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segunda-feira, 26 de março de 2012

Aqui onde estou

Aqui onde estou não há o ruído mínimo (mas máximo sempre multiplicado) insistente das Marginais. Não há nada aqui - salvo as ilhas de cultura que o homem constrói pra se isolar, exatamente como estou fazendo: os pássaros me acordaram ruidosos e eu, macunaímico, mandei-os calar; um lagarto enorme me olhava da varanda e tentei enxotá-lo. Não me obedeceram, evidentemente: aqui, sou eu o invasor, iludido com a sensação de integração à natureza, mas de netbook ao colo, trabalhando. Não há desfrute nem prazer. A brisa morna insiste em chamar-me ao mar, mas tenho de cumprir prazos. Não reclamo: na vida concreta marca-se o tempo, a mais-valia prevalece, perde-se o sono, recalques agigantam-se em medos, muitos medos, medo de tudo, medo de nada.

Eis um plano: vender tudo, absolutamente tudo, sentar-me aqui e embriagar-me diariamente até morte, sem planos nem projetos, sem vontade de ter filhos, ou de legar ao mundo uma obra incompreendida que se tornaria profética aos olhos dos homens do futuro - assim os sonhos megalomaníacos de um anônimo. O que quer que seja: será mercadoria, mais dia, menos dia. Eu mesmo transformado em coisa, alheio a mim e ao mundo, não posso entender o alcance que têm estas palavras: este espaço de integração é uma forma de morrer. Estou plenamente lúcido: a embriaguez não é alternativa, mas quem pode observar a claridade do que é real sem queimar os olhos?

À minha frente, uma ilhota: haverá ali fontes de água potável? Posso consumir-lhe os frutos, para sempre, em dieta ancestral? Saberei pescar, passar a vida sem ler mais sequer um livro, aculturar-me dos homens, regredir, deixar crescerem as barbas, saciar-me de sexo com as próprias mãos, deitar-me nas pedras e transformar-me em lagarto, em pedra, em lodo, em nada? Não posso: a dimensão exata dessas hipóteses encontra seu limite real em cada uma destas palavras que meus dedos digitam e em que correm meus olhos neste exato momento. Aqui onde estou é agora: abandono as hipóteses anteriores, beber até morrer é eco disfônico, não é uma solução; partir para as ilhas, abandonar-me às imersões solitárias é uma quimera. Eu não posso durar dez minutos sem banho quente, comida cozida, papel pra gastar os olhos, um pouco de poesia, os blogs de esquerda.

Alço o olhar ao horizonte difuso, em que céu e mar se confundem no maior de todos os clichês de um texto que é todo lugar-comum: aqui  onde estou. Sou personagem de todas as narrativas que desmereci. A morte é o ponto último de fuga - em ruptura agora da coerência interna dos compostos. Aqui onde estou agora: ponto de convergência, vértice-vórtice mediato de passado revisto em autocrítica e de futuro planejado sem pretensão. Não beberei até a morte, não fugirei para a ilhota, não virarei estrela: vim no mundo pra dar as mãos aos viventes (que sozinho não consigo caminhar, ainda que vá cada qual pelo seu próprio caminho), pra dar vazão à vida presente (que pra subtrair o peso ao passado só o deixando para trás) e sentido ao tempo presente (que para seguir adiante carece de ter um sentido). Rumo ao Cruzeiro desespelhado, ao Norte desmitificado e ao Oriente em transcendência.      

quarta-feira, 21 de março de 2012

Histórias secretas do Rio de Janeiro: as pessoas que voaram longe no carnaval

Os jornais não noticiaram, a Globo abafou. Mas quem vive no Rio de Janeiro, ou esteve por lá nos últimos tempos, sabe muito bem que algumas pessoas foram flagradas voando. Não se trata de novidade: a cidade é conhecida pela presença de supostos discos voadores, em testemunho de duas personalidades incontestáveis:



O que não sabem os dois ilustres ícones da canção popular brasileira é que o que eles chamaram de disco-voador nada mais eram do que grupos de cariocas voadores. Os dados que comprovam a presença de humanos investidos da capacidade de voar na cidade do Rio de Janeiro são igualmente incontestáveis. Um dos pontos turísticos da cidade chama-se exatamente Circo Voador - indicador claro de que não é de hoje que a cidade é mãe de continuadores da obra de Bartolomeu de Gusmão, este por sua vez inspirado em projetos helicópteros de Da Vinci. O Rio de Janeiro é cidade de circos-voadores e de asas-delta; é cidade de alturas - o Corcovado, o Pão de Açúcar, a Pedra da Gávea, o Morro Dois Irmãos, todos esses acidentes geográficos elevados só podem culminar na conclusão de que a cidade é vocacionada às alturas: Cidade de Deus. Seu símbolo máximo - o Cristo Redentor, uma das sete novas maravilhas do mundo, aeroplano pronto para partir para os céus e sentar-se à direita de deus pai todo poderoso, criador do céu e da terra - antes criador do céu, note-se, céu que já foi ganho pelos cariocas, sem aviões.

Os morros: muitos cariocas habitam os morros, mais próximos do céu, a que estamos todos destinados; mas  quem escolhe o morro pra viver tem o céu mais perto de si. Conhece bem os caminhos, as ladeiras, as subidas, a proximidade das alturas. São criaturas à imagem e semelhança do Cristo, todas elas de braços abertos para o Rio de Janeiro, para as maravilhas das praias e das florestas, para os monumentos à brasilidade, o Maracanã e o Engenhão. Não é à toa que os gringos, agora, dispensam a estadia à beira da praia: descobriram o morro como forma de levar a vida, perceberam que a ostentação periférica dos hotéis chiques do Leblon, de Ipanema e de Copacabana não lhes pode ensinar o desapego real e concreto da vida nas comunidades. Eis aí outro dado incontestável da habilidade de voo dos cariocas: a respeitabilidade do estrangeiro que se hospeda nas alturas. Se o gringo topou e gostou, é porque deve de ser bom.

Pois vamos aos fatos: no fim de semana posterior ao carnaval, deparei-me com pares de sapatos abandonados numa rua tranquila de Ipanema. Imaginei que fossem os pisantes perdidos de um folião, e sorri. Mas enquanto eu os fotografava, para mostrar aos amigos de São Paulo com que leveza se vivia a vida no Rio de Janeiro, fui surpreendido por um agente do Bope.  

O homem perguntou-me sem nenhuma gentileza por que eu fotografava os sapatos. Disse-lhe que me interessava registrar as passagens de leveza da vida do carioca. Rude, o oficial respondeu-me que a vida era leve pra quem podia e que eu não lhe fodesse a vida - esses filhos da puta saem voando e podiam pelo menos levar os sapatos. Como era? Saem voando? Caralho, não é por isso que você tá fotografando a porra do sapato? Propus-lhe que me contasse do que se tratava, mas ele desconversou e foi embora - põe essa merda na conta do papa. Inquieto, perguntei à minha senhoria - uma portuguesa idosa e que parecia mesmo chegada ao Rio no tempo do rei - que história era aquela. Sentamo-nos em bancos antigos postos na porta da pousada, à moda antiga das cidades pequenas, em que os mais velhos se sentam na rua para observar o movimento e contar histórias, faltando só mesmo a fogueira.

A senhora deu-me um gole de cachaça e me contou que havia histórias de pessoas voadoras no Rio de Janeiro desde o tempo de Dom João VI, se não antes, que ela bem não se lembrava, cuidava dos netinhos agora. Mas que sempre se falou dos voadores no Rio de Janeiro. Debret registrou alguns, mas os desenhos foram vetados pela coroa, que não queria chamar a atenção dos ingleses: eles poderiam imaginar que uma nova tecnologia se desenvolvera no Brasil e acabariam por invadir estas terras de paz. Mauá quis explorar o potencial competitivo dos voadores, mas a maçonaria proibiu-o por motivos que não lhe podiam ser revelados. Os artistas vinham ao Rio na tentativa de libertar-se de tudo e conseguir a prerrogativa última de voar. Especialmente no carnaval voava-se. Estava lá o sujeito no meio do entrudo, era molhado por uma criança e zás - saía voando. Na maioria das vezes, eram homens do povo que partiam para os céus - Manuel Bandeira mesmo registrara um, sem revelar que batera as asas antes de morrer afogado na Lagoa Rodrigo de Freitas. Embora raramente os abastados desafiassem a lei da gravidade, os bailes chiques de carnaval no Teatro Municipal acabaram porque uma rica senhora de família tradicional que remontava às caravelas, tendo alçado voo, agarrara-se à estátua da Tragédia, mas não conseguira manter-se segura por muito tempo - tendo sido encontrada dormindo serenamente em Santa Teresa, numa casa em que se tocava chorinho, a maquilagem manchada, como se tivesse cavalgado um ser alado por toda a noite e rompido em lágrimas de êxtase. Envergonhado, o marido teria exilado a mulher na Europa e pedido a amigos influentes que acabassem com o carnaval no Teatro, o que efetivamente ocorreu nos anos 70. Supus que minha narradora misturasse as épocas, confundido entrudos com bailes no Teatro Municipal, que não poderiam pertencer aos mesmos períodos - mas pertenciam, afirmava ela. Nesta cidade o tempo avança na medida do recuo, e a Sol atrai para si algumas pessoas, ícaros pagãos da decadência, os descrentes de tudo - disse ela, pessoana.

Mas então - a mesma Sol que desgraçara a vida de Macunaíma só porque ele tinha brincado com uma portuguesa? - eu perguntei. E minha senhoria sorriu, que ela mesma era neta da neta de Macunaíma. Assustei-me, mas reagi de pronto: diga-me então o que é que tem a Sol. E ela respondeu: a Sol brilha todo dia nesta cidade, nunca o senhor esteve aqui em dia chuva, esteve? Pois sim, aqui não há tempo de chuva, nem de estio, mas só esta mediania sem fim que o senhor está vendo, seja a papelópolis das repartições públicas, seja o lagartear de quebreira azul dos meninos do rio, calor que provoca arrepio, dragão tatuado no braço, ô quentura que não acaba mais. As pessoas idosas duram mais porque a vida é mais saudável - eu mesma completo 204 anos no próximo oito de março, porque participo dos programas da terceira idade que a prefeitura oferece, e faço alongamento e yoga na Praia do Leblon. Nos tempos de carnaval, a Vei assiste a toda festa lá de cima, lembra do meu tataravô Macunaíma e fica com raiva, porque ele era alegre e leviano como os foliões. Escolhe um bem feliz, bem feliz, que quer se consumir, tomar um porre, porque está feliz e zás - riba pra cima, que o coitado se assoberba da quentura e da intensidade e vai se consumindo na infinidade de luz.  

Era dia de calor, e eu passara a tarde escutando a história e bebendo da cachaça, mas súbito me vi enredado de um bloco carnavalesco que passava. Molharam-me, mulheres e homens me tiraram pra dançar, disseram-me graças, beijaram-me a boca, fizeram-me cheirar lança-perfume. Olhei o céu - já anoitecia. Eu estava no Rio de Janeiro? Fixei os olhos no Cruzeiro do Sul - paulistano nunca vê estrelas - e tive assim a impressão de que as tinha próximas de mim, e que vagava entre os astros, depois de que pisava os astros, no Canal Ursa Maior, eu-pierrô, ela-mascarada, que me atraía e me beijava - quem é você? adivinha, se gosta de mim, que eu quero me arder no seu fogo.

E vi: os olhos bem abertos de Vei, a Sol, dizendo-me que éramos todos iguais, que não prestávamos, que nesta terra tinha muito herói pra pouco índio. Fugi da maneira que pude, e acordei descalço, num amontoado de gente, trapos de fantasias de pessoas empilhadas, em pleno Largo da Carioca, onde eu já encontrara antes o diabo.

Levantei-me e fui à pousada recuperar-me. Mas o verão acabou hoje, 21 de março: minha senhoria voltou a Portugal, para encontrar a família; não há registros de que as pessoas tenham alçado voo no Rio de Janeiro, porque os jornais não noticiaram, e a Globo abafou. Mas ainda podem ser encontrados misteriosos sapatos, chinelas, sandálias e tamancos espalhados no chão da cidade.






Crédito das fotos
Sapato de folião na Rua Aníbal de Mendonça, fevereiro de 2012, de Carlos Rogério Duarte Barreiros
Havaianas na Cinelândia, fevereiro de 2012, de Carlos Rogério Duarte Barreiros     
Ressaca carnavalesca: foliões no Largo da Carioca, 1973, Anibal Philot, Agência O Globo

segunda-feira, 19 de março de 2012

Duas maioridades e nenhuma maturidade

Completo 36 anos na próxima quarta-feira, 21 de março.

01. A festa...


...vai rolar no Studio SP, na quinta-feira, dia 22 de março, com shows de Los Porongas e O Sonso, duas bandas queridas. Na verdade, na mesma data, a Identidade Musical e a Baritone Records comemorarão seis anos de existência, e aproveitei a chance de rever bons amigos e de assistir a ótimos shows celebrando meu aniversário nesse dia. O DJ é Tatá Aeroplano, do Cérebro Eletrônico - o que completa a qualidade musical da noite. O hotsite da festa é este: http://6anos.identidademusical.com.br/.


Em poucas palavras: deve ser a melhor festa de aniversário da minha vida, com amigos queridos, bandas do caralho, DJ de primeira, lugar legal.

02. O aviso: não posso ficar até às tantas da madrugada, porque vou dar aula na sexta pela manhã;

03. A reflexão: se algum aniversário representa, pelo menos simbolicamente, o ingresso na vida adulta, deve ser o de 36 anos: trata-se de duas maioridades, dois aniversários de 18 anos completos.

Assim, ingresso, ao menos numericamente, na categoria dos "adultos", para abandonar a dos jovens. Infelizmente, adquiri pouca ou nenhuma maturidade nos últimos 36 anos. Me explico.

Sempre imaginei que morreria aos 27 anos - assim como boa parte dos meus ídolos. Até aos 27, levei a vida com bastante irresponsabilidade. Se alguém conseguiu chegar até esta parte do post, por favor, não me contrarie: é verdade, trabalhei muito, saí cedo da casa de meus pais, li muita coisa, já tinha me casado pela segunda vez aos 27 anos. Mas nunca me vi de fato como adulto: era , no máximo, um adolescente ocupado com bastante trabalho e com uma ressaca eterna - a cabeça doía incessantemente. Não desejo a ninguém a paupérrima vida subjetiva que eu tinha, repleta de arrogância e egoísmo, pouca ou nenhuma espiritualidade, e muita cerveja com hambúrguer pra fazer a argamassa que ocupava provisoriamente o vazio.   


Vaso ruim não quebra: eu passei dos 27, mas gente muito melhor do que eu ficou pelo caminho, por muito menos do que fiz. Carrego remorsos terríveis, de que não sei se posso me livrar - fiz mal a bastante gente, algumas vezes propositalmente. Aprendi que nenhuma das promessas feitas à classe média pode se concluir: os sonhos de família feliz, de casamento eterno e de felicidade por meio do consumo são só sonhos. Com raiva de terem mentido pra mim, destruí muita coisa e muita gente ao meu redor. Ao lado disso, aprendi a lidar um pouco com o que é real e concreto - e aceitá-lo. Ou não: o bom de ter seu próprio dinheiro e seu próprio canto desde cedo é a chance de dizer uns nãos às merdas que a vida traz. Alguns dos meus defeitos serão trabalhados até o último dia de minha vida; outros vão ficar como estão. Sou mesmo bicho do mato - eu era assim desde pequeno: gostava mais de ler do que de gente. Fico cada vez mais assim. Frequento uns poucos amigos porque os amo. Verifico meu grau de insanidade semanalmente na terapia: enquanto tudo estiver dentro dos parâmetros das loucuras concedidas não vou me preocupar. Tenho uns companheiros com que divido as aflições. Por hoje é suficiente.

Não tenho saudades da infância nem da adolescência - tenho saudades de algumas pessoas que perdi, como meu pai, meu avô e minha avó, que faleceu no mês passado. Também me faz falta o Martinho, professor e amigo. Já enterrei mais gente do que acho que foi razoável enterrar, mas ir ficando adulto é isso mesmo. Não tenho a sensação de ter perdido tempo: aceitei que um sujeito medíocre espiritualmente como eu gasta o dobro de tempo pra entender as coisas que uma criança já madura entende: é preciso conceder e tolerar para amar; o amor da literatura é só ficção; antes de mudar o mundo preciso mudar a mim mesmo; não tenho certeza de nada, de absolutamente nada.


Apesar de ser bastante limitado, tive a chance de encontrar pessoas incríveis ao longo da vida. Algumas delas estarão na quinta à noite, no Studio SP, a partir das 22h. Quem puder apareça. Não precisa levar presente: basta me dar um abração pra eu saber que não estou sozinho, por mais que mereça.

quarta-feira, 7 de março de 2012

"Adeus, que me vou embora", dos Humanos



Adeus que me vou embora
Adeus que me vou embora
Adeus que me embora vou
Adeus que me embora vou
Vou daqui para a minha terra
Vou daqui para a minha terra
que eu desta terra não sou
que eu desta terra não sou
Tenho minha mãe à espera
Tenho minha mãe à espera

Cansada de me esperar
Cansada de me esperar
Naquela encosta da serra
Naquela encosta da serra
Vamos ser dois a chorar
Vamos ser dois a chorar
À espera tenho o meu pai
À espera tenho o meu pai
aos anos que não vejo
aos anos que não vejo
O tempo que vai durar
O tempo que vai durar
O meu abraço, o meu beijo
O meu abraço, o meu beijo
Vim solteiro e vou solteiro
Vim solteiro e vou solteiro
vou livre de corações
vou livre de corações
Se alguém me quiser prender
Se alguém me quiser prender
ja não vou dizer que não
ja não vou dizer que não
Adeus que me vou embora
Adeus que me vou embora
Adeus que me embora vou
Adeus que me embora vou