualização às 23h17: achei o blog do entrevistador, com mais um trecho da entrevista, que acabou não saindo no Valor: http://diegoviana.opsblog.org/a-internacional-digital/

Greenspan, um proletário (entrevista com Bernard Stiegler, por Diego Viana, de São Paulo, no caderno Eu & Fim de Semana, do Valor Econômico de 03 de junho de 2011)

Para entender a amplitude da crise econômica de 2008, não basta examinar as entranhas do sistema financeiro. Também é preciso recorrer aos conceitos de autores como Sigmund Freud, Gilbert Simondon e Jean-François Lyotard. Essa é a proposta do filósofo francês Bernard Stiegler, que veio ao Brasil para falar sobre "A Proletarização da Sensibilidade" no seminário Revoluções, em São Paulo.

Stiegler leciona nas universidades de Compiègne e Londres. É fundador da associação Ars Industrialis, que se propõe a pensar "uma política industrial das tecnologias do espírito". Instados por Stiegler a enxergar na tecnologia um fármaco no sentido proposto por Platão - para o grego, a escrita era um fármaco, porque tanto podia servir a cristalizar a dominação como a perpetuar o conhecimento -, os membros da associação desenvolvem projetos que incluem programas de computador e iniciativas regionais. A ideia é permitir à população tomar controle da produção da vida e, assim, escapar da proletarização.


Stiegler define a proletarização como a perda dos saberes que compõem a vida. O grande exemplo de como o consumismo proletarizou a todos é o ex-presidente do Fed Alan Greenspan, que se declarou incapaz de evitar a crise por não entender como funcionava o sistema que deveria regular. Dentre as obras do filósofo, destacam-se "A Técnica e o Tempo", "Por uma Nova Crítica da Economia Política" e "O Que Faz Valer a Pena Viver a Vida". Ele também dirige o Instituto de Pesquisa e Inovação do Centro Pompidou, em Paris.


Valor: A era do consumismo, que o senhor define como inciada com a teoria de relações públicas de Edward Bernays, sobrinho de Freud, e o triunfo do fordismo, foi marcado por uma sucessão de crises. Por que a de 2008 foi diferente?


Bernard Stiegler: Primeiro, ela não é só financeira. É uma crise da economia libidinal. A base do consumismo é um processo de economia libidinal, que se tornou o coração do capitalismo no último século. O auge do sistema foi sua ruína, quando Ronald Reagan e Margaret Thatcher destruíram o poder público. O marketing se tornou o sistema de prescrição econômica exclusivo. Onde havia banco de investimento, passa a haver fundo especulativo. A especulação criou a insolvabilidade, daí o subprime, e um sistema de diluição da responsabilidade. O especulador zomba abertamente da responsabilidade. Seu objetivo é partir logo que não haja mais dinheiro a ganhar, ao contrário do investidor, que está ligado a seu investimento.


Valor: O pensamento econômico pode captar a distinção entre especulação e investimento?


Stiegler: Temos de refazer a crítica da economia política, reavaliar a questão do trabalho e da proletarização. Para Karl Marx, a proletarização é a perda de um saber. O saber fazer, no início, mas isso tende a se estender para todas as formas de saber. É isso que vivemos hoje. A perda de saberes engendra a perda de sabores, esse é um jogo de palavras instrutivo. Quando não temos mais os saberes, perdemos o gosto da vida. O problema do consumismo é que ele destrói saberes. A crise mostrou que até Greenspan é proletário. A estratégia que ele usou para se defender quando chamado pelo Congresso foi dizer que não entendia como o mercado financeiro funcionava. As ferramentas informáticas faziam com que não fosse possível entender nada. Exatamente o que acontecia nas fábricas do século XIX e que Marx criticou.


Valor: Ninguém entendia o funcionamento?


Stiegler: Tinha uma pessoa que entendia: Bernard Madoff. Ele manipulava tudo porque entendia. Ele encarna o triunfo da máfia no capitalismo. Chegou-se ao ponto em que o único capitalista a entender o que acontece é o mafioso, aquele que não acredita em nada. Ele entendeu que não se deve mais crer em nada, o que é extremamente grave. A especulação destrói o valor econômico, então não pode se perpetuar, é autodestrutiva.


Valor: Voltando às características de 2008...


Stiegler: Outro lado é o hiperconsumismo, o consumismo que se tornou viciante, produzido não pelo desejo, como na verdadeira economia libidinal, mas pela compulsão. O caso de Dominique Strauss-Kahn é um resultado perfeitamente previsível.


Valor: Por quê?


Stiegler: Para mim, ele é o símbolo do caráter pulsional do mundo contemporâneo. A agressão sexual não é caso de libido, mas de pulsão. A libido é o verdadeiro desejo, sublimado, que conhece seu objeto. A pulsão é o ato imediato, que não consegue se segurar. É a representação de algo com que nos confrontamos todos.


Valor: Qual é o segundo ponto?


Stiegler: A crise vem no momento em que outro dispositivo começa a se estabelecer. Penso, como Marx, que há infraestruturas, ou seja, meios de produção. Mas eu me interesso pelas estruturas da libido. A energia libidinal é uma produção, fruto de uma economia. É por isso que falo de economia libidinal. Ela pressupõe dispositivos de produção. No século XX, foram destruídos os aparelhos de produção da libido. O investimento amoroso é condição do investimento econômico, como diz Max Weber. Quarenta porcento das crianças americanas de um ano já veem TV e isso tem efeitos reconhecidos pela pedopsiquiatria. Déficit de atenção, hiperatividade, perturbações graves. O consumidor não é mais desejante, como dizia Gilles Deleuze, mas pulsional. É uma regressão psíquica, mas também social. Começou com Thatcher e Reagan e acabou com toda forma de autoridade. Hoje, a única força de autoridade é a policial. Estamos à beira de uma explosão social.


Valor: O que está se estabelecendo agora?


Stiegler: Nesses anos todos, apareceram modos de comportamento novos, que não se inscrevem no horizonte consumista. São comportamentos contributivos. O marketing tenta manipulá-los, claro, mas eles criam horizontes que não são consumistas. A crise é terrível, mas ao mesmo tempo é fecunda, como todas as crises. Este é um período revolucionário. Não no sentido de 1989, 1917 ou 1848. É uma revolução que não passa necessariamente pelas barricadas, mas pelas redes sociais e as práticas novas.


Valor: Essa revolução se mostra na política?


Stiegler: O que faz com que cidadãos sejam cidadãos é terem acesso ao conhecimento das coisas políticas. O espaço político é um espaço de publicação. Cada vez que muda a forma de publicação, há uma grande mudança política. Foi o caso da imprensa, que desaguou na revolução francesa. Com a internet, há uma transformação da publicação. Não haveria revolução tunisiana sem Wikileaks, que vazou telegramas de Ben Ali. O espaço público está em mutação, porque a publicação está em mutação.


Valor: O discurso político percebe isso?


Stiegler: Os representantes, que têm poder de decisão política, não entenderam nada. São fruto do velho sistema e não querem mudar. É o mundo econômico que percebe. Os clientes da Ars Industrialis são bancos, indústrias, empresas de telecomunicações, transportes, software, energia. Estão muito inquietos, veem que o sistema não funciona mais. Um executivo chegou a dizer que não pode manifestar essa inquietação para não ser eliminado pelos acionistas.


Valor: Mas o mafioso segue triunfando?


Stiegler: A burguesia liberal, no sentido clássico do termo, deveria dizer: atenção, estamos nos confrontando com máfias e o capitalismo está se tornando mafioso. Mas ainda há parte do capitalismo que crê no investimento. É preciso conseguir falar com eles, apontar para essa máfia e mostrar como é obcecada pelo curto prazo e, portanto, autodestrutiva. Ela destrói toda a esfera civil e, quando isso acontece, só o que sobra é a guerra civil.

No camarim com O Jardim das Horas

Já escrevi aqui antes: nos últimos anos, tive a chance de conhecer artistas talentosíssimos, que me ensinaram demais. Entre eles, o pessoal dO Jardim das Horas. No vídeo abaixo, de Renato Reis, um pouco do que rolou no camarim do Auditório Ibirapuera, quando a banda se apresentou por lá. Foi bom acompanhá-los, porque entendi um pouco mais sobre arte, equilíbrio, claridade do que é real e - é claro - amor.



Evento sobre Euclides da Cunha



Revista Outros Ares #2

A Revista Outros Ares, editada por Marcelo Barbão, chega à segunda edição.
Clique aqui para acessar o site da revista.
Abaixo, o editorial.




Os ares são novos e outros, mas a ideia continua a mesma: publicar bons contos, fazer boas entrevistas e continuar mantendo este espaço para divulgação da literatura curta sendo produzida no Brasil.

Antes de apresentarmos os contistas desta edição, é preciso dar um puxão de orelha (de leve) e apresentar uma novidade. O puxão de orelha é que alguns contistas não leram as regras direito e mandaram contos ultrapassando o máximo de caracteres permitidos pelas regras da revista. Infelizmente, estes são eliminados diretamente. Depois de muita deliberação, resolvermos ser sérios nisso. Afinal, são tão poucas regras, se não as respeitarmos…

Em termos de novidade, tivemos a honra de receber contos de amigos escritores que querem apoiar a revista. Claro que o objetivo original é publicar material de escritores inéditos, mas seria um absurdo receber contribuições espontâneas de bons escritores já conhecidos e publicados, e não mostrar aos nossos leitores. Por isso criamos a nova seção Bônus, como se fosse um CD com músicas não esperadas. Nesta edição, temos a participação de Charles Kiefer Ronaldo Cagiano. Essa seção só existirá quando recebermos contos de escritores que queiram prestigiar a revista.

Agora, à Outros Ares número 2. Neste número, um dos contistas contemporâneos mais conhecidos (contista mesmo, sem nenhum romance publicado): Marcelino Freire. Além de responder a nossas perguntas, ele conta sobre o projeto Edith – nova editora voltada a publicar autores inéditos – que nasceu das suas oficinas literárias. E também mostramos com exclusividade um conto dele que sairá no livro “Amar é crime”, a ser publicado em julho também pela Edith.

Entre os contos escolhidos desta edição, temos o paulista Willian Novaes, com o conto “Uma bola e as crianças“, o “conto de futebol” da edição, como aconteceu no primeiro número.

O carioca César Cardoso distorce o amor infantil no excelente conto “O castigo“. O baiano Marcondes Araújo faz algo parecido, mas com as avós, no conto “Piolhos-de-cobra“.

E, para terminar, o gaúcho, mas com vontade de ser portenho, Marco Cavalheiro discorre sobre o “Inatingível” numa mistura de conto, crônica e micro-ensaio.

A foto da capa desta edição é de bobguima, persona artística do paulistano Roberto Guimarães. Jornalista e músico, por ora ele ganha a vida na Bizu, estúdio de criação que comanda ao lado da mulher, a artista visual Ana Starling.

A partir desta edição, a data para saída é o primeiro domingo de cada mês, ou seja, a próxima estará online no dia 03 de julho. Os contos devem ser enviados até dia 25 de junho. Podemos ser encontrados no FacebookTwitter ou direto no email: revistaoutrosares @ gmail. com

sábado, 4 de junho de 2011

A minha oração (e o que não interessa a quase ninguém)

Foi assim: a tal Banda Mais Bonita da Cidade fez sucesso com a "Oração", cujo vídeo todo o mundo já viu no YouTube, por isso me dispenso de postá-lo aqui. Deixo pra comentar a canção, e o sucesso em torno dela, num outro dia, num outro blog. Por enquanto, basta dizer que me encantei com a ideia de que eu mesmo poderia compor a minha oração.

Por mais que eu viva fora da prática religiosa desde o colégio, até esta noite ainda vivia em algum lugar de meu inconsciente um velho padre, não daqueles queridos da Teologia da Libertação, mas um bem medieval, repressor, de olhos enraivecidos à moda dos inquisidores, moralista, disciplinador, namorado da direita. Esse maldito que vivia em mim nunca permitiu que eu criasse a minha oração - só queria que eu repetisse aquela que o senhor nos ensinou, que é bonita, e tal, mas que, sozinha, já não me fazia muito sentido, porque do colégio pra cá explorei outras formas de contato com o transcendente, sempre a distância, envergonhado, porque o maldito não me deixava ir além do catolicismo. Eu queria, procurava, investigava, lia - mas não experimentava.

Pois bem: nesta noite, o dito-cujo foi sublimado, evolou-se de meu inconsciente, não sei bem por quê. Talvez eu saiba, mas esses motivos não interessam a quase ninguém. O que interessa é que o padre inquisidor foi-se embora, virou fumaça sem ser quiemado vivo, apenas foi perdoado - porque até ele, durante algum tempo, cumpriu bom papel na minha vida, sou obrigado a dizer. Mas já não tinha função faz tempo. Perdoei-o com compaixão, evitando a mágoa dele em minhas vidas futuras e em meu karma, certo de que ele pode voltar, se eu não mantiver minha mente num estado equilibrado.

Quando acordei hoje, às seis da manhã, disposto a trabalhar o dia inteiro, sentei-me ao computador e escrevi a minha oração, talvez a minha primeira oração - que também não escrevo aqui porque, embora esteja cheia de amor à humanidade, não interessa a quase ninguém.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

House tem de se ausentar ("As tears go by", Rolling Stones)

Pra entender o contexto, melhor assistir a este vídeo antes.



It is the evening of the day
I sit and watch the children play
Smiling faces I can see
But not for me
I sit and watch
As tears go by

My riches can't buy everything
I want to hear the children sing
All I hear is the sound
Of rain falling on the ground
I sit and watch as tears go by

It is the evening of the day
I sit and watch the children play
Doing things I used to do
They think are new
I sit and watch as tears go by

O último post

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Manuel Bandeira

Neste exato instante, minha esposa e eu aguardamos pacientemente o fim do mundo. No dia em que a presidenta do Brasil disse na TV que tudo acabaria, sob o impacto de um meteoro que, pelos cálculos da NASA, arrasaria a vida na terra em exatos três dias, decidimos que não faríamos nada, absolutamente nada. No primeiro, não corremos aos supermercados, como muita gente fez, envolvendo-se nos últimos conflitos que a TV transmitiu em sua história; não corremos ao interior do Brasil, onde muita gente acredita que a vida humana sobreviverá; não fizemos surubas, nem nos vigamos dos inimigos; também não nos suicidamos nem matamos um ao outro, sob a ilusão de morrer nas mãos de quem amamos. Simplesmente contamos com a sorte – depois começamos a acreditar em deus, como contarei a seguir – e verificamos que o que tínhamos na despensa serviria para nossa sobrevivência até hoje, o terceiro dia, em que já se avista claramente no céu o meteoro em rota de colisão – trata-se de espetáculo macabro que nos mostra que a morte possivelmente dolorosa se avizinha. Mas não temos mais medo da morte, nem nos arrependemos de ser só humanos, como vou contar.

Ao contrário do que imaginávamos, não duraram muito as telecomunicações: não deu tempo de ligar pros pais dela nem pros meus, nem era prudente que saíssemos de casa para encontrá-los – e foi assim que aprendemos, ainda no primeiro dia, a nos conformar com a morte de entes queridos. As rádios emudeceram rapidamente, os canais de TV duraram um pouco mais, mas não tanto quanto achávamos que seria justo com aqueles que decidiram ficar em casa. A internet não funciona mais – este post mesmo, que eu pretendia lançar em meu blog, foi escrito no Word, com a porcentagem final da minha bateria do laptop, e não irá ao ar. Nenhum radialista amador decidiu cobrir os últimos momentos do mundo – a realidade não é o cinema, nem o cinema continha a realidade, concluímos.

Em todos os filmes-catástrofe, o exército americano se dispunha a tudo para salvar a vida na Terra. Nada disso: ao que parece, todos os soldados desertaram, e foram ficar com suas famílias, ou fumar o último baseado, ou dar a última trepada. O mesmo deve ter ocorrido com os comandantes, o alto-escalão, os homens de alta patente, os milionários, os grandes burocratas, o presidente – todos, enfim. Nisso, Hollywood não havia mentido: todos os homens se igualam, na hora da tragédia, na sua faceta mais animal ou na mais humana. Vimos, pela janela do apartamento, gente se atirando dos edifícios, assassinando filhos, velhos, animais de estimação; vimos condutores de carros enormes em fuga desesperada – para onde? – atropelando carros menores, ciclistas e pedestres, impiedosamente; mas também vimos gente que recolheu corpos e os enterrou nas praças; gente que acolheu feridos e que distribuiu comida. E acabamos chegando à conclusão que a humanidade não é o horror que pintam os acadêmicos apocalípticos ou jornalistas sensacionalistas. Há quem seja bom, em situações como esta, há quem seja mau. Mau? Não será a maldade fruto do desespero e da cegueira frente ao maior dos medos – a hora de morrer? Desistimos de chegar a essa conclusão, depois dos primeiros ataques a nossa casa.

É claro que tivemos problemas com invasores – que tive de fuzilar friamente; assassino dentro de mim, eu nunca soube que o havia, descobri na primeira noite: experimentei certo prazer ancestral em tirar a vida a outra pessoa. Minha mulher perdoou-me, pelos assassinatos e pelo gozo da carnificina, que lhe confessei aos prantos, na cama, as mãos manchadas de sangue, algoz de olhos excitados por ver perder, a outros, a luz. Conversamos sobre a maldade e a bondade dos homens, sobre as motivações egoístas e altruístas, sobre o amor – e acabamos chegando a deus, como era de se esperar. Amanhecia. Nunca fomos tão religiosos quanto no segundo dia.

Explico: antes da notícia, não pensávamos em deus. Só morávamos perto da Augusta, região do Centro, para que estivéssemos próximos do metrô e dos bares. Éramos felizes, trepávamos sempre, tínhamos amigos e fazíamos bicos pra pagar o aluguel, a pizza e a cerveja – o que já nos bastava. Não tínhamos carro, para evitar multas, seguros e IPVA; o apartamento era alugado, para que gozássemos da liberdade de nos mudar na hora que bem entendêssemos, para onde quiséssemos (havia um plano algo vago de morar na praia um dia); cultivávamos boas relações familiares, embora evitássemos o contato frequente – nossas famílias não eram religiosas, não queríamos nos casar na igreja, não acreditávamos em deus ¬– mas sabíamos que os pais ficariam felizes se cumpríssemos o ritual que acabaríamos por cumprir, quando ou se ela engravidasse; mas filhos nós também adiávamos, dada a boa vida que levávamos, e que não queríamos mudar.

Depois da notícia do meteoro, tudo mudou. No primeiro dia, tomei de um vizinho semimorto a arma que ele tinha em casa, que me valeu para defender a minha. Na primeira noite, matei mais de dez invasores, cujas cabeças dispus na entrada do prédio, quando amanhecia, para afastar outros oportunistas. Deu certo esse ritual macabro, do qual não me orgulho, mas que nos garantiu, a mim e a minha esposa, a paz em casa. Tínhamos falado de deus, logo antes; tínhamos incenso; tínhamos alguns textos budistas, leituras da moda, que foram lidos e esquecidos na roda viva dos empregos; pegamos uma bíblia na casa de um vizinho; construímos um altar – originalmente a churrasqueira da cobertura – que preenchemos com fotos de infância, de parentes e amigos queridos, além de todos os textos e imagens religiosas que pudemos recolher nos apartamentos do nosso prédio. De certa forma, muitos animais foram sacrificados na churrasqueira, de maneira que acabamos por nos atar a todas as religiões – das mais antigas, que sacrificavam pessoas ou animais aos deuses, às mais recentes, em que o sacrifício é simbólico. Não nos furtamos ao sexo, prática que nos pareceu ainda mais significativa do que era antes: fazíamos ali mesmo, ao ar livre, na frente das aras de todos os deuses. Ela suspendeu as pílulas; eu, a camisinha. Gozávamos juntos – ela era a vida em potência, o ventre arfava; eu depositava nela toda a vida que pudesse, porque nos restava celebrar a vida, que agora nos parecia tão fugaz: nós, que nem trinta anos tínhamos, nos veríamos extintos em nosso vazio completo, de vidas sem realização nenhuma, sem marca nenhuma pra deixar no mundo – e mesmo as obras dos homens mais eminentes desapareceriam na potência imensurável e natural de inúmeras bombas atômicas que tudo destruiriam em poucos minutos, nivelando por baixo os homens, suas obras, seus filhos, suas marcas, seus altares particulares e coletivos. Foi assim que chegamos à conclusão de que a celebração da vida por meio do sexo era o melhor que poderíamos fazer.

Ora, passamos por tudo isso em quarenta e oito horas, em que envelhecemos muitos anos. Dormimos na segunda noite, com o firme propósito de ver nascer o último dia da humanidade. As ruas estavam silenciosas – quem tinha de morrer ou de ser morto já descobrira o mistério; quem queria matar ou saquear evitava nosso prédio, assustado pelas cabeças mortas em nossa portada – os homens desorientados ficam supersticiosos em momentos como este; quem queria paz, como nós, estava trancado em casa, fazendo o que lhe parecia ter sentido – foi o que fizemos há pouco, na cobertura, quando vimos nascer o sol. Não choramos de desespero, quando vimos também os primeiros traços do meteoro, depois a monstruosidade que ele assumiu. Foi curioso, porque a Terra amanheceu completamente em paz, a despeito da clara realidade que se lhe apresentava crua no céu – como se a inexorabilidade do fim não nos pudesse mais abalar; ou como se a vida tivesse quase que perdido a graça, que estava exatamente em vivê-la como numa peça que não podemos ensaiar, ou qualquer outro clichê que se refira à vida.

Agora escrevo estas palavras, umas minhas, outras sugeridas por ela, e somos um só neste texto que, embora vá desaparecer daqui a pouco na maior tragédia da humanidade, ainda registra nossa celebração à vida, por meio do amor. Ponto final: hora de abandonar as marcas fugazes – insiste em nós o desejo humano, que, concluímos, não é pecado nem graça, é só humano – para darmos as mãos.

Finlandia no Otto Bistrot



Esse sábado marca a última apresentação do Finlandia em SP nessa primeira parte da tour de divulgação do terceiro cd da dupla, "Carnavales". Para fechar com estilo quem vai nos receber é a chef Bia Goll em seu Otto Bistrot. É isso aí, ambiente intimista, comida boa e entrada camarada. É para não perder, porque depois do show pode rolar ainda um bate papo e uma janta deliciosa.

Seguindo a tour o grupo ainda se apresenta no Rio Grande do Sul, Minas Gerais e no SESC Birigui, para então mostrar na Europa, México e Am. Central seus sons. Acompanhe tudo aqui no blog e no site do grupo.

Serviço:

Finlandia no Otto Lab
Sábado, 04/06, 22h
Otto Bistrot - Rua Pedro Taques, 129 - Consolação (Mapa aqui)
Entrada - R$10
Site - www.ottobistrot.com.br