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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Minha mente guarda a chave (ou o que fazer quando falta intensidade)




Todos os livros estão lidos: a felicidade ou o sofrimento estão diretamente associados ao modo como olhamos as impressões que temos da realidade e os pensamentos que temos sobre elas. Ora, a consciência não é suficiente para dar conta da superação de si próprio. Seremos tão resultado deste tempo que não poderemos produzir síntese em nenhuma altura da vida? Seremos sempre os criadores dos vazios? Ser diferente do que se é: eis aí o sofrimento. Mas a tentativa de aceitar-se como se é não será já ela uma conformação à personalidade doentia deste tempo?

De um livro de autoajuda, rejeitado por uma grande editora, que me chegou às mãos pelo autor, ex-aluno ainda jovem, que pede sigilo e que me perguntou por que não fora publicado. Não soube o que lhe responder. "Mas isso presta pra alguma coisa?" - ele perguntou.  "Pra nada", respondi. "Nem pro teu blog? Lá cabe qualquer coisa". Tive de aceitar que o argumento era forte: pincei o parágrafo menos ruim, citei-o acima, mas para garantir que ao menos algumas linhas do meu autor secreto fossem lidas, acompanhei-as de um trilha sonora que vibra  na mesmíssima frequência. 

My body is a cage that keeps me
From dancing with the one I love
But my mind holds the key

My body is a cage that keeps me
From dancing with the one I love
But my mind holds the key

I'm standing on a stage
Of fear and self-doubt
It's a hollow play
But they'll clap anyway

My body is a cage that keeps me
From dancing with the one I love
But my mind holds the key

You're standing next to me
My mind holds the key

I'm living in an age
That calls darkness light
Though my language is dead
Still the shapes fill my head

I'm living in an age
Whose name I don't know
Though the fear keeps me moving
Still my heart beats so slow

My body is a cage that keeps me
From dancing with the one I love
But my mind holds the key

You're standing next to me
My mind holds the key
My body is a

My body is a cage
We take what we're given
Just because you've forgotten
That don't mean you're forgiven

I'm living in an age
That screams my name at night
But when I get to the doorway
There's no one in sight

My body is a cage that keeps me
From dancing with the one I love
But my mind holds the key

You're standing next to me
My mind holds the key

Set my spirit free
Set my spirit free
Set my body free

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Barreiros

Do anedotário de uma senhora carioca, que conversava com os amigos em um quiosque à beira da praia do Leblon

O homem fazia vasos de barro, da mesma forma que o pai e o avô – e provavelmente o pai e o avô de seu avô também o faziam, da mesma forma. Esse pequeno resquício de subsistência, ocupação e arte resistira aos séculos, à chegada das fábricas que produziam e produzem cada vez mais vasos em massa, seja lá o que isso quer dizer: se era em massa, poderia ser de barro? O homem insistia que não: barro era o que lhe dava o nome e o traço da família, atávico, perdido para a maioria das pessoas, mas não para ele.

E produzir os vasos parecia uma grande brincadeira – assim os pais haviam convencido os filhos a persistir na subsistência familiar, por tantas gerações. E o homem ouvia, ainda pequeno, os professores dizendo que aquela ocupação não prestava, fosse porque era atrasada, fosse porque não passava de coisa de criança. Mas não se importava: chegava da escola, largava régua, compasso, livros e cadernos ainda na porta da casa e ingressava no ateliê do pai, que já estava lambuzado da matéria primeva usada para dar forma e cor – espécie de feiticeiro ou alquimista do barro, que assumia o traço dos dedos, as curvas das mãos, a articulação dos cotovelos, o dobrar dos joelhos e a celeridade dos pés, tudo pra ganhar vida num vaso novo. Depois de saídos do forno, os vasos se investiam de cores misteriosas que o criançola sequer supunha existir. E brincava, experimentando as partes do corpo no suporte em que girava o barro ainda quase coloide: estado intermediário das coisas, estado intermediário da mente – o menino-ainda-nem-homem sorria festivo os próprios erros.

Mas faltava alma ao olhar do pai. Tinha na face a sombra vazia que afugentava o sorriso do menino. Não que não se apaixonasse pelo trabalho, assim seja, porque esta é uma história inventada nas categorias do real: mas paixão não basta. Ou de outro jeito: mesmo a tempestade de homem acaba serenando um dia – as dores insuportáveis, elas sempre vencem. Não que o velho tratasse mal o rapazinho: só não dava às lições a leveza de quem joga bola com os filhos no parque. Mesmo as bolhas de sabão pareciam pesar nos olhos do pai – nem nos tracinhos de reflexos que elas traziam ele se deixava levar.

Foi numa tarde de chuva miúda. O homem-em-menino chegou ensolarado cantando que tinha agora uma namorada, a menina mais bonita da escola, e que faria um vaso pra ela. Que o pai separasse a melhor matéria: era dia de fazer o pai dos vasos – e podia existir essa categoria, se não fosse com base nos vasos todos já vistos? o pai perguntou, preparando o terreno para a rasteira que viria, chegara o dia do salto. Os vasos que se haviam perdido no meio do processo de criação, e os que deram certo mas ficaram feios, e os que ficaram bonitos mas foram vendidos barato porque era ano de crise – todos os fogos e toda a terra se concentrariam no forno de modo que o vaso-pai, o vaso-categoria acontecesse.

E foi uma volta do sol obscurecido pelas nuvens na preparação – e o homem-quase-feito caprichava, e dava ao vaso os detalhes de si mesmo: as imperfeições que tinha pelo corpo, todas, ele demarcou na superfície do vaso, e as cores todas que conhecia ele testou – eram expressões dos olhos, cabelos, seios, pernas, pés e partes todas dela, o nem-casal em representação singela de amor inocente. Mas foi num horário aziago, bem me lembro, de virada de um dia pro outro, que o menino-homem entreviu – todo vaso compõe um vazio, que o homem pode circunscrever com as curvas mais bonitas, as partes mais nobres de si; pode doar-se em carne, pele e pelos, rarefazendo a si próprio nos detalhes que escapam à namorada mais sensível; pode combinar as cores mais bonitas em representação sublime da mulher, para além das frequências que o olho pode captar – tanta beleza carrega no seio o vazio, que não cabe a nós preencher, o pai do barreiro declarou, os olhos marejados de lágrimas.

Agora o menino era homem-feito. E entreviu num átimo – fagulha que fustiga uma faceta obscura da obra para dar-lhe cor e traço – os vazios todos que haviam ficado para trás, e os que ele próprio ainda acabaria por criar. Quis ficar com o vaso – já intuía que a namorada daria ao presente a destinação que bem entendesse: ou cultivaria ali uma planta bonita, em muda que outro regaria; ou enfeitaria com a peça um canto da sala da casa em que viveria com outro homem; ou doaria a tralha a alguém; ou se desfaria do presente de mau gosto, porque nenhum dos barreiros frequentava galerias de arte, nem tinha o apetite das vernissages.

As lágrimas corriam o rosto do pai – era hora de descansar –, que também agora entendia tudo ou mais: repleto pela primeira vez, desde uma tarde, há anos, esboçou um sorriso enquanto limpava sossegadamente as mãos e se despedia do ateliê, das ferramentas, do vazio. O filho faria vasos de barro, primeiro para subsistência, depois por pura ocupação, finalmente pela arte de gastar o tempo brincando com o próprio filho.

sábado, 19 de novembro de 2011

Os recônditos

Esta forma de amar você nunca conheceu: pelos recônditos. Porque amor na novela é assim: caricato, barulhento, chama a atenção, faz loucuras - os arremedos de eus simulacros. Não é assim na vida real - não há amor? perguntei desanimado aos companheiros. Haver há - me responderam; há de haver, secundei, na esperança de uma palavrinha que, por miúda que seja, altera o conjunto, dá o tom e a cor, sem recair no exagero. Mas me vi de novo em frangalhos de vida real cujas lacunas eu ocupei com literatura. Não dá pra viver uma vida normal? perguntei esperançoso aos companheiros. Você não - me responderam. Eu-não no risquinho mínimo que compõe o todo que tem de ser visto - por hediondo que seja: um sujeito que se erige em não nem nunca mereceu ser gente, eu era tormento, me chamaram assim uma vez, eu fui estorvo - hoje, não. Não tem alegria? perguntei ávido aos companheiros. Claro que tem: pra depois da chuva - me responderam.

Eu corro rumo ao poente o tempo todo, às vezes ainda volto os olhos para trás, mas, ao passo que avanço, regrido. Não tem mais devaneio, não tem mais grandeza - tudo está reduzido ao tamanho normal, a realidade está vista nas suas cores - se é que as tem - frias, os pés estão no chão, corre a descarga elétrica na justa medida do razoável e aceitável socialmente. O diabo não está na rua, está em mim - redemunho que levanta restos e fragmentos que já eram pra ter se colado uns aos outros de modo a compor - o quê? mesmo sem compor corpo coerente, seria, ainda e já, uma pergunta. Em mares de não, as perguntas já são alguma coisa.

Ninguém entende - está domado o núcleo revolto, cova cada vez mais sem funda, à espera do revestimento animado das propagandas deste tempo - equilíbrio, integração, religação, vínculo. À base de emplastos, muletas, esteiras, espetáculos - embora. Tudo pra fugir ao átimo de segundo - a convergência completa de mim em você, em traços de lembranças: o amálgama do teu corpo, teu gosto, teu soar, teus dedos do pé contraídos, o corpo em tensão pura de nós.  

Mas esta forma de amar você nunca conheceu: pelos recônditos. Escapa-me um verso que eu te cantei, sob as contas e os papéis de trabalho assoma o plano de vivermos juntos num país distante, faço um carinho de graça na sombra. Tudo está em ordem, mas segue inerte. Neste recôndito - a escolha: em mares de não, já é alguma coisa.  

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A solidão, o silêncio e a contemplação do ocaso




Quem conhece alguns trabalhos que escrevi para a Identidade Musical talvez estranhe este texto publicado aqui em meu blog pessoal. É que este texto não é uma resenha sobre as bandas de que eu gosto: é sobre mim. "A razão espaço-tempo é sempre tão desencontrada / Todo início quase um fim / Tanto sempre e sempre acaba", dos Los Porongas, certamente são dos versos mais doídos da nova geração da canção brasileira. E rebatem em mim com força demais.

Mais de uma vez, em palestras, apresentações ou aulas que ministrei, disse que vivemos um momento histórico mágico: acho que, desde o início da Modernidade, nunca houve tantas chances de os artistas veicularem suas próprias obras, sem os filtros da indústria cultural. O engraçado é que a Modernidade pode ser caracterizada pela razão desencontrada entre espaço e tempo, daí a força dos versos do Diogo. O ocaso, na canção, certamente alude ao único referente ainda confiável no que diz respeito à passagem do tempo: o sol, que dá a marcação natural do tempo, para além do homem - uma marcação que ele não pode controlar, mas que pode aceitar. E quanto antes o fizer, alcançará mais serenidade.

Tudo que escrevi no parágrafo anterior poderia figurar num texto crítico, a respeito da canção. Mas eu preciso desesperadamente falar de mim - e dizer que hoje cedo, na estrada, quando ouvi "Como o sol" voltando da praia, me dei conta de que, pela primeira vez na vida, não estou lutando contra o que é natural. Não tenho mais vinte anos, tenho trinta e cinco - vinte deles vividos na plena intensidade do puro egoísmo adolescente de quem se supõe especial. Durante vinte anos, não percebi as pessoas ao meu redor, em suas nuances contraditórias, em suas imperfeições, em seus detalhes desconcertantes - só via nelas um resplendor brilhante que era nada mais que reflexo do meu próprio ego, do desejo de encontrar-me - eu desesperado que me via sozinho ao lado de tanta gente que me passou pela vida. Agora que a intensidade pura e o resplendor ofuscante caminham para o ocaso, começo a ouvir vozes de fora de mim, que me dizem frases que ainda não posso entender, mas tento; o brilho começa a dar lugar a alguma luz, com sorte observo algumas cores, e posso perceber rostos, sorrisos, choros, expressões ou inexpressões do que não sou eu, para além dos meus próprios desejos. Há vida além de mim. Quanto tempo perdi comigo mesmo, tentando agradar aos outros, fazer-me aceito, sem que eu próprio me aceitasse e sem que eu aceitasse a passagem inevitável do tempo. Na praia, pensava na cidade; na cidade, pensava na praia. Não neste fim de semana: não digo que estou velho, porque a sensação que tenho é completamente nova: gosto da praia, mesmo que com chuva; gosto de São Paulo, mesmo que com trânsito. E gosto também do Rio de Janeiro.

No carro, também rolou "Anoiteço", dO Jardim das Horas:



Ocorreu-me que não é à toa que, num dos shows do Mais Massa, o pessoal dO Jardim tenha escolhido exatamente "Como o sol", pra tocar em versão voz e violão. As canções do Jardim sempre aludem à busca do equilíbrio - e "Como o sol" talvez seja o registro do exato momento em que o sujeito poético se dá conta de que, para alcançar o equilíbrio, é preciso aceitar as forças que estão para além de si próprio.

Como o sol
Que se esconde ou se espalha
Como o sol
Que aquece ou atrapalha
Como o sol
Que derrete ou agasalha
Como o sol

A contemplação do sol assinala que o sujeito poético aceitou plenamente a passagem do tempo - que não é dele, que não lhe pertence, mas que também não lhe é alheio. (A voz que fala por meio dos versos de Diogo, o próprio Diogo Soares ou eu próprio, que vejo na canção o que eu próprio desejo?) O registro do ocaso aponta o desapego - não controlamos o tempo, os desencontros, a vida ou a morte. Quando perguntei a um velho militante do PCB, perseguido e torturado na ditadura, como é que fazíamos pra lidar com isso, ele me respondeu, com lágrimas aos olhos, que a vida não é linear. O sol derrete ou agasalha.

Essa aceitação pode ser serena ou dolorosa - tudo depende de quem aceita. Pra mim, evidentemente, foi dolorosa - eu miniatura da humanidade, que se descobre pequena quando se dá conta de que é ela que gira em torno do sol, não é ele que gira em torno dela; eu era pior, o diabo é arremedo de mim: eu supunha ser o sol, centro de toda a ciência e de todas as atenções. E demorei milhões de 35 anos para me dar conta de que, por mais que achasse que era o centro do universo, ainda havia umas tantas galáxias, de que eu era parte integrante, desimportante e anônima. É a dor que Daniel Groove e O Sonso registram em "O pedaço que vale de mim":


O Sonso - O Pedaço Que Vale De Mim (participação de Gerson Conrad) - no Studio SP from Dj Pardal on Vimeo.

Eu já tentei me afastar,
Me esconder, te aprisionar,
Mas no coração ninguém há de mandar.


Eu já fiz de tudo, chamei pra dançar,
Você virou tudo de pernas pro ar
E sem se importar


Com tudo que guardei pra ti
O pedaço que vale de mim.

A dor está em guardar o pedaço mais valioso de si próprio (não importa a quem esse pedaço tenha sido dedicado): pedaços valiosos têm de fluir, não podem ficar guardados. Se ficarem, estragarão, ou serão desperdiçados, ou perderão o interesse - e voltamos a "Como o sol": "Tudo que não me interessa agora / eu jogo fora". Quanto tempo eu perdi guardando supostos pedaços valiosos de mim - que nada mais eram do que restos e fragmentos de minha própria vaidade.

Este tempo é melhor do que a década de oitenta - digo a mim mesmo, fazendo uma curva na subida serra, mas em velocidade segura, porque não corro mais. Me dou conta de que o destino de ser sol o tempo todo, ao menos na perspectiva de quem é Terra, é um saco: o sol fica imóvel e brilha tanto que não pode observar o espetáculo da máquina do mundo que gira em torno de si. Lembra-me outro sujeito poético - um Carlos, por isso maldito - que só via pedras no caminho, céus de chumbo e formas pretas e que se negou a observar a Máquina do Mundo:

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho

O gauche ficou para trás: quero ver a claridade do que é real, aceitando os dias de sol ou de chuva. Faço o melhor que posso. Os Porcas Borboletas reafirmam tudo que já percebi: não vou pro céu, nem vou ser estrela. Nem nunca fui, por mais que tenha acreditado ingênua e egoistamente que tenha sido - nem que tenha sido uma estrela decadente em meia dúzia de salas de aula, representando um papel que decorei e que me coube bem. Mineiros me contam as verdades.



Este nosso tempo é mágico: acompanho de olhos atentos essa geração que diziam ser completamente alienada. Esses músicos todos - e muitos outros, que não couberam no espaço-tempo da viagem da praia a São Paulo - compuseram boa parte da vereda que eu tomei, meio em dúvida, sem que estivesse de mãos dadas com ninguém, mas disposto a encontrar os homens presentes, ou ao menos um belo horizonte.



Guimarães Rosa estragou boa parte da literatura brasileira tomando pra si o melhor fim de obra que já se escreveu no Brasil: Travessia. Mas Guimarães Rosa não é de minha geração e candidatou-se à Academia Brasileira de Letras - o que certamente depõe contra ele. No mais, Riobaldo, depois de tudo que viveu, ainda queria se convencer de que não havia diabo. Respondo-lhe: há diabo, e imaginar que ele vive nos escuros do homem é ainda pouco, perto do que eu vivi. Mas eu sou ainda um bom menino de classe média de São Paulo, comportado, privilegiado, egoísta ao extremo, que nem devia reclamar da vida - em mim, o diabo vive no corpo, na mente, no espírito. Riobaldo sequer se questionaria sobre a existência do inferno e do diabo se tivesse levado a vida que o Emicida levou:



Hoje fico olhando na espreita
Vendo os muleques aí com pai mãe do lado e nem respeita
Deviam ser por um dia o que eu sou a vinte anos
Pra vê se vocês iam ta na de trocar os coroa pelos mano
Não sei se dá tristeza ou ódio
Não conseguir lembrar de você sóbrio

Já na Marginal, Emicida me contou cruamente a claridade do que é real. Mas ainda acredito que outro mundo é possível - e faço o possível pra mudá-lo. Este tempo é espetacular porque nele ainda cabe, caso aceitemos que tudo se vai como o sol, a possibilidade de pensar alternativas concretas para o mundo presente. Drummond queria que fôssemos de mãos dadas, mas os Porcas sugerem que caminhar a dois só vai ser possível se for cada qual pelo seu próprio caminho. Mineiros que me confundem e sobem à cabeça. Não: não ficarei com Tom Jobim, Jerry Lewis e Macunaíma no Canal Ursa Maior:



Pés no chão: eu não vou pro céu, nem vou ser estrela. Fui ateu, mas hoje sei que existe alguém maior. E é a ele que me apego sem ninguém: a claridade do que é real talvez esteja em aceitar a solidão e o silêncio como condições inerentes à contemplação do ocaso.




 



   



terça-feira, 8 de novembro de 2011

Impresso no papel é mais gostoso


Vai sair um conto meu na coletânea do site Mundo Mundano. Por mais que eu ame escrever nesse site e neste blog, cuja finalidade primeira é despejar restos e fragmentos que foram ficando soltos por aí, nada se compara à sensação e ao gostinho de ter algo publicado, em papel, num livro. Por isso, espero por lá todos os que quiserem aparecer. É cedo, é bem localizado (pertinho da Paulista e do Metrô Consolação), o lugar é charmoso e o evento tem página no Facebook.   

domingo, 6 de novembro de 2011

Este palhaço



Receio que você diga no seu filme que o palhaço desapareceu. Não, Senhor Fellini, o palhaço não desapareceu: é que as pessoas não sabem mais rir. Mas o mundo ainda precisaria rir com o palhaço.  

Primeiro, a testa. Não sei por que sempre começo pela testa. Ela, que me conhecia bem, sempre dizia que dava pra perceber, mesmo na plateia, distante, quando, por trás da maquilagem, eu estava triste: era só olhar para minha testa franzida. Enquanto as crianças todas se divertiam, eu me roía em dores de cabeça, e meu senso de humor ficava mais ácido: as rasteiras que eu passava nos palhaços mais velhos ficavam mais violentas, os palhaços mais novos temiam trabalhar comigo. Eu era o filho do dono, o herdeiro, o palhaço promissor da modernidade, que renovara o circo em modelo de negócio.

No começo, entretanto, tudo era festa: eu era dos pouco palhaços que não nascera no próprio circo. Não era filho de trapezista com mulher-barbada: era só um órfão de pai, abandonado pela mãe, que ficara na roda dos enjeitados, mas que fora levado ao picadeiro por um palhaço bêbado, já velho - que me ensinou tudo. Brincávamos enquanto eu aprendia as técnicas, os detalhes, as mesuras que o fizeram famoso num mundo que já não existe mais. Os olhos, ele dizia, você tem de caprichar na pintura dos olhos, porque se estiver triste as crianças não podem perceber. Então escurece os olhos tanto quanto conseguir, porque cada criança que percebe um palhaço triste vira adulta na mesma hora. Elas entendem tudo: então escurece os olhos, Rudgero, para não deixar o mundo sem crianças, porque ele já é bastante feio assim.

E eu aceitava, e aprendia tudo: a cair sem me machucar; a andar como Chaplin, como se meu ritmo real fosse mais acelerado, em um filme mudo; a gargalhar com o corpo todo, fechando bem os olhos, fazendo as expressões exagerarem a sensação, combinarem com a máscara que eu usava: o nariz eu mesmo criei, foi essa a minha contribuição funesta para o mundo do circo; um nariz pontudo, que fazia algumas crianças chorarem. De início, não me importei: sempre havia alguns meninos e meninas que se apavoravam com a aparição súbita dos palhaços, mas aquele meu nariz tinha um efeito diferente: as crianças ou choravam, ou não riam, fascinadas, cegas pelo feitiço que o estranho nariz comprido causava. Tornou-se a minha marca registrada, hoje ganho royalties com a venda desse produto: é ele que me sustenta, não as aulas, nem o livro, nem o circo, que já não existe mais.

Não exagere na boca, dizia o meu pai - foi assim que chamei ao velho palhaço, no último dia de vida dele. Pai. Palhaço que fala demais perde a graça, ele me orientava. Mas pra mim era o que eu tinha de fazer: renovar o circo, que já começava a esvaziar-se, com um palhaço diferente, mais discursivo, menos pastelão. O palhaço quando fala muito fica sério demais, ele insistia. E estivemos juntos, no dia em que ele morreu, no número que ele mais apreciava: eu lhe tirava a cadeira, ele caía; ele me tirava a cadeira, eu caía, e assim por longos cinco minutos, entretendo cada vez menos crianças, os bichos domados escasseando por causa das associações de proteção dos animais. Não sei, me lembro pouco dessa época: a morte de meu pai me levou a herdar o circo todo, com todo o passivo trabalhista, as pressões pelos direitos dos animais, os pais politicamente corretos evitando levar os filhos ao circo, as crianças cada vez mais sérias, vendo cada vez menos graça nos números, falando alto com os palhaços, dizendo nomes feios a eles, hostilizando-os. Eu tinha apenas vinte e um anos.

Era preciso abrir o circo ao mundo, por mais que os mais velhos, amigos de meu pai, insistissem que tinha de haver o contrário. Eu abria o espetáculo com um discurso de cinco minutos, cheio de efeitos especiais, ameaças ao público infantil, apelando aos maiores medos das crianças modernas, os mesmos que eu tinha: aqueles que não estivessem atentos não ganhariam o brinde no final; o filho do domador de leões entrava em cena, aprisionado, implorando que alguém o libertasse do cativeiro, gritando pelos pais de forma tão convincente, que as crianças se calavam, apavoradas com a possibilidade de nunca mais voltarem para casa. Os pais adoravam, porque era um meio de as crianças se calarem. Pra obter mais efeito, contratei estudantes de engenharia para criar truques visuais que encantavam a platéia; no lugar da antiga banda marcial, usava um power trio instrumental, que dava a todos os espetáculos uma ambiência hardcore. Quando abandonei meu número, pra fazer apenas a abertura do espetáculo, já famoso como renovador do circo, vestia apenas o longo nariz e um terno sisudo - apenas a gravata de cor berrante me assemelhava a meus ancestrais. 

O sapato que uso agora é de marca, lustrado, comum, bem diferente dos sapatos longos, de bico arredondado cheio de bolinhas que meu pai usava. Os palhaços têm um bom tempo no meu espetáculo - exatamente dez minutos, mais de dez por cento de todo o show, que não pode passar de noventa, porque as crianças não aguentam mais do que isso, influenciadas pela duração dos desenhos de longa-metragem. Os atores usam o nariz comprido que patenteei, num número que explora o lado obscuro dos palhaços, à moda de Brinquedo Assassino; nenhum deles usa maquilagem nos olhos, pois as crianças já chegam adultas ao circo, desaprenderam a rir dos palhaços e de si mesmas, como eu também. Hoje leciono a disciplina "Empreendendo em Mercados Tradicionais: Tradição e Inovação" em escolas de administração de empresas, onde aproveito para vender minha autobiografia, que também rende um bom dinheiro.

Quando volto para casa, ainda guardo o hábito de lavar o rosto antes de dormir, como se tirasse a maquiagem, primeiro a testa, depois os olhos, então a boca; tenho a impressão de que a fantasia me pesa demais e dispo-me lento, sem deixar de me encarar no espelho, como fazia ao final dos espetáculos, quando meu pai ainda era vivo. Tiro os sapatos apertados, mas não me alivio: cada vez mais experimento a mesma dor de cabeça lacerante; engulo os analgésicos e deito-me sozinho: ela me abandonou porque perdi a capacidade de rirmos juntos, como fazíamos no começo.                

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Os ignavos: rejeitados pelo céu e pelo inferno

E ele: "As almas que vês nesse amargor,
são dos que têm no mundo - e ora deploram -
vivido sem infâmia e sem louvor.

Co' aqueles anjos vis agora moram
que a Deus não opuseram rebeldia
nem lhe foram fiéis, mas por si foram.

O céu exclui-os porque o aviltaria,
e o fundo inferno também os proscreve
que tê-los certa glória aos réus traria".

Dante Alighieri, A Divina Comédia: Inferno, Tradução de Italo Eugenio Mauro, Ed. 34. p.38.