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sábado, 28 de abril de 2012

Maio: Primavera Global

Praça Syntagma, Atenas, Julho de 2011. Foto: Carlos Rogerio Duarte Barreiros

Daqui um pouco faz um ano que voltei de Portugal e da Grécia, empolgado com as manifestações que pude observar por lá. Já disse e escrevi, e não canso de dizer e de escrever: o momento que vivemos pode ser uma grande oportunidade para desmercadorizarmos a existência humana, ou pode ser uma grande tragédia, se deixarmos que isso aconteça.

Cada um contribui como pode. Mas não deixa de me chocar que alguns alunos meus se choquem com as visitas que fiz às praças de acampados. Por isso é preciso veicular os conteúdos que a grande mídia não veicula, falar a respeito das ocupações, entender em detalhes as situações específicas de Argentina, Portugal, Grécia e Islândia - para entender que papel ocupa o Brasil nesse contexto. Por tudo isso vão algumas indicações de leitura - a minha contribuição é fomentar a leitura e reflexão das pessoas. Foi o que escolhi fazer desde moleque. Sem moralismo, nem cagação de regra, nem apontamento de dedos: um dos maiores problemas das nossas novas gerações é a desinformação ou a informação mal articulada, de "orelhada", que são quase a mesma coisa. A reforma do mundo passa pela reforma dos sujeitos: é preciso alimentar-lhes a emancipação, interromper os processos de alienação e de reificação por que todos passamos. Acredito que a leitura é um dos caminhos - não o único, mas certamente um caminho necessário.

Se falta paciência pra sentar e ler um livro; se essa falta de paciência é valorizada na cultura do "nunca leu nada, mas enriqueceu"; se a indústria farmacêutica se beneficia disso, lançando remédios para acentuar a "concentração"; se uma pessoa que lê acredita que só se pode obter cultura e emancipação por meio da leitura de textos clássicos - se tudo isso ocorre, é urgente que leiamos mais.

Ler é como fazer exercício na academia: dói no começo, mas depois a gente se acostuma e quer mais; enriquecer não deveria ser o propósito da leitura: nem tudo tem que ter "utilidade de mercado" - e a emancipação do sujeito passa pelo desfrute estético gratuito, sem finalidade prática, o que já é, por si só, uma atitude revolucionária; transformar em doença o que é uma prática cultural - a valorização de espíritos rasos, alienados e reificados - talvez seja dos maiores crimes que a humanidade já tenha cometido, não só porque reafirma a alienação, mas também porque se aproveita até à última gota de um indivíduo que já é coisa, em processo de reciclagem; finalmente, a abertura das nossas cabeças, rumo à emancipação, vai ter de assimilar outras culturas, para além do racionalismo cartesiano, do sujeito cá e do objeto lá: temos de assimilar culturas de minorias, culturas orientais, culturas populares, culturas orais e culturas que tragam para a reflexão as experiências do transcendente e a reintegração entre os homens e a natureza.

DOIS LIVROS FUNDAMENTAIS

Occupy, de vários autores (entre eles David Harvey, Emir Sader, Immanuel Wallerstein, Slavoj Žižek,Vladimir Safatle) avaliando a avalanche de ocupações que rolaram pelo mundo. Os textos são curtos, claros e objetivos, mas com a densidade e a crítica que é necessária - trazendo para o universo da reflexão, inclusive, as deficiências dos movimentos de ocupação. Link na Editora: http://www.boitempo.com/livro_completo.php?isbn=978-85-7559-216-8

Portugal: Ensaio contra a autoflagelação, de Boaventura de Sousa Santos, cuja proposta de desmercadoziração do mundo já comentei aqui. A ideia de que outro mundo é possível está toda nesse livro, inclusive com propostas concretas. Link na Editora: http://www.almedina.com.br/catalog/product_info.php?products_id=7964

LINKS PRA ENTENDER

Propostas do Democracia Real Brasil: http://www.democraciarealbrasil.org/?page_id=133

Página Oficial do Democracia Real Brasil no Facebook: https://www.facebook.com/DRYBrasil

Centro de Mídias Independentes de Portugal: http://pt.indymedia.org

Página do Movimento #12M São Paulo: https://12msp.milharal.org/


quinta-feira, 26 de abril de 2012

A título de provocação e de inspiração - Parte II

A acupunturista perguntou-me: qual o sentimento predominante na sua vida? E eu tive de responder: é o medo - medo de quê, Rudgero? E eu responderia que pra começo de conversa é medo da cidade, em que se configuram os horrores deste tempo, as violências de toda ordem, das mais sutis às mais explícitas. Eu diria que nesta cidade grassam o autoritarismo e o conservadorismo travestidos de bom mocismo, como os filhos limpos dos bairros ricos, sorrindo os dentes clareados e vestindo as camisas polo rosas, brilhando cristandade e exalando monturo de anos de plantações de café e indústrias, de imprensa criminosa e especulação imobiliária.

Mas a cidade e os filhos dos bairros nobres não serão tudo, argumentará minha terapeuta - ao que responderei, a razão em punho, o punho em riste: não são tudo mas tudo ordenam, tudo dispõem à sua vontade e à sua volta, em círculos concêntricos de condomínios fechados, shopping centers integrados, prédios corporativos, parques bem cuidados e obras viárias - a glória mais alta que ora se alevanta neste bric, seja talvez bricabraque, em que restos indispostos de selvas e favelas recebem turistas curiosos de um modo de vida impressionante, regido de privação e integração à natureza: ó gloriosa sustentabilidade ostentada desta terra de injustiças sociais, quanto do teu húmus não são cadáveres anônimos de trabalho morto de homens mortos em vida.

Mas deus esteja, argumentará o sacerdote, seja ele qual for, que de sacerdotes não curo: há sentido em tantas mortes, em tanta miséria, em tanto vazio - este oco imenso que não para de crescer - ao que lamentarei, as mãos atadas em gesto de oração, mas pensas à moda de Drummond: certamente creio que haverá sentido, mas o que eu vejo é o horror absoluto, frequentamos uma igreja e nos julgamos sãos, lemos um livro e nos julgamos sábios, viajamos aos Estados Unidos e imaginamos conhecer uma cultura nova, consultamos o Google e acreditamos ter nas mãos a máquina do mundo, seja da Microsoft ou da Apple. Eu não me vejo - salvo num triz de literatura, quando às vezes -, apavorado da fenda que eu próprio sou, cindido ao meio entre nada e coisa nenhuma.

Mas ao menos a arte nos salvará, proporão alegres os meus amigos queridos, e os artistas, a arte que afinal alivia o medo - mas é por pouco tempo, argumentarei, o copo imaginário numa mão, o cigarro hipotético na outra, porque com paraísos artificiais eu não conto, por mais que eu careça dessas panaceias. Mesmo a arte se compõe no edifício da roda-viva, mesmo ela se degrada no limite do mercado, que não conseguimos transcender - de medo de ficarmos sozinhos, de sermos passados para trás, de morrermos na sarjeta, de vivermos em privação - que são as últimas atrações de Hollywood, do cinema brasileiro e da cidade que eu temo tanto, que transforma a miséria em produto, onde os prédios tomam vida aos homens e os fazem esgotar as últimas gotas de revolta em horas extras não pagas, onde o trânsito regula os horários que gozamos em carros confortáveis, a província arrogada de metrópole.

Mas existe este blog, a rede, o facebook - os espaços em que se pode dizer tudo a ninguém, então você acredita, Rudgero, que alguém lerá este texto até o fim, que isto é literatura, que vivemos uma oportunidade e um momento históricos, conte-me mais sobre isso, rirá irônica uma postagem malfeita de uma personagem que desconheço, num debate superficial, num espaço exíguo, sem método, nascedouro das piores expressões contemporâneas do fascismo: nós todos, os dentes clareados, de camisa polo rosa, rindo à toa por causa do último resultado do futebol europeu, fechando uns aos outros no trânsito e no afeto, cultivando a lógica da concorrência com frases de efeito extraídas do pensamento budista ou cristão - tanto faz, porque o mercado editorial não cura de religiões nem de nuances.

Eu me lembro bem: a atriz global dizia que tinha medo, o que imputava medo - especialmente aos homens de bem, de bens e de família. É o medo, então, que eu ataco em mim: mostrando os meus dentes manchados aos bem nascidos, defendendo o ateísmo só a título de provocação, rindo das propostas pretensamente sustentáveis, lendo cada vez mais só pra sustentar a crítica e acentuar o volume das risadas, falando mal dos filmes e dos artistas limpinhos do padrão Globo de qualidade e do padrão Veja de superficialidade, despejando na rede malcriações como esta, que redigi apenas a título de provocação. E foi assim que tomei coragem, num momento de inspiração.             

domingo, 15 de abril de 2012

A título de provocação e de inspiração

Fui assaltado de uma musa no Rio de Janeiro - não era carioca, evidentemente, era meio alemã, meio portuguesa. O Rio de Janeiro é terra de muitos turistas, cidade portuária, onde muita gente circula e algumas encalham. Estou por aqui encalhado há mais de uma semana: já é hora de recolher os restos e fragmentos do que aprendi e de voltar para São Paulo, de onde afinal, acredito, jamais conseguirei sair. Mas os poucos leitores pacientes deste blog - tudo me dizem as estatísticas do Google, oráculo destes tempos: vocês são cerca de cinquenta visitantes por dia; desses cinquenta, cerca de setenta por cento serão desavisados que vêm passar os olhos por aqui por engano. Vá: quinze leitores que alcançam a metade dos posts. É mais do que eu poderia esperar - os poucos leitores deste blog, dizia eu, já devem ter percebido que ando encantando pelas plagas cariocas. Também já perceberam que andei meio calundu - ah! os vocábulos machadianos que me assomam aos dedos enquanto digito! Mas retomo: fui assaltado de amores por uma musa meio alemã, meio portuguesa.

Inspirou-me essa musa a declarar que são quatro os grandes pensadores desta minha geração maldita - a dos nascidos, para arredondar, de 1975 a 1980, ao menos aqueles com quem me relaciono: Theodor Adorno, Walter Benjamin, Marcelo Nova e Angeli. Pasmais, próceres? Como é que se pode aglutinar numa mesma linha, sob o epíteto de pensadores, dois filósofos alemães, um roqueiro baiano que não é Raul Seixas e um cartunista ítalo-paulistano? Explico - mas as linhas que seguem serão obscuras, já aviso: foram-me sopradas ao ouvido por uma musa meio alemã, que conseguintemente consegue formar palavras maiores que um braço de lutador de UFC (mas as palavras terão ainda mais potente musculatura) e que para nós, brasileiros, soariam como textos que, além de complicados, são cheios de tremas, dois pequenos pontos misteriosos que nunca havemos de abandonar quando oficiais, de defender quando abandonados. Minha sorte é que a musa é meio portuguesa: o que lhe põe os pés na areia da praia e lhe dá ares tropicais, mais plásticos, mais atados a esta nossa realidade. E paciência para me explicar tudo. Não sabia, leitor, que os portugueses são pacientes? Pois são, ora como são: quem espera Dom Sebastião há tantos anos há de ter o dom da paciência, como não o terá?

Ora afirmo o que me soprou a musa: não se há de negar que Adorno e Benjamin são grandes pensadores desta minha geração maldita. Há no primeiro desses dois filósofos um ímpeto destrutivo das ideologias que é construtivo, mas que é extremamente violento. E os nascidos de 75 a 80, ao menos os que merecem a minha amizade, são assim: destrutivos mesmo, mas com o propósito de construir um mundo diferente. Não lhes falta o desejo de arrebentar as estruturas, de comemorar a queda das Torres Gêmeas, de arrasar com as transigências politicamente corretas, de duvidar de tudo. Herdamos das décadas de 60 e 70 esse afã demolidor - e ainda bem. Antes essa pulsão violenta do que o ajustamento e a cabeça baixa dos acostumadinhos à vida fácil, supostamente sem ideologias, supostamente sem método - especificamente o materialista dialético. Aonde se vai buscar a explicação da crise atual do capitalismo? Certamente não é no Economics for dummies, muito menos no Pai Rico, Pai Pobre - esses clássicos do pensamento da última década do século XX e da primeira do XXI. Talvez seja em Mészaros, Sousa Santos, Hobsbawn - velhinhos socialistas incontroláveis, dentre outros. Desculpe-me o leitor, permita-me ser mais decoroso e politicamente correto: trata-se de homens da melhor idade que propõem que cada qual dará, segundo sua capacidade e que a cada qual se dará, segundo suas necessidades, homens cujos ímpetos não podem ser domados pela ideia fácil do lucro, da exploração ou da celebridade. O leitor será benévolo e complacente: sou de um tempo em que se dizia palavrão e verdades na cara.

Mas Adorno é difícil - exige horas de leitura, bundas em cadeiras, planejamento de estudos, rigor e disciplina. Para lê-lo, pode-se começar pelo ímpeto de destruição das ideologias - e para começar por ele é preciso vivê-lo. Ah, o gozo de gritar "Bota pra Fudê! Bota pra Fudê! Bota pra Fudê!" diversas vezes, secundando aquele sangue nos olhos - que se opõe aos olhinhos vazios de muito remédio, pouco cigarro e pouco desbunde antes dos quinze, com muita salada, muita academia e muita proteção - raiva boa que todos tínhamos - e que ainda vai nos salvar. Tudo desaguava em "Não vai haver amor nessa porra nunca mais" rezado em paralelo com o "Pai-Nosso":

 

Eis o Hino da Nova República - que hoje ainda soará subversivo aos ouvidos mais delicados, de uma classe média que cresceu e não andou de ônibus. Tanta heresia, tanto horror, tanto desamor, tanto sarcasmo - tudo advindo da Boca do Inferno de Marcelo Nova, a cuja crítica não escapavam nem Marx, nem Freud, nem Cristo. A falta que faz um Marcelo Nova que jogue os tijolos na vidraça ou a merda no ventilador!

Note bem, leitor, agora o salto gratuito que darei, porque quero ser sublime e intelectual: Angeli é artista plástico da mesma cepa, cujos Skrotinhos sintetizam a experiência de minha geração ao menos aquela que pude observar. Bob Cuspe catarrava na classe média que o lia - e exigia um posicionamento claro: você será um babaca ou vai fazer alguma coisa? ecoando outros pensadores do tempo. Pena é que a maior parte se acorvardou - ou o sistema nos mostrou que era e que é capaz de assimilar mesmo seus críticos mais veementes. Mas Angeli, todos os dias, na Folha, joga o tijolo na cara da tucanagem que o lê. Imaginem o senhor respeitável de classe média alta, em pleno feriado, no Litoral Norte, lendo a tira abaixo:


É agora que alcançamos Walter Benjamin - e a capacidade de imaginar que era possível politizar o cinema para resistir ao fascismo, que estetizava a guerra. Mas Benjamin também dá trabalho - exige leitura, tempo de reflexão, um pouco mais do que uma consulta à Wikipedia. O trabalho degrada e explora; os discursos corporativos massacram o espírito; comemoremos a prisão do Maluf e o encaminhamento para a legalização do aborto; politizemos nossas pesquisas acadêmicas; olhemos para a América Latina, sobretudo para a Argentina e para o Chile, com respeito, pelo engajamento; dediquemos tempo não ao networking, mas às atividades não mercadorizadas; as formas de Modigliani são ainda periféricas; eis o Dicionário dos Lugares Imaginários; gizemos aqui novas propostas para a Universidade - toda sorte de impropérios foi o que a musa meio alemã, meio portuguesa, me inspirou. As formas eram todas arredondadas à moda de Angeli; os impropérios eram todos forrados de palavrões e ironias, que repetíamos à larga, como pequenos Marcelos Novas - ficamos mais jovens quando rimos; o impulso que nos movia era sempre implacável, como o de Adorno, mas víamos as alternativas - dando vida a Benjamin.

"Impropérios apenas: eu mesmo nunca andei de ônibus, só circulei em BMWs e degusto uma garrafa de vinho que é mais cara do que o seu carro" - disse-me um empreendedor que já comprou meio Rio de Janeiro - e dizem os taxistas que comprará a outra metade ainda antes dos eventos esportivos. É fato que o mundo não mudou - em certo sentido, talvez tenha piorado. Mas os nascidos de 75 a 80 com quem tenho falado, apesar de taciturnos, nutrem grandes esperanças: seguem acreditando que outro mundo é possível, por mais velha que soe esta frase. Mas estamos mesmo mais velhos, não temos mais todo o tempo do mundo. E é essa retidão de compromisso que nos move - disse-me assim a musa luso-saxã, os olhos cheios d'água. Concordei com ela e escrevi este texto, só a título de provocação e de inspiração. 

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O inferno sou eu

O pesadelo às vezes avança sobre o dia, como se fosse mar desrespeitoso das calçadas que o homem fez na orla. Tem de ser assim mesmo: sismos não têm previsão, mas são ajustes de placas tectônicas profundas, arranjos cujo propósito final não nos assiste conhecer. É aceitar os tremores e as ressacas quando acontecem, mesmo que não tenhamos bebido nada.

Há de se perceber, mas nunca percebemos, que aquele sonho vai tornar-se pesadelo e que esse pesadelo vai arrastar-se sobre o dia. Há sinais: quando no sonho os fantasmas têm os cabelos encrespados, quando a areia  torna-se pântano, quando o quarto à beira da praia é invadido pela maré - são todos sintomas de que o pesadelo vem. Já é pesadelo - já ingressamos no próprio inferno - quando o sonho não acaba. Acordamos e sonho continua importunando; abrimos os olhos, tomamos água, mijamos de fazer espuma - e o sonho continua importunando. Pesadelos não acabam.

E os mortos não riem nos pesadelos, em que não há o brilho fácil das almas sorridentes em despedida. Nos sonhos ruins as almas não se despedem: transeuntes gratuitas, elas permanecem pelos cantos, disputando espaço a outras, a imagens tenebrosas, a toda sorte de impurezas que habitam os sonhos - nudez pública, incestos, transfigurações de pessoas queridas em animais ou em pessoas indesejadas, perversões de toda sorte, vertigens, quedas, alturas, mortes súbitas, sensações apavorantes.

Sabemos ao acordar que o pesadelo não vai passar. Diferençamos estar desperto de estar em pesadelo - mas a ambiência, a sensação tátil da alma em polvorosa volta como em ondas, às vezes fortes, às vezes fracas, mas constantes. Na mesa de trabalho, o tremor causado por algum passamento faz desconcentrar. No almoço o estômago revira - no pesadelo o leite queimado empestava o ambiente. A tarde é interminável - falta o chão, falta a voz, toda audição é surda. As pessoas parecem-nos inéditas, mesmo os familiares mais próximos: é esta a minha mãe? é este o meu pai? é esta minha mulher? esta criança é mesmo meu filho?

Acreditamos poder prevenir-nos do sismos - são horas de terapia, de exercícios metódicos nas academias, de caminhadas nos fins de semana, de reclusão espiritual, de contato com a natureza, se nos permitimos a tanto, especialmente ao lugar-comum de "gostarmos de nós mesmos". Mas há um recôndito - este mesmo que não permitiu viver o dia de hoje no dia de hoje - que se ativa numas poucas horas, sejam de euforia extrema (porque felicidade mesmo talvez não exista, já me disseram filósofos e sacerdotes), sejam de depressão - horas que nem percebemos, horas em que o inferno sou eu.

sábado, 7 de abril de 2012

Descanso

O seu colo, porção entre os seios,
é meu abrigo nas noites em que dormimos entrelaçados
e não há você ou eu - nós existimos um no outro,
em amálgama de corpos e almas que se misturam
e que evolam para além do quarto.

É nesse eflúvio que me conforto nas noites de distância
- esta, hoje, aqui -
que umedece este quarto e os sonhos
trazendo-me à memória o teu cheiro
e os traços de flores na sua pele,
e os poemas, e as inscrições, e as cicatrizes
como se você dissesse que me ama à meia voz
e como se eu respondesse com seu nome ou meu amor,
em fusão de corpos indistintos, em pacto de almas inconclusas
- não sabemos nada da vida, nem sabemos no que vai dar isto tudo,
mas sabemos que queremos um ao outro.

E de tanta incerteza, sorrimos -
os sonhos à parte, a realidade concreta, a vida presente,
radical e violentamente lançada em arco fulminante,
nada nos pode atingir -
porque descansamos um no outro
em emanação de nós: as histórias, as vidas e os corpos cruzados.
 
Assim podemos repousar, as mãos dadas, mesmo que distantes,
o seu colo, o meu peito - os abrigos.

terça-feira, 3 de abril de 2012

De filósofos e poetas

"É uma descoberta minha de que estou vaidoso e presumido - esta de ser a lógica e a exação das coisas da vida muito mais sonho e muito mais ideal do que o mais fantástico sonho e o mais requintado ideal da poesia.

É que os filósofos são muito mais loucos do que os poetas; e de mais a mais, tontos: o que estoutros não são"

Almeida Garret. Viagens na Minha Terra, Capítulo XXXIX