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sábado, 28 de janeiro de 2012

O horror do mundo sou eu (ou muitos "de-vez-em-quando" compõem um "sempre")

Eu realmente gosto das manhãs de sábado em que posso ler notícias sem pressa. Mas não as leio nos jornalões - que abandonei faz tempo, já contei aqui. Vou blog a blog, página a página da internet, com pouca ou nenhuma folha de papel (hoje só assino a Caros Amigos e o Valor Econômico). Contar com o mundo digital e com fontes alternativas de informação é uma experiência maravilhosa, sobretudo para quem gosta mesmo de ler, como eu.

Mas a cada dia, aprendo que nem todo mundo quer ler. Durante muito tempo, julguei mal essas pessoas: eu acreditava que a única via para o esclarecimento era a aquisição de conhecimento teórico (na minha opinião, apenas o de teor materialista dialético e histórico) por meio da leitura, que levaria à prática, necessariamente carregada de engajamento político, em todas as atividades da vida. Pena: por mais que eu ainda acredite que esse procedimento é fundamental, não posso mais acreditar que ele seja a única via para o esclarecimento e o engajamento, por muitos motivos.

O primeiro deles é bem simples: há outras formas de adquirir conhecimento. Até onde posso observar, sem ser especialista, muito da sabedoria oriental tem por base o conhecimento difundido oralmente, da forma mais simples possível, por meio de alegorias e parábolas, para alcançar as abstrações. Mas atenção: a prática, no caso do conhecimento oriental, é parte da teoria, de modo complementar. Escrevo isso para evitar a facilidade com que lemos A Arte da Felicidade e não praticamos nas nossas vidas os ensinamentos que ali estão. Assim, concluo que cada pessoa assimilará o conhecimento profundo de diferentes maneiras - mas que este nosso tempo e a lógica de mercado em que vivemos se apropriam de discursos de longo alcance e os transformam em produto-mercadoria.

Além disso, me parece que o desenvolvimento de alguma espiritualidade também é um caminho para a aquisição de conhecimento. Não faço apologia de nenhuma instituição religiosa, claro esteja: só acredito que, do século XIX pra cá, especialmente, acentuou-se a desarmonia corpo-mente-espírito; que não estamos integrados à natureza - ao contrário, nós a dizimamos; e que damos atenção exagerada aos processos mentais, quando parece óbvio que eles, para funcionar adequadamente, precisam integrar-se aos processos espirituais e físicos. Corremos de esteira em esteira, de igreja em igreja, mas não nos damos conta de que precisamos dar início a um processo que parta de dentro pra fora.

Volto ao início do texto: gosto de adquirir na internet informações alternativas às veiculadas pela grande imprensa. Mas quem me dá algum norte e gume analítico não são as leituras que faço na web, mas nos livros de cabeceira, aqueles que me fundamentaram a leitura do mundo: por exemplo, o Manifesto Comunista, de Marx e Engels, e "As ideias fora do lugar", de Schwarz. Só a leitura desses textos, entretanto, não serve pra nada, se eu próprio não me tornar agente de minha própria história, investigando-me no que tenho de pior, em termos pessoais, e nas ações aparentemente inofensivas que podem, no plano concreto da realidade, propagar práticas que, em última análise, prejudicam as pessoas e o mundo.

Um exemplo concreto, de coisas pequenas do trânsito: todos nós aceleramos no amarelo, fazemos conversões proibidas, paramos em cima da faixa de pedestres, não damos preferência a eles. Mas todos reclamamos, por exemplo, dos motoqueiros ou taxistas, que parecem cometer mais infrações do que o infrator comum. Pior: usamos o argumento de que "todo mundo faz errado" para fazermos também "mas só de vez em quando". Aí fodeu: o trânsito vai continuar violento mesmo, porque muitos "de-vez-em-quando" compõem um "sempre".

Escrevo isso para falar sobre mim, não para cagar regra na cabeça dos outros, nem para passar sermão via internet - por sorte, sou pouco lido, e muitos dos poucos me leem não terão paciência de chegar a este ponto do texto. Acontece que hoje celebro uma data pessoal que me ensinou, entre outras coisas, o seguinte: o trânsito violento sou eu. Eu é que faço o trânsito violento, dando-me certos descontos ("vou entrar na contramão só por cem metros", "vou parar em fila dupla só por dois minutinhos", "vou entrar com recurso contra uma multa que mereço só pra ver no que dá", "vou falar com meu tio que trabalha na prefeitura só pra ver se ele dá um jeito"). Eu é que faço a realidade ser a merda que ela é. O horror do mundo sou eu.

A mediação - entre, de um lado, o conhecimento adquirido por meio dos livros e da minha formação claramente marxista e, de outro, a ação concreta na realidade - parece estar na autoinvestigação (preferi essa palavra em vez de autoajuda, porque esta já tem cheiro de produto-mercadoria) que teve de passar, ao menos na minha experiência pessoal, pela espiritualidade. Não relato nada sobre isso - minha vida pessoal diz respeito exclusivamente a mim. Mas assevero que agora só acredito que outro mundo é possível (afirmação que não canso de repetir por aqui) por meio da alteração (mental e espiritual) do sujeito. Talvez só paremos de destruir a natureza e de desrespeitar os animais quando nosso modelo de felicidade estiver desligado do consumo desenfreado; talvez haja mais diálogo e menos violência se o modelo de felicidade estiver desligado da propriedade.

A internet é claramente um meio pelo qual se podem difundir, com maior alcance, novos modelos de felicidade. Mas é, ao mesmo tempo, um meio de fetichizar a suposta participação política (roubei do Walter Benjamin essa ideia, é claro). Em palavras bem simples: cada protesto no Facebook, cada "causa" nele criada, cada boicote ao BBB, à Globo, ou ao que quer que seja, pode nos dar a sensação de que atuamos concretamente na realidade, quando, de fato, estamos apenas atuando virtualmente - sem alterar nada no plano concreto. É fácil curtir uma causa, difícil é vivê-la, sem dar as mesmas desculpas e descontos que nos damos no trânsito; é fácil ser contra a exploração da mão de obra asiática, difícil é desligar-se dos hábitos de consumo que alimentam a roda da exploração; é fácil apregoar o uso da bicicleta nas cidades e o fim do consumo de carne animal no mundo, difícil (e chato, chamam-me sempre de chato e radical) é articular essas causas à lógica de mercado como um todo: e aí nos damos conta de que mesmo essas causas supostamente nobres respondem aos interesses de novas indústrias que perpetuam o modelo de felicidade associado ao consumo; é fácil escrever num blog que é preciso praticar a teoria, difícil mesmo é praticá-la no cotidiano.

Não concluo nada. Quando olho o mundo que consigo alcançar, tenho a percepção de que não falta força de vontade a mim e às pessoas, falta-nos a todos boa vontade para nos investigarmos integralmente, com honestidade. Deixamos de lado essa investigação, claro, porque ela é doída e nos mostra partes de nós que, evidentemente, não queremos ver - quem é que gosta de sacar que é parcialmente responsável pela tragédia que é o mundo atual? (Somos todos, disso não tenho dúvida). Quem é que gosta de sacar que é o horror do mundo e de si mesmo?

Mas o furacão que foi 2011 e a bomba que tem sido 2012 sinalizaram-me que o caminho talvez esteja, repito, na autoinvestigação, de modo a obter a percepção clara de mim mesmo, dos que me cercam e do mundo - este também lido na chave das leituras que desencantam o mundo, perscrutando os meandros e os procedimentos das ideologias (no sentido marxista, é evidente), alcançando os recônditos do sujeito - para que eu possa perceber-me ainda mais, para que possa (ou, pelo menos, tenteagir no sentido da democratização ("Se o socialismo fosse definível, seria definido como democracia sem fim", escreve o Boaventura de Sousa Santos) e da desmercadorização do mundo.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Dias de viração

Tem faltado tempo para escrever: trabalho demais, problemas pessoais de toda ordem, além dos distúrbios de sempre. Nas últimas semanas, aprendi tantas coisas a respeito de mim que seria impossível enumerá-las aqui. Fica de forma sucinta: aprendi que todas as escolhas que fiz, mesmo as que fiz supostamente cedo demais, foram rigorosamente acertadas. Não porque tenham sido sempre boas, mas porque foram escolhas, efetivamente, por mais que algumas tenham me levado a erros algumas vezes quase desastrosos (pelo menos uns dois ou três foram de fato desastrosos). Nunca me faltou coragem pra voltar atrás, o rabo entre as pernas, nem pra seguir adiante, as mãos suadas de medo.

Nunca esperei muito "aquela" oportunidade, nem nunca me liguei muito - salvo num período de insanidade - em coisas como carrão, status, emprego na multinacional, viagens internacionais pra dizer que as fiz, compras no free shop, essa bobageira toda. Bastam-me a minha pesquisa, uns bons livros, discos, filmes e aulas que estarei muito bem. As vaidades dão trabalho demais, esvaziam a gente, confundem a cabeça. Melhor mesmo é gostar de alguém e das coisas que fazem bem ao corpo e ao espírito. Está mais que bom, tenho chegado a essa conclusão.

Também descobri que gosto de ser útil nas horas em que a maioria das pessoas se apavora. Gosto, por exemplo, de dormir em hospitais, velando o sono dos que amo, quando estão doentes: porque gosto de servi-los e porque eu mesmo nunca dormi muito bem, salvo quando posso me abrigar entre uns cabelos que não descrevo aqui, porque esses são meu segredo. Salvo quando mergulho nesses cabelos, ou no colo da mesma dona desses cabelos, meu sono é mesmo atormentado, mesmo que tenha melhorado muito: os recônditos, eu os tenho revoltos demais. Melhor então é cansar bastante, cuidando dos outros, que isso me faz bem e me ajuda a dormir melhor as poucas horas que me sobram.

Oura coisa: é bom ficar um pouco mais velho, ou adulto, ou sei lá o quê, que eu de nomes maduros não curo: a gente percebe que tinha umas intuições acertadas quando era moleque, e acaba por confirmá-las, por mais que todos dissessem que elas não faziam sentido. Se tiver um pouco de humildade, faz uns acertos, percebe que algumas coisas são insolúveis e as aceita até que quase se apaguem, salvo em alguns dias.

Eu também tenho os dias. Mas ficando mais velho, aceitando as sugestões dos companheiros (que estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças), a gente descobre que mesmo os dias de viração passam, como tudo.



You always won everytime you placed a bet
You're still damn good
No one's gotten to you yet
Everytime they were sure they had you caught
You were quicker than they thought
You'd just turn your back and walk


You always said
The cards would never do you wrong
The trick you said
Was never play the game too long
A gambler's share
The only risk that you would take
The only loss you could forsake
The only bluff you couldn't fake


And you're still the same
I caught up with you yesterday
Moving game to game
No one standing in your way
Turning on the charm
Long enough to get you by
You're still the same
You still aim high


There you stood
Everybody watched you play
I just turned and walked away
I had nothing left to say
'Cause you're still the same
You're still the same
Moving game to game
Some things never change
You're still the same

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O que vai dentro de mim

ninguém quer saber. E fazem bem aqueles que veem em mim algo de confuso e deixam de lado. Não é bonito nem inspirador o que vai dentro de mim.

Já me disseram que não sou o que vai dentro de mim, mas que sou exatamente tudo que faço para interromper que venha à tona tudo isto que não sei bem o que é - eu diria que é um estar gravemente perdido, a cabeça confusa em devaneios, na impossibilidade de discriminar o real do fantasmático. Isso é certo: há fantasmas de mim mesmo que vão em mim - os medos recônditos, hoje sei que são todos eles os anjos de sombra que obscurecem-me a visão. Não há lucidez que vá em mim, salvo em alguns momentos, uns poucos, que prolongo tanto quanto possível.

Demorei 35 anos pra aprender que, quando estou no estado em que estou hoje - em que o que vai dentro de mim emerge sem controle -, tenho de manter as pessoas queridas bem distantes, para protegê-las ao máximo da capacidade que eu tenho de destruir tudo. Ao menos agora eu sei como é quando fico assim, como faço pra me calar e como sair de cena sem magoar ninguém. 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Como nascem os palhaços

Quando nasci, o anjo da sombra me predestinou a levar a escuridão comigo. E assim sempre foi: quando meus pais brigavam, meu irmão mais velho me protegia, não me deixava olhar o que nosso pai fazia com mamãe. Nosso pai, esse, nunca foi homem cumpridor, ordeiro, positivo: era o próprio demônio, talvez fosse ele o anjo da sombra que me predestinara a carregar o mal comigo. Meu irmão, esse sim, era menino de luz. Já falei: ele cuidava de mim, me levava pra escola cantando, a mão dada na minha quando atravessávamos a rua num bairro distante de classe média baixa. Mas não importava: ele transformava o barro das ruas em festa, pulava as poças, transformava as dificuldades em jogos que eu-menino gostava de jogar. Esse meu irmão: o anjo de luz que na escola me tirava das enrascadas em que eu me metia, me salvava dos garotos maiores que queriam me bater. Meu irmão sangrava por mim, de modo que fui pegando gosto em vê-lo sofrer pela família. Era um gosto duvidoso, de criança-demônio já botando corpo. E ele não se importava, e me dizia que eu era bom menino, por isso cuidava de mim. Era pra eu estudar, ler os livros, fazer as tarefas, participar do teatrinho da escola - eu tinha talento, ele dizia, eu seria ator de cinema, seria um herói que não deixaria as crianças serem maltratadas, cuidaria de todas elas, pra nenhuma nunca mais sofrer.

Eu aceitei essa predestinação - e já maior fiz o papel de que meu irmão se orgulhou muito. Me lembro como se fosse hoje mesmo: eu tinha treze anos, ele dezessete, estava pra acabar a escola, e planejava com minha mãe irmos os três embora, sonho nosso, pra casa de minha tia, pra longe de meu pai. Tínhamos aguentado pancada a vida toda, mas meu irmão tinha contido meu pai à força na última briga. Não lhe havia dado um soco sequer - havia apenas segurado o velho, já consumido de tanta maldade e cachaça. O brabo tinha dormido embriagado no sofá e acordara na ressaca, logo cedo, com meu irmão dizendo que naquela noite eu representaria o Carlitos no teatro da escola. O homem acedeu com a tosse gutural dos bêbados amanhecidos sem o repouso, no intervalo dos pesadelos que eles vivem quando dormem - eu bem sei.

Já à noite, da coxia, eu podia ver minha família na plateia: meu irmão era mesmo o rei do público, bem-quisto de amigos e das meninas, todas o cercavam, que era um gosto quase nauseante de ver os brilhos dele - eu tinha essa inveja da felicidade alheia. Minha imobilidade, minha dependência de meu irmão. Minhã mãe, os olhos brancos de remédio e de suportar as brutalidades do pai de seus filhos; meu pai, os olhos de fogo - era certo que ele já tinha bebido, eu sabia quando. Meu irmão já o advertira que não estragasse o espetáculo, era claro, o homem olhava pra baixo.

E pra roubar a cena, eu emprestei ao Carlitos os meus trejeitos todos, deficientes da personagem que não mais existe. Os olhos maquilados ganharam uma expressão mórbida, de palhaço de filme de terror; ao figurino roto dei certas cores cujo todo ganhava um ar autoirônico e autodestrutivo; a bengala ganhou traços realistas, e passou de objeto de humor a ponto de apoio de um aleijão sarcástico - não havia mais finalidade de graça naquela personagem, que gozava os horrores e as deformidades, as fraquezas e os crespos do homem. O público aprovou-me a encenação num estranho frêmito, entre o aplauso e o horror, como se pais e filhos ali presentes subvertessem por meio de mim os preceitos clássicos do teatrinho de escola. Ali era lugar e hora de surgir tal criatura viciosa?

Em casa, meu pai comemorava a atuação do filho com Bravos! e Vivas! e mais um gole, que deu a meu irmão também, chamando-o maior de idade, já adulto, o bigode e a barba grossa tomado-lhe a cara. E nem percebemos o sonho ruim que voltaria a nos tomar a vida real: antes de meu irmão poder notar o ardil de que era vítima, meu pai deu-lhe à cabeça com a bengala que eu usara na peça, uma duas três vezes, o sangue escorria à larga. Chamou-o ironicamente de homem de araque, ah! moleque de merda, enquanto o amarrava, agora é que vai ver o que é ser homem, e meu pai feriu minha mãe com a faca, abriu-lhe o talho no rosto, depois estripou-a, o ventre todo em aberto, o útero seco jazia a um canto - e o velho sorria, olhando-me, como se esperasse que eu o contivesse, mas não pude fazer nada. Meu irmão teve os extremos da boca cortados até à orelha, para que sorrisse, disse meu pai, veja seu irmão mais novo como sorri enquanto lhe faço sorrir, moleque fujão filho-da-grande-puta que já está aqui morta, aonde vão, hein? aonde vão? Mas eu juro que não sorria, tinha era horror àquele espetáculo que me imobilizava.

Quando nasci, o anjo da sombra me predestinou a levar a escuridão comigo. E assim sempre foi: meu pai foragiu-se, até hoje não mais o encontraram, deve ter-se perdido nalguma outra cidade, não há justiça em bairros como o nosso. Enterrei minha mãe sozinho, porque meu irmão ainda se recuperava dos cortes que sofrera por minha causa - eu deveria tê-lo ajudado, deveria ter enfrentado meu pai. Meu falimento: a culpa da internação psiquiátrica de meu irmão é toda minha. Vi-o apenas duas vezes, uma no ambulatório, o rosto repleto de costuras, ele apenas balbuciava; na outra, já atormentado, para meu terror, meu irmão vestia do figurino que usei na peça, colorido, a maquilagem sombria, a expressão perdida, as frases desconexas de tempo ou espaço, sem saber a quem volver o ódio, e o medo, e a confusão completa. Perguntou-me por que eu tinha a expressão tão séria, chamando a si próprio palhaço, que fazia sorrir em qualquer situação. Deixei-o pra trás, nunca mais o vi, apavorado de ter suprimido a meu irmão todo o brilho que ele tinha. Minha tia abrigou-me e investiu em minha formação teatral, por meio da qual venho tentando fugir à predestinação maldita, à semelhança que todos dizem que tenho com meu pai. Mantive-me longe da bebida e das drogas e hoje ganho a vida como comediante num programa de sábado à noite na tv, levando aos lares a alegria que nunca pude ter no meu.




Even now
the world is bleedin'
but feelin' just fine
all alone in our castles
where we're always free to choose
never free enough to find
I wish somethin' would break
cuz we're runnin' out of time

and I am overcome (yeah)
I am overcome
holy water in my lungs
I am overcome

these women in the street pullin' out their hair
my master's in the yard
givin' light to the unaware
this plastic little place
is just a step amongst the stairs

and I am overcome (yeah)
I am overcome (baby)
holy water in my lungs (yeah)
I am overcome

so drive me out
out to that open field
turn the ignition off
and spin around
your help is here
but I'm parked in this open space
blockin' the gates of love

and I am overcome (yeah)
I am overcome (baby)
holy water in my lungs (yeah)
I am overcome (yeah, yeah)

I am overcome (oh Lord)
I am overcome (baby)
holy water in my lungs (holy water, holy water)
I am overcome

beautiful drowning
this beautiful drowning
this holy water
this holy water is in my lungs

and I am overcome
I am overcome (yeah, yeah)
I... I... I am overcome
I am overcome

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Um sonho, minha hora e minha vez

Registro aqui o sonho que tive, menos inquietante do que provocativo: eu debatia, na sala dos professores do colégio em que estudei, com um padre e com meu pai, um trecho da postagem anterior, sobre a existência de deus. Eu defendia, no texto e no sonho, que não interessa discutir a existência de deus - na exata medida em que não se pode prová-la. O que é possível, defendia eu no sonho, no post anterior e já neste, novamente, é experimentar que a transcendência existe, sem que seja possível provar materialmente essa existência. Marx dizia que o homem é que fazia a religião e, conseguintemente, deus. Sou obrigado a discordar de meu grande mestre, nesse aspecto - porque posso sentir a existência do transcendente, embora não possa demonstrá-la material e concretamente. 


Por mim, tudo bem, dizia eu a meu pai e ao padre, que me ouviam atentamente. Ajo no dia de hoje, no que ele me apresenta - sem pedir nada mais, sem me lamentar por o que quer que haja faltado. A falta completa de esperança carrega em seu próprio seio a libertação. Fui aprendendo essa liberdade aos poucos, com alguma leitura, alguma boa vontade, ouvindo algumas pessoas. Ajo por amor, na maior parte das vezes. O que me interessa são as pessoas, não os lugares, cansei de dizer. No limiar entre o sono e a consciência, na passagem entre esses dois estágios, veio-me um fragmento de "A hora e a vez de Augusto Matraga", de Guimarães Rosa, e sua respetiva interpretação, que sempre fiquei devendo aos meus alunos quando falei a respeito desse conto:

E aí, quando tudo esteve a ponto, abrasaram o ferro com a marca do gado do Major - que  soía ser um triângulo inscrito numa circunferência -, e imprimiram-na, com chiado, chamusco e fumaça, na polpa glútea direita de Nhô Augusto. Mas recuaram todos, num susto, porque Nhô Augusto viveu-se, com um berro e um salto, medonhos.

Sonhar um sonho provocativo é bom - interpretá-lo antes de acordar talvez seja caso de doideira, bom pra debater em terapia: tratava-se já de um sonho inquietante. Mas quando acordei não me vi transformado em barata. Descobri que Nhô Augusto é como eu - carrega em si o mal, que abandona, marcado feito gado. Sempre me chamou atenção o símbolo com que Nhô Augusto e eu fomos marcados. Hoje sonhei com a interpretação: a circunferência representa a dimensão transcendente - aquela que, dizia eu no post anterior, não posso controlar - que compõe um todo coerente com a dimensão do mundo concreto, racional e mensurável - em que tudo pode ser medido e controlado, as coisas que podem ser modificadas. A combinação da circunferência com o triângulo talvez represente esta nossa existência de dor - mas em que temos a cada instante uma chance que nos é dada pelo transcendente de interferir em nossa vida concreta e mudá-la. Eis a diferença entre sentir dor (que todos sentimos) e sofrer com ela (que é questão de escolha).

Nhô Augusto, depois de uma vida de excessos, em que magoou mulher, filha e todos os que o rodeavam, foi marcado feito gado e, num salto no espaço, desapareceu, deixou-se para trás - para cuidar das feridas que imprimiu a si mesmo, para redimir-se das que infligiu aos outros. Não deixou de carregar em si o mal todo que o compunha - "Fora assim desde menino, uma meninice à louca e à larga" -, mas soube controlá-lo, sem alimentá-lo, deixando-o minguar, para fazê-lo vir à tona só quando foi necessário para fazer o que considerava certo - que foi salvar uma vida, pela qual se sentiu responsável.  

Como os sonhos, este post não tem conclusão: trata-se apenas de uma superposição de imagens que podem combinar-se, desde que aquele que as vê lhes dê a coerência necessária. Mas Freud dizia que, às vezes, um charuto ou cachimbo, não me lembro bem, é apenas um charuto ou cachimbo, não representa nada além do que é. Matraga não é Matraga, não é nada. 

domingo, 1 de janeiro de 2012

Eu só tenho uma meta em 2012

Se eu imaginasse uma lista de metas para cumprir ao longo de uma vida, certamente ficaria desanimado a cumpri-la. Mesma coisa no que diz respeito a metas para cumprir durante um ano. Um mês - mesma coisa. Uma semana - idem. Há domingos em planejo fazer esteira três vezes por semana; às vezes dá, às vezes não dá. Às vezes é por falta de vontade e disciplina; às vezes é por circunstâncias externas.

Se eu aprendi alguma coisa em 2011 é que todas as coisas mudam, o tempo todo, sem que eu possa controlá-las. Tentar controlá-las me causa sofrimento - se o leitor sentiu algum cheiro de autoajuda aqui, pode estar certo de que ela está presente, e pode parar de ler o texto também. Se sofro, não estou feliz. Logo tento parar de controlar as coisas. Tem prazos que vêm de fora de mim, e tenho de cumpri-los; de dentro de mim não vem nenhum prazo, só a sensação de que o passado ficou para trás e de que o futuro é hoje. Tem dias em que consigo viver só o hoje, tem dias em que não consigo. Às vezes acordo bem, e consigo não me preocupar com as coisas que não posso controlar; às vezes acordo com o pé esquerdo, e tento controlar tudo, inclusive as ações e vidas das pessoas, meus erros do passado e meu conforto do futuro. Pior pra mim, e pras pessoas - já me dei conta disso há tempos.

Assim, minha única meta para 2012 é tentar me perceber tanto mais quanto for possível. Se eu perceber que acordei virado, tentarei direcionar meu dia para as atividades em que tenho menos contato com as pessoas e posso investigar-me mais a fundo, pra verificar o que estará acontecendo comigo. Nem sempre isso será possível. Aí tentarei ser tão educado e polido quanto me for permitido, de acordo com as situações que se me apresentarão. E na hora verei como reagir. A única coisa que posso prometer é que, se reagir mal, vou pedir desculpas e vou tentar reparar quaisquer danos que causar; se suspeitar que reagi mal, também pedirei desculpas, por precaução (às vezes as pessoas se deixam tocar pelas desculpas e abrem espaço pra diálogo; às vezes não, e isso é problema delas - não posso fazer mais do que pedir desculpas àqueles a quem acho que feri de alguma maneira e, se eles quiserem mais do que isso, terão de me explicar, porque sou inadequado mesmo, às vezes insensível, na maior parte do tempo egoísta, e custa-me ver além de mim, mas pelo menos eu tento); se não reagir mal, volto pra casa sem me vangloriar.

Dor é algo que todos sempre sentiremos - sofrer com ela passa ser questão de escolha. Egoístas somos todos - ser sempre assim também é questão de escolha. Cada vez mais tenho visto casos de pessoas que poderiam mortificar-se pelas dores que sofrem, físicas ou não; cada vez mais me apercebo de que sofrê-las é questão de opção, embora experimentá-las não seja. Mas quem não sente alguma dor? Cada vez mais tenho percebido que todos sentimos dor. É terrível, mas é verdade. Também é libertador, se assim quisermos que seja.

Mas certamente haverá dias em que acordarei eufórico - não escrevo feliz porque, dadas as constatações que acabei de registrar acima, não acredito que exista tal sensação. A felicidade, se existe, é tão passageira e circunstancial, tão pequena quando posta em palavras, que nem vale a pena discuti-la. Pra mim, a felicidade é como deus, ou a vida após a morte, ou o karma, ou equivalentes - admito a possibilidade que possam existir, mas seria extrema arrogância minha - eu, um estúpido, raso, cabeça pequena e fechada, que se deixa incomodar pelo barulho dos fogos de artifício nos dias de jogos, ou coisas tão pequenas como essa - discutir ou não a existência de deus. Qualquer que seja o nome que se lhe dê, tomara que ele ou isso exista, espero que perceba que tenho tentado ser alguém melhor e que ele ou isso me contribua não na felicidade, porque ela está na categoria das sensações que alguém tão raso como eu sequer concebe sentir ou debater, mas em alguma paz. Isso existe - porque já senti. E, até onde pude perceber - e pode ser que minhas percepções mudem amanhã, afinal tudo é transitório - a paz dista da dor na mesma medida em que dista da euforia.

Como eu dizia - haverá dias em que acordarei eufórico. São essas as mais perigosas vinte e quatro horas. Nelas, tenho mania de ocupar espaços que não são meus - dou conselhos, dou-me conta de verdades, espalho sabedorias e bibliografias, cago regras nas cabeças alheias, imaginando, eufórico que estou, que sou algo além de um ser humano que, como todos os outros, sente dor, seja da natureza que for. É isso: os dias de euforia são mais perigosos porque, neles, eu tento ocupar exatamente aqueles espaços que não me pertencem, os espaços que não posso ocupar. Nem sempre se pode ser deus, diziam os Titãs numa canção antiga. Deus eu não sei o que é, mas tentar ser deus eu sei exatamente o que é. E minha única meta pra 2012 é tentar ser menos deus e mais comum, anônimo, regular. É apenas fugir dos dias de euforia e aceitar que nada ou quase nada está sob o meu controle. É aceitar que ser gente é sentir dor e viver apesar dela. Eu não sou deus, sou gente, por isso sou vazio. A minha única meta pra 2012 é aceitar o que vier e tentar lidar com isso sem sofrer. Porque, se deixar, eu reclamo e triplico a dor, que às vezes não é tão grande assim. Às vezes ela é - mas a dor passa.

Se eu aprendi alguma coisa em 2011 é que todas as coisas mudam, o tempo todo - inclusive da dor para a euforia. A única meta de 2012 é estar em paz - que não é sofrer a dor, nem é ser feliz ou experimentar a euforia.