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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O diabo no Largo da Carioca

Passei a tarde lendo as Viagens na Minha Terra, do Almeida Garret, no Real Gabinete Português de Leitura. Gosto de ler por lá os livros que eu sei que Machado de Assis lia por lá. Bibliotecas, sobretudo bibliotecas como aquela, devem ser habitadas de seres imortais, que passaram por ali ou que foram invocados pelos que leram ali. Poucos espaços são habitados do poder de uma biblioteca: ali há ambiências de sátiros, trágicos, finos ironistas, comediantes, cientistas, minuciosos, especialistas em nada e generalistas em tudo. No final, depois da leitura, não saí de lá nem com saldo nem com défice: saí em equilíbrio e em paz.

No caminho para o trabalho, onde vou lecionar, tenho de passar pelo Largo da Carioca - este Liso, desta cidade: uma montanha de lixo acumulado, monturo do bloco de rua de ontem, rodopia em redemoinho no centro do Largo. O calor é terrível: não há sol, o dia é até escuro, mas os termômetros marcam mais de trinta graus. Mendigos, pedintes, miseráveis, esfomeados, viciados imploram por um trocado; numa banca de jornais uma caixa de som grita o último hit do verão. Turistas estrangeiros, fantasiados de andrajos da festa de ontem, os olhos trincados de bebida e sabe-se lá mais o quê, fazem trenzinho, cantando. Um pastor fala ao microfone, os olhos fixos em mim: Essas frases que você diz e canta no seu idioma são mentiras, elas criam o próprio inferno, porque elas são mentira.

Eu aceno com a cabeça, em sinal de não. Quero dizer ao pastor que não minto mais, há um bom tempo. Eu vivo em honestidade, não posso dizer que plena, porque não sou santo, mas em honestidade, certamente. Ele insiste: Você vive no inferno, porque você é mentiroso, a sua língua é a sua mentira, e o diabo é mentiroso: o diabo é o Pai de Toda Mentira.

Eu sorrio, agora. Eu já estive no inferno - foi-me dada a chance de descer aos infernos e voltar, como fizeram alguns heróis da Antiguidade, além do próprio Dante. Irrita-me o pastor: eu sei exatamente como é o inferno, conheço bem a mentira, sei bem que  mentiras aprisionaram, e conheço bem o diabo: olhei-o nos olhos, um dia, desafiando-o, e menti uma vez mais, dizendo-me que não mentiria novamente. Você vai ser sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa - disse-me ele, elegante, do outro lado do espelho. Tive de admitir a derrota, tive de saber-me reflexo: o pastor não disse nada sobre espelhos. Sorrio mais: o diabo vive nos recônditos de mim, eu carrego o mal em mim. Mas não minto mais. Ele grita, para que o Largo da Carioca todo possa ouvi-lo, para que o Rio de Janeiro saiba, para que a voz ecoe até São Paulo, para todos saberem que ele me reprochava: Essas coisas que você diz são mentiras, você é o próprio diabo, o Pai de Toda Mentira!

Não mais, eu respondo. Afasto-me pausadamente, sem pressa. Ficam para trás a barulheira, os implorantes, os estrangeiros, a música infernal e o fanático que via em mim tudo que eu fui, não o que sou. Entro na Senador Dantas, avanço até a Evaristo da Veiga, a partir da qual posso observar o Teatro Municipal, já na Cinelândia: Goethe tem o nome encastoado ali, as artes me olham todas - especialmente o cinema -, suspeitando acertadas: eu não me deixo mais levar pelas musas. Estou em viagem à roda de minha própria terra, à roda de mim: ao fundo do Teatro, um lampejo súbito deixa ver os escombros de três prédios desabados: ouço ali gritarem outras vozes já partidas, diferentes das que ouvi na biblioteca. O sol cava espaço entre as nuvens, a temperatura aumenta, a barulheira é igual à do Largo da Carioca, voltam a ecoar por toda a parte, ainda mais fortes, as maldições do pastor.

Mas intensificou-se, também, a claridade do que é real - a luz do sol acotovelou-se, entre as nuvens, por mais que estas se avolumem. Aceito: no espelho, já no banheiro do trabalho, quem me fala sou eu próprio, os traços honestos de ainda-nem-menino - mas cheio de coragem. O senhor me perdoe: antes eu não sabia amar.                  

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