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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Risco de poema

para Mário Henrique Bernardes

Em meio à ponte aérea -
entre os alheados da Vila Madalena
e os inocentes do Leblon 
(onde a areia é quente e há um protetor suave
que ela passa nas minhas costas) -
não me esquecem as cinzas.

As minhas mulheres originárias e
os meus homens ancestrais hoje são cinzas
Não podem alentar-me a alma
nem fertilizar-me a terra -
e aguardo, atônito, o horário da próxima reunião
(não há tempo para o luto ou para as coisas da alma).

Fac-símiles digitalizadas trazem-me aos olhos
as cartas dos ancestrais -
o bisavô anarquista depois bolchevista,
o avô prefeito e inconformado,
as bisavós, avós, mães
- mulheres-amparo, mães-providência.
Mas não tenho uma linha que escreva.

Recebo pelo correio a edição comentada
- tudo velho, correio, cartas,
aquele e este Mário
aquele e este Carlos -
Sabemos um do outro pelas redes sociais e pelos aplicativos de contatos
mas fomos aprisionados da roda-viva
que não nos permite sequer cismar um pouco, à noite,
o mineiro e o paulistano, 
afogados que estamos de tradições e trabalho
vértice em versos
vórtice em impropérios
que vão ficar pra outro dia.

Houve aqui um rabisco de empenho
um esboço de compromisso
em traços rápidos, preciso-imprecisos, à Niemeyer:
Houve risco de poema,
mas já passou, ninguém viu.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A delicada sinfonia do desfrute das mercadorias



Há um determinado momento que precede o devaneio. Posso senti-lo, quando não estou sob o efeito de nada: geralmente parte do estômago, como se fosse fome. É evidente que até pode ser fome, mas não se trata apenas de comida - é fome de mais. Simples, nessa frase quase sem sentido. Porque o devaneio é assim, não tem expressão clara e organizada, não dá pra texto, não tem coesão nem coerência. No devaneio, experimenta-se um estado primevo, ancestral, anterior - mas rigorosamente determinado por este tempo. No devaneio, sou o homem selvagem do presente, que não caberia jamais numa anedota, num romance histórico ou num compêndio antropológico sobre os homens primitivos: meu devaneio é vórtice por meio do qual turbilham todas as injustiças, todas as crianças mortas, todas as violências, todas as árvores derrubadas, todo os animais maltratados, todos os velhos abandonados, todo lucro das indústrias farmacêuticas, bélicas, tabagistas e de bebidas. Meu devaneio não é mais violento do que a ignição de um carro qualquer, do que a pressão inconsequente de um gatilho, do que o abandono de um recém-nascido. Meu devaneio é o vórtice por meio do qual se encontram, e se confrontam, e se combinam, e se acentuam todos os males do mundo - é no olho do meu devaneio que se pode ver a face violenta do leigo mais ativo da igreja, a perversão mais obscura do maníaco sexual, a degradação mais baixa de quem tem de vender a própria força de trabalho pra sobreviver - esse rolo-compressor de compra-e-venda que nos transforma todos em coisas. É no barulho ensurdecedor do meu devaneio, tempestade em alto-mar, que se pode observar um sopro de vida e de sujeito, quase afogado, mas ainda batendo os braços pedindo ajuda.

Começa no estômago o meu devaneio, e é gatilhado pelos mais singelos motivos: pode ser uma frase ambígua, um copo que cai no chão, uma música de letra inexplicável, ou simples demais, ou forte demais. Pode ser só a sensação de que estou velho, ou de que serei abandonado, ou de que sou perseguido, ou de que não cumpri o protocolo e as manifestações de apreço ao senhor diretor, filho de uma grande puta. Pode ser só a suspeita de mim: eu mesmo, eu próprio, cheguei a existir? Ou é isto tudo um teste sem sentido? Ou neste momento outros gênios-pra-si-próprios experimentam devaneios iguais ao meu - eu-igual-a-todo-mundo, de seriado americano em seriado americano, comprando confortáveis porta-controles-remotos, pra não sair nunca mais do sofá? O meu devaneio começa quando fundo um movimento, inauguro um partido político, ponho o dedo em todas as feridas alheias, revelo e esculhambo todas as ideologias, engraveço as mediocridades de todos os que me cercam, reduzo as vidas a partes integrantes do sistema de que nem eu mesmo posso escapar, a não ser por um devaneio.

Depois do gatilho, a violência pura: eu conheço as fraquezas todas, sei das contradições e sei que dizê-las é tabu, oh! somos todos homens cordiais, aproximamo-nos uns dos outros movidos de interesses materiais, simulamos afeições e despedimo-nos em abraços repletos de cartões de visitas, em networking cotidiano, porque se eu tenho amigos eu tenho tudo - acesso às prefeituras, aos governos, aos jornais. Mas se não há nervo legítimo em nenhuma relação, começo pondo abaixo, até que não sobre pedra sobre pedra, as instituições familiares - reduto burguês de manutenção de patrimônio; daí passo aos casamentos de compadrio; deles pulo aos amigos comuns, amigos pais de meus filhos, amigos da empresa, amigos da infância - todos conhecidos na escola, na empresa, no clube, na igreja, no condomínio, na academia das pessoas da mesma classe, gente de família, gente de berço; desses eu pulo para os conhecidos em instituições públicas e privadas que presenteio nos períodos de festa, migalhando um contato, um emprego futuro, um empréstimo a juros menos escorchantes, um favor que seja. Todas as relações mediadas pela propriedade, pelos presentes, pela felicidade da propaganda, pela exibição - uma supremacia qualquer que seja.

À merda com tudo isso: no meu devaneio eu começo destruindo a propriedade, despedaçando tudo, para bradar a todos que não me definam pelos meus bens; depois parto para a implosão das relações afetivas - nenhuma delas restará em pé quando eu demonstrar que todas têm por base o interesse material: que o casamento é manutenção de patrimônio, que a festa é obtenção de prestígio, que os presentes são forma de repor o dinheiro gasto na festa e que as fotos da viagem são arremedo de celebridade. Enterradas todas as pessoas e todos os sentimentos nobres na vala comum da mercadoria substituível e passageira, parto para a autodestruição: raspo os cabelos, os pelos todos; lanho a pele tanto quanto possível, imprimo-me ferimentos sistemáticos, para que todos saibam que minha coerência alcança o ponto indiscutível da autoaniquilação completa: eu cheiro mal, compus o horror do mundo, espalho a desgraça tanto quanto qualquer um de vocês, mas ao menos não discurso sobre moral, sobre bons costumes, sobre o valor da família, da tradição, da propriedade. Estou aqui nu, na janela, gritando, à moda de animal, entre sardônico e desesperado: por que vocês fogem todos de mim?

O devaneio perde intensidade quando ergue a voz o tique-taque estalado dos teclados de computador, os ringtones dos celulares, os barulhos ensurdecedores das motocicletas sofisticadas - a delicada sinfonia do desfrute das mercadorias, o rolo-compressor que me achatou a voz, até num momento de devaneio. Não bato mais os braços: agora tento boiar, em último recurso de sobrevivência. Suavemente conduzido pela maré, encaminho-me, dócil, ao lago abrigado pelas medianias, sem devaneios, sem turbilhões, o estômago serenado e a cabeça livre de perguntas. 

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Livrório, livrão, livralhaz e os calhamaços desinteressantes do carnaval

Em livrório, já temos uma ideia aumentativa. Como tudo quanto é grande tende para o disforme, não é de estranhar que ande ligada aos sufixos aumentativos uma certa representação de fealdade, de grotesco. Livrório significará um "livro grande, mas de pouco valor". Para exprimir a ideia de grandeza pura, não temos sufixo, neste caso. Não podemos criar livrão; se formarmos o derivado livralhaz, lá metemos, por via dos morfemas -alho e -az, um sentimento pejorativo. Positivamente, os livros grandes não nos merecem grande respeito; efetivamente, a nossa literatura abunda em calhamaços que não são das suas coisas mais interessantes.   

M. Rodrigues Lapa, Estilística da Língua Portuguesa. São Paulo: Martins Fontes, 1991. p.79.

Entrava carnaval, saía carnaval, Barata padecia do mesmo problema: a solidão misantrópica. Talvez, no começo, quando era jovem, ainda não desgostasse de pessoas. Eu escreveria odiar, mas prometi a um amigo que evitaria esse verbo, o que já me fez bem. Desgostar é ainda reversível: pode-se desgostar, depois ser indiferente, depois até apreciar racionalmente - até alcançar o respeito pleno, por meio da diferença. Mas Barata desconheceu-me, negou-me, fez-se de sabichão e sepultou nossa amizade, nós que éramos quase irmãos; Barata não pôde ouvir meu amigo, nem nossos outros companheiros, que estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças. Barata conhecia o carnaval apenas pela televisão.

Era ainda criança quando assistia aos desfiles na TV "para ver mulher pelada". E passava a noite excitado, com peitos, bundas e bocetas que se apresentavam parcialmente, às vezes frontalmente, nos desfiles das escolas que aprendeu a diferençar. Havia as tradicionais e as mais recentes; havia paradinha na bateria, evolução, harmonia - diversos critérios que se perdiam no mar de cores das fantasias e das genitálias à mostra. Barata se apaixonava perdidamente por cada rainha de bateria, cada destaque de alegoria, cada porta-estandarte, todas as mulheres do desfile, das celebridades às anônimas - mas especialmente as celebridades. Barata não tinha nascido pra brilhar, mas se consumia todo pelo brilho inútil das estrelas: teria sido feliz se fosse homem simples, mas não podia ser honesto consigo próprio.  

Disposto a desfrutar na vida prática aquilo a que assistira na TV, Barata, assim que teve idade suficiente, foi às matinês. Mas nunca teve sucesso com as mulheres nos bailes de carnaval da adolescência, nem na vida adulta. Acomodou-se à posição de espectador, onde se sentia melhor e onde podia nutrir satisfatoriamente a raiva (não escrevo o ódio, porque assim me pediu um amigo, e assim faço, aceitando-lhe a sugestão) que alimentava pelas moças bonitas que não o olhavam, pelas marchinhas que não contavam a história dele (nem as tristes, porque a sua história, pensava, era a mais triste de todas), pelos sambistas, pelos ritmistas, pelos passistas - todos riam dele, aquela alegria toda se dava a contrapelo da sua dor, numa proporção perversa. Raiva ainda das alegorias, dos rivais que lhe tomavam as musas. Estudou-os todos, um por um, as histórias, os trejeitos, os beicinhos, as maquilagens, as tragédias, as fortunas.

Tornou-se, então, professor, como todos já sabemos: quem sabe faz, quem não sabe vira professor. Barata carregava nas costas pilhas de livros sobre tudo - livrório sobre o que quer que fosse, o carnaval inclusive, que usava indiscriminadamente na situações em que sentia ser necessário dizer alguma coisa - para evitar silêncios embaraçosos ou para ocupar lacunas de afeição. Barata tinha algo de pavão: gostava de mostrar as plumas enciclopédicas, à moda de destaque da escola, e ia ganhando avenida. Eram cores sobre cores, tom sobre tom, de informações desnecessárias, mas que arrancavam algum muxoxo aos interlocutores; abundavam vocábulos pinçados de dicionários antigos, arcaísmos prepotentes, considerações sobre vidas de personalidades passageiras, construções frasais ultrapassadas, clichês românticos, observações de orelhada - tudo de uma só enfiada, num desfile fálico das palavras, na expectativa de impressionar o público atônito frente a cada despropósito de livre associação de ideias de uma supremacia qualquer, todas encadeadas no fio condutor do ego encurralado de Barata, num canto da sala, cabeça de criança, corpo de adulto. 

Barata já não era Barata - poderia ser Baratão, se fosse corpulento. Mas era franzino, coitado. Poderia ser baratório - já em minúscula, homem de muita informação, admitamos, mas de pouca penetração analítico-interpretativa: repetia tudo o que lera em manuais, eles próprios já bastante carcomidos do tempo. Era agora  barataz, olhos cansados na mesa da sala dos professores de uma universidade obscura, ou no camarote dos jurados do desfile das escolas de samba: era o professor barataz, respeitado estudioso de cultura popular, que escrevera o Compêndio das Grandes Sociedades, Ranchos, Blocos e Escolas de Samba do Rio de Janeiro - dos princípios até hoje, erudito do carnaval, da cultura brasileira, dos nossos intérpretes (mas que nunca pisou o chão da avenida, diziam os inimigos, nunca foi do povo, não sabia nada de samba, ruim da cabeça, doente do pé, malvado com as escolas, que nunca deu dez, para nenhuma delas, em nenhum quesito, e que escrevera um calhamaço desinteressante e sem sentido sobre o carnaval, sempre afirmando que a tradição se perdera). 

Não nos deixemos iludir por fofocas de salão: Barataz, jurado eminente, apreciava misantrópico a avenida, invejoso das cores (ele mesmo era branco-e-preto); dos sorrisos (ele não sabia sorrir, nem de si próprio); das lágrimas (quando foi a última vez que chorou?); dos passos (ele nunca teve ginga pra nada); da desimportância do tempo (ele olhava no relógio o tempo todo, controlando o tempo). Mas gostava de pavonear-se em grande destaque, de imaginar que o décimo de ponto que decidiria a alegria de um barracão e a tristeza em todos os outros estava em suas mãos. E odiava - meu amigo há de desculpar-me, não sou eu que uso a palavra, mas Barata, que jamais conheci de fato e que já se consome em si mesmo como já fizemos um dia, mas não mais - dizia que Barata odiava a festa, e as pessoas, e os sambas-enredo, e as alegorias, e a alegria. 

Barata odiava e invejava grande e grotescamente a alegria da morena simples que sambava na avenida e que se encantava com os destaques, e os artistas, e as celebridades: Barata fracassava todos os dias, nem podia mais ser honesto consigo próprio. Não lhe interessavam os companheiros, não lhe pude chamar a atenção, nem meu amigo pôde aproximá-lo de nós - homens presentes, interessados na matéria presente, da vida presente.            

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O diabo no Largo da Carioca

Passei a tarde lendo as Viagens na Minha Terra, do Almeida Garret, no Real Gabinete Português de Leitura. Gosto de ler por lá os livros que eu sei que Machado de Assis lia por lá. Bibliotecas, sobretudo bibliotecas como aquela, devem ser habitadas de seres imortais, que passaram por ali ou que foram invocados pelos que leram ali. Poucos espaços são habitados do poder de uma biblioteca: ali há ambiências de sátiros, trágicos, finos ironistas, comediantes, cientistas, minuciosos, especialistas em nada e generalistas em tudo. No final, depois da leitura, não saí de lá nem com saldo nem com défice: saí em equilíbrio e em paz.

No caminho para o trabalho, onde vou lecionar, tenho de passar pelo Largo da Carioca - este Liso, desta cidade: uma montanha de lixo acumulado, monturo do bloco de rua de ontem, rodopia em redemoinho no centro do Largo. O calor é terrível: não há sol, o dia é até escuro, mas os termômetros marcam mais de trinta graus. Mendigos, pedintes, miseráveis, esfomeados, viciados imploram por um trocado; numa banca de jornais uma caixa de som grita o último hit do verão. Turistas estrangeiros, fantasiados de andrajos da festa de ontem, os olhos trincados de bebida e sabe-se lá mais o quê, fazem trenzinho, cantando. Um pastor fala ao microfone, os olhos fixos em mim: Essas frases que você diz e canta no seu idioma são mentiras, elas criam o próprio inferno, porque elas são mentira.

Eu aceno com a cabeça, em sinal de não. Quero dizer ao pastor que não minto mais, há um bom tempo. Eu vivo em honestidade, não posso dizer que plena, porque não sou santo, mas em honestidade, certamente. Ele insiste: Você vive no inferno, porque você é mentiroso, a sua língua é a sua mentira, e o diabo é mentiroso: o diabo é o Pai de Toda Mentira.

Eu sorrio, agora. Eu já estive no inferno - foi-me dada a chance de descer aos infernos e voltar, como fizeram alguns heróis da Antiguidade, além do próprio Dante. Irrita-me o pastor: eu sei exatamente como é o inferno, conheço bem a mentira, sei bem que  mentiras aprisionaram, e conheço bem o diabo: olhei-o nos olhos, um dia, desafiando-o, e menti uma vez mais, dizendo-me que não mentiria novamente. Você vai ser sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa - disse-me ele, elegante, do outro lado do espelho. Tive de admitir a derrota, tive de saber-me reflexo: o pastor não disse nada sobre espelhos. Sorrio mais: o diabo vive nos recônditos de mim, eu carrego o mal em mim. Mas não minto mais. Ele grita, para que o Largo da Carioca todo possa ouvi-lo, para que o Rio de Janeiro saiba, para que a voz ecoe até São Paulo, para todos saberem que ele me reprochava: Essas coisas que você diz são mentiras, você é o próprio diabo, o Pai de Toda Mentira!

Não mais, eu respondo. Afasto-me pausadamente, sem pressa. Ficam para trás a barulheira, os implorantes, os estrangeiros, a música infernal e o fanático que via em mim tudo que eu fui, não o que sou. Entro na Senador Dantas, avanço até a Evaristo da Veiga, a partir da qual posso observar o Teatro Municipal, já na Cinelândia: Goethe tem o nome encastoado ali, as artes me olham todas - especialmente o cinema -, suspeitando acertadas: eu não me deixo mais levar pelas musas. Estou em viagem à roda de minha própria terra, à roda de mim: ao fundo do Teatro, um lampejo súbito deixa ver os escombros de três prédios desabados: ouço ali gritarem outras vozes já partidas, diferentes das que ouvi na biblioteca. O sol cava espaço entre as nuvens, a temperatura aumenta, a barulheira é igual à do Largo da Carioca, voltam a ecoar por toda a parte, ainda mais fortes, as maldições do pastor.

Mas intensificou-se, também, a claridade do que é real - a luz do sol acotovelou-se, entre as nuvens, por mais que estas se avolumem. Aceito: no espelho, já no banheiro do trabalho, quem me fala sou eu próprio, os traços honestos de ainda-nem-menino - mas cheio de coragem. O senhor me perdoe: antes eu não sabia amar.                  

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Catharina Pugliesi Duarte (21/02/1922 - 09/02/2012)

"Funeral Blues", WH Auden

Stop all the clocks, cut off the telephone.
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling in the sky the message He is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever, I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun.
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Cinco anos d'O Jardim das Horas em São Paulo

Hoje faz cinco anos que o trio cearense O Jardim das Horas chegou a São Paulo. Sorte do público da cidade, que teve a chance de assistir aos espetáculos deles; sorte minha, que os conheci pouco depois que chegaram. Lembro-me do primeiro show da banda a que tive a chance de comparecer - no Tapas, seguido de um show do Sonso (também foi esse o dia em que conheci Daniel Groove, mas ele merece um post e uma data só pra ele, que ainda estou pra escolher qual seja). Como todo mundo que assiste ao show do Jardim pela primeira vez, encantei-me com a beleza da voz e da expressão de Laya Lopes; com a espécie de nirvana musical que Raphael Haluli experimenta quando está no palco; com a potência criativa de Carlos Gadelha - que, no palco, sempre parece emanar aquele ar dos grandes guitarristas. Fiquei impressionadíssimo, me lembro bem. Na semana seguinte, zarpei para Salvador, para participar de um congresso de Literatura Portuguesa, e a trilha sonora da viagem foi O Jardim das Horas. Amanhecia, entardecia e anoitecia com o Jardim.

Mas se fosse para escrever sobre as canções do Jardim, do ponto de vista técnico, eu não redigiria o texto neste blog, mas no da Identidade Musical. O que eu quero escrever são duas impressões pontuais e pessoais que os membros do Jardim e suas canções tiveram em mim desde esse dia. Conto rapidamente, são dois parágrafos: se quiser, pule-os, diria Machado. Eu não sou Machado, e tenho menos leitores que o defunto-autor Brás Cubas: sugiro sem ironia que o leitor pule mesmo os parágrafos em que relato minha pobreza de espírito e ouça a canção do Jardim, no fim deste post.

Primeiro, sobre a amizade: no breve período em que a Identidade Musical trabalhou com o Jardim, tive a chance de conhecer pessoalmente os três integrantes da banda. E eu, boêmio contumaz naquela época, percebi que nenhum dos três bebia, o que me incomodou profundamente. Não digo que tentei afogá-los forçosamente em cerveja - mas quase. Era praticamente um contra-senso, segundo a mentalidade ainda infantil que eu tinha, que artistas tão talentosos não bebessem. Laya e Carlos me contaram: um dia, foram a uma festa em São Paulo, e beberam não em excesso, mas mesmo assim acabaram embriagados. Assustaram-se com a capacidade de contaminação e intoxicação do ambiente etílico paulistano, em que, mesmo bebendo pouco, você acaba com as percepções alteradas. Coisas de energia, que eu não entendia - hoje começo a entender. Da última vez que encontrei Carlos, num show dos Porongas, na Casa do Mancha, o guitarrista me acolheu grande e docemente ao descobrir que eu havia parado de beber: finalmente eu entendia o que ele, Laya e Rapha tentavam me explicar, mas eu não podia entender.

Segundo, sobre a canção: podem chamar-me endoidecido, mas nada me tira da intuição e da cabeça a seguinte hipótese: existe relação entre o conceito de ideologia em Marx (pra falar rápido, a falsa consciência) e entre aquilo que obscurece e confunde "o caminho reto que me levará pro alto", isto é, aquilo que nos impede de perceber a nós próprios e aos ardis da realidade concreta e material. Não estendo a conversa pra não incomodar nem doutrinar ninguém, mas acredito que, para ver "a claridade do que é real", é preciso um longo esforço, que provavelmente passa pela reformulação do corpo, da mente e do espírito.

Abaixo, o clipe de "Anoiteço", bem melhor, além de mais claro, evidente e clarividente do que este texto, já que o próprio Jardim é " um estado de espírito em cada um de nós, a vida em que se planta e que se colhe", segundo o próprio Raphael Haluli.