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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O dia em que acordei vazio

Depois de uma noite de sonhos inquietantes, acordei transformado em pessoa adulta. Não que eu fosse responsável, nem que soubesse o sentido da vida - até então eu só pagara as minhas contas. Mas o tempo passa pra todos, posto que nem sempre desejemos olhar as próprias rugas, as cãs, os dentes gastos. Eu olhei. Fiz questão de anotar os sonhos, pois precisava partilhá-los com meus amigos; murmurei uma oração, porque é melhor tentar desenvolver alguma espiritualidade do que viver mergulhado no ceticismo e na negação absoluta; fui direto tomar banho, para começar o dia sentindo-me renovado; cuidei das plantas, cuidei dos animais; tomei um café, não pensei em fumar - os sonhos não me saíam da cabeça, como se fossem ressaca de mim mesmo, mas não posso vomitar-me. Foi aí que me dei conta: olhei-me no espelho, a barba feita, o cabelo limpo e bem cortado, os dentes escovados, nenhum traço de sono, ou de bebedeira; eu não cheirava mais a cigarro, nem a suor de dias sem me lavar; estava limpo - mas não como uma criança.

A sensação de que eu havia crescido era iminentemente física - as mãos pareceram-me desproporcionais para quem havia criado tão pouco com elas próprias; meus pés estavam marcados pelas veias e pela casca da sola. Subitamente me dei conta de que havia rodado demais a pé, a cidade toda, ainda que me viessem apenas em flashes os caminhos. As mãos, agora eu percebia, tinham calos em lugares específicos, que escondiam o trato das unhas bem cortadas. Disse a mim mesmo que estava recomposto - mas não podia em hipótese alguma dizer que era tão jovem quanto supunha.

De certa forma, eu me deformara, estive esmigalhado em pedaços, antes de me recompor. Dos mais próximos fiz questão de vencer - não importa em quê. Eu era mais inteligente, mais bonito, mais fiel, mais tradicional, mais revolucionário, mais polêmico, mais controverso, mais cruel, mais carinhoso. E fui ficando aos pedaços - a cabeça ficava retida no passado, as mãos e o sexo no presente, as pernas correndo pro futuro, o estômago empanturrado e imóvel, no presente contínuo da busca incessante do que é irrepetível. Eu lia uma página pensando em outra, experimentava o gosto de uma boca saboreando uma dose, eu pedia a ela que expirasse em meu nariz, para que eu pudesse abandonar-me na sensação inebriante de transforma-me na  cousa amada, por virtude do muito imaginar.

Eu escrevi páginas de romances, de projetos de país, de rapsódias populares, todas ao vento. Em ligações telefônicas madrugadamente apressadas eu retomei namoros, casamentos, divórcios, separações, empregos, amizades, ódios, poemas, trepadas homéricas e uns tragos do passado. As torres caíram, e eu não vi; meus amigos se casaram, e eu me esqueci da data e do presente; alguns familiares se foram, e eu perdi a hora do enterro. Acreditei piamente que vivia, em meu emprego, alguma narrativa hollywoodiana - e quando não havia peripécias cinematográficas, eu as criava para chamar a atenção ao público.

Mas hoje cedo, depois de uma noite de sonhos inquietantes, acordei transformado em pessoa adulta. Não porque houvesse contas a pagar: essas sempre houve, e sempre cumpri minhas obrigações financeiras. Perdi a feição de criança, acabou a brincadeira. Toquei meu rosto, e ele não me pareceu nada além do que é - real, concreto, envelhecido, completamente desesperançado; abri mais os olhos, depois fechei-os - traguei o cheiro da cidade, algo entre fumaça de óleo diesel e comida requentada de microondas, mas não me incomodei, porque tudo que era putrefacto estava fora de mim. Eu não sei o que meu corpo abriga nessas manhãs quentes de verão - talvez seja o vazio absoluto, o vazio completo, o buraco que sempre houve em mim, que me rói as entranhas e me faz desejar tudo ao meu redor e que me fazia destruir tudo que eu não pudesse alcançar.

Eu nunca pude acreditar que fosse tão vazio - principalmente depois de ter lido tanto, de ter corrido mundo, de ter amado antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto. Foi simples assim: nos sonhos inquietantes, eu sonhava que me havia esquecido; mas quando acordei percebi que me lembrava de tudo - e foi assim que me transformei em adulto, os olhos graves, o corpo todo atraído no vórtice do vazio que aceitei tacitamente, a dor constituinte do real, a despeito dos lampejos de felicidade.               

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Sortilégios de sedução (um trecho de Balzac)

Lucien, o pobre poeta, não sabia que nenhuma dessas inteligências, exceto a da Sra. de Bargeton, seria capaz de compreender a poesia. Todas aquelas pessoas, privadas de emoção, haviam acorrido enganadas quanto à natureza do espetáculo que as esperava. Há palavras que, semelhantes às trombetas, aos címbalos, ao bombo dos saltimbancos, atraem sempre o público. As palavras "beleza", "glória", "poesia" possuem sortilégios que seduzem mesmo os espíritos mais grosseiros. 

Honoré de Balzac. As Ilusões Perdidas. São Paulo: Círculo do Livro. p.97.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Da perfeição

O professor explicava que o tempo imperfeito, em sua definição, indicava ações contínuas - e alvoroçava cada vez mais os alunos, um exemplo sobre outro, todos empilhados no quadro, que já começava a ficar pequeno para abrigar as setas extensas que o mestre insistia em usar para indicar o prolongamento das ações no tempo. E o tempo é rei, ouçam Gilberto Gil, vocês conhecem o Gil? Mas, Professor, argumentou um dos jovens, mesmo a seta que o senhor desenhou no quadro é, ela própria, finita, começa ali ó, depois acaba - o que é imperfeito tem de ter continuidade, mas a seta acabou. Ardiloso, o professor explicou que o que estava no quadro eram apenas representações que...

São, portanto, imperfeitas, por isso não acabam - a representante da sala sotopôs as falas todas com esta, definitiva, imperativa, conclusão a que chegavam também seus colegas mais próximos, depois de ela mesma sugerir e anotar a frase pra usar depois, no jantar de casa, a fim de impressionar os pais, ou na redação do vestibular. O que era imperfeito tinha continuidade, por isso se perpetuava; o tempo perfeito era pontual, acabava logo - Num átimo, nem num segundo a gente experimenta a perfeição, porque logo ela se esvai, disse o menino melancólico, em sintaxe literária e artificial, os pensamentos suicidas brotando, quantas vezes os colegas não foram à diretoria avisar que ele mutilava a si mesmo com o lápis ou o estilete. Tudo passa nesta vida, ele repetia desconsolado, uma amiga punha-lhe a mão no ombro, como se dissesse a ele que se acostumasse.

Imperfeição é perpetuação, gente: é vida - frase solta, em volume exagerado, na conversa da turma dos maconheiros, os filosofantes, os descompromissados, os desavisados, mas autônomos - era a ressalva do próprio professor. Ninguém é perfeito, oh não, ninguém mesmo - disse o menino acanhado de tanta feiura, que ficava afogado nos livros e nas revistas de mulher pelada que obtinha secretamente com o faxineiro. E era uma forma de aceitar que ele mesmo era feio demais, além de ser também uma maneira de encontrar falhas em alguns dos colegas, especialmente nos de boas formas de rosto e de corpo - sua forma de vingar-se. Perfeição só na cabeça, no pensamento - mas não dura.

E se a gente construir um tempo perfeito durável? Mas não pode ser - o que é perfeito não dura, só o que é imperfeito se perpetua no tempo. Mas e se a gente inverter a definição, mudar as palavras, assim: é perfeito aquilo que tem continuidade; o que não tem continuidade é imperfeito. Mas aí a gente vai ter que mudar a cabeça das pessoas - assim se alternavam as vozes, o debate alongando-se para além do sinal, intervalo adentro. Ou a realidade - interveio o bruto do fundo, rude, mais velho, repetente, sem olhar os colegas, mexendo hábil e compulsivamente no celular. E ainda: o problema é que vocês não perceberam que o que é imperfeito pode ser bom, bonito e correto, porra, é simples, é só aceitar isso.

A turma aquiesceu. Mas o garoto esquecido de todos e de tudo declarou que, embora fosse verdade o que o bruto dissera, o grande barato era estender a conversa - isso é que era bonito! discutir o que é bonito nunca é demais, porque falar da beleza já é a beleza em si, não é? porque falar dela é fazer ela existir, é dar forma pra ela, é construir o bonito, não o perfeito, que não existe mesmo, senão num átimo de segundo - o menino disse assim, em sintaxe conveniente às conversas extensas que nunca acabam, nem mesmo quando passa da hora.        

domingo, 25 de dezembro de 2011

A menina e o maluco

Nestes poucos dias de férias, tenho divido o tempo entre cuidar das plantas e dos animais, ler bastante, sempre com alguma utilidade, mesmo que algo distante, para a vida acadêmica, dormir à larga e assistir ao House. Preparando um artigo sobre o Quincas Borba, tive de reler o livro de John Gledson, Machado de Assis: Ficção e História, e, ao fazê-lo, dei-me conta de que não havia lido a Casa Velha, de Machado. Foi desse romance esquecido da maturidade - assim o chama Gledson - que extraí o fragmento a seguir. Lalau é a mocinha do romance, única que se apieda de um escravo louco:

O sineiro era um preto velho e doido. Não fazia mais que tocar o sino da capela, para a missa, aos domingos. O resto do tempo vivia calado ou resmungando. Ninguém lhe falava, embora fosse manso. Lalau era a única, entre todos, parentes, agregados ou fâmulos, que ia conversar com ele, interrogá-lo, escutá-lo, pedir-lhe histórias. E ele contava-lhe histórias — muito compridas, sem sentido algumas, outras quase sem nexo, reminiscências vagas e embrulhadas, ou sugestões do delírio.

Era curioso vê-los. Lalau perdia a inquietação; ficava séria e tranqüila, durante dez, quinze, vinte minutos, a escutá-lo. O Gira (nunca lhe conheci outro nome) alegrava-se ao vê-la. Com a razão, perdera a convivência dos mais. Vivia entregue aos pensamentos solitários, mergulhado na inconsciência e na solidão. A moça representava aos olhos dele alguma coisa mais do que uma simples criatura, era a sociedade humana, e uma sombra de sombra da consciência antiga. Ela, que o sentia, dava-lhe essa curta emersão do abismo, e uma ou duas vezes por semana ia conversar com ele.

A imagem me doeu muito: conheci e conheço alguns Giras, cuja função é pouco mais ou menos que tocar o sino aos domingos. Mesmo eu não sei se presto pra muito mais que tocar meus sinos, duas ou três vezes por semana, em algumas sala de aula. Também minhas histórias, que pouquíssimas pessoas ouvem, são longas, sem sentido, quase sem nexo - mas nunca ultrapassam os dez minutos. Há mais duas diferenças entre mim e o Gira, além da curta duração de meus relatos: a primeira é que perdi a convivência com a maioria das pessoas exatamente depois de alcançar alguma razão, ainda que infundada em termos científicos - já não se pode dizer, portanto, que seja razão, mas apenas que está em mãos que não vejo e que não são as minhas; a segunda ficará ainda mais obscura do que a primeira: emergi também do abismo, mas sem moça que mediasse meu olhar e a sociedade humana. Esta, olhei-a com os olhos que estiveram anuviados a vida toda, mas finalmente esfreguei-os e vi a tragédia da humanidade, e a minha própria.

Foi então que resolvi cuidar só do que posso: de mim, sem vaidades; dos entes próximos, em especial de meu sobrinho, que acaba de ingressar no mundo; das plantas e dos animais, que nada tem que ver com as maldades dos homens. No mais, leio bastante, escrevo os impropérios que me cabem, durmo tanto quanto possível e cumpro as funções profissionais da melhor maneira que aprendi, sem prejuízo de meus alunos, de meus empregadores e de mim mesmo. O mais é ficar calado ou resmungando, entregue a pensamentos solitários, mergulhado na consciência mais crua e na solidão, em sugestões de realidade. Não atrapalho ninguém: já é alguma coisa.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Os planos de Ano-Novo, o espírito natalino e a lição de 2011

Natal e Ano-Novo sempre significaram e seguem significando muito pouco pra mim. Não disserto sobre a arbitrariedade da data escolhida como aquela que representa o nascimento de Cristo - todo mundo sabe disso. Nem escrevo que valeria mais as pessoas agirem segundo os ensinamentos de Cristo - em muitos aspectos, um verdadeiro socialista. Daí uma das tarefas de 2012: a leitura do livro Socialismo: uma utopia cristã, que está em preço bastante razoável no site da Revista Caros Amigos. Não sou mais católico - fui por um tempão da minha vida -, mas o assunto me interessa, especialmente num ano de eleição em que Gabriel Chalita será candidato à prefeitura de São Paulo. Voltarei a esse tema daqui a pouco.

Antes de Chalita, preciso reconhecer e aceitar que as pessoas que eu amo dão importância às datas de fim de ano. Tudo bem: um dos projetos de 2012 é aceitar as coisas que eu não posso modificar. Então respeito meus entes queridos e meus amigos mais próximos. Já houve natais aqui em que a família combinou de ninguém presentear ninguém, só pra combater o consumismo do período - outra obviedade que nem vale a pena registrar. Outra coisa: já aceitei que aqueles que têm crianças em casa são praticamente obrigados a levá-las ao Ibirapuera, para olhar a árvore anual imbecil, ou à Paulista, observar as luzinhas que enfeitam as agências bancárias, fixando logotipos de empresas financeiras nos inconscientes de seus filhos desde a mais tenra idade. A imagem abaixo deprime tanto que fala por si mesma:



Pois bem: uma de minhas tarefas em 2012, pra concluir em 2013, seria - mas provavelmente não será mais, o leitor já entenderá por quê - escrever a Gramática Provocativa da Língua Portuguesa, colecionando todas as contradições e besteiras que o gramáticos cometem, corpus de imbecilidades que colecionei ao longo dos últimos dezoito anos em sala de aula - dezoito anos! A verdade é que não mereço homenagens ou elogios, porque vivi do mercado da Gramática Normativa Tradicional, que tanto inspira preconceitos linguísticos que combati, na medida do que me foi possível, mostrando aos meus alunos as contradições da Gramática Normativa. Pra mim, dar aula de gramática é isso aqui ó, que já escrevi aqui.

Mas o mercado prescinde do meu texto: Marcos Bagno acaba de lançar no mercado a Gramática Pedagógica do Português Brasileiro, que lerei vorazmente e cujas ideias serão veiculadas rapidamente ao longo de 2012, fazendo que meus alunos, se quiserem, sejam ainda mais críticos em relação à Gramática Tradicional. O mais legal é o seguinte: para entender as contradições da Gramática Tradicional, é preciso conhecer-lhe e dominar-lhe o discurso. Conhecendo-o e dominando-o, meus alunos verificam que as provas de português da maioria dos concursos públicos e dos vestibulares, se se atrelam à Gramática Tradicional, são medíocres e facilmente solucionáveis. E segue aumentando a quantidade de pessoas que não levam a sério a Gramática Tradicional.

  
Cumprida essa missão - ler a gramática de Marcos Bagno e espalhar-lhe a sabedoria aos quatro ventos - tomarei para mim uma outra tarefa. A leitura integral das seguintes obras de Gabriel Chalita: Educação: A solução está no afeto; Pedagogia do Amor; e Os dez mandamentos da ética. O plano é o seguinte: transformar este blog numa Usina de Motivos para não Votar em Gabriel Chalita - que precisa ser ativada urgentemente. Chalita é a cara nova do que existe de mais conservador na política brasileira. E o mais legal vai ser fazer o contraponto a ele sem citar a vida dele: não cairei na campanha rasa do ataque pessoal.

No mundo que quero ajudar a construir, as crianças observam a decoração de Natal da Paulista e a desprezam veementemente - cientes de que a contemplação daquela parafernália nada mais é do que a alienação completa e o fetichismo da mercadoria. Igualmente, os jovens e adultos admitem diferenças linguísticas e utilizam a gramática normativa apenas nas situações em que ela é necessária.

Alguns dirão que esse mundo jamais existirá e que a lógica das mercadorias já venceu faz tempo. Tenho de discordar: enquanto muitas pessoas acotovelam-se em shopping centers, neste exato momento, cá estou eu escrevendo este texto e lendo outros, para atuar, na medida do que me é possível, junto às pessoas em nome de uma vida para além da lógica das mercadorias: meus poucos alunos e meus poucos leitores me ouvirão ou me lerão, e poderão, se quiserem, partilhar as informações que veiculo aqui e em outros espaços, alguns mais, outros menos acadêmicos. Esse é o meu espírito natalino: contribuir, tanto quanto posso, para que conheçamos o mundo em que vivemos, sem nos encantar com as falsas consciências; de posse da consciência, estamos prontos para atuar, em nossas próprias vidas, contra a lógica da mercadoria, que nos reifica a vida.

Outro mundo é possível: a grande lição de 2011.   



quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

"Não éramos tão assim", Pélico

Não éramos nada tão assim: só éramos e somos normais. O que resta é ir em paz.



Não éramos tão perfeitos assim
Não éramos tão tolerantes assim
Não éramos tão à flor da pele assim
Não éramos tão liberais assim

Não éramos tão cintilantes assim
Não éramos tão voluveis assim
Não éramos tão o tempo todo assim
Não éramos tão fiéis assim

Mas se você não me quer mais
Eu vou em paz
Já que você não me quer mais
Eu vou em paz

Não éramos tão seguros assim
Não éramos tão poéticos assim
Não éramos tão geniais assim
Não éramos tão perigosos assim

Mas se você não me quer mais
Eu vou em paz
Já que você não me quer mais
Eu vou em paz

domingo, 11 de dezembro de 2011

"Todo amor que houver nesta vida", com Mariana Volker


Mariana Volker é dos maiores talentos da nova geração.



"E algum remédio que me dê alegria" é verso que basta para explicar por que esta canção vai neste post, além, é claro, do talento de Mariana Volker.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Carlos

Carlos é de origem germânica e significa de modo geral "homem": alto-alemão antigo charal, charl, karal; alemão moderno Karl, nome próprio. Formas paralelas: alemão moderno Kerl "homem do povo", "criado", etc., inglês churl "aldeão". [...]

A palavra "Carlos" teve grande importância na idade média por causa de Carlos Magno (séc. VIII-IX), - em alemão Karl der Grosse. Latinização medieval: Cárolus, Kárulus, Karlus. A palavra passou para o eslavo no sentido de "rei" (russo korólh ou karólh). [...]

Em Portugal, encontra-se já no Cancioneiro de Resende, e em vários docc. do século XVI, num e noutro caso aplicada a gente nobre. [...]

J. Leite de Vasconcellos. Lições de Filologia Portuguesa. Ed. Livros de Portugal - Rio de Janeiro. Coleção Brasileira de Filologia Portuguesa. 1959. p.387-388.




Restos no Tumblr

Para coroar o insucesso, a falta de posts e de acessos destes Restos, o autor fez o impossível: criou mais um blog, ou míni-blog, ou Tumblr, ou o que quer que seja, que eu de nomes não curo: http://profrogerioduarte.tumblr.com/


Rudgero Barata, segundo Dinâmica de Bruto

Bruno Maron, no blog Dinâmica de Bruto, desvendou a farsa: este retratado a seguir é Rudgero Barata


"Resoluções caóticas de fim de ano", em Dinâmica de Bruto

Dei tanta, mas tanta risada, que resolvi postar aqui, em vez de simplesmente compartilhar no Facebook. A fonte original é esta aqui - que já vai pra lista dos blogs preferidos, sem medo. Atenção especial às piadas sobre o rock progressivo, o pau pequeno e o orgulho ósseo.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Progressistas e reacionários: como a Volver incomodou o senso-comum

Abaixo, fragmento do meu texto que foi publicado no site da banda Volver, a propósito da canção "Mangue Beatle", que também pode ser ouvida a seguir.

Mangue Beatle - VOLVER by volver-brasil

Parece que a experiência brasileira tem dessas: todas as propostas progressistas de renovação acabam assimiladas pelas mais arcaicas, de conservação, em todos os planos, especialmente no da cultura. Cazuza dizia que via “o futuro repetir o passado” e que via “um museu de grandes novidades”. A banda baiana Camisa de Vênus relatou, na canção “Passamos por isso”, que os produtores de uma gravadora tentaram convencer os integrantes a mudar o nome do conjunto porque era preciso “conservar as raízes” e porque o nome Camisa de Vênus era “alienação”. O poeta Paulo Martins, narrador agonizante de Terra em Transe, obra-prima de Glauber Rocha, dizia em versos que “Ao passo que vamos, recuamos”. Em A Hora da Estrela, de Clarice Lispector – outra artista radicada em Recife, também ela alvo de ataques por não ter produzido “obra engajada” –, o narrador Rodrigo SM, apesar de assumir o “direito ao grito”, sabe que sua obra é escrita “sob o patrocínio do refrigerante mais popular do mundo” e que nem por isso lhe paga nada. Em suma: parece que, sendo brasileiros, experimentamos, em todas as instâncias, a sensação de que os maiores avanços são também os maiores recuos (nossa história está cheia de episódios assim), e que ficamos de mãos atadas quando queremos, de fato, avançar.

É rigorosamente essa a experiência registrada em “Mangue Beatle”, da Volver.

Acho que, com esse texto, me meti em uma briga de gente grande. Aguardemos as reações - que talvez não ocorram. Sabe-se lá: aqui é o Brasil, terra onde aquilo que não há, acontece, pra tomar palavras a Guimarães Rosa.

A versão do texto disponível no site da Volver é curta; vou publicar, nos próximos dias, a versão estendida do texto, no blog da Identidade Musical.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

"O menino", Pélico

Pélico compôs uma canção que eu gostaria de ter composto.



O menino fugiu, se perdeu nessas ruas que sabia de cor
As palavras ardiam, soavam mais duras do que seu pai lhe ensinou

Adiante sujou suas mãos, mas o Senhor lhe perdoou
Afinal, a inocência é um pequeno barco que nunca mais volta pro cais

E mais tarde foi parar entre as pernas de um amor casual
E entendeu que a paixão são fragmentos de amores num velho colchão

E um dia…

Conheceu bons amigos leais que o ensinaram a mentir
E da mentira aprendeu, que só se rouba uma história se for pra cantar

E chorou com as belas canções de anônimos, poetas de bar
E sorriu sem saber onde nascem os dias que ainda estão por vir

E por fim, concluiu: Não se atravessa uma vida sem magoar alguém