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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Um passo por vez: preparar aula, dar aula e voltar pra casa

"Um passo por vez", é o que recomenda o Jair Naves, um desses poetas que eu tive a chance de conhecer. Arrisco dizer que pela primeira vez, sei lá, desde os quinze anos de idade, tive um dia em que dei um passo por vez: preparei minhas aulas pela manhã, tarefa de que tenho gostado cada vez mais, por isso tenho gastado mais tempo com ela. Preparar aula é um exercício espetacular: é estudar alguma coisa com a finalidade de fazer os outros estudarem a mesma coisa, mas com mais facilidade. Há uma doação no ato de preparar aula, antes do ato de dar aula, que me emociona, empolga, diverte e entretém bastante. Os voos são altos, os devaneios vão longe - uma aula bem preparada me leva a cerca de cinco livros diferentes, além das consultas aos dicionários, às enciclopédias, às wikipedias, ao Google, estes dois últimos em tempos de internet. É preparando aula que me sinto pensando, embora saiba que não sou nenhum gênio da reflexão apurada.

Mas a aula bem preparada só tem sentido quando posta em prática - momento exato em que ela não funciona conforme o planejado, o que é espetacular, mas diz mais do que o imaginado, o que é indescritível. E a aula de hoje, leitores, foi uma delícia de dar. Não me interrompi por nenhum instante, disse tudo o que pensei, tive epifanias interpretativas no meio da aula, ditei um texto, de chofre, para uma aluna que me pediu uma formulação mais clara do que eu explicava. Fui tão denso quanto pude, pra não deixar a aula perder conteúdo, mas facilitei a vida dos alunos, sem ficar falando difícil; não tive a pretensão da imparcialidade: falei mal daquilo e daqueles que, segundo penso, não prestam - eu incluído aí. Apresentei minha forma de ver as coisas, por mais torta, anacrônica e paranoica que ela possa parecer. E ri de mim mesmo, sem me levar tão a sério assim. Ao final, pedi desculpas pelo excessos, que sei ter cometido.

Mas o melhor é que, ao final da aula, sentia-me livre. Exerci minha profissão sem medo, nem exageros. Na semana passada, o governador do Ceará andou falando besteiras sobre os professores, retomando o raciocínio do "professor sacerdote", que já critiquei aqui. Adoro dar aula, mas não sou sacerdote, nem trabalho para mudar o mundo: meu emprego é emprego como outro qualquer: tem dores e tem delícias. Como foi escolhido, evidentemente, sem levar muito em consideração os critérios "ficar rico" ou "acumular patrimônio", tem mais a ver com minha realização pessoal. É bom dar aula de Artes Visuais e Literatura, sobretudo no mundo de merda em que a gente vive. E fico feliz toda vez que tenho a chance de mostrar, por meio da arte, que o mundo em que vivemos é de merda exatamente porque transforma a arte em mercadoria. Foi o que fiz hoje. Missão cumprida.

Uma reunião de trabalho, um pouco de meditação - a esteira já foi feita pela manhã - e um House pra terminar o dia. Dei um passo por vez: primeiro a preparação da aula e a expectativa; depois a excitação da crítica, do exercício do desfrute estético e do distanciamento, pra pensar criticamente. Depois a pausa meditativa, pra baixar a bola. Agora a reflexão por meio da escrita. Não dá pra ficar reclamando nem sentindo pena de mim mesmo: tenho sorte por poder trabalhar com arte neste mundo de merda em que vivemos. E tive a sorte de projetar, pela manhã, a paz que estou experimentando no fim do dia.

Lembre-se, leitor: sou "pouco mais que a soma / de incontáveis hematomas / adquiridos ao longo / de um percurso errático, sobre escombros". Começar o dia pensando positivo, experimentá-lo com certo equilíbrio e voltar pra casa sem enlouquecer, cumprindo a paz planejada é um bom primeiro passo. Um passo por vez:

Para além do Facebook

Acabei de postar o seguinte, no Facebook:

Bom dia, dia feio. Se tudo no dia acontecer cinza do jeito que ele começou, pensemos ao menos no fim do dia e no aconchego da casa, lendo um bom livro. Já é um bom começo (de dia, ainda que ele, nessa projeção, já esteja no fim). Bom dia.

Fiz esse joguinho de palavras meio que sem pensar, afinal são seis e meia da manhã. Meu dia será longo - tenho aulas para preparar e para dar - e confesso que a tempestade que me acordou não é das mais animadoras. Bom mesmo seria ficar na cama, o dia todo, lendo livros e vendo filmes, sem ter de trabalhar, pagar contas ou ir a reuniões. Não dá: a vida tem essas burocracias e eventos que nos fazem ter de ir contra a própria vontade.

Mas o que eu queria escrever mesmo é que me agrada a ideia de pensar num fim de dia agradável, quando ele começa assim feioso. É fácil acordar de bom humor num dia como ontem, em que tudo era luz; quero ver é manter o bom humor hoje, em que tudo parece estar cinza. 

Cinza, eu nasci, me criei e fiquei adiando a vida adulta. Num dia como esses eu me afogava em impropérios contra a realidade, as pessoas, eu mesmo. Hoje não. Hoje vou fazer força pra curtir a preparação das aulas, as próprias aulas, o tempo que vou ter de dar no cursinho por causa do rodízio, a reunião de trabalho que tenho depois e - finalmente - a chegada a casa, em que vou ler um bom livro ou assistir a um bom filme. A perspectiva de um futuro mais agradável atenua o cinza do começo do dia. E assim vamos.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

De que as pessoas gostam e a realidade

Quando assistem a Perfume de Mulher, as pessoas sempre se lembram de Al Pacino - que, no filme, representa um militar aposentado cuja visão foi perdida num acidente irresponsável com uma granada - dançando tango com uma mulher bonita. A cena é inesquecível: "Por una cabeza" impecavelmente executada, a dança conduzida sem pressa e sem demora, na simetria perfeita dos movimentos dos corpos, como se simulasse o ato amoroso do homem maduro com a mulher jovem, a quem ele ensina passo a passo a própria vida - como o próprio diálogo que antecede a cena antológica sugere. Se errar, basta seguir adiante.

Mas não posto essa cena aqui. Ela é bonita, mas idealizada, e escamoteia uma faceta menos desejável do Coronel, personagem de Al Pacino. A cena de que mais gosto é a do jantar de família, em que o militar aposentado, depois de estragar tudo com suas histórias obscenas, sua bebedeira e seu charuto, acaba sendo atacado verbalmente pelo sobrinho - que afirma que talvez deus julgue que algumas pessoas não merecem ver. Ao final, Pacino diz ao irmão que "não presta pra nada, nem nunca prestou", num momento de clareza digno de um cego que sabe ver bem quem é e o mal que fez as pessoas.



Sempre gostei da cena da dança, mas hoje prefiro a cena do malogrado jantar de família. Dela fica a sugestão de que olhar a si próprio, com os próprios olhos, pode cegar - mas, finalmente, dá a clareza necessária para que conheçamos os nossos piores recônditos. Como escrevi no post anterior, não tenho mais tempo pra adiar a investigação minuciosa de mim mesmo, por mais que ela me mostre que não presto, nem talvez nunca tenha prestado pra nada.    

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Eu não tenho mais tempo

Pois bem: as próximas horas são preciosas: não posso desperdiçá-las. Aprendi com uns bons amigos que tudo que não interessa agora deve ser jogado fora. Assim, comprei um bom triturador de papel que ilustra o que vou fazer com toda burocracia inútil, todo recado mandado por terceiros ou quartos, toda página escrita pra não ser entendida. Não tenho mais tempo - o tempo urge, mas eu tenho paciência, também aprendi a jogar tempo fora, a passear na praia, a brincar de ser moleque, a ficar quieto lendo do lado dela, só pelo gosto de tê-la ao meu lado, lendo, os dois em silêncio, nós dois em telepatia de carinho. Passei anos na graduação em Letras, mas só agora aprendi a desfrutar de uma obra de arte, em silêncio, gozando da cor e do traço; achei que era escritor a vida toda, mas só agora entendi que não interessa o todo da obra - mas uns fragmentos, umas veredazinhas que vão acumulando mato até que alguém o desbaste, se o desbastar; passei a vida achando que as pessoas me invejavam, mas custou-me aprender a ser feliz só porque os outros estão felizes; dizia a todos que me conhecia, que fazia e acontecia - e estava só, de máscara pegada à cara, copiando versos alheios, justificando-me pra gente que sequer me sabia o nome. Eu não tenho mais tempo pros outros, só pra aqueles que eu escolho; eu não tenho mais tempo pra jogar fora, embora eu tenha aprendido com ela a jogar tempo fora, só por desfrute da vida. Passei anos dizendo que aproveitava a vida, mas só agora percebi que o que eu fazia era correr atrás do que me disseram que era curtir a vida. Quanto tempo jogado fora em lugares barulhentos, apertados, com gente chata e sem papo, ou cheia de papo, mas sem graça, bebendo cerveja quente, cara e ruim, só pra voltar pra casa solitário e ter vontade de morrer.  Eu não tenho mais tempo.

domingo, 28 de agosto de 2011

Jonathan Shaw

Tem muita coisa em mim que não funciona bem, sobretudo minha cabeça e as formas de reagir à vida; ainda sou moleque, bem moleque, e birrento, nas relações. Mas eu tenho uma puta sorte de conhecer pessoas legais, cujo santo bate com o meu rapidamente. Um salve para Jonathan Shaw, que conheci aqui no Rio. Conheça o trabalho dele:


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Da ficção à realidade

Sem metáfora: não há segredos, nem alegorias, nem charadas. Porque, de certa forma, toda literatura é uma maneira de mentir ou de mentir-se. Não estou pra personagens, mas pra pessoas; não estou pra narradores, mas pra pontos de vista claramente expressos, adotados sem medo, a partir de experiências concretas. Não estou pra metaliguísticas: chega de dobrar-me sobre mim mesmo, já passa da hora de dobrar-se sobre os outros - quero debruçar-me por ela sobre ela -, promessa que fiz, um dia, e que não cheguei a cumprir a contento.

Também não quero mais os procedimentos discursivo-estilísticos do passado: esta literatura engajada sempre respondeu a interesses particulares. Era como se um grande romance sobre a exploração do trabalho convergisse apenas para os traumas familiares de um membro caprichoso das classes médias altas, bicho bonito, mas acuado num quarto escuro, barulhento se ameaçado - por quem? As ameaças são todas fantasias, restos de bichos-papões que viraram colegas de trabalho. Os ataques de defesa, todos, à moda de panfleto, recobertos de recursos grandiloquentes escamoteavam um oco de gente acuado, agora, num canto de bar, só pra imitar alguma celebridade hollywoodiana. A farsa: a narrativa tinha verniz europeu, mas era produto-mercadoria da indústria cultural mais lucrativa, artificial, desinteressante e desinteressada de questões sociais.

Mas toda mercadoria deixa resíduos - e estes é que me compuseram, até ontem. Foram acumulando-se aos poucos, intoxicando o que podiam, com restos de latas, de garrafas, de cervejas derrubadas, de bitucas de cigarro e o cheiro que deixam na casa pela manhã; também de livros não lidos, de pretensões e veleidades. Desse monturo pútrido e acatártico, que tomou a forma de esfinge e que devorou quem se aproximasse, surgiu um reciclável sedutor à primeira vista, até comprável, se o consumidor a que se dirigia não se importasse muito com o descarte rápido. Quem tentasse reter ou conservar o produto via-se às voltas com o cheiro insuportável ou com o esfacelar rápido do fetiche efêmero da mercadoria avariada. O sólido se desmanchava no ar - porque não era sólido, afinal.

Ontem, tudo mudou: não houve frases feitas, nem volteios argumentativos. O salto não girou sobre si, mas verteu-se sobre o outro, e o eflúvio desapareceu. As sentenças foram objetivas, embora algumas delas ainda estejam por escrever. Não havia canto obscuro: o incômodo todo iluminado deu num moleque ainda sem face, cheio de medo, mas novo. Não há planejamento na narrativa, ela desapareceu - hoje quem acordou foi a vida concreta, que não foi para frente, nem arrependeu-se do passado. A vida em estado puro, do começo. Não há planos, nem expectativas. Há verdade, não há literatura.     

Mundo Mundano e seu novo mundo



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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Insônia (ou um post enfadonho num blog enfadonho) e chuva

Este blog começa a perder o sentido. Cada vez mais fragmentos de textos alheios, e não meus. Ontem mesmo ensinei aos meus alunos do CPV que os autores da Modernidade foram percebendo o vazio que é a vida - e preparando a aula sobre a Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, reproduzi aqui um trecho do livro, daqueles que eu gostaria de ter escrito.

Pois bem: este é mais um post enfadonho, com um texto que não é meu. É o que é possível fazer hoje. Amanhã, se eu conseguir dormir, haverá de ser outro dia. Um passo por vez. O fragmento abaixo: trecho inicial de "Insónia", de Álvaro de Campos, heterônimo de Pessoa.

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.


Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.


Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!


Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!


Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

E essas coisas transtornadas de que arrependo e me culpo talvez constituam o que sou - erros que se acumularam nos anos. A composição de mim mesmo pela negativa - decomposição? A fúria de destruir o que me ameaçava tornou-se o comportamento-padrão - e acabei por destruir tudo. Não existe passado, nem presente, nem futuro - só um contínuo inconsciente de autodefesa contra o que quer que seja. Em fragmentos de celebridades musicais ou televisivas, que eu imito pra tentar ocupar este vazio que não cessa de doer. 


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O constrangimento primordial

É impossível dizer como tudo aconteceu, porque deu-se aos poucos, passo a passo, imperceptivelmente, mas no terceiro mês da doença de Ivan Ilitch, sua esposa, sua filha, seu filho, os empregados, os conhecidos, os médicos e acima de tudo ele próprio tinham consciência de que toda a consideração que ele podia ter pelas outras pessoas concentrava-se em um único ponto: saber quando ele afinal partiria e libertaria finalmente os vivos do constrangimento de sua presença e a si próprio de seu sofrimento.

Tolstoi. A morte de Ivan Ilitch 

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Rio de Janeiro

Tenho frequentado o Rio de Janeiro a trabalho. Já era encantado da cidade, muito antes. Mas agora ela tem me impressionado por motivos diversos. Quando era moleque, queria estar aqui pelas praias; hoje, ainda gosto delas, mas tenho circulado mais pelo centro e, neste domingo, estive no Jardim Botânico. O clima - sobretudo na perspectiva de um paulistano - é de desfrute, o tempo todo.

Mais engraçado é que andei falando, em aula no CPV, sobre a Missão Artística Francesa, que chegou ao Rio em 1826, com a tarefa de criar por aqui uma escola de artes. A escola foi criada, mas do prédio dela só restou a fachada neoclássica, perdida no meio do Jardim Botânico:

  
Os leitores desculparão a falta de qualidade da foto: foi tirada do celular mesmo. O que interessa saber é que do Jardim Botânico é possível ver o Cristo Redentor, ir à escavação arqueológica de uma casa em que eram produzidos explosivos, visitar a mesa em que D. João VI e D. Pedro I gostavam de tomar café e levar as crianças a um parquinho - onde, antes de meados do século XIX, funcionava uma espécie de armazém de armas, e que explodiu. E é exatamente isso que mais tem me encantado no Rio: a capacidade que os cariocas têm de transformar tudo em desfrute, em curtição. O que era reservatório de armas virou parquinho para as crianças.

O mesmo vale para a casa que existe no Parque Lage, em cujo interior pode-se tomar uma cerveja, almoçar, ler e curtir alguns pufes. A foto a seguir é apenas externa (curti tanto o interior da casa que acabei me esquecendo de fotografá-lo). Foi nessa casa em que foram filmadas algumas cenas do Terra em Transe, do Glauber Rocha:


Isso é outra coisa que eu curto no Rio: de certa forma, mesmo que capenga, como em qualquer lugar do Brasil, a história aqui é bem mais preservada do que em São Paulo. Ou, explicando minha impressão de outro jeito: em São Paulo, parece que a força do capital, mesmo que não atropele alguns monumentos históricos, acaba por sufocá-los. São os prédios do centrão de São Paulo que cercam o Pátio do Colégio, por exemplo. Aqui, há traços do Império em todos os cantos:


Esse é um detalhe da fachada do Teatro Municipal, que é do lado da...


..., duas construções muito legais, uma ao lado da outra, na Cinelândia. De certa forma, o centro do Rio é mais leve: tem uma Praça Mahatma Ghandi, com uma puta estátua do líder indiano. Aqui no Rio, é perceptível a intenção de forjar, por mais que seja por meios capengas, a identidade nacional. Quero dizer com isso que tenho "saudades literárias" do Rio de Janeiro: gosto de imaginar que foi por aqui que Machado de Assis andou e escreveu todos os textos que eu li. Aliás, andando pelo centro, é possível encontrar coisas assim ó:


Bem legal. No mais, no final da tarde, além das praias, é possível desfrutar a paisagem da Lagoa Rodrigo de Freitas:


E insisto: tenho a impressão de que, aqui no Rio de Janeiro (na Zona Sul, ao menos), toda a paisagem é desfrutada.

domingo, 14 de agosto de 2011

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Soneto sem título nem data, encontrado no meio de contas a pagar

Senhora, dos teus olhos a luz
Me incendiou o corpo, a mente
E tudo mais a que se pode atear
fogo. Acho-me incerto quando, só,

Delineio-te em formas irregulares
Que me povoam o dia, a hora
Em qualquer que seja o lugar; mares
Do teu seio afiguram-se-me

reais; invade-me, intrusa,
A tua boca, e já não grito
Que é delícia teu beijo, ainda

que devaneio. O sol avisa:
hora de procurar-te.
Saboreio-lhe o gosto da fragrância.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Retorno: outro mundo é possível

Particularmente, sempre achei a literatura de viagens e de viajantes um pouco chata. Sempre tive, com raríssimas exceções, a impressão de que os relatos modernos de alguém que abandona sua própria terra e circula pelo exterior são narcisistas ao extremo, revelando mais sobre o retratante do que sobre o retrato - e quem disse que as experiências vividas pelo autor me interessam? Mas há exceções, é claro. O Garret das Viagens na Minha Terra é ainda um mistério para mim, em diversos sentidos: viver numa terra que é espaço de trânsito, ela própria, soa como movimento de rotação e translação - e pode revelar mais do que as meras impressões do autor sobre sua terra, isto é, pode revelar, por meio dela, elementos do tempo, transcendendo o espaço percorrido, que soa restrito, nesse caso, porque fica pequeno frente à magnitude da época. Não sei se me explico bem, coisas de fuso horário, de correr contra ou a favor do sol, dependendo da rota do avião; efeitos, também, de passar os dias à beira do rio, esperando o fim do dia que só chegava às nove da noite, quando eu já deveria ter me recolhido. Para os boêmios que gostam do dia - eles, por si próprios, já são uma contradição em termos - o ocaso às nove pode soar como dádiva; a mim, que não sou mais boêmio e que gosto cada vez mais do dia, soou ainda como maldição, como luz que me cegava, eu-Tirésias às avessas, que podia ver tudo, em todas as cores, traços, nuances e detalhes, mas que talvez preferisse o véu fumarento da estupidez. Agora já foi.

Mas com tantas idas e vindas, conexões, excessos de bagagem, abandonos de roupas e acessórios, esquecimento de períodos inteiros da vida, lapsos de memória cujas lacunas eram completadas pela internet, com tantos pertencimentos e ausências - não acaba tudo por estar na mesma? A natureza da cidade portuária é a passagem e o trânsito, tanto faz que seja Lisboa ou Atenas; São Paulo também é assim, mas a conquista esteve encravada no sertão paulista, outra inversão que, ao invés de compor, me descompôs, porque tive de olhar o tempo todo para o mar, mas do outro lado estava o Brasil, que, embora eu desconheça, já desbravei. Depois de cumprir tanto périplo, só me restou esconder-me num hall de hotel vagabundo, encravado na terra, para que eu não visse o correr do dia, nem o sol que já me incomodava. Eu queria era estar parado. Mas não dá.

Os próprios aeroportos, eles próprios são os mundos dinâmicos da não-identidade da mercadoria (a sacada é do Chico Buarque do Budapeste, também este um não-texto sobre o não-lugar dos produtos). O fascínio da mercadoria dos free-shops faz-nos todos zumbis de olhos brancos; agiganta-se e ganha vida a multidão de marcas à nossa frente, com todos os produtos internacionais, nem eles próprios, nem o capital, nada tem nação, tudo é estrangeiro - talvez daí a simpatia dos brasileiros pelo exterior. Recuso-me a chamar os outros países de "a gringa", no feminino, como se eles fossem acolhedores; a mim muita coisa, muita gente, muitos lugares pareceram estranhamente comuns e vulgares, porque extremamente inóspitos, sensação que sempre tive no Brasil. Talvez o Brasil tenha se adiantado no tempo do não-tempo: já sabíamos desde o século XIX, é o que me diz Machado de Assis, que todo emprego guarda em seu seio uma relação de exploração, e que todo capital acumulado só faz por afastar-se das pessoas e dos lugares por meio dos quais e nos quais se constituiu como capital acumulado. O capital tem vida e mobilidade; as mercadorias não são de nenhum lugar, mas estão em todos os lugares - nenhuma pátria as pariu: e ecoa em mim a voz da mercadoria em "Lugar Nenhum", dos Titãs, cuja análise terei de refazer. Os Titãs estavam mais certos do que supunham, quando deram voz à mercadoria - nos aeroportos alemães, suíços e italianos, ouve-se música de elevador, ao fundo, toda ela apaziguante; mas em minha cabeça a canção dos Titãs era tormento. Quanto mais a aparência representava equilíbrio e exatidão, mais a essência me parecia caótica, sustentada pelos imigrantes pobres, asiáticos, africanos e sul-amricanos, que não tardam a aparecer, basta afastar-se das áreas milimetricamente isoladas para turistas ricos, que não querem ver a miséria deste nosso tempo. Escrevi à minha mãe, em 19 de julho, por email:  "há algo de comum em todo turista que não desfruta de cultura, mas que veio para tentar consumi-la. Aquele olhar de quem quer tudo, porque acha que tudo se pode comprar, mas que fica vazio no instante seguinte, quando se percebe que, para adquirir cultura, é preciso gastar um pouco mais de tempo do que meia hora no Mosteiro dos Jerónimos".

Não dá pra adquirir cultura consumindo (é preciso ler, e quem tem tempo pra isso?), mas dá pra consumir produtos - sejam eles culturais ou não. O rosto do consumidor compulsivo dos free-shops é idêntico ao do torcedor fanático de qualquer país. Sempre achei que o futebol fosse uma doença de origem inglesa, desenvolvida para divertir e entreter a classe dominante, mas que, quando alcançou os guetos da periferia, ganhou novas formas, hibridizou-se com pragas tropicais e acabou por contaminar populações inteiras. É pior: nos jornais das TVs a cabo, fala-se tanto de esportes quanto nos jornais brasileiros, mesmo nos países imersos em crise, Grécia e Portugal; as coisas começam a complicar-se na Itália.  Estamos todos nivelados por baixo: foi essa a conclusão a que cheguei. Parece-me devaneio imaginar que os chamados países desenvolvidos são desenvolvidos porque sua população é "mais educada", ou porque valorizam mais o conhecimento e o trabalho. Na verdade, o que me pareceu é que a aparência de coerência entre ideologia e realidade concreta é um pouco mais convincente nos países centrais. Mas só um pouco. Há fissuras que têm se aberto, cada vez mais. E os gritos da periferia ficam cada vez mais altos.

A Europa, na mesma medida em que foi o berço de muitas das maravilhas que conhecemos, em todos os termos, também foi o centro irradiador de ações e pensamentos hediondos - pra dar o exemplo mais recente, e apenas o mais recente, estão aí os atentados na Noruega. Não há nada que nos faça melhores ou piores do que os europeus: somos apenas diferentes, em diferentes medidas. Fiquei feliz: volto ao Brasil sem a impressão de que somos atrasados ou adiantados. Somos diferentes, mas estamos todos, infelizmente, nivelados pela lógica do capital. Temos muito a ensinar aos europeus, e eles a nós.

No plano epistemológico, o colonialismo manifesta-se de uma forma virulenta ao atribuir o monopólio do conhecimento válido à ciência moderna e à filosofia ocidental. Assim se desvalorizam, suprimem ou marginalizam outros conhecimentos leigos, populares, tradicionais, urbanos e camponeses, que afinal orientam a vida quotidiana da esmagadora maioria da população mundial. A desvalorização destes saberes traz consigo a desvalorização dos grupos sociais que os detêm.

Esse trecho do livro Portugal: Ensaio Contra a Autoflagelação, publicado em maio deste ano de 2011, é o grande presente que trago na mala. Já tenho citado Boaventura de Sousa Santos diversas vezes aqui; basta dizer que ele propõe que países da periferia europeia - como Portugal, Grécia e Irlanda -, exatamente por serem periferia, podem ser o centro irradiador de propostas novas para a Europa, e (por que não?) para o mundo. Fico imaginando que espécie de contribuição os brasileiros podemos dar. 

Mas para darmos essa contribuição, é preciso perder a ideia de que somos atrasados. É preciso parar de olhar o mundo na perspectiva europeia (ponto de vista de quem quer ganhar muito dinheiro, transformar tudo em mercadoria, mas com pretensões elitizantes, nas ideologias liberais à moda antiga, que acha que os americanos têm dinheiro, mas não têm cultura) ou na norte-americana (ponto de vista de quem quer ganhar muito dinheiro, transformar tudo em mercadoria, prescindindo das preocupações de outras ordens). É preciso olhar o mundo à nossa maneira, sabendo que nossa perspectiva tem limites, é claro, mas que as outras - as dos países ricos - também têm. Somos iguais nas limitações - estamos todos atolados até ao pescoço pela lógica do mercado neoliberal. Mas já sabemos o que é que não queremos (a formulação não é minha, evidente: é do mesmo Boaventura de Sousa Santos): resta agora formular as alternativas, em termos concretos, para alcançar o que queremos.

Mais de uma vez perguntaram a minha namorada e a mim que língua era aquela que falávamos. Na primeira vez, sorrimos e dissemos que era português - eu, pela primeira vez, senti-me um ser exótico, que falava uma língua exótica, que morava num lugar ainda mais exótico. Na segunda, apressei-me em puxar papo com a belga ou holandesa (não me lembro bem) de meia idade e dizer a ela que sim, que era verdade, que os capitais estrangeiros circularam bem por aqui nos últimos anos, mas que não foram eles que chegaram aos bolsos das populações mais pobres; disse também que muitos dos capitais que chegam aqui acabam adquirindo largas extensões de terra para especulação no futuro, já que o Brasil, apesar de tudo, é um suposto sucesso no exterior. É impressionante a visão otimista sobre o Brasil na revista The Economist. Só um trechinho:

The most notable is Brazil. It is Lula’s mix of economic stability, private investment and social programmes that is now the fashionable formula in the region. This shift in ideological hegemony is neatly captured in the political journey of Ollanta Humala, who takes office as Peru’s president on July 28th. Five years ago, Mr Humala campaigned as an ally of Mr Chávez. In this year’s election he declared himself a convert to the Brazilian way. In the interim, Peru became South America’s fastest-growing economy by following free-market policies and courting foreign investment. Mr Humala’s first moves suggest a welcome enthusiasm for economic stability (see article). With luck, he may also grasp another crucial element in Brazil’s success: respect for contracts with private investors.

Sabendo que essa é a visão dominante do estrangeiro a respeito do Brasil, e que essa visão parte do pressuposto de que só é respeitável aquele que cumpre seus contratos com investidores privados, apressei-me em mostrar à madura, mas ingênua, europeia que o sucesso no Brasil tem limites e que o acorrer dos capitais estrangeiros tem seus efeitos nefastos. Também disse a ela que meu idioma lhe soava diferente porque, apesar de ter mais de 200 milhões de falantes no mundo, o português não é tão difundido quanto o inglês ou espanhol. Fiz toda força, num inglezinho vagabundo de quem fugiu da escolinha de inglês pra ficar lendo romances em português, pra conseguir inverter a perspectiva, pra conseguir mostrar o olhar alternativo ao dela.

E, se eu fosse mais espirituoso, teria conseguido. Faria a piada que minha namorada (ela sim, sempre espirituosa, porque sabe olhar as diferenças com serenidade e respeito) formulou depois: perguntaria à europeia: "E você, que língua é essa que você fala?". Nessa pergunta estaria contida, em uma frase singela, mas de máxima potência, toda a inversão que eu tentei praticar em inglês precário. Mas colocar-se no lugar do outro, sabendo exatamente nosso próprio lugar, é exercício pra uma vida - ao menos a minha.

Estas impressões soltas que acumulei numa breve viagem à semiperiferia do capitalismo, com conexões no centro, não fogem à regra da literatura de viagens e de viajantes: é enfadonha, poucos leitores, só os muito pacientes, terão chegado a este penúltimo parágrafo. As experiências vividas por este retratante fizeram-no, entretanto, não só rever o retrato que tem de si mesmo (e está aqui a minha dose de narcisismo e de egoísmo), mas também da terra em que vivem seus leitores e ele, o que já pode ser alguma coisa. O projeto: agir mais, em termos profissionais, acadêmicos e políticos, para que as vozes oriundas das perspectivas alternativas possam contribuir, de alguma forma, ainda que em pouca intensidade, para a democratização ("Se o socialismo fosse definível, seria definido como democracia sem fim", escreve o Boaventura de Sousa Santos) e a desmercadorização do mundo.

Em outras palavras: tudo que vi nos últimos vinte dias poderia ter me levado a crer que outro mundo não é possível. Mas se eu mesmo pude alterar a impressão que tenho do mundo, inverto o sinal do raciocínio, graças às leituras de Boaventura de Sousa Santos: outro mundo é possível.