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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Canais de antenas aguçadas

Eu percebo tudo agora: o cheiro da pimenta que derrubaram no chão e o da gordura acumulada na chapa, no cantinho. Aqui tem café expresso e de bule, por isso fica um arzinho de fazenda ao fundo, misturado com o cigarro dos fumantes lá fora, o perfume de uma mesa de adolescentes de classe média aqui dentro, a tinta e a folha do livro que eu carrego comigo enquanto for novo. Tem cheiro de trabalho também: quem dá aula à noite sabe. Escola e faculdade à noite têm cheiro de gente que trabalha o dia inteiro pra estudar depois - um cheiro de corpo e de mente, com cheiro de sono, que ninguém é de ferro.

Tem as cores: o vermelho-retrô das cadeiras dialoga com as pastilhas do balcão - é padaria ou é banheiro? As meias-luzes, posto que inteiras, iluminam na medida exata para que eu não reconheça os rostos da mesa ao lado. Este meu claustro de canto, sem igreja ao lado, mas cheio de livre-arbítrio. Os ouvidos fechados a tudo ao meu redor, no torpor de ter falado demais - eu, que não tenho nada a dizer, vivo de falar. A sexta é dia de movimento, de viração violenta das folhas, mas eu amuo o espírito no trato medicinal. É fechar os poros, anular as passagens, fechar corpo a esses apelos todos: o café desce quente e terroso de modo que eu perceba a deglutição como um todo, e por onde há queimação há pele que abre canais de antenas aguçadas à barulheira da padaria.

Eu não queria estar numa padaria. Fecho os canais. Eu não quero gritar, eu não quero ouvir nada, sobretudo a mim mesmo. Eu quero o silêncio e o anonimato, perder a feição aos poucos, perder a expressão na testa, as rugas, a vida dos olhos, eu quero os olhos brancos inexpressivos, insciente das intempéries de mercado e da espreita das melancolias e mercadorias. A outra mesa impede que me esvaia em dissolução: debate-se a crise, a estrutura, a conjuntura, a circunstância. Eu não resolvi os problemas do mundo, tampouco os meus. Fecho os olhos à crise e volto-me a mim. Não gosto de segundas-feiras, por isso transformei os domingos em quartas. Já mais de uma vez inverti a lógica do tempo, parei o relógio da maturidade por vinte anos, com nenhum problema resolvido, sequer colocado. E a despeito de todos os adiamentos e adiantamentos, com o fim dos meus sismos pessoais, as sobrancelhas mais estáveis, as noites de sono vencidas a panaceias da modernidade, o tom de voz equilibrado, a multidão das boas reações, o abismo cada vez maior entre o sentir e o agir; apesar do destemor, da retomada da espiritualidade, da subjetivização das esquerdas, da valorização das experiências de fé - ainda me contamino do cheiro de cigarro e de trabalho, do vermelho-retrô das cadeiras, das conversas alheias. 

Dito e feito: pequeno acidente de carro lá fora, enquanto cá dentro tento abrir os olhos e identificar o porvir. Abro os olhos, as cores me confundem; aguço a audição, as tantas vozes me confundem; peço mais um café, a borra me soa a gosto de terra; farejo as alternativas na mesa ao lado, os hálitos nauseabundos de cigarro me enjoam; não toco nada, a não ser estas teclas - a pele indiferencia vício de virtude. 

Vem: a alegria e o desprendimento alheios fazem-me refém - de quê? Eu nunca experimentei a alegria que cega e ensurdece, a mim nunca foi dado o privilégio mental e espiritual de deixar pra lá, de confiar em alguém, na vida ou em deus; cores, sons, sismos, sabores, odores sempre me contaminaram da impossibilidade do desfrute. Os olhos embaçaram, a vergonha fechou-me os canais todos. E no canto da padaria, sem que ninguém pudesse me olhar, todos atentos à briga de trânsito lá de fora, chorei as mesmas lágrimas de ontem - fratura de mim, dividido entre o vício da sensação e a virtude da entrega.  

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Lançamento do Projeto Outras Noites nesse sábado



Nesse sábado vai rolar a festa de lançamento do Projeto Outras Noites com uma festa no Centro Cultural Rio Verde que começa às 16h e vai até 4h da manhã, 12 horas de muita música, shows, vídeo-arte, exposições e conversas.

Inspiradas no filme "Uma Noite em 67" mais de 20 bandas de destaque da cena independente se unem para homenagear os artistas da Era dos Festivais.

Entre as bandas estão O Sonso, que se apresenta nesse sábado homenageando Gonzaguinha, e Los Porongas, ambas produzidas pela Identidade Musical e lançadas pela Baritone Records.

No sábado ainda tocam Monique Maion com uma homenagem à Baden Powell e o Projeto Vinagrete com um repertório das canções de Edu Lobo.

Serviço:
Festa de Lançamento do Projeto Outras Noites
Sábado, 01/10, das 16h às 04h
Centro Cultural Rio Verde
Rua Belmiro Braga, 119 - Pinheiros - São Paulo/SP
Info: www.outrasnoites.com.br / (11) 3459-5321 / outrasnoites@outrasnoites.com.br
Entrada: R$ 15,00

domingo, 25 de setembro de 2011

As mãos dela sobre as minhas, em contraste com a toalha da mesa

Não me lembro mais do dia em que a vi pela primeira vez - não sei o que estou fazendo aqui sentado, não sei por que estou contando isso a vocês, o que eu vou contar não tem bem um começo, o meio é confuso, o fim só deus sabe. Mas se vocês acham importante que eu fale, eu conto. As imagens que me vêm à mente não compõem um todo, não têm coerência, às vezes parecem não ter conexão nenhuma uma com a outra. Mas eu sei que todas se relacionam ao período em que a conheci: eu não completara quatorze anos e caminhava agitado pelas ruas do meu bairro, intuitivamente, maravilhado com a vida noturna de um dia de semana - que eu desconhecia haver. Pra mim, noite de semana era pra ficar em casa, dormir na hora em que meu pai mandasse, olhar para o teto por horas, pensar em formas de abordar meninas da escola, imaginar poemas que escreveria para elas, apaixonar-me por cada uma isoladamente, depois por todas, depois por partes de cada uma delas, depois recompô-las numa só, alimentar raiva pelos fortões ou pelos mais velhos, inventar formas de imperar sobre todos eles, em todos os tempos e lugares, rezar o pai-nosso pela metade, me masturbar secretamente até de mim pensando na professora de ciências, olhar mais para o teto, escutar os barulhos da avenida que passava por perto - a freada de motocicleta ou de carro, o barulho da porta do ônibus, os bêbados que caminhavam ainda depois que não havia mais transporte público nenhum, perambulando na rua quando todo o mundo já foi, até o som da iluminação pública eu era capaz de reconhecer - e ao fundo, o barulho da cidade, esse um zunido que não pára. Tudo parece dar vida a ela. Todas essas passagens rápidas de memória compõem uma só sensação: a da proximidade dela, em que me vi enredado por muitos anos.

Não nos conhecemos de primeira, embora eu tenha percebido que frequentávamos lugares comuns: era a adolescência no colégio, depois a faculdade - e não perdi mais as noites olhando pro teto. Trabalhava, estudava, ganhava minha própria grana e ia pra noite, que eu conhecera ainda antes de completar quatorze anos, encontrar com os meus amigos, que eram também amigos dela. Nunca fomos apresentados explicitamente, embora tenhamos acabado por nos cumprimentar, depois de muitas noites, sem que soubéssemos os nomes um do outro; talvez alguns amigos comuns imaginassem que ela e eu, por estarmos sempre na mesma mesa, nos conhecêssemos. Não era verdade, por mais que soasse assim.

Ela - hoje posso confessar tudo a vocês, que me agradecem sempre por ter aparecido (há quanto tempo ninguém achava bom que eu tivesse aparecido), peço desculpas, a história é enfadonha, cheia de invejas minhas, que escamoteiam os meus medos, nem mais sei o que é verdade ou mentira, de tanto que menti e sonhei - ela, repito, me apavorava. Aos poucos comecei a ouvir as histórias: apesar de linda e brilhante, acabava envolvida sempre em confusões absurdas, histórias mal-contadas, com versões diversas e às vezes conflitantes, relatadas por ela mesma. Quanto aos homens, nem se fala: eram contados aos montes pelos amigos, pois ela colecionava parceiros diferentes na mesma semana, sem dar satisfações a ninguém, nem a eles, nem a nós, que observávamos estupefactos as mesmas juras de amor de horas antes, agora destinadas a alguém completamente diferente. Mas mesmo essas lembranças surgem-me confusas: bebíamos demais naquela época; todos procurávamos emprego, que não havia. Diferente de hoje, em que todo mundo se dá valor, não come grama e recusa as primeiras propostas. Não tinha concurso público, não tinha vaga no mercado pros inexperientes ou de família sem contatos. Mas tinha bar, pra queimar os trocos que arrumávamos.

Aliás, foi extremamente embriagado que eu lhe disse: eu acho que gosto de você. E ela riu, disse que não podia ser, porque sequer nos conhecíamos, e ela ia me maltratar. Eu lhe disse que sabia que ela consumia as almas dos homens, mentia para dois ou três para passar na casa de um quarto e dormir no motel com o quinto. Eu sabia que ela vampirizava os mais novos que nós - quantos anos já tínhamos? Não me lembro se lhe disse tudo isso em apenas uma conversa, ou se fui dizendo aos poucos, porre depois de porre, um pra cada demissão, um pra cada admissão, dois ou três pra cada conquista, quatro ou cinco por derrota, mais de dez por motivo nenhum. Certamente me recordo das mãos dela, as unhas bem pintadas, mas a pele me parecia ressecada, por mais que ela abusasse dos hidratantes. Eram as mãos mais belas que já tive a chance de admirar - as mãos dela sobre as minhas, em contraste com a toalha da mesa, os dedos entrelaçados quando andávamos, porque tínhamos medo de cair juntos na rua.

Eu sabia que ela vampirizava os mais novos, que se fazia de madura quando jovem, e de ingênua quando já tínhamos amadurecido, hoje mesmo ela deve vestir-se de adolescente, pra soar jovial aos adultos, madura aos moleques, autônoma para as meninas - que também a divertiam. Disse a ela que tudo que ela fazia não se fazia, que ela era vértice das atenções, que vibrava na frequência das obsessões alheias a ela, que ela era o centro do vórtice que tragava as pessoas à sua volta - e que era disso que ela vivia, tragando os ocos de quem era fraco, de quem sonhava o grande amor, de quem precisava se sentir melhor. Disse a ela que ela transformava as ingenuidades em ódio ao mundo, responsabilizei-a pelo culto ao ego, chamei-a piranha de marca maior.

Ela me sugeriu que me olhasse no espelho, o que me enfureceu ainda mais. Pra não brigar com ela, rachei o espelho do banheiro do boteco, e o segurança me disse que era pagar a conta e sair; quebrei a máquina do cartão na cabeça do caixa, fui expulso do boteco, chamaram a polícia, que me fez dormir no xadrez, onde acordei mijado.

No dia seguinte, dei sequência aos impropérios: ela era puro fetiche comprado barato num brechó vagabundo da augusta. Mulher-placa, eu bradava pra que todos ouvissem, mulher-placa, como aquelas que perambulam pelo centrão, só que o que você vende é a chance de escreverem na tua placa aquilo que desejarem. Você não tem forma, você não é mulher nem é homem - eu posso te comer, mas você pode me enrabar, como faz com as tuas putas, você não é nada, você é o que aqueles que te desejam quiserem que você seja, porque o que te interessa é que te desejem e que sejam substituídos por outros que a desejem mais, numa fila interminável de gostos, de perfumes, de trejeitos, de roupas, de gírias, todas no fundo revelando a mesma entoação de novela, a mesma ceninha besta de beijo-cama-rompimento; se você der sorte, tem tentativa de suicídio frustrada; se der azar, tem relação estendida por um tempo.

Traz mais uma, gritei para o Joaquim, que eu vou dizer mais umas verdades. Mas não tem mais ninguém aqui, Senhor. Fiquei em silêncio por um instante - há quanto tempo eu não me calava, e não pensava em nada, há quanto tempo? - e atentei para o zunido da cidade, que aumentava com o nascer do dia, e para o som surdo da iluminação pública, que desapareceu logo depois, deixando algum espaço para os pássaros. E foi porque eles cantaram diferente que eu vim parar aqui, pra contar essa história.
          

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O destino do professor

Extraído dos meus diários, com alterações

Sinceramente, no que diz respeito às aulas que dou sobre literatura, não sei se elas têm utilidade prática, ou se alguém aprende alguma coisa com elas. Quero crer que sim. Mas sempre há a chance de que tudo se resuma  ao espetáculo grotesco de um poço de ego, que imita outros professores, que só fala do que acredita e daquilo de que gosta. Por um lado, percebo as pessoas se dando conta de muita coisa – que provavelmente repercute em termos subjetivos nelas –, os olhos que brilham frente à análise da identidade brasileira como resultado do descompasso entre vida ideológica e vida concreta, nos termos do Roberto Schwarz. Foi o descompasso que vivi – que vivo, ainda, em boa media – e que me serviu de desculpas para não mergulhar em mim mesmo. Por outro, os relatos em aula quase só tem a ver com minha experiência subjetiva com o assunto – o que, teoricamente, não diz respeito a mais ninguém. Mas é aí que está: tenho a impressão de que a aula que as pessoas consideram boa é aquela que é genuína porque contém o relato de uma experiência concreta e possível. Pra provocar (e reconquistar) minha helenista, em termos aristotélicos, verossímil (ou “genuína”, como escrevi acima) é a aula que causa temor e pena: temor porque, embora seja referente a um evento passado (mítico, talvez), diz respeito às pessoas – isto é, a narrativa de um conhecimento anterior a elas se atualiza por não lhes ser alheio, o que por si só já é um momento mágico; a pena vem da observação da condição do professor – espécie de bode expiatório, maldito porque é portador do que as pessoas não conhecem, abençoado porque as transporta – na melhor das hipóteses, se elas estiverem dispostas, e se ele souber fazer a coisa direito – rumo a um espaço novo, embora a narrativa seja velha

Mas o destino do professor é sempre o mesmo: ficar para trás, ser superado pelos alunos, por mais que eles tenham se erguido sobre os ombros dele. E é bom e natural que seja assim. Nas minhas melhores aulas, se é que elas existem, não sou professor: sou um bom contador de histórias, relatando a história de amor que tive com alguns assuntos e livros. Na vida que eu pretendo levar, não sou professor, nem quero ser sábio: só quero reformar o meu sujeito, pisar a realidade concreta e diária do amor, conduzido pela minha Diotima de Maniteia.

domingo, 18 de setembro de 2011

A justa medida (Tudo ao meu redor)

A justa medida não é a exata medida - porque exatidão remete a um cartesianismo que, convenhamos, já deu o que tinha de dar na história da humanidade. Falo de coisas da alma, se é que você me entende. Este nosso tempo aqui é o tempo da desmesura, ou do muito, ou do pouco. Tenho amigos que trabalham em empresas, ganham montes de dinheiro - mas acumulam montes de trabalho, com montes de dívidas e montes de "precisos": preciso ter um carrão, preciso ter uma casa bem decorada, preciso ter um som, preciso, preciso. Essa não é a justa medida - nem eu mesmo sei qual é a justa medida. Só sei que para me sentir em paz, sem a minha mente ficar tagarelando em minha cabeça, pra eu desfrutar um pouco do silêncio, eu não posso me prender aos "precisos" - nos dois sentidos que você já percebeu. É o preciso dos meus amigos, e é o preciso do exato, então voltei à primeira frase do texto.

Tudo tem de ser exato - é assim que muitas pessoas pensam e agem. Eu também sou assim, agora menos, talvez efeito da velhice prematura, talvez efeito da falta de efeitos. Porque agora sou só eu, sem agentes externos. Aí a minha justa medida tem surgido - e às vezes não correspondeu à exata medida dos outros, da sociedade, da igreja, da revista das celebridades, do programa de variedades. Um amigo disse ontem que repetiu, diversas vezes, às pessoas: É, eu sou estranho mesmo. E não se trata de querer ser diferente - trata-se, apenas, de sê-lo e aceitá-lo, sem precisar corresponder à precisão cartesiana dos costumes.

A minha justa medida não é a exata medida - estou aprendendo. Os meus olhos querem o sol, mas tenho de olhar para o escuro, onde estão escondidas as coisas que não quero trazer à luz; as minhas mãos querem tocar o exato ponto de encontro entre céu e mar, mas tenho de tirar meu próprio pulso, checar minha própria temperatura - ainda estou vivo? se estou é por sorte ou proteção divina. Eu quero experimentar o gosto do mundo, em todos os licores de todas as frutas e flores, mas o que eu preciso mesmo é tomar água da fonte, brotada da terra, gelada naturalmente, pra sentir o gosto do mundo concreto e real, sem a embriaguez daqueles sabores. Eu quero ouvir os Inocentes e o Sepultura no volume máximo, mas a justa medida do volume só me permite ouvi-los se puder também ouvir o que está ao meu redor - e às vezes, ao menos duas por dia, ouvir o silêncio, principalmente este que vai dentro de mim, que às vezes é melancólico como um fim de tarde de domingo, às vezes é estável como um meio-dia mediterrâneo na estação mais tórrida, em que tudo parece imóvel de tão quente. A minha pele e o meu oco pedem que eu use tudo ao meu redor - a justa medida percebe o mal que a dormência traz. 

sábado, 17 de setembro de 2011

Holden Caufield e a nova forma de envelhecer

Provavelmente, um dos livros que eu mais li e distribuí para os outros foi O Apanhador em Campo de Centeio, de J.D. Sallinger. Li-o pela primeira vez, no colégio, na sétima série, a pedido do Professor de Língua Portuguesa - o Bido, hoje um grande amigo. Evidentemente me apaixonei pela leitura de imediato, já que a personagem principal, Holden Caufield, era um desajustado, e eu me sentia exatamente como ele, extremamente deprimido e vazio.

Ao longo dos anos, fui comprando vários exemplares do livro, mas nunca ficava com eles - distribuía-os a quem eu achasse que precisava ler, isto é, a quem eu supunha ser desajustado e deprimido como eu. Também dei alguns exemplares a amigos que não tinham nada de desesperados ou de deprimidos - mas que eu gostaria que conhecessem um lado meu que era menos aparente, porque, na maior parte do tempo, com as pessoas, eu era alegre, fazia rir, fui boa companhia de papo e de copo, até começar a exagerar e ficar chato, porque na alma me ia e me vai uma tristeza grande, que, agora que estou mais velho, tem vazado cada vez mais.

Se é cada vez mais comum a constatação de que a juventude tem sido cada vez mais precoce - e a minha foi cheia de precocidades, bebendo aos quatorze anos, por exemplo, e esse foi só o começo - talvez não seja equivocado afirmar que a velhice tenha chegado mais cedo a mim. Talvez ficar velho, hoje, tenha outro significado: a velhice começa mais cedo, porque a maturidade foi precoce, o que não quer dizer que a vida adulta tenha ocorrido plenamente. Aliás, o que é mesmo a vida adulta? Canso de ver gente supostamente adulta fazendo as cagadas que um adolescente faria - um amigo do Bido, o Régis, do qual tenho saudades que chegam a doer, dizia que "adolescente grita e tropeça". É o que fazem quase todos os adultos que conheço - e não me considero adulto nem maduro. Acredito que sou um velho imaturo, se é que é possível uma coisa dessas.

Este texto não está indo a lugar algum, e eu mesmo tenho de dar aula hoje, daqui a pouco, então voltemos ao tema: estou relendo O Apanhador, mas agora em língua inglesa - parte do meu envelhecimento; eu, que rejeitava o inglês a todo custo (língua imperialista), agora leio várias coisas nesse idioma, por causa da facilidade do Kindle, que eu adquiri e que recomendo a todos, graças ao Alex Castro, outro cujos textos sempre me fascinam (ele tem praticamente a mesma idade que eu, vive de escrever, faz doutorado, mora em Copacabana e já publicou um romance - eu queria ser o Alex). A releitura do livro de Sallinger tem me mostrado algumas coisas: a primeira é que, apesar de estar vinte e poucos anos mais velho, ainda guardo em mim boa parte do moleque acuado e assustado que leu O Apanhador pela primeira vez, na sétima série; a segunda é que, já naquela época, eu era este velho que sou hoje - quem fez merda precocemente aprende a cultivar o que não presta, e esse cultivo  pode afetar a alma numa intensidade que não é possível mensurar - mas que dói pra cacete. Há uma nova forma de envelhecer - é o que, talvez, já estivesse escrito em O Apanhador em Campo de Centeio. Estou cada vez mais grisalho, mas tenho a impressão de que já era grisalho aos quinze anos, da mesma forma que Holden.

Pra fechar, dois trechos da obra.

Life is a game

Life is a game, boy. Life is a gama that one plays according to the rules.” (…)
Game, my ass. Some game. If you get on the side where all the hot-shots are, then it’s a game, all right – I’ll admit that. But if you get on the other side, where there aren’t any hot-shots, then what’s a game about it? Nothing. No game.

Papo com o professor


I’m lucky, though. I mean I could shoot the old bull to old Spencer and think about those ducks at the same time. It’s funny. You don’t have to think too hard when you talk to a teacher. All of a sudden, though, he interrupted me while I was shooting the bull. He was always interrupting you.


À aula, que começa daqui a pouco.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O menino que não sabia rezar

Eu desafio um qualquer a me contar uma coisa que me faça chorar - bradava o mendigo em plena Estação Vila Mariana do Metrô, perto da catraca, do lado de fora. Ninguém sabia de onde tinha vindo - ele dizia que era um achado nos perdidos da Sé, que lá fora encontrado por si mesmo e que tomara o metrô até à Vila Mariana - bairro religioso, ele declarava. Aqui tem mais igreja por rua do que puta por esquina no Centro - era meio poeta o mendigo, isso ninguém negava. Mas as pessoas passavam rapidamente, sem tempo para dar atenção a ele.

Não parecia bêbado, só parecia atormentado. Ajudou um cego a dirigir-se à catraca, e só não o levou ao vagão porque o Bilhete Único precisava de recarga; deu informações a uma velhinha, que queria saber onde faria o jorei, o mendigo disse que era logo ali, saía, passava a banca depois da escada da saída, entrava na rua, à direita, uma casa do lado esquerdo, Da Messiânica, não é? É na frente do colégio das freiras. A velha assustou-se com o mendigo bem informado de religiões, agradeceu e apressou o passo. Os adolescentes de uniforme escolar cor-de-vinho - o mais feio dos uniformes - fugiam ao homem que cheirava a bunda, pinga, chão de rua, monturo - riam dele, chamavam-no bêbado - e ele desafiava: Me contem uma coisa que me faça chorar, assim mesmo, o presente do subjuntivo adequadamente flexionado, era um mendigo-norma-culta, riu um advogado que passou apressado. Dois meninos adolescentes tiveram pena do bêbado e ficaram ali, olhando pra ele, como se cuidassem dele - talvez porque tivessem medo de ficar daquele jeito um dia.

Eu quero ver quem é que pode me fazer chorar com uma história bem triste, ele repetia. Os meninos não tinham histórias tristes pra contar - eram de classe média alta, bem cuidados, estudavam na escola das freiras, faziam Cultura Inglesa logo ali, iam ao cinema do shopping aos sábados, moravam bem, tinham família, iam contar o que? Não entendiam nada de tristeza. Mas os seguranças do Metrô chegaram, e disseram que ali o homem não poderia ficar, incomodava os transeuntes, o metrô não era lugar de ficar - era lugar de passagem, de circulação. O mendigo riu: sem cano? Ninguém me tira daqui. Se ainda fossem uns PMs de revólver, eu ia embora. Mas vocês? Sem arma? E os seguranças do Metrô não encrencaram: quem desafia assim é porque quer briga; maluco desses, sempre portador de HIV, morde a gente na briga, cospe na cara e no machucado, já viu. E o mendigo ficou festivo: quem me conta uma história bem triste, bem triste de eu chorar, pra eu sair daqui, não querer mais ficar nesta estação, deixar ela pra trás, só por causa da tristeza da história, quem me conta? Não tem, não tem, gritava: nesse bairro tem até drive thru de oração, onde já se viu? E os meninos riam demais, resolveram ficar ali, até a história se resolver.

Aí os seguranças se lembraram do senhor que tinha a loja de flores e que cuidava dos bichos abandonados na Estação Ana Rosa - tempestade de homem, sempre quieto, mas que sabia as histórias do bairro, e de mulheres loucas desaparecidas em manicômios, e de brigas terríveis entre irmãos por causa de dinheiro, e de filhos terríveis que abandonavam os pais, tratando-os mal. Uma dessas devia servir para correr o mendigo dali, pois não? Tentaram, chamaram pelo rádio; na Estação Ana Rosa, os seguranças explicaram a situação. O homem veio. O mendigo entendeu logo que o homem que vinha ali não era deste mundo, e que devia saber uma história terrível, de fazer doer as entranhas da terra, de calar os pássaros, de fazer o bairro inteiro descrer em deus. E sentaram num cantinho, perto do lixo, em que se abancaram os dois adolescentes do uniforme feio também.

Tinha um menino aqui no bairro, filho de um comerciante muito rico. O menino não sabia rezar. E ele passava na frente de todas as igrejas, de todos os centros espíritas, de todos os templos, de todos os terreiros, de toda macumbinha boa ou má nas encruzilhadas - mas ele mesmo não sabia rezar. Pediu pras freirinhas da escola aqui da esquina  ensinarem ele a rezar, mas elas disseram ao pai que o menino não tinha jeito não - não era pactário, o pai que não se preocupasse, diabo no corpo não tinha. Mas era vazio, coitado. Pense numa pomba saudável, com as asas, com o porte, à beira do parapeito, mas sem o impulso que faz voar. Tinha corpo, mas faltava alma: esse era o menino. Quem não tem alma pode rezar?


Ele mesmo, o menino, se você perguntasse, ele mesmo queria saber rezar - sentir os mistérios de fé, que ninguém explica mas que todo mundo sente, menos o menino, é claro, que era vazio de sentido, coitado. Quem não tem alma, tem pra onde ir? Esse menino andava para cima e pra baixo o bairro todo, com o pai trabalhando, e ele vendo as igrejas, queria entrar, entrava, mas não sentia nada. Nem quando a freira mostrou o dedo mindinho arrancado da santa o menino se emocionou. Não sentiu nada. Era caso perdido. Falavam de fechar o corpo de uns; o desse menino era caso de abrir. Mas se abrisse e nada tivesse? 


Aí foi que o pai se lembrou da sogra, cuja casa parecia uma loja de artigos religiosos. Do lado do preto velho tinha índio, uma mensagem de cardecista escrita pra ela, com uma dúzia de nossas senhoras, todas aparecidas em algum lugar, iemanjás, todos os orixás, santinhos, santos, santões grandes, escapulários, água benta, incenso, livros do chico xavier, buda de costas, jesus cristo bem no centro, a mãe dele bem do lado, do outro um jesus oriental, todos os santos do vaticano, que eu não falo porque todo mundo conhece, e os santos in partibus, esses eu quero dizer o nome, santos do povo, padre cícero, antônio conselheiro, frei damião, são raimundo nonato dos mulundus, santo vaqueiro, santo joão de santo cristo, e todos os livros, os sagrados evangelhos, os evangelhos apócrifos, os evangelhos gnósticos, o evangelho segundo o espiritismo, o evangelho segundo jesus cristo, a doutrina social da igreja, a teologia da libertação, socialismo uma utopia cristã, as pegadas na areia, cordéis de todos os santos, grande sertão veredas, o fausto, o talmude, o corão, o mahabarata, a arte da felicidade do dalai lama, kama sutra, o ponto de mutação, o livro azul dos alcoólicos anônimos, toda sorte de incensos (o cheiro da casa da velha era já o cheiro do próprio céu, por causa de tanta coisa de deus que tinha lá e por causa da idade da velha, que já era tanta, mas tanta, que ela dizia que a morte já morava com ela, preguiçosa de levá-la para o outro lado, porque o cafezinho com bolo de fubá que ela fazia era bom demais, e aí ela engordava a morte, e ia vivendo mais) - todos os santos de todos os lugares, que a fé da velha era muita, muita. O pai do menino deixou o menino na casa da velha uma noite, sem dizer nada - se o menino queria ser padre, que fosse: era uma conta a menos pra pagar.


Vó, que barulho é esse na cozinha? E a velha respondia: é um espírito-criança que vem bagunçar as panelas da sua vó, deixe ele lá que ele não pode brincar como criança normal que nem você. E o menino ficou sisudo, então, porque percebeu que era a avó que ia ensiná-lo a rezar, finalmente. E viu aqueles símbolos todos num altar na casa, e o quadro de Nosso Senhor Jesus Cristo e viu que era ali que ele ia falar com deus mesmo.


Vó, me ensina a rezar? Eu quero rezar pra ela... - e se atrapalhou e quebrou a imagem que trazia na mão, uma nossa senhora trazida de Portugal. Mergulha na água corrente a imagem, meu filho, pra santa voltar pro céu. Mas como fala com a santa, Vó? Você fala assim - e ensinou a ave-maria pro menino, que quando terminou quis repetir a oração, porque achou bonita demais demais, queria de falar tudo novo, mas de um jeito diferente. Vó, ele perguntou, tem de saber de cor? Que é isso de cor? A freira da escola disse que pra rezar não precisava decorar, mas tinha que falar o que vem do coração. A Vó ficou calada observando a criança - o menino estava à beira da fé, tinha as receitas todas, era só agora sentir o sopro de deus, ela pensava essas palavras. Cantar não é melhor, Vó? Porque se a gente canta a nossasenhorinha não fica mais feliz? E é mais fácil de lembrar, porque, quando a gente canta, a gente repete, não é Vó? 


E a Vó achou que a fé do menino ia começar ali mesmo. Então vou te ensinar a cantar, filho - ela fez. E foi: "A nós descei divina luz", que ela cantava quando era nova que nem ele, num tempo sem televisão, nem internet, nem carro, não tinha nada, nem eletricidade tinha na casa em que a velha morava quando era novinha, só a luz das velas - e era uma propriedade ali bem perto de onde hoje é o metrô Ana Rosa. E o menino pensou na luz que descia, e viu uma pomba no altar da velha - e era o espírito santo, que era o pai, e era o filho, e tudo junto. Mas se o super-herói do desenho pode voar, esse jesuscristinho não pode voar, Vó? E podia, claro que podia, tinha um folhetinho de missa, da época da ascensão de jesus, em que ele aparecia voando. Eu quero ver o cabeludo voando, Vó! Fecha os olhinhos e reza comigo, meu filho, que você vai ver. 


E ele estava vendo: e via um pontinho de luz que se mexia - é bonito, Vó. Fica rezando, meu filho, que você vai ver mais coisa, e o menino ficou de olhos bem fechados fazendo força pra ver o cabeludo voando, a mãe dele feliz, porque ela era tão triste. Agora pede, meu filho, pede pra deus o que você quer. E o menino pediu pra deus para o pai não maltratar mais as pessoas, nem os animais que ele chutava os cachorros e os gatos, nem as pombas doentes que ficavam no parapeito da janela e que o pai do menino precipitava lá pra baixo. Agora o menino sabia: podia ser o espírito santo! Como ia jogar lá pra baixo? O pai não podia machucar a pomba assim, mais, nem maltratar os meninos pobres do farol. Então o menino pediu pra deus com força, muita força, pra fazer o pai dele ser um homem bom.


E nessa hora a velha disse que esse pedido não podia ser - que os homens é que tinham de mudar eles mesmos, não adiantava pedir a deus. O menino ficou silencioso e descrente num átimo de segundo, porque o que mais queria era que o pai fosse um homem bom, que tratasse bem os bichos, as plantas e as pessoas. Mas isso não era possível, então o menino se calou e engoliu o choro, porque não aprendeu a rezar nem a ter fé, mas virou homem nesse mesmo instante. E esse menino vazio de alma e sem sentido de vida sou eu, que fico o dia inteiro naquela loja de plantas, cuidando delas e dos bichos que as pessoas maltratam, esperando o dia em que os homens mudem, para eu poder ter fé e descansar em paz.

E nessa hora o mendigo e os dois meninos adolescentes choravam muito, porque também eles tinham ficado adultos naquele mesmo instante - eles viam a realidade como ela é, sem fé nos homens. O mendigo aceitou ir embora da estação, disseram que foi pra um albergue de pessoas de rua e cuidou do problema de bebida. Os meninos adolescentes voltaram pro colégio das freiras, olharam a relíquia e não sentiram nada. O velho que vendia plantas e cuidava dos bichos abandonados pelos homens foi despejado da loja e da vida - porque a Vila Mariana é considerada, no crescente mercado imobiliário paulistano, a extensão da Avenida Paulista, com toda a infraestrutura de transportes, principalmente o Metrô. Assim, a maior construtora da cidade comprou todas as casinhas antigas, demoliu-as e transformou tudo num grande empreendimento.      

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A esteira, o espelho, a tevê e a janela

Quarenta minutos de esteira, sem puxar muito o ritmo, que não sou lá de querer superar os meus limites. Olha, eu te digo: só faço esteira porque me mandaram, o médico, as pessoas razoáveis, as propagandas, o mundo inteiro. É melhor não fumar e fazer esteira; é melhor não beber e fazer esteira. E por mais que haja dentro de mim um oco que não cessa, acabo concordando, porque é melhor mesmo: sou mais feliz, ou menos infeliz, quando não fumo e não bebo. Está tudo lá, em "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" - Matraga não é Matraga, não é nada, sou eu, Carlos, gauche na vida. Minha hora e minha vez talvez não cheguem nunca, tanto ódio eu já purguei rua afora. Agora eu faço esteira, quieto, ouvindo música ou assistindo a um seriado americano, tentando experimentar alguma serenidade.


Mas o espelho, à minha frente, desvia minha atenção - eu quero assistir às ironias, malcriações, vícios e desvios do Dr. House, mas a imagem no espelho à minha frente segue se insinuando para mim - eroticamente? Há algo de masturbatório em todo espelho de academia, onde as pessoas se admiram, mas duvido sempre de espelhos, que não são pra se confiar: pode estar na imagem refletida um sujeito mais forte do que eu, mais bonito do que eu, mais gentil do que eu, menos viciado, mais equilibrado. Esse, suando forte na esteira, peito à frente, aprumado, postura ereta, organização atlética, olímpica, arrisco dizer - esse não sou eu. Matraga não é Matraga, não é nada, sou eu: Carlos, aquele que pisa nos calos, diz as suas verdades, arrasa sua família e as dos outros, envenena a cabeça das pessoas e a minha própria sem motivo, só por prazer de destruir tudo mesmo, como meu ancestral do interior de Minas, deus o tenha, Augusto. Ele tomou a surra dele, eu as minhas. No espelho, não sou eu correndo na esteira - é um reflexo imperfeito e idealizado de mim; observando bem, percebo que algumas cicatrizes no meu rosto traem que não sou são. 


Assisto à tevê, então, mudando de canal furiosamente: eu-imperador no canal de história; eu-protagonista na série de tevê americana; eu-pastor no canal evangélico; eu-orientador-espiritual no canal católico; eu-treinador de cães no canal dos bichos; eu-entrevistado no talk-show norte-americano; eu-doutor-house no canal universal: eu sempre arrogante, metido a gênio, acreditando que as intuições virão a mim sem que eu estude, protegido de todos apesar de lhes fazer mal, autocentrado, interesseiro, manipulador, viciado - eu real, na ficção da tevê universal. Meus amigos imaginários: Clarice ao meu lado, fazendo bicicleta furiosamente, me avisa que o patrocínio que recebo vem do refrigerante mais popular do mundo e que nem por isso me paga nada, contaminando este texto, este blog e a mim mesmo do cheiro de esmalte de unhas, de sabão Aristolino e plástico mastigado. Tudo isso não impede que todos o amem e me amem - nós-produtos - com servilidade e subserviência. Somos hoje - atualizados e pisando a hora presente.

Subitamente, desvia-me o olhar - a janela. Nada lá fora está planejado. Depois de quase uma hora de esteira, eu já me habituara à imagem dos meus pés, calçando tênis Nike, palmilhando as dificuldades, superando meus limites, fazendo-me mais humano e sobre-humano - eu-garoto-propaganda; já me apaixonara por mim mesmo, correndo, vencendo uma corrida imaginária que não existe, deixando para trás os meus adversários, num átimo de identidade por meio da aniquilação alheia - eu-deus-olímpico-macho-adulto-branco-da-vitória esmagando sob meus pés a própria vitória; já me vira em todos os filmes, reality shows, entrevistas, espetáculos, sempre em destaque, sempre sob a luz dos holofotes, sempre ostentando uma supremacia qualquer - eu-sólido-que-desmancha-no-ar. 



Mas no mundo que corre lá fora, a janela deixa entrever limites que nada têm que ver com superação - são só limites. No mundo lá fora, não se bate sequer um recorde - as pessoas erram, depois acertam, e voltam a errar, porque é assim mesmo, quem não erra duas vezes? Pela janela, vejo um magrelo barrigudo - eu próprio? - caminhando na praia. Ele caminha devagar, é o ritmo dele, um passo de cada vez, às vezes pára, porque parar também faz parte de ir adiante, às vezes ele volta atrás. Às vezes senta, olha o mar e diz, Que bonito esse mar, depois diz, Carlos, sossega, o amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, hoje é terça-feira, o céu borrou a cor e hoje ninguém sabe o que será. E só. Interrompe a caminhada no meio, ninguém precisa fazer tudo em um só dia, São Paulo não cabe dentro de Rio Branco - mas eu digo que todo Norte, Nordeste e Centro-Oeste não cabem dentro de São Paulo. Tudo é mais difícil no improviso, algumas coisas dá pra planejar, outras não, algumas simplesmente acontecem.


No mundo que pode ser observado pela janela, quase não há espelhos - mas há pessoas, que são, de certa forma, espelhos de parque de diversões. As que me amam, às vezes exageram minhas qualidades, quando estou triste ou faço besteira, às vezes exageram-me os defeitos quando mereço. No mundo assustador, para além da janela, não há imagem definitiva - há esboços de mim, uns sem cor quando estou triste, uns sem traço, quando estou em transição. Não há espelho, nem fotografia - há, quando muito, desenhos em sequência, no canto inferior direito das páginas do caderno, desenho animado que eu fazia só pra me divertir, às vezes sem começo, nem fim - haverá meio, se a história é assim descomposta? Há as pessoas que me odeiam, que de certa forma são os espelhos invertidos - exageram o que tenho de ruim, escondem o que tenho de bom. Não me importo. A imagem é passageira, as pessoas também, quero sorrir quando o homem-palitinho, desenhado no canto do caderno, caminha. Assim, para o nada. Mas faz sorrir.


Com a tevê é diferente: o que está nela está na janela, mas em perspectivas diferentes. Eu me explico: a tevê é uma janela, mas só uma. Acontece que à minha frente, desde pequeno, colocaram quatro ou cinco tevês, além de não me deixarem chegar muito perto da janela, com medo de que eu caísse. E foi assim que o medo me compôs - a mim e a Augusto Matraga, diga-se de passagem, embora Matraga não seja nada, nem eu, Carlos. Era a tevê que me alimentava o medo de não vencer nada, e ficar para sempre na categoria dos derrotados, cuja vida não aparece na tevê; o medo de não superar os meus limites - porque diz o ditado que a tevê repete que meu pior inimigo sou eu mesmo - então optei por aniquilar-me, de modo que eu nunca mais pudesse atrapalhar meu projeto de deixar todos para trás, inclusive a mim mesmo. Foi a tevê que me apavorou: o segundo lugar no pódio, morar de aluguel, o subemprego, a preguiça, a falta de formação superior, a desajuste, a impossibilidade de ter casa, carro, roupa de marca, o esquecimento quando eu morresse, a namorada feia, a família desestruturada - tudo isso eu insisti em vencer, em superar.


Quase uma hora de esteira, sem puxar muito o ritmo, os olhos fixos na janela. Ao passar de uma hora de funcionamento, minha namorada me pergunta "ainda aí?"  - se não vem de mim o equilíbrio, as pessoas amadas podem me alertar das bobagens que posso fazer. Saio da esteira, piso agora o chão concreto, não o da esteira, que corre falso sob meus pés, que me faz completar quilômetros de caminhada sem que eu saia do lugar. A sensação é de torpor, como se eu estivesse à beira do desmaio, mas insisto em ter os olhos abertos, quase cego da claridade do que é real. Desligo a tevê - no meio de um episódio interessante, na cena mais engraçada do filme, na reportagem do noticiário que mais me interessava. Descalço o tênis, corro para fora - a janela me mostrava uma praia bonita, ainda quase virgem, com grama pra pisar - e piso a realidade: a espantosa realidade das cousas é a minha descoberta de todos os dias, para além da janela.

A tarefa de educar

Para Débora Maclean, cuja paixão pela educação conseguiu reacender boa parte da minha

A nossa tarefa educacional é, simultaneamente, a tarefa de uma transformação social, ampla e emancipadora. Nenhuma das duas pode ser posta à frente da outra. Elas são inseparáveis. A transformação social emancipadora radical requerida é inconcebível sem uma concreta e ativa contribuição da educação no seu sentido amplo, tal como foi descrito neste texto [educação indissociável do trabalho, para todos sem exceção, pressupondo a igualdade entre os indivíduos]. E vice-versa: a educação não pode funcionar suspensa no ar. Ela pode e deve ser articulada adequadamente e redefinida constantemente no seu inter-relacionamento dialético com as condições cambiantes e as necessidades da transformação social emancipadora e progressiva em curso. Ou ambas têm êxito e se sustentam, ou fracassam juntas. Cabe a nós todos - todos, porque sabemos muito bem que "os educadores também têm de ser educados" - mantê-las de pé, e não deixá-las cair. As apostas são elevadas demais para que se admita a hipótese de fracasso.

István Mészaros. A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2008. p.76-77.

sábado, 10 de setembro de 2011

A paixão nacional pelo esporte e as coisas que as pessoas não se permitem

Todo mundo acabou de postar mensagens no facebook a respeito de basquete. Me perguntei: "por que as pessoas estão falando de basquete?". Eu achava que este era o país do futebol. Acabei entendendo por osmose: a seleção brasileira de basquete deve ter cometido algum grande feito, relacionado com algo que vai acontecer em (deixe-me verificar nos posts das pessoas), em 2012. Deve ser Olimpíada, que também não me interessa.

Na sequência, infiro que alguns jogadores brasileiros que jogam na NBA devem ter se negado a jogar na Seleção, e que algumas pessoas estão no clima "chupa!", vingativas, como se esses caras tivessem a obrigação de jogar na seleção. Não entendo: será que ninguém percebeu que jogar basquete - ou qualquer outro esporte - é um emprego como outro qualquer? Se pagasse mal, eu também não jogaria na Seleção. Mais: eu acho que jogar em qualquer seleção brasileira, do esporte que for, pra fazer o papel "sou brasileiro com muito orgulho e não desisto nunca" é, além de vexatório, uma forma de contribuir com uma falsa identidade nacional, que não beneficia a esmagadora maioria da torcida, mas exatamente as pessoas que pouco se importam com o suposto "valor da camisa verde e amarela". Amiguinhos, desculpem: jogar por nacionalismo, sem entrar a grana no bolso, é tão utópico quanto achar que grandes empresários contribuirão para a emancipação política e cultural da população. Não conheço os tais jogadores que se negaram a jogar, nem sei se foi exatamente isso que aconteceu, mas é o que eu queria que acontecesse: grandes jogadores de todos os esportes se negando a jogar, argumentando que, sem grana, não tem jogo. Afinal, é assim na realidade concreta. Por que é que as pessoas se permitem o devaneio de que alguém joga "pela camisa"?

Soa como o cúmulo da desinformação, da alienação e da futilidade essa história de se sentir representado no mundo por um brasileiro, que joga no campeonato que for - sempre tem um brasileiro em qualquer campeonato, mesmo que seja de um esporte elitista, que não tem nada a ver com nosso povo, como o hipismo ou o iatismo, ou que não tem nada a ver com nosso clima, como surfar na neve, tenha lá esse esporte o nome que tiver.

É pior: as pessoas gozam com o pau alheio, observando os atletas que "superam os próprios limites" - e tentam reproduzir isso, vide o culto ao corpo nas academias e a larga difusão dos esportes "radicais". É lamentável: nossas vidas cotidianas são vazias o suficiente para darmos uma de Indiana Jones nos fins de semana, saltando de grandes alturas, escalando montanhas e construções, correndo quilômetros intermináveis.

Não vão achar que odeio esporte: não o odeio, pelo contrário. Corro na esteira da academia, ando, estou a fim de voltar a jogar futebol como fazia no colegial, parei de fumar por causa de saúde, não bebo mais nada, praticamente não saio mais nos fins de semana; gosto de assistir a uma partida de futebol, ou basquete, ou vôlei; até me emociono com times que viram jogos, especialmente quando equipes de países pobres ganham das de países ricos: às vezes parece uma forma simbólica de fazer justiça.

Mas repudio, porque acho alienante, a identificação cega com um clube ou com um país; rejeito o culto cego à descoberta dos próprios limites, sem que as pessoas percebam que a humanidade tem poucos limites, mas isso não nos é permitido pensar: fomos à Lua, inventamos a penicilina, etc, mas não acabamos com a pobreza e a miséria. A crise assola o mundo, e fazemos rafting achando que o ser humano pode se superar.

Em outras palavras: as pessoas se permitem acreditar que um jogador veste a camisa da seleção com orgulho (o que pode acontecer, sim, claro), julgando que o atleta desconsidera os ganhos pessoais que terá (o que é de uma ingenuidade sem precedentes); se permitem achar "mercenários" aqueles que se recusam a jogar, porque provavelmente não vale a pena para eles (mas fariam o mesmo em seus empregos, ou alguém "veste a camisa da empresa" acreditando nisso?); se permitem acreditar que suas superações físicas exclusivamente pessoais acenam para a evolução da humanidade; finalmente, as pessoas têm a esperança de que por meio do esporte possam identificar-se umas com as outras, compondo todas elas, por meio da massa, um "Timão", ou "Mengo", ou "Brasil", ou qualquer conceito abstrato como esses - de modo que poderão, identificadas a esse ser abstrato, "deixar sua marca" no mundo, ganhando campeonatos, tendo sei lá quantas estrelas no peito.

As pessoas se permitem tudo isso - mas não se permitem imaginar um mundo diferente, fora da lógica do capital, desmercadorizado, com outras alternativas democráticas e descolonizado (nos termos do Boaventura de Sousa Santos, já explicados aqui), com uma educação de fato emancipatória (sustentável, com o controle consciente dos processos; universalizada, junto com o trabalho, partindo do pressuposto de que todos são iguais, tanto as pessoas, como os trabalhos a executar, de todas as ordens, e todas as experiências), nos termos de István Mészaros, cujo livro sobre educação acabei de devorar no avião.

Há de chegar o dia em que acreditaremos que o mundo pode ser diferente - e em que o esporte possa ser praticado para além da lógica do capital.             

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Reflexo, sem pé nem cabeça (Da perspectiva)



Foto de Sílvia Anderson

Era para haver aqui mais um resto, ou fragmento - frangalho em andrajos? Mas apareceu um reflexo - cujo objeto real está ainda por constituir-se, como se fosse possível captar o processo mesmo de formação de um sujeito, se não forem a alfabetização e o letramento de uma criança adiada e falhada. Os cadernos, em parte, no primeiro plano, estão forrados de páginas em branco. Minto: há algumas delas rascunhadas, mas as letras misturam-se e formam símbolos inconscientes, de um tempo pré-escrita, como se os desenhos representassem o processo mesmo daquele que se constitui em tempo real. O fio pendurado ao lado da samambaia - a fonte elétrica e a fonte energética, o pé fincado no chão, a cabeça nas alturas, iluminada deste texto pelos quais correm esses seus olhos neste mesmo instante, leitor - na utopia progressista de que os dêiticos sirvam para aqui e agora e adiante, sempre atualizado de palavras - e a imagem, porque arquivo de formato digital não amarelece, nem perde o viço. Ainda que as palavras fiquem velhas, se é que não nasceram assim, a imagem poderá dizer; ou o inverso: se a foto não disser mais nada, as palavras podem fazê-lo. Tudo ao contrário, pra dar sentido; azul ao fundo, para dar cor; uma Nossa Senhora Aparecida escondidinha, para dar fé; pratos portugueses, para dar sabor; os pés caminhando o teto, a cabeça mergulhada no chão do real; as mãos escondidas escrevendo este texto.

Tudo isso só teria sentido em perspectiva - dela que registrou tudo diferente, deu coerência à desorganização superposta dos tempos e das imagens - e pôs minha vida de ponta cabeça, ajustando-a perfeitamente à dela.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Monólogo do Eu-estranho

Tenho estado farto de mim: eu-estranho que assoma toda vez que aparece uma luz na sombra, numa intensidade gradual. Eu-estranho estrago tudo: sou preconceituoso, largo tudo por causa de nada, bato portas, quebro espelhos. Eu-estranho: não sou flor que se cheire. Sempre à espreita - eu-estranho vivo nos escuros do homem, nos crespos do cabelo sem lavar, me aproveito dos vãos e dos pontos-cegos - eu-estranho falo alto sem motivo, ataco gratuitamente tudo que não me faça as vontades e satisfaça os desejos. Eu-estranho-só-eu, evidentemente, por mais que esteja cercado de gente, que trabalhe com público, meu interesse é sempre privado, secreto, íntimo - não sei que desejo é esse. Eu-estranho: quero ganhar tudo. Se a vida fosse teatro, eu seria o diretor da peça, pra levar o crédito, o ator principal, pra ser bajulado, e o produtor, pra ficar com a grana e comer a mocinha no fim da noite. Se a vida fosse filme hollywoodiano, eu seria a surpresa final, surpreendente para os fúteis, previsível para os cinéfilos, fugaz para todos. Se a vida fosse um filme europeu, bem metido a inteligente, eu seria falha no roteiro, ou deficiência técnica. Finalmente, se a vida fosse um filme brasileiro, eu seria a sonorização imperfeita.

Mas a vida não é filme: a vida é vida, eu não sou diretor, mas talvez seja ator o tempo todo: sou visitado às vezes deste Eu-estranho-diversas-personagens que ficam remoendo histórias, errando pelos corredores, resgatando livros e CDs velhos, pra ver se ficou alguma coisa que preste - se tem algum lixo pra reciclar. Mas o Eu-estranho não se faz só de passado - ele também obscurece o presente, amarra a língua, desfaz a lógica, compromete a impressão do real: Eu-estranho tem os sentidos aguçados, basta-lhe o cheiro de cigarro pra querer incendiar o mundo, um sombreamento pra querer o meio-dia, um calor gostoso pra jogar frases frias na minha cara. Não tem desfrute, o Eu-estranho, por mais que se alimente das dores alheias para ficar por cima, sempre à cata de uma supremacia, qualquer que seja.

Eu-estranho às vezes desaparece, mas sempre acaba voltando, sem olhar para o cão, maltratando todos à volta, ou prometendo mentiras a todos a quem magoou. No mundo de Eu-estranho não há amor, nem compaixão, nem entrega - por não ver além de si, Eu-estranho vê todos os outros como iguais, não porque os respeite, mas porque não pode ver além da própria estatura. Eu-estranho é pequeno, mas vê do alto do palco, se faz de grande, de toquinho maluco, que cospe na cara dos outros, basta um pequeno sinal de proximidade. Não tem mérito que o satisfaça, não tem prova de amor que o convença, não tem prêmio ou aplauso que lhe preencha o vazio: Eu-estranho não agradece, pra fazer charme de artista.

Tudo está confuso. A plateia invadiu o palco sem avisar; os sonoplastas não entenderam o que aconteceu, aumentaram o volume e os efeitos sonoros de acidente ganharam forma concreta, há metal retorcido por todo o palco; o pessoal da iluminação deixou um só spot aceso, em mim, evidente, mas o público e os outros atores perambulam à minha volta, querendo tomar-me o espaço. Não entendo o que dizem, meus sonoplastas não diminuem o volume, mas posso observar os semblantes distorcidos, desesperados, agora o efeito sonoro de um acidente de carro, mais ferro retorcido, agora uma canção fúnebre, cheiro de vela, há pessoas por todos os lados, cheiro de gente, melhor seria uma trilha de filme trash de zumbis, cheiro de morto: vagamos todos por um palco pequeno pra tanta gente, todo mundo quer brilhar, mas o centro é meu.

Um instante de silêncio, agora: uma criança grita de medo, de fome, de frio, mas foi por um instante, vibra de novo o caos sonoro e linguístico dos corredores do free-shop. Não sei onde está a criança, posso perceber o chorinho fino, parece que o pequenino agoniza, posso sentir-lhe o arquejar do peito, é bronquite, o ambiente fica mais úmido por causa de seu choro - quem não se transtorna com o choro de uma criança? Eu exijo, mando, suplico, imploro, Parem com o espetáculo, mas a minha voz é imperceptível, os sonoplastas não diminuíram o volume - Isto é apresentação ou é ensaio?, eu me pergunto. Súbito meus braços gesticulam como se eu fizesse oficina, as frases que eu grito são entoadas sempre do mesmo jeito, nem os meus passos são naturais - terei eu dados esses passos, que parecem todos ensaiados, meus olhos de desespero atrás da criança, onde está a criança?

Não pode ser - eu não quero que seja - mas tenho a impressão de que o choro da criança estava na sonoplastia - também ele era falso? Ao fundo, no canto do palco, sorrindo, Eu-estranho agora assumo o papel: criança dos outros não é problema meu. Cai o pano.                   

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Ciclo de palestras de introdução ao budismo

Preciso ver se tomo vergonha na cara e participo disso. Vai rolar nesse endereço aqui ó


É com grande alegria que o CEBB SP anuncia a expansão de suas atividades através de um ciclo de palestras de introdução ao budismo, "a fala dos facilitadores", agendadas para um sábado por mês, às 16h.

21/5 - Responsabilidade Universal ou Bom Coração
Como uma linguagem comum, simplesmente humana, é capaz de ultrapassar uma visão religiosa da vida e tocar nosso coração em qualquer ponto de qualquer caminho que estejamos percorrendo. 

18/6 - Os Quatro Pensamentos que Transformam a Mente e o Refúgio 
"A prática do budismo tibetano começa com os quatro pensamentos que transformam a mente, um conjunto de ensinamentos que constrói a atitude correta para percorrermos o caminho. Esses pensamentos nos retiram de uma condição de inconsciência e inércia e nos permitem entender o potencial positivo de que dispomos, e nos levam a entender a necessidade do caminho e a fonte da lucidez que pode nos ajudar nesse caminho." –Lama Padma Samten (trecho do livro A Roda da Vida como caminho para a lucidez).

16/7 - A Roda da Vida

"Toda e qualquer identidade revela-se presa ao movimento cíclico infindável de ascensão e queda, a Roda da Vida, também chamada de experiência cíclica. No samsara há sempre a sensação de que somos arrastados pelo movimento aleatório de subidas e quedas.”  Trecho livro A Roda da Vida como caminho para a lucidez" –Lama Padma Samten

15/10 - As Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho de Oito Passos
"A Quarta Nobre Verdade estabelece o Nobre Caminho de Oito Passos, ou seja, traça uma rota absolutamente eficaz e concreta para encontrarmos uma felicidade estável, para além das flutuações da Roda da Vida. O Nobre Caminho de Oito Passos está conectado à Cultura de Paz. O início desse caminho marca a revisão de nossas relações com o mundo." –Lama Padma Samten (trecho do livro A Roda da Vida como caminho para a lucidez)

19/11 - A vida do Buda Sakyamuni
”Gotama (nome de família do Buda histórico) nasceu na metade do sexto século A.C. (a data exata é desconhecida), no bosque de Lumbini, localizado entre Kapilavatthu e Devadaha, o local do nascimento de sua mãe, a rainha Maya, do clã Koliya. O local em Lumbini, no Nepal, próximo à fronteira indiana, é marcado por uma coluna de pedra erigida em 249 A.C. pelo rei Asoka, o rei do império de Magadha que abrangia aproximadamente todo o território da Índia atual.” (trecho do livroBudadarma: o Caminho para a Iluminação)
Horário: 16h.

Local: CEBB SP.

Passando a tigela (contribuição sugerida): R$ 10,00.

domingo, 4 de setembro de 2011

Domingo à natureza e à esquerda - pra inverter a lógica

Hoje é domingo, dos dias mais deprimentes da semana. Pra quem assiste à TV aberta (deus nos proteja), hoje é dia de Sílvio Santos, de Faustão, de Fantástico, de Pânico; pra turma que pode ter TV a cabo, domingo é o dia dos piores filmes e reality-shows. Claro, domingo é o dia do futebol. Domingo não é o dia pra mim.

Por isso, dediquei meu domingo às plantas e aos animais. Brinquei bastante com a cachorra, comprei-lhe duas bolinhas novas. Melhor: uma bolona e uma bolinha. Ela se diverte com pouco, e fico melancólico, imaginando que a maioria de nós também - afinal, nos rendemos aos programas de TV e aos jogos de futebol, à histeria e à gritaria que servem pra preencher nossos ocos.

Houve tempo em que, aos domingos, eu entrava no restaurante às duas da tarde e saía às seis, embriagado, pronto pra dormir até umas nove, tomar um banho e dormir, sempre, uma péssima noite de início de semana. Eu não queria ver o domingo, nem queria pensar no que viria a seguir. Pra mim chega disso (porque chega uma hora que chega): acordei cedo, brinquei com a cachorra, não tomei banho, pra ficar sujo mesmo. Ficar limpo e apresentável é coisa de semana; sujeira, pé no chão, roupa amarrotada e velha, regar as plantas demoradamente - isso é coisa de domingo.

Aí me dediquei às plantas. Fui à loja, escolher algumas novas que dessem cor à casa, com cachepôs e vasos variados; comprei adubos, terra, flite, regador, pá - tudo para que eu pudesse mexer na terra, esquecer a TV e tentar entrar em contato com algo que fosse real, concreto. O dia que agora acaba estava bonito, não havia trânsito, um pássaro fez ninho numa das árvores do quintal, que reguei insistentemente - o tempo está seco, as plantas precisam de água. Eu preciso de um copo d'água gelada.

Ao fim do dia, as mãos sujas de terra, os pés pretos do chão, fui às leituras de esquerda - é uma forma de inverter a lógica das tevês de domingo. Li na Caros Amigos deste mês uma análise furiosa a respeito do Circuito Fora do Eixo - que vale a leitura, pra debater; também recomendo a edição especial da mesma revista, a respeito dos desafios que a esquerda brasileira enfrenta.

Sigo imaginando que este tempo em que vivemos é fascinante: cheio de desafios e possibilidades que outros tempos não experimentaram. Nossos artistas nunca tiveram tantas chances de expor suas obras, nunca houve tantos artistas - mas terão eles meios de viver com a arte? Transformá-la em mercadoria é inevitável? Não tenho resposta pra essas perguntas, mas tenho procurado quem possa levantar os debates a respeito. Já falei aqui do Boaventura de Sousa Santos, não vou me repetir.

Por mais que "ser de esquerda" hoje tenha muitos significados - o próprio Boaventura fala de  "mosaico de esquerdas" -, é cada vez mais urgente sermos de esquerda, na dimensão em que isso for possível em nossos próprios contextos. Ainda me surpreendo quando meus alunos recém-saídos de escolas particulares não percebem as campanhas americanófilas nos filmes de hollywood; ainda me decepciono quando as pessoas se declaram isto ou aquilo, mas não se dedicam à investigação aprofundada das propostas e dos limites das ideias de que se arrogam; ainda fico triste quando percebo que não invertemos a lógica do viralatismo (pra falar com Nélson Rodrigues), isto é, que nos falta paudurescência (pra roubar um termo ao Lobão) pra assumir a condição de periféricos ou semiperiféricos. Não suponha o leitor que me excluo das minhas próprias decepções.

Eu também padeço disso tudo. Só estou levantando a bola por aqui, porque é domingo - dia de cuidar dos bichos e das plantas; dia de pensar coisas de esquerda, coisas pra mudar o mundo. Deixo abaixo um trechinho do resumo da história da esquerda brasileira, que transcrevo da Caros Amigos Especial, texto de Tatiana Merlino, que entrevistou ninguém menos do que Francisco de Oliveira:

É essa acomodação [das esquerdas, sobretudo do PT, a novas estruturas econômicas e políticas de raiz neoliberal]. Perdeu-se o horizonte das transformações possíveis e sobretudo das transformações impossíveis, que é isso que dá o norte para a luta política.                 

Fica este post repleto do desejo de que não percamos o horizonte das transformações impossíveis. Pra mim, elas passam pelo contato com os animais e com a natureza; pela fundamentação de origem marxista; finalmente, pelo diálogo com os outros, respeitando-os no que eles são, integralmente, sem deixar de acreditar que podemos todos operar transformações impossíveis em nós próprios e no mundo concreto, nessa ordem. Em palavras mais grosseiras: quem construiu pirâmides, irrigou desertos, foi à Lua (e lá percebeu que há construções humanas que podem ser vistas do espaço) e descobriu a cura de inúmeras doenças - quem fez tudo isso pode fazer uma força e criar um mundo bem melhor.   

sábado, 3 de setembro de 2011

oco

O que era torpeza virou um torpor gostoso de ficar parado por parar. Não é meditação, nem religião, nem efeito de drogas - ao contrário, aliás: passa longe delas. É deixar à vontade a vontade de usar tudo ao meu redor sem fazer nada, até que passe e que fique um oco de mim que, na pior das hipóteses, é que me constituiu. Fica esse oco assim, apenas, sem resolução, em silêncio, apaziguado de fora pra dentro, posto haja quem diga que foi de dentro pra fora. Não importa. Hoje convivo com o oco.

O que era diversão tomou a forma do oco. Era assim: tinha dias em que o oco gritava, que queria porque queria preenchimento: é preciso dar forma ao oco, para que ele ganhe sentido, cor, movimento, textura. O oco era técnica pura, arte, então? Foi um tempo. Melhor se assim fosse, se o que era plástico e flexível tivesse sido treinado pra ficar assim. Mas a Roda Viva não deixou - e o oco perdeu resiliência, tornou-se inflexível, intolerável, amargo, embotado e desbotado. Era oco de uma forma só, preenchível de um único conteúdo, esse também de formas e aparências incontáveis, mas de essência volátil, desmanchava no ar, mas fazia pressão no oco. A ciência dá nomes, os homens resistem, não querem ver, as redes de tevê e os jornais insistem em fingir que nunca existiu, que ninguém viu, que era sonho de gente desatinada do passado. Mas eu verifico diariamente o vazio e do oco e o veneno-remédio do preenchimento.

Não tem solução: o oco esteve, está e estará em mim, para sempre. Mas aprendi o torpor gostoso de ficar parado - e o caminho pra chegar neste não-lugar pacífico do inconsciente, pleno de livre-arbítrio, inspirado de outras essências voláteis, mas perceptíveis no ar, na experiência concreta, na história dos homens, esse caminho eu não posso contar, salvo se for revestido de literatura ou mito, o leitor escolha. Interessa é que o oco agora ganha novas formas, animado que está das cores e dos sons. Eu quase posso experimentar o gosto quente das irradiações imperceptíveis que o meu oco obscureceu por tanto tempo, embebido que estava de vazio. O vazio, Carlos, O vazio. Não mais.  

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Teve um tempo

Teve um tempo em que, logo pela manhã, eu acordava, fazia um café e fumava longamente um cigarro. E era bom: olhava a fumaça e a vida se dissipando no ar, se eu tivesse sorte ou férias, acabava fumando na varanda de uma pousada na frente da praia, depois ou antes do café da manhã, que não me interessava muito, porque o que eu queria era fumar logo cedo. Também teve um tempo em que eu tive grana pra ir a essas pousadas: eu podia tudo, fazia tudo, aceitava tudo, para que pudessem me aceitar - e acabava ganhando dinheiro em troca, que é sempre uma forma de ser aceito. Com a grana tive a relação mais profunda que se pode ter, acariciei-a longamente, depois fizemos amor com ternura, depois com violência, chamei-a de puta, piranha, vou te foder, depois nossa relação se desgastou e ela me disse que eu era apegado demais aos bens materiais, bastava comprar um tênis novo que eu me sentia bem. Era verdade. Teve um tempo em que eu desrespeitei a grana. Não dá mais. Hoje a gente se encontra de vez em quando, breve e friamente, sem qualquer espécie de carinho: nossa relação é meramente profissional, embora eu saiba que ela sente saudades das minhas vaidades, da mesma forma que, de vez em quando, eu também me lembro com carinho das coisas que eu consegui por causa dela.

Teve um tempo em que eu queria ser estrela, queria aparecer, tinha sede de nomeada - digamos, amor da glória. Fazer-me de palhaço foi a forma mais fácil de me destacar, aquela que me cabia melhor: tinha de me disfarçar, tinha de sorrir enquanto chorava, tinha de dar cambalhota, tinha de ser alvo de risos, isso tudo eu já sabia fazer. Teve até um tempo em que eu virei palhaço em casa, com a mulher e com os amigos. Na rua, as pessoas me chutavam a bunda, riam de mim sem motivo aparente, gargalhavam quando eu falava sério, e eu reclamava, Mas agora não é palhaçada, é sério - e elas riam mais ainda, sem diferenciar a piada e a melancolia. Teve um tempo em que eu tentei tirar a maquiagem, a velha roupa colorida, a peruca - nada me despegava do corpo, tive de dar um tempo, teve até esse tempo.

Teve um tempo em que eu virei rei do bar: eu chegava, os garçons abraçavam a gorjeta que chegava, É o professor, todos diziam, eu pensava que se referiam ao professor de literatura (teve um tempo em que me arroguei de sê-lo), mas se referiam àquele que lhes tardaria a saída, que brigaria ao final, por causa da conta, que pediria a saideira, depois outra, até que as cadeiras estivessem sobre as mesas, o dia clareasse, ninguém mais estivesse no bar. Teve um tempo em que tudo era bastante vazio, mas bem barulhento, porque os bares são assim. Teve um tempo em que tive amigos de bar: também eles eram bem recebidos pelos garçons, também eles fechavam o bar. Teve esse tempo.

Teve um tempo. Mas acabou: os tempos são outros. Teve o tempo do cabelo longo, ao vento, gente jovem reunida, mas acabou. Teve o tempo só pra mim, em que eu só fiz tudo que eu quis, em que eu não planejei nada, mas teve o tempo em que, apesar disso, deu tudo certo. Mas acabou: começou a dar tudo errado. Teve o tempo de parar e pensar. Teve o tempo da briga. Teve dias de luta. Hoje tem dias de paz: perdi muito tempo, mas não faz mal, eu reparo; fiquei órfão, ganhei sobrinho, encontrei o amor: meus dias de paz. Teve um tempo, mas acabou - ainda bem. Agora tem este tempo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Minha especialidade

Ora, muitos leitores podem achar que minha especialidade é dar aula de gramática ou de literatura. Não é: nas de gramática, arrumei um jeito de explicar com clareza uma disciplina que é cheia de contradições internas; as de literatura, tenho de prepará-las tanto, e com tanta antecedência, que me sinto um menino esforçado, mas sem erudição, uma farsa mal formulada, quase um mero reprodutor - com algumas gracinhas no meio - dos grandes, meus professores, Candido, Bosi, Schwarz, Marlise, Lajolo, Tatit, Wisnik, Pasta. Outros podem achar que minha especialidade é a escrita. A esses digo, sem triunfalismo: leiam mais. Alguns podem achar que minha especialidade é falar de mim mesmo com articulação, ao que respondo: façam terapia ou assistam ao Big Brother ou à Fazenda. Finalmente, alguns podem achar que o que faço melhor é ser bom amigo: sugiro que tenham bons amigos como os meus, esses sim é que sabem ser amigos - porque quem me atura por mais de dez minutos é que é bom amigo. Minha especialidade é agredir as pessoas fingindo que agrido ideias. Nunca digo a alguém, na cara, "você é isto ou aquilo". Ataco as ideias ou as pessoas de que os outros gostam, apenas para fazê-los sentir-se mal, gratuitamente, porque, na maioria das vezes, invejo a alegria das pessoas pela vida - exatamente aquilo que eu não tenho. Ver o lado positivo das coisas, desfrutar de música ou de literatura de entretenimento, jogar conversa e tempo fora, usufruir das coisas sem pensar naqueles que não podem usufruir delas: tudo isso não consigo fazer, por isso tento destruir quem consegue. Eis minha especialidade.