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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Reconciliação

Eu não sabia, mas meu pai e Drummond nasceram no mesmo dia.

31 de outubro é data complicada: em algumas culturas, especialmente nas de origem céltica, mais especialmente em Portugal e na Galiza, comemora-se nesse dia o fim do verão - advento de dias mais escuros. Dia de despedida. Limites do extremo norte de Portugal, cidade quase na Galiza: origens do meu pai. A proximidade com o dia dos mortos faz desta época do ano um período, para os que creem, de razoável agitação no transcendente - de reflexos evidentes no mundo material. É tempo de mortos, afinal. Tempo de passagem. Eu, que não cuido do mundo espiritual, posto não lhe negue a existência, e que também não cuido do mundo material, por mais que faça parte dele, vivo tentando fugir destes acasos que a vida me põe: o nome Carlos - nome amaldiçoado, para Drummond - me foi dado por meu pai no dia 21 de março, também este um dia de virada, o fim do verão, mas desta vez no hemisfério sul. Meu pai e eu, idênticos e opostos nos nascimentos - fim dos períodos de luz, mas de espaços trocados, como se recontássemos a história oficial ou reencenássemos uma tragédia clássica: Laios e Édipo, Esaú e Jacó, João e Pedro, Pedro e Paulo, pais ou irmãos, não importa, em eterna luta de morte - um o espelho do outro, um o estranho do outro.

Quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra, disse aos ouvidos de meu pai: chame-o de Carlos, para que seja gauche na vida, seu antípoda, por mais que vocês sejam iguais. Meu pai, o escolhido; eu, o interdito; meu pai, o proprietário patriarcal na passagem da modernidade; eu, arremedo de poeta de esquerda, numa terra e num tempo em transe. Ambos agora: ele isolado na canoa da terceira margem, branco feito cera; eu em perspectiva sempre agonizante, frequentando museus de grandes novidades. Corre nas veias - as minhas ou as dele? - um colóide, meio sangue, meio leite, em chiaroscuro, sempre meu pai à cata da iluminação que me faltava - eu que lhe criticava a classe e as roupas -, sempre eu à cata da ilustração que imaginava faltar-lhe. Ele me apresentava Lacerda, eu lhe respondia com Prestes, se não fosse Lamarca.

E trocamos olhares, ele no leito de morte, eu sem meio de vida - era ele a degradação física repleta de espírito, era eu o vazio completo cheio de energia perdida, em nosso eterno desencontro. Não tínhamos nada a dizer um ao outro. Cada passo dado por ele rumo à escuridão iluminava a minha trilha, ele em travessia ao transcendente pleno de luz, eu a passeio pelo mundo afoito de obscuridade, os mineiros todos ecoando. Eu arrogante lhe dera Rosa - e ele rira, porque trilhara as veredas com Zé Bebelo e Quelemém, se não fosse ele próprio um deles.

Que estou dizendo? Não conheci meu pai, nem me dei a conhecê-lo. Meu pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo. Eu sou falimento puro, fratura semântica, homem por fazer: vivo da expectativa da herança de conhecer-lhe a luz, de libertar-me, como ele se libertou, do ocaso do dia em que nasceu, do dia em que nascemos: o fim do verão, o advento dos dias escuros, o tempo dos mortos. Meu pai: agora o sorriso, vestia branco, num dia em que sonhamos com ele, minha mãe e eu, sem combinar.

Reverto o que fui: estou afeito à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças. Não consumo mais entorpecentes, nem redijo cartas de suicida. Dia 31 de outubro, neste hemisfério, é dia de renovação, meu pai fez assim - experimentou a claridade do que é real. Sigo-lhe os passos. O tempo presente, os homens presentes, a vida presente, a memória dele presente: a celebração, os presentes.              

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Jovens gênios, Velhos teimosos

Numa fase superior da sociedade comunista, quando tiver desaparecido a dominação subjugadora dos indivíduos à divisão do trabalho, e com ela a oposição entre trabalho intelectual e trabalho manual, quando o trabalho não for mais somente um meio de vida, mas tiver se tornado a primeira das necessidades vitais, quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus aspectos, suas forças produtivas tiverem se intensificado e todas as fontes da riqueza jorrarem com abundância, só então o horizonte limitado do direito burguês poderá ser inteiramente superado e a sociedade poderá escrever em suas bandeiras: "De cada um, segundo suas capacidades; a cada um, segundo suas necessidades".

Karl Marx,  Crítica do Programa de Gotha (1875)

Pra mim ainda é muito triste ouvir de jovens de dezoito anos as frases "o homem é naturalmente egoísta" ou "não dá pra mudar" o mundo" - sobretudo quando esses jovens pertencem às classes que mais teriam condições de mudar o mundo. Nesta semana, ouvi frases como essa vezes demais - e eu próprio mudei sensivelmente porque, em vez de me revoltar, de ser grosseiro, de partir para as ironias gratuitas, de usar, para humilhar, todo meu suposto e pretenso cabedal de professor, em vez de tudo isso, ouvi, debati, insisti, agi quase carinhosamente, acatei, e sugeri leituras. Que mais posso fazer? Disse a eles que uma das misérias deste tempo está no fato de as ideologias terem chegado tão longe a ponto de convencer os jovens de que é impossível mudar o mundo.

Meu argumento é quase sempre o mesmo: podemos sonhar em ir à Lua, podemos criar Ipods, Iphones, todos os "ais" que o suposto "jovem gênio" Steve Jobs criou (suas primeiras invenções datam dos 21 anos de idade) - mas não podemos sonhar com uma sociedade mais justa? Não podemos sonhar com um tempo em que o trabalho não seja "somente um meio de vida", mas "a primeira das necessidades vitais"? Eu acredito que podemos. Pena que Steve não se dedicou a isso.

Mas já eu pertenço à categoria dos "adultos" - tenho 35 anos, já não me encaixo mais na dos "jovens sonhadores": estou mais pra dos "adultos e velhinhos teimosos", aqueles superados, que não conseguem aceitar que "o mundo mudou".

Quando escreveu o fragmento acima, Marx tinha 57; hoje, Boaventura de Sousa Santos tem 71; Noam Chomsky tem 83; István Mészáros tem 81. Todos eles seguem crendo que é possível mudar o mundo e seguem trabalhando pra isso. Pois bem, aqui estou, nas fileiras dos velhinhos teimosos: outro mundo é possível.   

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Tubarão e o agora



Tubarão ouvira na rua: havia um cachorro em um país distante, cujos homens moravam na praça, como os cães, que ajudava os bons humanos a mudar o mundo. Certamente tratava-se de um cachorro louco, era o que se comentava pelas ruas, nos cantos em que os cachorros dormem todos acumulados, esquentando-se uns aos outros, amaldiçoando os homens, seres ignorantes e arrogantes. Havia histórias: de lugares em que os cachorros eram presos e mortos, se não fossem resgatados por algum humano; de homens que viviam como cachorros, puxando suas próprias casas, em que não havia diferenças entre animais e homens, todos dormindo juntos e cuidando uns dos outros, felizes, à exceção do cheiro do humano, difícil de suportar; de casas que não se moviam, com alguns cachorros, felizes porque não tinham de batalhar pela carne de cada dia, deprimidos porque não gozavam de liberdade. Havia histórias.

Mas cada cachorro acredita no que tem diante dos olhos - só o hoje interessa a um cão. Muitos dos que viviam na rua garganteavam a condição de ambulantes sem destino, mas sentiam falta dos homens que lhes davam carinho e comida; outros acabavam morrendo de saudades - esses eram os mais tristes, achava Tubarão, os rabos metidos entre as pernas, farejando um recanto que fosse à cata da chance de reencontrar o humano querido - mas que muitas vezes havia abandonado o próprio cão. Outros morriam ao lado dos donos, estes enlouquecidos, aqueles sempre vigilantes - não há nada mais triste para um cão do que um homem indefeso. Tubarão - nome que lhe fora dado pelo único humano a que se afeiçoara, um já velhinho, chamado Fabiano - não podia acreditar que houvesse donos que abandonassem seus cães. Mas ao descobrir que aquele senhorzinho que tanto o acarinhava havia matado a própria cachorra, em tempos distantes, procurou a primeira fresta do portão e largou-se na rua - tudo seria melhor do que morrer pelas mãos de um humano, sobretudo aquele do qual se espera carinho.

Para Tubarão, só havia o agora - e ele percebera a fascinação dos humanos pelo aparelho de TV, pela sensação de estar em outro lugar e em outro tempo, sintoma claro da limitação sensorial dos homens. Havia especialmente os jogos em que os homens corriam atrás da bolinha; por esses, os humanos ficavam especialmente enfeitiçados, os olhos brancos, sem pensar em nada, gritando tanto que Tubarão implorava que parassem: era apenas uma bolinha, todo cachorro sabia que a bolinha era apenas uma brincadeira, exceto os que acabavam por humanizar-se - pior coisa que poderia acontecer a um cão.

Foi um dia na rua quando percebeu que os homens caminhavam eufóricos - era o cheiro de álcool que os caracterizava nessas horas - rumo a algum lugar, e seguiu-os. Era o de sempre, alguns dos homens faziam-lhe festinha, outros espantavam-no com "chiça", "corre" e "passa", alguns não o olhavam. Percebeu a imensidão do lugar a que se dirigiam os homens e aproveitando-se da indiferença humana, entrou no que lhe parecia um templo de celebração da bolinha. Os restos de comida no chão encheram-lhe suficientemente a barriga para que pudesse decidir com plena clareza: era hora de os homens saberem que os cachorros eram mais importantes do que o jogo de bolinha; que jogar bolinha não era tudo na vida, havia outras coisas pra fazer - que cuidar dos cães pode ser uma forma melhor de os homens viverem suas vidas vazias, isso Tubarão descobrira em conversa com um Homem de que emanava muita luz muita! Soubera que os homens tinham vidas sem sentido, coitados; não sabiam que não havia mais passado, a não ser em suas mentes, e que o futuro pouco interessa - e que se deve viver o hoje. O Homem de muita luz muita! dissera, Tubarão, o homem precisa dos cachorros: outros como você já tiveram sua história escrita, vá às ruas e conte sua história aos homens.

Mas como contar aos homens, se são eles os animais menos inteligentes de todos, que só conseguem expressar-se por meio de signos, o que é um atraso, já que nenhum cachorro precisa de palavras pra dizer o que sente? Você entenderá quando for sua vez, Tubarão.

E foi naquele dia: era hora de acabar com o jogo de bolinha. Entrou em campo e correu: suspeitava que os homens o maltratariam, que seria machucado, talvez morto, como contavam as histórias dos cachorros mais velhos. Não se importava: porque depois de tantas aventuras nas ruas, tantos desgostos, tantas decepções, tantas descobertas depois de conversar com o Homem de muita luz muita!, depois de tudo isso, Tubarão decidiu mostrar o mais simples para os homens - é possível viver sem correr atrás da bolinha, porque, às vezes, como ela é bonita, a gente se deixa enganar e achar que ela tem vida, e tem de ser possuída, e tem de tê-la para ter felicidade. Tubarão conhecia histórias escabrosas de cachorros que se apaixonavam por bolinhas, e cobriam-nas; será que a bolinha tinha um feitiço assim tão grande a ponto de fazer gritarem os homens com tanta força quanto gritavam quando faziam amor? E se vissem as próprias mulheres como bolinhas, só uma coisa sem vida que se deve possuir? Não, não estava certo: Tubarão sabia que ele, as mulheres e os homens tinham vida, não as bolinhas. Era hora de um basta.

E correu, sem direção, sem bolinha, à procura de nada, simplesmente correu, como se dissesse aos homens que era bom correr por correr - corre-se porque se pode, caso contrário, andaríamos, e se não fosse possível não faríamos nada. Mas poderíamos sempre brincar uns com os outros - Tubarão não sabia explicar, mas sabia que os homens se fascinavam pela possibilidade de brincar por brincar, sem ter que ganhar uns dos outros, simplesmente porque eram seres inferiores, incapazes de fazer alguma coisa sem disputar espaço, sem aniquilar um ao outro, por isso se encantavam ao ver a falta completa de objetividade. Foi chamado pelo homem de verde, que se agachou: Tubarão não lhe deu bola, queria brincar mais, sabia que era portador de todas as mazelas e de todas as maravilhas, Você talvez morra se mostrar aos homens o que eles não sabem fazer, avisou-lhe o Homem de luz muita luz! Agora chamou-o o homem de vermelho: fugiu! E se lhe quisesse mal o homem de vermelho? Ah! Um homem que sabia brincar trouxe-lhe um saco também vermelho, mas abandonou o campo: os homens não sabem mesmo viver. Pra brincar tem de ser todo mundo junto, num espação cheio de verde! E voltou.

Interrompeu a corrida e entendeu: os homens registravam por escrito a invasão. Eles não estavam entendendo nada. Tubarão queria que todos abandonassem os papéis, as palavras sem sentido, as obrigações de acumular, objetivar e aniquilar e que desfrutassem da grama, da corrida, do prazer de desconhecer o sentido e de ativar os sentidos, e entregá-lo e entregá-los aos Homens de luz muita luz!, que são eles que cuidam dos homens, dos bichos e das plantas. Mas os homens não entendem, e são bichos perigosos.Quando se joga na cara deles o vazio de suas vidas, exatamente porque não sabem aproveitar o que elas têm  de mais simples - brincar sem bolinha, sem contar pontos, sem ter de ganhar - todos se juntam pra massacrar aquele que lhes mostrou o vazio. Corre já daí, Tubarão: recado dado, se continuar daqui a pouco eles te trucidam, foi o que gritou o Homem de luz muita luz!

Tubarão saiu e se abancou, para receber uns agrados: recado dado. Agora é correr pra fora do templo, voltar à vida simples atrás de comida pra comer. 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Estrada do Sol

Laya Lopes, Carlos Eduardo Gadelha e Raphael Haluli - O Jardim das Horas - compuseram as canções com que mais tenho me identificado nos últimos tempos. No novo tempo que chegou pra mim, tenho visto lampejos da claridade do que é real - e O Jardim é minha trilha cromático-sonora, em tempos de chuva ou sol, a que tenho aprendido a me integrar.

Hoje cedo, às seis e pouco da manhã, enquanto eu caminhava na praia, já era esta a trilha sonora, sem que eu soubesse:



Quero que você me dê a mão
Vamos sair por aí
Sem pensar
No que foi 
que chorei 
que sonhei 
que sofri
Pois a nossa manhã
já me fez esquecer
me dê a mão
vamos sair pra ver o sol
É de manhã

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Sismo a dois

Vi esta foto no blog Loucura Contagiosa (http://loucuracontagiosa.blogspot.com/2011/10/emaranhos.html) e não me aguentei: tive de escrever um trocinho.




Disseram: quem dorme junto mistura as almas. Não foi assim com a gente, as almas já vieram misturadas antes, ninguém sabe de onde. Nunca houve inocência entre nós - o que houve foi tesão logo de cara, se fôssemos só bichos eu diria que foi o cheiro, algum hormônio ativado de um no outro. Tanto que não aguentamos muita conversa, embora tenhamos conversado longamente. Mas o que a gente queria mesmo era sentir o gosto um do outro, e os nossos gostos misturados, você queria que eu sussurrasse no seu ouvido, eu queria que você gritasse que estava gozando. O suor: a gente queria verificar que aquele odor intuído era mesmo real, que nossos corpos se recompunham um no outro em corrente elétrica alquímica, sem receita, sem açúcar, assim amargo mesmo, como é o gosto das partes do corpo - cada uma delas guardava uma sensação mais secreta, que se amplificava em frase sem sentido, cada vez mais alta, cada vez mais baixa, uma putaria pela metade, porque a cabeça não funcionava, e íamos balbuciando raspas e restos do inconsciente, num sismo a dois, tremíamos e gozávamos.

O desleixo dos corpos: mal sabíamos que continuaríamos fazendo amor a noite toda, as pernas entrelaçadas, o hálito forte ao longo da noite, um pé confundido no outro, os pêlos em atrito quase doído, eu afogado no emaranhado do teu cabelo, do teu corpo, na confusão das  almas - era verdade, então. Disseram: quem dorme junto mistura as almas. Nunca foi assim com a gente, as almas já vieram misturadas antes. A inocência veio depois: acordamos juntos, na mesma hora, e não dissemos nada.


  

sábado, 22 de outubro de 2011

Fragmento de email entre aulas

No intervalo de aula aqui no Mackenzie, escrevi email a uma amiga, e achei que ele poderia valer como post, posto fosse curto demais. Poderia colocá-lo no facebook, mas prefiro deixá-lo aqui, como registro:


A vida toda, só tentei agradar as pessoas ou destruí-las. Hoje estou disposto a amá-las, ou a gostar delas, ou a ser-lhes indiferente de acordo com o que elas e eu somos, sem julgamentos. A liberdade. 

Relato de um sonho, só pra não me esquecer dele

A moça bonita me pergunta:
- Você gosta de samba?
- Não. Samba eu até ouço, mas eu gosto mesmo é de rock.
- Mas você deveria gostar sempre da última coisa que a vida lhe trouxe.
Acordei. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Poema tirado de um poema de Manu Bandeira


Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

Manuel Bandeira

Passarinho de bico e peito encarnadíssimos
pousou aqui na minha janela.
Olhou-me enfarado, perscrutando a varanda
em que só eu escrevia -
deu por falta de alguém que lhe pudesse dar nome.

Olhou-me nos olhos, como se suplicasse:
Me chame Tiê-Sangue, ainda que eu não o seja
Grite "olha, um Sabiá-de-peito-vermelho"
embora não haja registro dessa espécie
Constitua-me em ser vivente,
Dê-me nome e existência,
identidade, mesmo que passageira,
neste mundo virado de pernas pro ar.

Não lhe dei nome científico nem alcunha popular -
éramos iguais:
sem registro de precedentes em lugar algum,
irreconhecíveis, sem nomes que se nos deem.

Tivemos um ao outro por um átimo de minuto:
ele registrou-me na memória,
eu registrei-o nestes versos
e somos, agora, um a prova da existência do outro
porque não havia nesta varanda, em que escrevo sozinho,
quem nos desse nome ou apelido.

Fitamo-nos ainda um instante,
antes que ele voasse pra mais nunca
e voltássemos ao desaparecimento absoluto,
que, por mais doído que seja,
nos faz anônimos únicos de beleza esquiva.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Barata sai da toca

Há dias de Barata tonto e há outros dias. Depois de uma noite de sonhos inquietantes, Professor Barata acordou plenamente ciente de que não poderia fazer diferença nenhuma. Suas aulas não fariam diferença na vida dos alunos; prepará-las, pesquisar mais, vasculhar os despropósitos dos textos literários, investigar em que medida a forma e o conteúdo dialogavam, de modo a dar expressão à experiência história - nada disso faria diferença no mundo prático e utilitário. Deu-se conta de que os dois ou três brilhos que via nos olhos dos alunos se deviam ao fato de ele, Barata, parecer-lhes qual um apresentador polêmico de TV, espécie de Pedro Bial que conta histórias passadas na casa de Matacavalos, num Big Brother de um só participante. As histórias que tinha pra contar não tinham finais razoáveis: não havia casamento, nem filhos, só transmissão de nada à miséria humana; seus heróis haviam morrido de overdose, mas seus alunos pertenciam à geração saúde; seu anti-herói não tinha vindo ao mundo pra ser pedra, virava estrela no hemisfério norte - que os alunos contemplavam fascinados, enquanto Barata queria reuni-los ao redor da fogueira e pontear na violinha as histórias feias que conhecia. Mas aí ficava chato, porque não tinha efeitos especiais, nem permitia consulta à Wikipedia.

Mas todo Barata sai da toca, nem todo mundo tem sangue de Barata, eu vou meter a boca no mundo hoje, Barata acordou assim injuriado. Deu-lhe a cara preta. É que os mortos haviam falado com Barata à noite, enquanto ele dormia: que eles tinham sido há muito esquecidos e se conformavam com a lei da morte na maior parte do tempo, o luto acaba e a vida segue, mas de quando em vez era preciso se lembrar deles. E não justificaram, que mortos não ficam dando explicações: posto tenham a eternidade à disposição, não tem tempo pra gastar.

Barata entrou na sala de aula mais sisudo do que de costume, não disse boa tarde, não chamou os alunos de senhores. Avisou que não estava bem e que aquela aula era dedicada à memória dos mortos, mas os alunos não levaram a sério, porque, no mundo dos alunos, as aporias são todas solucionadas pelos professores. Barata sentiu o arrepio que veio do outro mundo e disse que ali não falaria ele, mas os contadores de histórias do passado - que tivessem paciência os alunos, ou que saíssem, já Barata não se importava muito. Falou-lhes de homens que abandonavam as casas, as mulheres, o dinheiro e o conforto, em nome de ideias, e os alunos riram muito; depois disse às meninas que não se restringissem a apenas um homem, que experimentassem todos, porque mereciam, se quisessem, mas que não se restringissem a isso para obter emancipação plena: os rapazes não sabiam se gostavam ou não do conselho, a maioria das meninas não entendeu, algumas se chocaram e talvez uma delas tenha rido consigo mesma; depois amaldiçoou a felicidade em todas as suas manifestações permanentes, todas as formas efêmeras de análise, todos os bens materiais, os alunos diziam um ao outro que ele havia bebido, mas Barata nunca estivera tão sóbrio.

O diabo no meio da sala em transe e em paz no olho do furacão. Barata falava com a voz baixa, como se pitasse, mas não havia cigarro, copo ou cachaça, não havia mesa nem púlpito. Um velho alquebrado, os ossos à mostra, aceitando a morte, dentes escancarados para engoli-la antes que ela o engolisse; tossia compulsivamente os pulmões de todos os cigarros que fumara, as entranhas à mostra na sala, evolando a fumaça toda das fábricas, dos escapamentos dos carros, dos vazamentos de petróleo; um poronga alumiando a floresta, a luzinha piscapiscando quase apagada, mas de longo alcance; um garoto, se não fosse menininho que não sabia rezar, vilipendiado por eletrochoques, humilhações, a mulher estuprada, os bicos dos seios torcidos em alicate, o feto inerte em formol - o vazio, o horror, as histórias todas dos mortos que Barata enterrara.

Silêncio: a prece. É tempo de mortos. 

Travessia errática sobre escombros

para Jair Naves

Observo silencioso os escombros que sobraram aqui no fundo
(a construção ficou sempre pela metade
ou foi destruída pelo tempo, que passou
e não deixou que florescessem
cômodos organizados, mobiliados -
com jeito de lar)

Para todo escombro há destinação possível:
os restos de casas antigas podem redecorar uma outra parte
ainda que pequena, da casa nova;
os móveis rotos podem ser reformados,
investidos e revestidos de outras estampas;
os eletrônicos podem ir para a reciclagem,
os elétricos talvez se transformem
em decoração cult como é esta vitrola;
os mecânicos podem compor peças de museu
repleto de novidades e de clichês pop art;
os livros não ficam velhos: só amarelecem,
eu é que os leio de outro jeito,
ou os ponho de lado: não há mais que fazer com eles.

Num canto intertempo e extraespaço, contudo,
está lá o escombro inédito e interdito, talvez o maior deles:
a falta.
Ali habitam os mortos todos que enterrei
(o avô em pele e osso,
o pai ofegante,
o mestre do coração)
as mortes todas que me impus
todos os pactos que fiz com deus e o diabo
o Liso do Suçuarão interminavelmente imaginário e fictício
Travessia errática sobre escombros:
o vazio é árido, infértil e fétido.

Brotou apenas esta flor feia
no meio do caos travestido de vida intelectual -
ela não tem cor, nem organização, nem simetria;
é flor do pântano dum quintal abandonado,
coberto de escombros afetivos
e concreto armado de argumentos
sem fundamento.

Observo silencioso os escombros que sobraram aqui no fundo:
tudo é frágil, tudo é falta.

domingo, 16 de outubro de 2011

Impressões soltas sobre o agora e a leitura, num lounge de hostel

Cidade turística e maravilhosa, abençoada por deus, bonita por natureza. No lounge do hostel, todos querem ser amigos de todos, se cumprimentam, se impressionam com os diferentes idiomas e celebram o encontro de culturas. Meu isolamento mostra, de um lado, o quão anti-social e antipático eu sou, mas também mostra uma face que ninguém quer ver: a da artificialidade da diferença. As pessoas não são tão diferentes assim: estão todas vestidas da mesma forma, gritam "uhú" como se estivéssemos num reality show (e não estamos todos?) e falam de futebol, cada um canta o hino de seu time. E não são todas iguais as faces vazias dos fanáticos? O capital e as falsas consciências nos igualam a todos, e buscamos desesperadamente ser diferentes, para fugir  da vala comum da mercadoria que somos - e a lógica de mercado transforma a diferença em produto, mais uma vez: o viajante mochileiro é tão clichê quanto os turistas da excursão de família, ou da "melhor idade". No som, world music ou música eletrônica - e eu me pergunto se não há prova maior de que a indústria cultural nos faz de todos um amontoado de mortos-vivos, devoradores de cérebros dos que ainda têm algum traço de vida, se é que a rotina que levamos pode ser chamada de vida.

O engraçado é que todo este ambiente não me contamina: não bebo, não fumo, não gosto de futebol, não partilho dos fascínios coletivos pelos idiomas exóticos - a um dinamarquês, a língua portuguesa parecerá exótica, e seguimos, os brasileiros, vira-latas, exibindo nosso inglezinho sofrível, babando ovos pelos gringos que aportam por aqui. Os rapazes correm atrás das gringas loiras e branquelas; as meninas rodeiam o italiano travestido de amante latino. Eu me deixo no canto, para eles sou o nerd do computador - sempre deve haver um - talvez punheteiro excessivo, talvez tarado por alguma escatologia, talvez só nerd mesmo - mas sinto-me estranhamente integrado, em paz, sem ser notado, só mais um: quanta liberdade está em ser mais um! Note-se: há gente de todas as idades aqui, todas niveladas pelo mesmo vestuário, mesmos gritinhos histéricos frente a alguma piada, mesmos olhos brancos - a TV está ligada, o som está alto, há revistas e jornais do mundo todo, o wifi funciona bem, o bar serve os drinques do esquenta para a "funk party", a que todos irão às 23h, quando a van os vier buscar.

Não invejo, nem julgo - tudo isso me é indiferente, posto tenha me causado estranheza e identificação, ao mesmo tempo. Estranheza por causa da barulheira, da confusão, eu que passei o dia tão serenamente, caminhando pela praia, depois lendo, depois cuidando do espírito. Identificação porque, além dos olhos brancos, também já fui assim, embora tentasse, como todo mundo, ser diferente, com um certo verniz (que se perdia rapidamente) de intelectualidade, papos-cabeça, coisa de gente metida que estuda literatura - que, no frigir dos ovos, também é parte do mercado. Um pouco de humildade me cairia bem naquela época e hoje ainda.

A única diferença, única mesmo, é que hoje, neste exato momento, não penso em estar em outro lugar, fazendo outra coisa, sendo o que não sou, o que não aprendi a ser, o que não posso ser. Sou mais um, finalmente. Há uns tempos, estava sempre num lugar com a cabeça em outro, sempre de férias pensando no trabalho, sempre no trabalho pensando em ler, sempre lendo um livro pensando em ler outro, ou querendo chegar ao fim logo, contando o número de páginas pra acabar.

Hoje começo o livro sem pensar em concluí-lo. Pode ser que me enfade no meio da história, pode ser que mexa comigo a ponto de querer lê-lo todo no mesmo dia - mas às vezes não dá, porque tenho de trabalhar, ou cuidar dos bichos e das plantas, de algumas pessoas. Então ficam os capítulos pelo meio, as histórias incompletas, e nem sempre é preciso terminá-las - há diversos livros pela metade em minha estante. Também eu preciso escrever umas histórias, mesmo que curtas, neste blog, escrever material para os alunos, às vezes questões para os simulados: há contas a pagar, afinal. Mas há tempo de ir à praia, tempo de trabalhar, tempo pra gastar com as pessoas, tempo pra ler. Há o agora - ele é que se tem posto como definitivo, esta hora; não conto o tempo que ficou para trás, embora me lembre dele; o futuro não me pertence: não quero estar em nenhum outro tempo ou lugar. Estou nesta página, não conto quantas faltam para o final do livro, não me importa a conclusão que talvez não haja, por mais que a procuremos; desfruto desta página que se me ofereceu na frente hoje, degusto devagar a virada de página, que pode ser apressada ou adiada - tudo depende desta página que está em minha frente, que escrevo e leio, a um só tempo, sem pressa, se eu conseguir, porque às vezes também não dá: também tenho meus dias de desarmonia, não são poucos.

No lounge do hostel, todos querem ser amigos de todos, alguns me cumprimentaram, alguns olhares gentis me sinalizaram aprovação, como se dissessem "é bom estar conectado". Estar num canto, escrevendo ao computador, enquanto se ouve música é também uma forma de ser artificialmente diferente, ou absolutamente  idêntico. Esta é a página virtual que consigo escrever hoje, não poderia ser diferente, nem quero que seja. Quero desaparecer na paisagem, quieto, comum, caminhar com a bondade, aceitando o que se me põe no caminho.      

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Barata ousa sonhar

Primeiro, o vazio, a escuridão completa. Depois, sem saber bem como, Rudgero Barata havia vendido tudo que tinha: o Uno Mille 2002, o apartamento que comprara na planta, a casa no Morro do Piolho, os dois imóveis que herdara dos pais, as duas dúzias de ações de bancos que lhe haviam sobrado da febre das ações (em que, diga-se, de passagem, só se deu mal), móveis, os livros que usara para preparar aulas durante anos, as roupas. Instalou-se no hotel mais barato da Praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro, carregado de malas em que levava apenas garrafas de uísque, todas as que guardara ao longo da vida "para abrir numa data comemorativa".

Datas para comemorar, nunca as houve. Barata nunca foi paraninfo de nenhuma turma, nunca deixou saudades nos alunos. Não era reconhecido na rua, e, quando o era, percebia os olhos constrangidos que apressavam-se em desviar-se dele e seguir caminho. A família fora pequena: a mãe, o pai, dois irmãos. Quando saiu de casa para estudar, Barata não fez falta, ao contrário: a tentativa de trazer para as mesas de almoço os debates da praça pública irritavam a todos, que queriam comer sossegados. Perdeu silenciosamente o pai, depois dolorosamente a mãe, os irmãos foram-se embora sem desejo de vê-lo: Barata não era bem quisto, só causava problemas. As garrafas começaram a acumular-se nesse período: não havia mais aniversários para celebrar, mas Barata gostava de uísque, não para beber todo dia, que não era disso, mas para beber com os outros: seu único luxo e sua única forma de convivência social. Sem vida pessoal ou familiar, acomodou-se à sombra dos diretores de escola, que o protegiam, porque a única instância desenvolta da vida de Barata, a partir de então, foi o currículo. Ali acumulara montanhas de cursos, palestras, simpósios, conferências, cursos a que assistira - e a escola precisava de um professor gabaritado em seus quadros.

Nunca se casou porque nunca encantou nenhuma mulher, também não teve paixões que inspirassem. Era voltado demais para si, egoísta, foi o que lhe disse a única namorada que teve, por menos de um ano - única experiência próxima de amor que experimentou em vida. Não comemorou um ano de namoro, nem casamento. E as garrafas acumulavam-se no bar.

Assim, de uma hora para outra, Barata decidiu que beberia tudo de uma vez, em um quarto de hotel - e, com sorte, num surto de insanidade, cometeria suicídio, esvaziado que estava da vida. Instalou-se no quarto e começou, dose por dose, depois em goles maiores, depois de garrafa em garrafa. Temeu suicidar-se atirando-se da janela (devia doer demais), então tomou um táxi, intentando morrer poeticamente afogado na Lagoa Rodrigo de Freitas, à moda de João Gostoso, mas não teve coragem, nem era gostoso. Caminhou à beira da Lagoa, não supôs ter cantado, dançado e bebido o suficiente. Tentou ligar para os irmãos, mas teve vergonha. Tentou ligar para a ex-namorada, mas teve vergonha. Voltando ao hotel foi atingido por violenta explosão na Praça Tiradentes que lhe tirou a vida.

Depois de uma noite com esses sonhos inquietantes, Rudgero Barata acordou cedo, sem ressaca, porque não bebia, sem companhia e cercado de livros.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Desesperança

"O caminho é melhor que chegar"

Trata-se, na ordem teórica, de crer um pouco menos e de conhecer um pouco mais; na ordem prática, política ou ética, trata-se de esperar um pouco menos e de agir um pouco mais; enfim, na ordem afetiva ou espiritual, trata-se de esperar um pouco menos e de amar um pouco mais.
No livro A felicidade, desesperadamente, de André Comte-Sponville.

Para o amigo Rafael Visconti

Rudgero Barata fitava a Praia do Leblon - eram seis horas da manhã, ainda não havia trânsito suficiente para abafar o barulho das ondas, não havia quase ninguém na areia, porque era dia de semana. Quem o visse, com os polegares metidos nos bolsos da bermuda, caminhando diligentemente, cuidaria que ele procurava adquirir resistência física, ou que se preparava para uma longa maratona; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra cousa, despreocupado do sentido que tomava no caminho. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Ainda professor, mas sensivelmente diferente, mais lúcido, o planejamento dos cursos que lecionaria todos na cabeça, mas a vida aberta à imensidão e ao imprevisível, como o horizonte plácido, apesar das ondas agitadas da beira mar. Olha para si, para o Morro Dois Irmãos, para a favela, para os prédios dos ricos e para o céu; e tudo entra na mesma sensação de desespero.

Barata frequentava há algum tempo um grupo de apaixonados - alguns os chamariam obcecados - pelos significados das palavras. Não eram sábios, nem eruditos, nem sacerdotes - ah, não havia ali sacerdotes, dos quais Barata fugiria rapidamente, farto que estava de religiões. Tratava-se apenas de homens comuns, que se debruçavam sobre as palavras, apaixonavam-se por algumas, odiavam outras, experimentavam todas, a fim de desvendar-lhes os sentidos possíveis, por mais que chegassem à conclusão, muitas vezes, de que não tinham sentido, ou, por outro lado: o sentido que tinham estava em deixar-se maravilhar pelo mistério dos sentidos e abandonar-se ao curso dado pelas palavras, por meio dos textos - lia-se muita literatura ali, e Barata acabou ficando, porque gostava de cismar nos significados de palavras, gostava de literatura e gostava de estar rodeado de gente que não desfiava regras, mas que as escrevia a tantas mãos quantas houvesse nos encontros, apenas para que todos pudessem encontrar-se.

Mas o grupo não se dedicava apenas ao estudo do significado das palavras; cuidava também de reformular-lhes o sentido, caso fosse possível - mudar o significado das palavras é, em certa medida, mudar o mundo, silenciosamente, sem alarde, literalmente de boca em boca. Por exemplo, ali, a palavra erro era comemorada, analisada, flexionada, dividida em partes e recomposta, como se pudesse conter todos os erros do mundo, como se todos eles coubessem ali, e muitos mais, como se a palavra erro fosse casa de mãe, onde cabe tudo, onde se toma bronca e ciência, mas também onde se ganha carinho. Oh, sim, ali comemorava-se o erro. Também ali travessia deixava de ser palavra transitória e passava a figurar como vocábulo onipresente. Ali só se tinha certeza - e ainda ela muito incerta - da passagem, nunca da parada.

O pior é o que se fazia, no grupo, com o tempo - porque já é tempo de voltar a Barata e sua caminhada na Praia do Leblon. Entre aqueles estudiosos, o passado ficara para trás, sem ser esquecido, o futuro era constituído por meio do que se praticava no presente e o porvir era a pura claridade de abertura dos olhos frente ao que era real. Por isso, Barata, ao caminhar pela praia, contemplando a imensidão do mar, do morro, dos prédios, de tudo o que havia acima dele, sentiu-se completamente desesperado - livre da esperança sempre frustrada de que dias melhores viessem; livre dos grilhões de tomar para si todas as causas; com o compromisso único consigo próprio de, depois de ter mergulhado por muito tempo nos sentidos inebriantes das palavras, perscrutar-lhes os limites e as faces, verificando que estavam investidas de sentidos pejorativos, na mesma medida em que estavam prenhes de significados eufóricos e de razão, confinadas por medos e ressentimentos, revestidas de milhares de vozes de pessoas que lhes haviam imprimido todos os sentimentos - finalmente atribuindo às palavras o sentido que quisesse, especialmente à palavra esperança, que, para Barata, significava estar parado, imóvel de pavor, à espera do que não vem nem é.

Barata não sabia aonde ia. Tomara o sentido que lhe parecera mais correto, não porque significasse obrigatoriamente alguma coisa, mas porque lhe havia sido sugerido pelos apaixonados da palavra e porque era, de fato, o traçado mais bonito e prazeroso. Barata caminhava espetacularmente sem esperança, professor ainda, confiante de que o caminho era melhor que chegar.        

O tempo

Já analisei essa canção dos Móveis Coloniais de Acaju no blog da Identidade Musical. Incrível como ela vai ganhando, para mim, novos significados conforme o tempo passa. E então, se tudo passa em branco, eu vou pesar / A cor da minha angústia e no olhar / Saber que o tempo vai ter que esperar.



A gente se deu tão bem
Que o tempo sentiu inveja
Ele ficou zangado e decidiu
Que era melhor ser mais veloz e passar rápido pra mim

Parece que até jantei
Com toda a família e sei
Que seu avô gosta de discutir
Que sua avó gosta de ouvir você dizer que vai fazer

O tempo engatinhar
Do jeito que eu sempre quis
Se não for devagar
Que ao menos seja eterno assim

Espero o dia que vem
Pra ver se te vejo
E faço o tempo esperar como esperei
A eternidade se passar nos dois segundos sem você

Agora eu já nem sei
Se hoje foi anteontem
Me perdi lembrando o teu olhar
O meu futuro é esperar pelo presente de fazer

O tempo engatinhar
Do jeito que eu sempre quis
Distante é devagar
Perto passa bem depressa assim
Pra mim, pra mim
Laiá, lalaiá

Se o tempo se abrir talvez
Entenda a razão de ser
De não querer sentar pra discutir
De fazer birra toda vez que peço tempo pra me ouvir

A gente se deu tão bem
Que o tempo sentiu inveja
Ele ficou zangado e decidiu
Que era melhor ser mais veloz e passar rápido pra mim

Eu que nunca discuti o amor
Não vejo como me render
Ah, será que o tempo tem tempo pra amar?
Ou só me quer tão só?
E então se tudo passa em branco eu vou pesar
A cor da minha angústia e no olhar
Saber que o tempo vai ter que esperar

E o tempo engatinhar
Do jeito que eu sempre quis
Se não for devagar
Que ao menos seja eterno assim

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Hortênsia


Minha Hortênsia ficava do outro lado do jardim e, quando fiz pequenas reformas nos fundos da casa, levantou-se a hipótese de livrar-se dela. Não admiti: por diversas vezes ela me dera flores lindas, que haviam dado vida à casa. Não fazia sentido perder a alegria. Preservei-a.

Mas acontece que sou descuidado: os afazeres do dia acabam por tomar vulto, e as plantas ficam para trás. Também a beleza do jardim murchou, e a Hortênsia quase morreu. Regar as plantas todos os dias, além de exigir disciplina e disponibilidade de tempo, implica uma conta maior de água, sobretudo se o jardim é grande; para economizá-la, é preciso disciplina, investimento e tecnologia. Quero dizer com isso - não tem havido mais literatura por aqui, eliminei as metáforas e as alegorias, que de certa forma mentiam o real - que é fácil declarar que é preciso integrar-se à natureza, respeitando-a, entendendo-se como parte dela, utilizando-se de toda a cultura que o homem já desenvolveu. Mas estamos todos, estou eu em particular, longe, bem longe disso. Nossa integração à natureza ainda é utopia (todos queremos "uma casa no campo", mas não a conseguimos ou nos entendiamos quando estamos nela), ou ideologia (no sentido de falseamento da realidade). Tenho a impressão de que o discurso ecológico - em todas as suas manifestações e nuances, da preservação das florestas à utilização das bicicletas - ainda peca, em larga medida, por não estar articulado a outros discursos que resultam, em mosaico de esquerdas, na "luta pelo aprofundamento da democracia" que "é necessariamente uma luta anti-capitalista" (Boaventura de Sousa Santos, pra variar, neste livro aqui).

Mas minha Hortênsia voltou a florir, porque voltei a cuidar dela. Acordo mais cedo, dedico-lhe tempo - e acredito que há algo em comum, num contínuo que insisto em defender sem saber explicar direito, entre cuidar da Hortênsia e repetir no blog as ideias de Boaventura de Sousa Santos. Jeitos diferentes saciar a minha sede, a dela e a dos poucos leitores por integração, harmonia, equilíbrio, serenidade.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A audição, a surdez - a paz

Aprendi o que eram os Ramones numa revista Bizz, se não me engano quando o "Rocket to Russia" foi lançado no Brasil. Minha memória certamente pode me enganar, mas acredito que o disco foi lançado tardiamente por aqui, se não me engano por problemas com a censura; talvez não: talvez simplesmente o disco tenha chegado ao Brasil pela via tradicional, a das grandes gravadoras, como aposta de que a novidade punk poderia dar certo nestas paragens. Não me lembro bem, nem tenho como confirmar nada disso: trata-se de lembranças difusas, talvez constituídas por um sujeito que quer filiar-se desesperadamente a algo que faça sentido - e ouvir punk rock fazia muito sentido quando eu tinha dez ou onze anos.

Lembro-me de ouvir o disco inteiro, deitado no chão, com uma caixas de som em cada ouvido, porque não tinha headfone. Aumentava o volume, colocava-o no máximo, de modo que não perdesse um detalhe sequer da canção, em todos os sentidos. Alienava-me do mundo, e essa era a melhor sensação do mundo. Fechava os olhos, não pensava em nada, apenas deixava "I Don't Care" e "Sheena Is a Punk Rocker" constituírem-me como sujeito. Lia as letras, olhava a foto da capa, prometia a mim mesmo vestir-me como os Ramones, queria existir em branco-e-preto para ser como eles.

Até hoje tenho saudades dessa sensação, que vez por outra retorna, embora não mais com os Ramones. Ainda gosto do disco, mas, no todo, ele me parece risonho demais. E o rock sempre me soou como a música da desordem, da confusão - música do demônio, simbolicamente. Lembro-me de ouvir uma coletânea do Black Sabath, deitado na mesma posição, na mesma sala, no primeiro dia em que fumei um cigarro inteiro, depois de conhecer a fundo o Master of Reality. Nunca alcancei o mesmo estado de esvaziamento absoluto e de paz com Led Zeppellin nem com Purple.

Não se estranhe a palavra paz - que é rigorosamente o que sinto quando ouço, hoje, o Idioma Morto do Ludovic. A sensação é rigorosamente de integração comigo próprio, sujeito e objeto indiferenciados, arrisco dizer sensação de absoluto - e as canções consagram essa celebração profana de não pensar em nada. Nunca aconteceu o mesmo com um disco completo do Sepultura - mas tenho um CD com uma seleção de canções que me fazem entrar naquele estado. Digo que tem "Innerself", "We Who Are Not As Others" e "Refuse/Resist".

Nunca soube explicar por quê, mas sempre me soou natural que canções tão atormentadas me trouxessem alguma paz. Não sei se é porque o tormento que me vai na alma ganha expressão nessas canções ou se porque me atormentei com os Ramones, lá no começo de tudo, nos idos de 1985 ou 1986, e acabei ficando de cabeça virada. Não me importa.

Este texto não tem começo nem fim, nem tem conclusão, moral ou propósito - até me envergonha, se o leitor quer mesmo saber. Nunca me identifiquei tão plenamente com nada, só muito depois com alguns poucos textos literários, que sigo relendo - todos eles atormentados também. O Apanhador em Campo de Centeio, de J.D. Sallinger, Dom Casmurro, do Machado, O Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, o Grande Sertão: Veredas, do Guimarães, que me vêm à cabeça agora. Literatura inquieta, atormentada, com o que vai por dentro e por fora, cheia de paranoias, confusões, espectros, revoluções, abalos e demônios.

Não minto: escolhi esse tormento todo. Os homens felizes neste nosso mundo me parecem mortos-vivos, repetindo as falas de novelas, cantarolando músicas de propagandas, entoando hinos de futebol, gritando "uhú" eufóricos quando entram "na casa" ou "na fazenda"; a felicidade me parece mentirosa, porque é extremamente organizada, metódica, de plástico, no padrão Globo de qualidade, com todo mundo acreditando no Brasil. É demais pra mim.

Fecho os olhos: "Heroin", do Velvet Underground.

"Man thank God that I'm as good as dead
And thank your God that I'm not aware
And thank God that I just don't care
And I guess that I just don't know
Oh, and I guess that I just don't know".

Abro os olhos: a realidade. Não há mais canção que me faça integrar-me a mim. Talvez "Bicho de Sete Cabeças", mas não, acho que não. Não é rock, e as escolhas foram todas minhas - a culpa pela dor não é, nem nunca foi, de ninguém, além de mim.

Cala a boca já nasceu

Carlos, sossegue,
o amor é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

Carlos Drummond de Andrade,  "Não se mate"

Carlos, sossegue: de Drummond pra cá (você já velho, Carlos), nada mudou muito. É inútil resistir aos crimes da terra, nos quais você tomou e tomará parte; não se preocupe com os carros estacionados sobre a faixa de pedestres sobre local proibido: sempre foi assim, sempre será, sempre haverá um bode expiatório que pagará a conta, a multa e o imposto - e com sorte não será você, Carlos. 

Carlos, é assim mesmo: o silêncio absoluto no barbeiro, porque você não gosta de futebol, nem de televisão, nem de carnaval - também, você não gosta de nada, Carlos! As pessoas te olhando feio, ou assustadas, ou indiferentes (provavelmente só indiferentes, está tudo na sua cabeça, Carlos), o homem atrás do bigode, das camisetas e das palavras duras é sério, simples e forte. Você fala baixo pra não gritar, Carlos - e não fala pra não machucar, mas você machuca todo o mundo, Carlos. Você é chato demais, homem!

Não resista, Carlos: esses medos todos, só botando pra fora mesmo, com quem estiver disposto a te ouvir (como se alguém estivesse), sem conhaque, que te botava comovido como o diabo, mas te descontrolava e te tirava a saúde. Mas você é teimoso: comemoraram quando você abandonou Itabira, retumbaram quando você abandonou o emprego, seus vizinhos exultaram quando você se mudou. Por que você não se muda de si mesmo?

E o amor, Carlos, o que foi feito do amor? Você-clichê: queria tudo e ficou sem nada; queria ajudar e atrapalhou; queria ter filhos e não transmitiu a ninguém o legado da miséria humana; queria planejar o futuro, deixar o mundo caduco pra trás, mas se viu taciturno, amaro, invejoso e ciumento - pra viver o presente é preciso nutrir  grandes esperanças, especialmente nas pessoas, Carlos, mas você não acredita em nada, e agora? 
  
A decrepitude chegou, Carlos: você repete as mesmas coisas dez vezes, insiste em brigar no trânsito, é grosseiro com quem quer lhe falar de futebol; você só percebeu que o tempo passou quando o barbeiro sugeriu raspar-lhe os pelos da orelha; quando olhou pra trás, Carlos, você só viu você-imperfeito, perfeito só na nuance mais íntima do egoísmo, porque só fez o que quis, nunca ouviu ninguém, nunca deixou ninguém entrar. Você não pode cantar o amor, porque ele se refugiou nos seus subterrâneos, e você o escondeu, dando-lhe a forma de maus poemas, ciúmes, invejas, desconfianças. Fique quieto, Carlos. 

A palavra que não se fala

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio - pondo perpétuo. Eu já sofria o começo de velhice - esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. (...)

Sem fazer véspera. Sou doido. Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos   todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos.

de  "A Terceira Margem do Rio", de Guimarães Rosa

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Aqui todos se encontram


Aqui não há tempo nem espaço, aqui todos se encontram. No balcão, às oito e quinze da manhã, a mãe nitidamente contrariada comprava com os últimos centavos de que dispunha um cheesburguer à filha adolescente, de olhos brancos fixos no cardápio. A lanchonete tem sua própria rádio - e todas as canções ecoam "baby, baby, baby", depois de drops de cultura na cidade, e as últimas baixas da bolsa, e as últimas altas da coluna de fofocas - tudo em velocidade vertigionosa. Ao contrário do que eu imaginava, há gente no andar de cima, ao qual subi à cata de um pouco de solidão: a minha frente, um bêbado cura-se da ressaca brava com o sanduíche do molho especial, mais uma coca de meio litro; a um canto, um casal de cabelos molhados e roupas amarrotadas parece imóvel - é certo que saíram do motel, mas falam pouco, de olhos baixos, não fitam um ao outro: talvez estejam envergonhados da traição que cometeram, ou estejam tomando café da manhã juntos apenas porque trabalham juntos e é melhor que comam juntos depois de trepar - a refeição é um ato coletivo e social, meu deus.

Na decoração da lanchonete, crianças em preto-e-branco, vestidas de mercadoria, consomem os sanduíches coloridos - que têm e dão vida às pessoas, que acabam por se encontrar todas aqui. Peças de arte moderna aludem ao menu do restaurante - e percebo que se abre à minha frente a Máquina do Mundo, integrando espaço, curvas e linhas retas, cores, aromas, juventude, pessoas, tudo sumariado no M amarelo e onipresente, aprofundado num vermelho quente, com que todos nos identificamos em qualquer lugar do mundo. Amamos muito tudo isso, porque aqui nos integramos, estamos todos juntos, vestimos essa camisa - as crianças podem brincar, vez por outra um dos palhaços mais famosos do mundo e sua turma vêm animar as tardes de sábado; os adolescentes paqueram; os adultos almoçam rápido, preocupados com o trabalho; os pernoitões matam a fome do fim da noite; os bêbados matam a ressaca, como este que está à minha frente, pronto para ir ao banheiro devolver à privada tudo que consumiu aqui e fora daqui - o que no fundo é a mesma coisa, porque a lanchonete é o mundo e é hoje, fora do tempo e do espaço. Aqui todos se encontram.

sábado, 1 de outubro de 2011

A reclusão extrema

Quanto menos somos, melhor passamos, dizia uma professora minha das antigas, de que tenho saudades. Gente demais causa confusão demais, e não estou pra barulho. Muitos me chamarão intolerante - o que é certamente verdade, mas sempre insisto na ideia de que pra tolerar preciso ser tolerado. Coisa rara. Meti-me numa igreja, onde escrevo estas palavras - ninguém vai se aproximar de mim aqui, parecerei o fiel que se conecta à internet e que ora por meios novos, fazendo da tecnologia um instrumento da fé. Não me importo mais. Só quero estar só. Faço cara grave, de quem tem problemas de saúde, meus ou de minha família, não interessa; visto preto: deve ser luto aos olhos alheios. Só quero estar só. O silêncio. Que falta eu sinto do silêncio.

Mas não me livro a cara não: sou eu mesmo que tenho aversão às pessoas e às coisas novas, assumo que o problema está em mim - e que o desfrute alheio me enoja. Melhor seria ficar só, absolutamente só, à sombra de uma árvore, com alguma fonte de água por perto, pra me molhar de vez em quando, no calor. Uma cadeira para ler, confortável, no mesmo jardim, mas em local mais abrigado, no frio, para que eu pudesse ler em paz, comer pouco e rápido, dormir cedo. Pouca gente no trabalho, que tem de ser perto de casa, pra poder ir a pé, sem pegar trânsito, e voltar rapidamente. Molhar as plantas e acariciar os animais. Bons livros pra ler: posso conversar infinitamente com Machado de Assis, José Cardoso Pires, Marx e seus amigos, Guimarães Rosa; Clarice, essa não tem jeito: vou acabar cantando, proporei casamento, viveremos noites a fio discutindo parágrafos à toa, que serão o gozo infinito dos nossos encontros mais ardentes. Com Mário de Andrade vou trocar cartas, porque ele é tão recluso quanto eu; Eça vai me chamar pra jantar, mas eu não vou; Pessoa vai me chamar pra beber, mas ele não vai: quem vai aparecer é o Álvaro de Campos, mas com ele não quero papo, porque ele é muito deprê.

Eu preciso de silêncio. Ao meu lado, um pequeno grupo de senhoras reza a ave-maria: uma delas puxa o começo, as outras continuam a partir da metade, da "Santa Maria, Mãe de Deus". É um terço: a líder sugere que se reze para todos os doentes em todos os hospitais. Agora mais um mistério, pelos miseráveis. Se eu tivesse coragem de lhes falar, pediria que rezassem uma só ave-maria pelos misantropos. Irrita-me a alegria alheia pelo futebol; o devaneio coletivo do gol me soa exageração de um vazio, que tem de se ampliar até mim, invadir-me, contagiar-me. Rejeito. Irrita-me a face serena dos recém-saídos da Igreja, aliviados pela oração, dispostos a tudo depois da dose de fé. Rejeito. Soam-me falsas as reuniões de família, os encontros de amigos, as reuniões de trabalho, os happy-hours no botequim da esquina. Nada me diz respeito, tudo me é alheio - perdem o sentido todas as tarefas meio-completas do passado. Invejo, com a pior das invejas, a alegria dos fãs de futebol, o abraço sincero de quem me deseja feliz natal ou feliz ano-novo, a leveza de quem passeia pelo shopping sem pensar em nada, a facilidade com que se esquece o mundo circundante em benefício de si mesmo, o egoísmo mais puro dos networkings. Nem por isso me considero altruísta: encastelei-me na reclusão mais extrema de mim, abafei os sismos todos que me abalam, como as lágrimas que verti ontem.

Eu preciso de silêncio. Mas uma freira me convida a olhar alguma relíquia que está no altar da pequena igreja - oportunidade única, diz ela. Digo que já lá vou, mas não vou - quero ficar sozinho, odeio que me peguem no braço, não há motivo para me convidar, não temos nada em comum, a freira e eu. Lá dentro, outras irmãs oram, e a ladainha me faz bem aos ouvidos - deve haver algum sentido numa vida de fé, basta haver fé. Ainda que seja o conforto da oração e da meditação que leva, no fundo, a não pensar em nada. Como eu queria poder não pensar em nada, como eu queria poder acreditar nas pessoas.

Mas uma criança entrou na Igreja. Rompe o silêncio, entre uma oração e outra, rompe a gravidade da oração. É uma criança, e às crianças tudo se perdoa. A menina circula por entre as cadeiras, não entende a lógica dos genuflexórios, puxa os vestidos das irmãs, senta-se, quer cantar com elas, impacienta-se por não saber a letra, mas enrola esticando as vogais, volta a andar, circula pelo altar, observa severamente a imagem do homem preso à cruz; parece enternecida, mas as irmãs voltaram a orar, as fiéis, que sorriam à pequena, voltam a observar a imagem no altar, a criança perde a importância. Ela se dá conta de que não é mais o centro das atenções, e se conforma. Desvio o olhar dela, não quero que se aproxime, faço cara de mau, não lhe aceno, nem pisco, nem sorrio. Rapidamente a pequena se dá conta de que não há nada ali para ela e abandona a exploração da igrejinha: vai ao jardim, à cata de outras curiosidades, que a façam rir por uns instantes, na esperança fácil de que haverá outra depois, e mais outra, numa leveza que não posso alcançar.