Total de visualizações de página

sábado, 26 de maio de 2012

Apolonio de Carvalho, a trajetória de um libertário

A exposição Apolonio de Carvalho, a trajetória de um libertário presta uma homenagem aos 100 anos de nascimento deste “internacionalista” que dedicou sua vida à luta pela justiça, liberdade e democracia no Brasil, Espanha e França.


A mostra percorre a história de Apolônio desde a sua infância, em Corumbá, Mato Grosso do Sul, passando pelos principais acontecimentos políticos e sociais do século 20, como a Insurreição de 1935, a Guerra Civil Espanhola, a Resistência Francesa contra o nazismo, a luta contra a ditadura militar, o exílio, a anistia e a reconstrução democrática no Brasil.
As fotografias, documentos, filmes, depoimentos, cartazes e objetos pessoais aqui reproduzidos fazem parte de um grande acervo coletado durante a pesquisa realizada no Brasil, França, Espanha e Rússia, para a produção do documentário “Vale a Pena Sonhar”, de Stela Grisotti e Rudi Böhm.
Onde: Memorial da Resistência - Largo General Osório, 66 - São Paulo, SP
Quando: de 31 de março a 1 de julho
Quanto: gratuito
Informações: 11 3335-4990

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Abaixo o esporte brasileiro - Parte II



Sugiro a leitura da entrevista a seguir, com o professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Valter Bracht, doutor pela Universidade de Oldenburg (Alemanha) e coordenador do Laboratório de Estudos em Educação Física (LESEF), os megaeventos reforçam o investimento público no esporte de alto rendimento – profissional, para competição – e deixam o esporte como lazer e prática para saúde cada vez mais fora do alcance das pessoas.

http://apublica.org/2012/05/copa-e-negocio-nao-incentiva-esporte/

Agora virou questão de honra: enquanto o esporte brasileiro não reverter positivamente em termos sociais para o próprio Brasil, eu não sossego. Esporte - se é pra fazer a barulheira que faz e movimentar as pessoas do jeito que movimenta - tem de ter retorno social pra população carente. Sediar grandes eventos, só se for pra melhorar as cidades. Caso contrário, o lema é #foraesportebrasileiro.

O Turista Paulistano (o barato é dizer que tem)

O paulistano em cidade grande brasileira que não é São Paulo equivale a um europeu nórdico no Pelourinho: fica perdido, procurando placas indicando o caminho para uma das Marginais, numeração de casas em ordem crescente, alguém falando italianado. O paulistano procura São Paulo em todas as cidades, por isso acaba se hospedando em hotéis de redes internacionais - pra ter a sensação olfativa de escritório da Avenida Paulista ou da Faria Lima. Porque ao nariz delicado do paulistano todas as cidades fedem, exceto São Paulo; todas as cidades estão cobertas de lixo, exceto São Paulo. Em nenhum lugar o cliente é atendido com tanta celeridade quanto o é em São Paulo - isso pelo menos é verdade, argumenta o paulistano.

Mas o paulistano assistiu, no último festival de cinema, a um filme europeu alternativo em que jovens nórdicos mochilavam no Camboja à cata de aventuras - e quer aventurar-se também entre o pitoresco, afinal é no exagero romanceado dessas aventuras que surgirá o bom relato na mesa de jantar, para os amigos, no sábado à noite, num restaurante japonês da Vila Madalena. É preciso aparatar-se: de boné de time americano de beisebol, colete cáqui, camisa que comprou no intercâmbio na Nova Zelândia, calça jeans de marca, mas já envelhecida de dois anos, e tênis marrom para esportes radicais, o paulistano sai de GPS do celular nas mãos, à cata de pontos turísticos que ouviu a um amigo que já tinha visitado a cidade e que contara histórias incríveis num jantar no sábado à noite, num restaurante tailandês da Vila Olímpia. O GPS está perdido nesta terra de ninguém; ninguém sabe dar informação; até o suco demora a vir - faz tanto calor nesta terra; o ponto turístico não abre no fim de semana. No centro de São Paulo isso jamais aconteceria, argumenta - mas este paulistano nunca vai ao centro. (Mas a vitória de viver em São Paulo é exatamente ter o gozo à disposição, sem gozá-lo, em trepada homérica sem orgasmo, que cai, portanto, na vala comum do sexo meia-boca e burocrático de personagens de Kafka). O barato é ter e não usar. O barato é dizer que tem.

Quando vai a outra cidade, entretanto, tudo muda. Quando se trata de cidade brasileira, é preciso arrancar-lhe o exotismo que fará do paulistano um europeu. Mas a história para contar está garantida: enquanto caminhava, o paulistano descobriu um restaurante que não figurava nos guias gastronômicos da Veja, mas que lhe soou pitoresco o suficiente, sem ser sujo demais - perfeito para um relato enriquecido de detalhes. O dono do restaurante era indiferente, mas tornar-se-ia mal humorado, para que a história tivesse uma personagem ao mesmo tempo cômica e sisuda - exótica, em uma palavra. A comida ganharia ares e odores estranhos, de sabor especial, de nomes bastante indígenas, de uma tribo desconhecida o suficiente para o relato futuro alcançar musculatura antropológica. Sem dizer que estar num lugar é degustar-lhe a comida típica - o clichê que coroa qualquer relato de viagem com a coragem de experimentar pimentas e alimentos que poderiam, na cabeça do paulistano, matar de intoxicação alimentar.

No caminho de volta, empanturrado de comida diferente, a barriga saliente com a camisa pra fora da calça, o paulistano cruza um córguinho - córrego - que ele aprende a chamar de igarapé. Ali estão duas personagens fundamentais do relato futuro no almoço de sábado à noite: um mestiço sabe-se lá de quantas etnias - o paulistano só entende de nomes italianos, de cantinas no Bixiga e de cinemas na Paulista - e o lagarto numa árvore à beira do riozinho - opa, igarapé. O paulistano não sabe, mas os ancestrais do lagarto haviam fugido diretamente das paredes de uma igreja portuguesa, onde lagarteavam felizes e preguiçosos, mas buliram-lhes com o conforto, de modo que vieram ao Brasil no paquete de dom joão. "O lagarto está empanturrado, tem bastante comida pra ele aí", comenta o sertanejo, o boné de um posto de estrada que tem rodízio a R$ 10,90, camiseta do Flamengo, shorts adidas dos anos 80 e os pés esgarçados e ressequidos de andar de chinelo. O paulistano exulta: fotografa o lagarto, de modo a destacar-lhe a pança, mas não deixa entrarem na foto os restos de salgadinhos, as garrafas pet, os plásticos de supermercado, o sofá, um joystick de Atari - o igarapé lembra o Tietê, sobre o qual não vale a pena meditar, o cheiro é terrível, de modo que a lente do paulistano procura o lagarto estirado na árvore, tomando banho de sol, a barriga cheia de lixo - mas ninguém precisa saber que é lixo. Fotografa, em ousadia fetichista, os pés do caboclo - e depois usará essa foto em branco e preto na capa do Facebook, o que causará impressão forte entre os amigos do escritório, que lhe louvarão os dotes de fotógrafo. Será a glória.

Agora, satisfeito, o caminho de volta, ainda a pé, apesar da vontade de táxi. Na avenida, apinham-se shopping centers, depois lojas de grife, depois imóveis abandonados, depois uma pequena favela, depois uma montanha de lixo, coroado de uma revoada de urubus-reis – poderia ser feito um prédio de escritórios aqui, todo paulistano, mesmo que humanista, carrega no sangue um pouco de especulador imobiliário, além da antipatia e muito emproamento, é claro. Onde há calçada, há carros estacionados. O paulistano reclama os direitos: mas e como ficam os pedestres? mas e os direitos dos ciclistas? mas e o crescimento ordenado da cidade? mas e o transporte público? não tem CET? Nada funciona nesta cidade - é uma mordida de saudades de São Paulo, cidade finalmente mais próxima dos grandes centros do mundo - lá não se fuma, lá se ganha dinheiro, lá tem a usp, lá as pessoas não são tão malucas no trânsito, lá tudo funciona 24 horas, lá tem o einstein e o sírio-libanês, lá a gente é bem atendido, lá o PT não ganha (só às vezes), lá tem a Sala São Paulo e o Masp (mesmo que ele nunca vá, porque o barato é ter e não usar, pra dizer que tem), lá a calçada tem continuidade, aqui uma hora ela acaba, lá a rua não fede tanto, lá não tem tanta pobreza.

Acolhido no hotel, o paulistano medita na loucura de viver numa cidade como esta - sem sinalização, sem o GPS funcionar, cercado de gente que não sabe nem quer ganhar dinheiro, com terreno sobrando pra fazer um belo condomínio fechado, mas com essa família terrível que não desapeia do poder. Pela janela, na proteção do ar-condicionado, ele entende: lá fora, ganha o espaço uma revoada de tucanos, encantando-lhe os olhos e fazendo-o entender a diferença entre a grande metrópole e a capital local. 

terça-feira, 22 de maio de 2012

Eu devia confiar mais em mim (sem carro)

Só tirei carteira de habilitação aos 21 anos, porque achava uma besteira ter carro. Eu devia confiar mais em mim - mas só me toquei disso hoje, depois de completar 36 anos de idade.

Mas hoje acabou a palhaçada: vendi meu carro, e não comprei outro no lugar. Pronto. Acabou: da última vez em que bateram no meu carro, uns quinze dias atrás, uma iniciante ao volante disse que não pagaria nada, embora ela tivesse seguro e eu estivesse na preferencial, que ela atravessou irresponsavelmente. Pra mim chega: não preciso mais passar por esse tipo de experiência, em que as pessoas não assumem as próprias responsabilidades porque o Carro - esse ente que pra elas é a Muiraquitã da qual emana a felicidade - foi lesado. Desde que tirei carta, fui fechado, humilhado, desrespeitado, me mostraram todos os dedos, me fizeram todos os sinais feios e obscenos que se pode imaginar, me xingaram de todos os nomes, riram de mim, ameaçaram me matar, puseram minha vida em risco. Sofri bullying automotivo, tomei faróis na cara porque eu dirigia um Uno, e porque quem vinha atrás tinha um Vectra, ou Bora, ou BMW, ou Mercedez, ou qualquer merda dessas - mas que, na hierarquia dos carros as coloca acima das regras coletivas dos limites de velocidade e de segurança.

(É o exemplo do imbecil que argumenta que pode correr à vontade porque tem airbag - ou seja, a ele nada vai acontecer. Como se o que acontecerá aos outros não lhe diga respeito - mas diz sim, amiguinhos, por mais que haja aqueles que saiam ilesos fugindo de acidentes ou não pagando multas ou impostos porque "têm contatos lá dentro". Ainda há de chegar o tempo em que respeitaremos limites de velocidade por convicção, e não por medo de multa; há de chegar o tempo em que os impostos sobre grandes fortunas serão revertidos para ações sociais: estamos trabalhando pra isso)

Nunca liguei pra carros, sempre caguei pra eles. Nunca fui apegado: meus carros sempre foram simples e tradicionalmente imundos - perguntem aos meus amigos, às minhas ex-namoradas, às minhas duas ex-esposas, aos meus irmãos, à minha mãe. Houve quem tivesse nojo de pegar carona comigo: "obrigado, vou de ônibus", muitos me disseram, quando viram o que havia dentro do meu carro. Mulheres juraram terminar comigo se eu não lavasse o carro. Outras levavam meu carro pra lavar e polir, inconformadas com meu descaso com aquele bem.

Um dia, no Rio de Janeiro, passou, dentro de um carrão bem bonitão (acho que uma Ferrari, o último dos fetiches em termos automobilísticos) um playboy, mas tão playboy, fazendo uma pose tão imbecil, que eu não aguentei: caí na risada. O cara ficou putinho, quase quis arrumar briga, fez cara feia, como se me chamasse de "suburbano". No mínimo, o cara trepa com o próprio carro, tal é o fetiche que tem com ele. Respeito: cada um com sua tara. Mas carro pra mim não rola, não dá. Cada centavo que eu gastei em carro me parecia dinheiro jogado fora. Quando eu comprei carro mil, me disseram que eu pagaria muito dinheiro de seguro (e tive de pagar), porque o carro era muito visado pelos bandidos; quando comprei um carro intermediário, de gente meio de classe média média - um Fox - ele passou três meses do primeiro ano de existência na concessionária. Só resolveram meu problema quando gravei, de gravador mesmo, todas as conversas que tive na concessionária, da moça do atendimento ao gerente, passando por técnicos sabichões e "consultores" sorridentes de plástico. Prometi levar o caso à TV, gravador em punho: aí recebi pronto atendimento. Até menti, dizendo que eu era "um blogueiro famoso na internet" - mentira deslavada, porque este blog, quando tem muitos acessos, não alcança nem 300 por dia - e que iria acabar com a concessionária nas redes sociais. Todas são iguais - ao menos as de classe média média a que eu fui.

Ao longo dos anos, fui enganado por mecânicos, borracheiros e rebimboqueiros de parafuseta; motociclistas buzinaram em meus ouvidos sem motivo nenhum; perdi horas inúteis parado no trânsito, em que eu poderia estar fazendo amor, lendo James Joyce - tradução da Bernardina da Silva Pinheiro (que eu nunca li) -, ouvindo Leonard Cohen ou preparando aula. Não tenho a menor vergonha de contar: li as Memórias Póstumas de Brás Cubas inteirinhas, mas aos pedaços, pela primeira vez, no ônibus que saía da Augusta (eu dava plantão de redação no São Luís) e ia pra USP. A cada viagem, muitas páginas, cujas dúvidas eu ia anotando como dava, no bambolear do bumba, pra depois perguntar pro José Antonio Pasta, meu professor de Literatura Brasileira, a quem, anos depois, eu daria carona - e que dizia que eu dirigia muito mal, com toda razão. O fato é que não melhorei no volante, mesmo dirigindo diariamente, mas li muito menos depois que comprei meu primeiro carro. E ainda tenho de aturar o impropério de que "Ayrton Senna é um herói nacional" porque ele... sabia dirigir um carro. É muita imbecilidade simbólica investida num só objeto: um carro. Foda-se. Tô fora.

Tem outra coisa: como disse acima, sou mau motorista, admito. Sou desatento: basta dizer que tive a carteira de habilitação retida por um ano por causa de três multas de rodízio e duas de velocidade - numa, eu trafegava a 65 por hora numa via cujo limite era 60; na outra, na mesma via, eu trafegava a 70. Quase matei meu irmão em um acidente que causei, de inteira responsabilidade minha. Meu irmão me livrou a cara: poderia até ter me posto em cana, se quisesse. Não há dia em que eu não pense nesse acidente, e muitas vezes acordo com o som do ferro retorcido e a imagem de meu irmão coberto de sangue, perguntando-me o que é que tinha acontecido - tudo culpa minha. O pessoal do resgate riu de mim e tirou sarro da minha cara, com razão. Quase matei de susto meus pais e outros motoristas, várias vezes, por causa de minha imperícia.

Em suma: o trânsito é mais seguro hoje, em que eu não dirijo mais.

Agora tem uma coisa, que eu aprendi, e que me fez escrever este post: quando completei dezoito anos, eu já achava que ter um carro e dirigir era uma grande merda - a responsabilidade pela vida dos outros; a atenção redobrada que nos é exigida; a cobrança social por ter um carrão (sempre tem um carro melhor do que o seu, sempre; só o Thor Batista pode ter uma Maclaren [cara, alguém em pleno século XXI chama "Thor" e tem uma Maclaren: isso faz de Thor e Ayrton Senna praticamente irmãos]; a pressão da Polícia Rodoviária (basta ter uma luzinha faltando pra tomar a maior multa); os custos de IPVA, de Seguro Obrigatório, de estacionamento, de combustível, de multas (justas ou não, resultantes da indústria da multa ou não); o apego inevitável (onde é menos perigoso parar?); a manutenção, a lavagem, o cuidado com os bancos; tem de trocar o óleo, tem de limpar isso e aquilo, calibrar os pneus; as sacanagens da indústria automobilística (lembra o caso do Fox que decepava os dedos das pessoas e que nunca saiu nos grandes jornais?), que é uma das mais beneficiadas do Brasil, mas que fode o meio-ambiente, o consumidor, as pessoas em geral; o convívio, no trânsito, com verdadeiros animais (eu fui um deles, admito sem medo), que dirigem irresponsavelmente; as horas perdidas ao volante.

Eu já pensava tudo isso a respeito de ter carros. E ainda assim insisti em ter carro. Burro. Imbecil. Alienado. Rogério-Vai-Com-as-Outras. Classe média ascendente metido a rico acéfalo que eu era. Eu devia confiar mais em mim, nos meus instintos, nas minhas convicções. Existe vida sem ter carro. Dirigir é pra quem tem perícia pra isso, não pra mim. Não é pra qualquer um.

É claro que não ter carro tem desvantagem: não posso viajar na hora em que eu quiser (mas posso alugar um carro pro fim de semana, né?). E acabou. Só tem essa. Não ter carro não tem mais nenhuma desvantagem, ao menos pra mim. Não sou mais escravo dessa merda.

Mais ainda: sem carro, eu planejo melhor a minha vida e meus horários. Uso vários meios de transporte (combino andar, com táxi, com ônibus, com metrô, tudo dependendo de onde eu estiver e de como estiver o tempo e o meu humor). Bom tempo: saio cedinho pra andar uma parte do caminho ouvindo um som. Mau tempo: saio cedinho de táxi pra chegar logo no metrô, sempre lendo alguma coisa. Eu não bebo mais, então acordar bem cedo é fácil - aliás, fiz isso a vida toda, de ressaca ou não, pois na minha profissão as pessoas entram em aula às sete da manhã. Mais do que isso: rejeitando a propriedade do carro, eu crio um modelo de felicidade pra minha vida que está desligado desse bem. Aplicando o dinheiro do carro, eu ganho uma graninha, que com o tempo pode até virar uma grana legal, pra comprar um livro - sempre nos termos de classe média média, que é o que sou e que vou ser, e pra mim já basta. Empregos, só vou aceitar aqueles cujo acesso me for favorável - e isso vai melhorar minha vida, cujos caminhos, custos e escolhas estão destinados ao meu bem estar.

Para a próxima eleição, vou fazer questão de procurar candidatos com projetos alternativos de transporte: eu posso gozar do luxo não ter carro, já que moro num bairro razoavelmente central. Mas se eu morasse na periferia, ou seriam as horas intermináveis no ônibus ou no carro - e isso não é justo com o resto da população. Estava demorando pra rolar acidente no Metrô, do jeito que ele está. Quem andava de Metrô há vinte anos e anda hoje sabe do que estou falando. E o papo de investir em transporte público é mais velho que andar pra trás. Vinte anos de PSDB e... quase nada mudou no Metrô - e a demanda só aumenta.

Uma amiga minha, muito, muito querida, artista talentosa e polemista de primeira linha no facebook, a Camila Conti, vive dizendo que espera pelo dia em que São Paulo pare, tal o trânsito. Pois bem: eu também. Nesse dia, quando me disserem que parou tudo, estarei a pé, não chutarei meu carro - porque eu não vou ter um carro. Eu vou a pé pra casa. Mas e o resto do pessoal que, ao contrário de mim, mora longe do emprego, como vai fazer? Essa é a questão: cada vez que um carro vai pra rua a IPI zero, a qualidade de vida cai - mas a economia está aquecida, o crédito está a mil, o consumo está crescendo. E a turma compra carro em sessenta vezes. E tome-lhe trânsito. Não tenho um plano detalhado de como combinar crescimento econômico a mudança dos hábitos de consumo, mas observo com facilidade que, infelizmente, nossos ideais de felicidade estão diretamente associados a nossos ideais de consumo (e o carro zero é um dos mais apreciados ideais de consumo deste nosso tempo) - e isso nos leva por buraco.

Não ter carro vai me dar mais tempo pra ler, pra caminhar e pra ouvir música. Deveria ser assim pra todo mundo. Quando se fala em outros mundos possíveis, é preciso pensar em projetos de cidade que permitam a todas as pessoas (não só as que, como eu, têm a chance de morar em bairros mais centrais e próximos de seus locais de trabalho) o desfrute do tempo para as atividades que as beneficiem em termos físicos (no meu caso, andar), mentais (no meu caso, ler) e espirituais (no meu caso, ouvir música e fazer pequenas meditações sobre a vida).

Ou, nas palavras muito melhores de Ricardo Antunes, p
rofessor titular de Sociologia na Unicamp,  visiting research fellow na Universidade de Sussex, na Inglaterra, na Introdução dum livro cuja leitura sugiro a todos:

“A atividade baseada no tempo disponível para produzir valores de uso socialmente úteis e necessários – contrária à produção baseada no tempo excedente para a produção exclusiva de valores de troca para a reprodução do capital – torna-se vital”


ANTUNES, Ricardo. “Introdução: a substância da crise”. In: MÉSZÁROS, István. A crise estrutural do capital. São Paulo: Boitempo, 2011. 

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Oferenda expiatória de mim mesmo (ou bom dia ao Rio de Janeiro)

Meu bom dia ao Rio de Janeiro começa no avião
quando vejo de cima os morros, o Cristo, o Pão de Açúcar
a Baía da Guanabara - que me parece sempre uma imensidão de água
que eu não sei explicar por que os homens insistem em poluir
manchada de óleo e da ponte Rio-Niterói, que parece rasgar ao meio,
numa lufada de grande obra do Brasil: Ame-o ou Deixe-o -
a Baía bucólica do Joaquim Manuel de Macedo.

Depois a moça do avião diz que sou benvindo ao Rio de Janeiro -
mas eu já sabia: sou dessa raça que não nasceu aqui, mas que guarda raízes aqui
amei aqui, chorei aqui, bebi aqui, parei de beber aqui -
trabalho aqui quando o Marcello chama, mas mesmo assim eu gosto
porque trabalhar aqui também é uma forma de amar o Rio.

O bom dia segue adiante quando atravesso a passarela do Santos Dumont
e olho de um lado a Perimetral que leva a todos os caminhos, alguns turísticos,
outros que ninguém quer ver - mas que é preciso ver,
e me dói esse abandono;
e olho do outro lado o Corcovado ao fundo, os prédios e os morros -


essa mistura caótica que é o Rio, que escamoteia a nossa escravidão
cujos efeitos ainda vão demorar muito pra passar
foi assim que disse o Joaquim Nabuco, e é assim que é
(porque é o que ele me diz quando lhe digo bom dia, logo a seguir,
na frente da Academia Brasileira de Letras).


Na Academia, aliás, a passo rápido, dou um bom dia por Manu Bandeira
ele diz que eu não preciso pedir licença pra passar no escritório dele, mas eu sei que eu preciso


e depois aceno ao longe pro Machado, sentado imperioso e sisudo,
cheio de tanta pena e de tanta desesperança e de tanta acidez que faz mal pro estômago
quantas dores de cabeça e quantas noites mal dormidas ele terá tido -
de suportar os escroques que tinha de suportar pra viver?
Mas e se ele gostou de privar com escroques?


Não quero pensar.

Depois dou bom dia aos seguranças do Consulado Americano
que não me deixam fotografar-lhe a fachada:
serei eu de uma rede terrorista?
se fosse na década de 70 eu seria terrorista de esquerda latina
se fosse na década de 80 eu seria um soldado russo tardio, agonizante
se fosse na década de 90 eu seria um discípulo de Saadam
se fosse hoje eu seria qualquer coisa - qualquer tez basta pra ser terrorista
(e eu só queria fotografar o lugar em que sequestraram o embaixador,
porque eu quero ser de esquerda sim, embora me esconda atrás dos livros.
É possível fazer revolução com poesia?
não vai dar tempo de visitar o Drummond em Copacabana)

A seguir, um Ghandi gigantesco caminha a minha frente: aos seus pés, flores


(a cabaça das ideias talvez mereça rosa, lírio ou azaleia)
Tanta violência, mas tanta ternura, nesta terra em transe,
em que milicianos oferecem crédito fácil,
traficantes organizam as comunidades,
filhos de milionários atropelam gente pobre,
especuladores imobiliários transformam máquinas em gente
e gente em máquinas
todo mundo passa no farol vermelho,
todo mundo tira alguma vantagem quando dá,
e todo mundo assiste ao futebol, vê a novela e vive como pode
- esta terra é o Brasil, não é mais o Rio.

Mas o que eu vejo é um Ghandi gigantesco, numa praça do Rio.
Depois, na Cinelândia,
Uma estátua do Getúlio, que perseguiu o partido, mas que ajudou o trabalhador,
Uma estátua do Juscelino, que abriu para a indústria, mas que nos endividou até o pescoço,
O Teatro Municipal imponente, o Carlos Gomes regendo a tragédia ao fundo
(ali faltam dois prédios, ninguém diz mais que eles desabaram, mas a gente gosta daqui,
eu gosto do Rio, apesar disso tudo)


Ao fundo da Senador Dantas, está o Largo da Carioca
(eu não vou lá porque aquele é o Liso do Suçuarão da cidade do Rio -
veredas tortas, veredas mortas - ali mora o demônio)
da esquina eu vejo os Arcos da Lapa e de lá me vêm
os choros que eu não quero ouvir! me doem tanto os choros
e me lembram aquela morena que eu perdi.

E concluo meu bom dia,
reverenciando Vei, a Sol, que impera majestosa na cidade
(salvo no Jardim Botânico, onde tem sombra pra gente descansar
e uns caminhos bucólicos pra namorar)
acenando ao Cristo, que me abre os braços, por mais que eu não lhe creia,
prometendo aos companheiros do Posto 11 que quando der eu passo lá,
pra tomar uma café, falar das tristezas e das alternativas de ser feliz apesar de tudo.

E na cor da morena, no bom dia sorridente do porteiro
do prédio de escritórios em que eu trabalho
fica a impressão de que talvez seja possível ser mais feliz aqui -
onde toda a tristeza talvez possa, ao menos, ser lançada ao mar
em oferenda expiatória de mim mesmo.

domingo, 13 de maio de 2012

Emicida: "um dia vai ter que haver um conflito"




Emicida foi preso hoje por meter o dedo na ferida. Mas já pressagiou tempos melhores, como se pode observar abaixo, no trecho de longa entrevista que deu a Pedro Alexandre Sanches.


Emicida: Tipo isso, você tá falando pra população, “a gente gasta tanto todo ano na Virada Cultural, um megaevento”. Beleza, bacana, é uma ideia muito louca. Mas, cara, por que não organizam os CEUs, não fazem os caras rodar neles? Arte é foda, querem fazer parecer arte e política desconexos, mas não. Arte é oxigenar a cabeça das pessoas, fazer elas pensar em outras coisas. E quando você desvia a atenção das pessoas pra outra coisa é uma caixa de Pandora, um milhão de coisas pode sair de dentro. Elas podem sair dali mais alienadas do que entraram, ou podem sair querendo mudar o mundo, de verdade. Foi o que aconteceu com nós. Você tem um aparato tipo o CEU, imagina se realmente funcionasse. Os caras tavam fodidos, mano. Aí a gente ia ter uns manos nossos circulando dentro da USP mesmo, e outros abdicando da USP porque não ia precisar.

Pedro Alexandre Sanches: Minha impressão é que esse processo é o que está acontecendo, e explica, por exemplo, a sua existência. Não tem volta, vocês vão querer cada vez mais – nós vamos querer mais.

Emicida: E por isso eu faço questão de aparecer mesmo nos lugares. Porque realmente eles podem por panos quentes em tudo, mas, cara, um dia vai ter que haver um conflito. Um dia os caras vão ter que se mostrar publicamente desagradados com isso. E eu acho que isso tá chegando.

Abaixo o esporte brasileiro

Declaro solenemente que bradarei contra o Brasil em quaisquer eventos esportivos que houver, rejeitando agressiva e hostilmente a alienação que idolatra supostos "heróis nacionais". Desejo que todos os esportistas brasileiros percam feio e façam feio, em todas as modalidades de todos os esportes. Não tenho nada contra eles, mas desejo-lhes a derrota, por um bem maior: mobilizações populares de proporções esportivas, mas com propósitos rigorosamente políticos. Enquanto beijamos o distintivo do time na camisa, milhões de reais são desviados, as massas (inclua-se aí a classe média alta que se supõe esclarecida) não veem nada e comemoramos nossa estupidez.

Torcer é contemplação pura e esperança de quem não age. Organizemo-nos para atuar na realidade em vez de gozar com o gol alheio a todos, inclusive ao jogador, que também é peça da engrenagem - mas peça bem remunerada, por isso menos crítica. Recusemo-nos a nos emocionar com a representação das mãos em forma de coração e usemos as mãos pra fazer as coisas - gastemos nosso tempo nos formando e nos informando, interferindo tanto quanto possível para subverter a lógica que faz de nós todos mercadorias.

Que todos os atletas tomem ciência de que são instrumentos fáceis de veiculação de propaganda; que todos os torcedores se deem conta dos vazios de suas vidas e partam para a investigação do que está por trás da indústria de entretenimento do esporte, depois de todas as indústrias do entretenimento.

(Antes que alguém retruque: este texto é favorável ao investimento no esporte nacional, sobretudo entre as classes mais exploradas, mas se opõe à histeria coletiva que obscurece a visão ampla do panorama nacional. Se você não entendeu como essas duas coisas não se excluem, é exatamente a pessoa que precisa estudar mais pra perceber a fria em que está metido).

Na hora do jogo, estudemos. Já que teremos feriados, desliguemos a TV e mergulhemos na história e nas contradições do Brasil. Quando seus colegas de trabalho comentarem a respeito da partida de ontem, diga que não acompanha mais futebol, que isso é perda de tempo, e que há outros assuntos que interessam mais. Seja o chato na hora do café e do almoço. Perca amigos por causa da imbecilidade deles: você não fará nada mais que libertar-se de gente fútil.

Parece absurdo? Pois a mim parece absurdo que seja declarado feriado nacional no dia dos jogos da seleção - quando todo mundo se arroga de afirmar que somente "a educação pode salvar este país".

Força à Argentina! Força a todos os nossos adversários históricos, sejam eles quem forem! Avante esportistas de todos os países! Abaixo o esporte brasileiro!

Acrescento ao post, em 19/05/2012


Recomendo assistir à observação de Marcelo Freixo, em 14 de maio de 2012, lá pelos 52, 53 minutos: "Qual foi o legado que os grandes investimentos do Panamericano deixaram para a população do Rio?
Nenhum."




É por isso: investir em esporte, só se for pra deixar legados sociais à população. Caso contrário, esporte é especulação, mais um forma de lucrar ou de escamotear as mazelas sociais.

sábado, 12 de maio de 2012

Manaó e o neto

Manaó estava já bem velha quando a filha, mão solteira, morreu no parto. Sobrou o neto pra velha – e esta não é uma história inventada, mas é criada no real, então é necessário dizer que a velha resmungou. Perder a filha, vá lá – já tinha perdido o marido pro álcool, um filho pro seringal, um no rio, dois de tiro, uma filha pro meretrício no Rio, uma em São Paulo, que casou com um italiano rico e abandonou a família . Ter de cuidar de criança, ela já tão velha, não podia ser. Mas não ia deixar o menino solto no mundo, que dava azar. Aí ficou cuidando dele, mas azeda, de peitos secos, seca de maneiras, de um jeito que o menino aprendeu a não ter fome e a se limpar logo. Falou com poucos meses, andou antes de um ano, aos cinco já ajudava na casa e queria trabalhar.

Naquele casebre não havia carinho. Manaó fazia as coisas da casa, cuidou do menino sem se afeiçoar, esperando que ele pegasse doença e morresse logo – a pior desesperança é aquela em que nem nascimento de criança deixa a gente se encantar com a vida. Manaó já não queria mais viver. Mas largar o menino no mundo não largava, que isso não se faz. Se tem cachorra que cuida dos gatos ainda de olhos fechados, ela, que já criara mais gente que muita mãe solteira por aí, não ia largar o moleque. E seguiu cuidando dele, as obrigações ela cumpria, mas não brincava, nunca falou nos diminutivos com ele, de modo que o garoto tinha cara e corpo de criança, mas já tinha nascido adulto e sisudo, acostumado a ter fome, depois a procurar a própria comida, depois a chorar sozinho, mesmo de barriga cheia.

O menino entrou na escola cedo, que a avó queria distância dele pra poder pitar quieta nos últimos dias. Uma cachacinha antes do almoço, o cigarro que ela mesma preparava meticulosa, uma comida quase sem sabor, só comida pra não dizer que era mesmo como os bêbados que tinham trocado a comida pela pinga. Enchia a barriga e dormia; o menino comia os restos, como faziam os bichos quando eram ainda novos. Ela não queria dividir comida com o garoto, mas não podia deixar criança passar fome, que é o maior pecado que pode haver, depois de matar um bicho ou uma pessoa só de maldade. Não: a velha não gostava mais das pessoas. Maldade mesmo era matar os bichos, mas não ia deixar o filho da filha passar fome, por isso deixava uns restos pra ele, acostumado com o que tinha.

Mas o menino sabia que podia ter muito mais, e ele gostava mesmo era da avó e do jeito dela, apesar de tudo. Entristecia quando ela não o tratava carinhosa, mas era ainda ela que o criara e a afeição do menino não tinha mais fim: era como o rio, cuja margem oposta se escondia aos olhos. Ele tinha o coração que na velha já tinha se esquecido de bater. O menino passava tardes lendo na biblioteca livros sobre os povos deles, procurando a avó em cada etnia que encontrava, vendo os antepassados em cada levante popular malfadado, escondido da história: ela tinha tantos sulcos no rosto, tantos! que devia ter sofrido na Cabanagem com os Irmãos Vinagre, depois ficado sitiada até os últimos instantes de Canudos, rezando com o Conselheiro, pra correr a São Paulo fazer greve com Leuenroth e Hélio Negro e circular o Brasil com a Coluna da Esperança, do Prestes – o menino devaneava assim, porque a avó parecia ter mais idade que a própria terra, que todos os homens.

Conforme ia crescendo, o moço levava para a avó as coisas que ia conquistando na rua: primeiro algum açaí ou cacau, pó de café que fosse, que ganhava trabalhando pros vendedores do mercado, depois badulaques que ia comprando conforme a gente ia ficando rico no Brasil, o mercado estava bom. Trabalhava e estudava, e começou a pagar algumas lavadeiras escondidas, para não dar trabalho à avó, depois uma moça que a ajudava a varrer a casa, depois mandava levar marmita para avó. Mas não deixava de jantar com ela, apesar da dor que tinha no coração porque ela comia cada vez menos, só um trisquinho e já não queria mais, tomava um copinho de coca-cola, uma cachacinha e perguntava a deus por que ele não a levava, o menino já estava grande. O rapaz que nunca soube o que era um carinho quando criança não tinha saudades da infância, em que fora sozinho, nem da adolescência, em que só trabalhara e estudara. E o coração do menino já homem era bom, porque ele concluiu que a velha não fora carinhosa porque não tivera a chance que ele teve. A vida não é linear, dissera o professor da faculdade.

E a velha ia morrer, tinha mesmo de partir, porque era a hora dela, ela e o neto sabiam. Sentaram-se para jantar e ela disse que não tinha vontade de comer nada, só comia mesmo por precisão e obrigação. Desde criança que ela não tinha vontade nenhuma de comer. Ele respondeu rápido que sentia o mesmo. Era verdade: desde pequeno acostumara-se a refeições frugais e restos e fragmentos dos pratos da avó. Mas não se magoava, pensou consigo. Os olhos dela ganharam vida subitamente: ela não podia deixá-lo sem comer, como pode este menino ficar sem comer? Assim, na refeição, subitamente descobriram algo comum: faltava-lhes a vontade de comer, comiam porque era preciso, havia hora de comer, havia hora de dormir. Que horror! ela disse, inflamada, Que horror uma criança não ter vontade de comer! Eu sou assim desde pequeno, Eu também era, filho. Ela chamou-o de filho pela primeira vez, antes era só menino ou os nomes de um dos filhos mortos que tivera ou do marido cirrótico.

Ficaram em silêncio, enquanto comiam sem vontade uma comida sem gosto - cúmplices, posto que inocentes, de certa falta de vontade de comer. O neto pergunta sobre a mãe, ela era igual a eles? Tua mãe era o contrário da gente, por isso você nasceu como velho e ela morreu criança. Você é como eu: você não sabe rir – ela disse mesmo assim, sem exclamações ou triunfalismos. Por que é que a gente não sabe rir? – era agora o garoto-em-homem, dando corda pra velha, perguntando e fazendo tudo pra não perder a avó pra indesejada inevitável. Nem seu avô sabia dizer e morreu de desgosto porque não arrancou de mim um riso, nem o teu pai, que morreu numa briga de faca de ciúmes da tua mãe, que ria pra todo mundo, quer fruta? Ela ofereceu, ele aceitou sob a condição de ela comer um pouco também, barganha que ela aceitou como se fosse cortejada.

Comeram pouco e sem vontade de nada, mas juntos, o que já era alguma coisa numa vida sem risos nem carinhos, e com uma despedida ainda mais escassa. Ela sentenciou: a gente não ri porque quando descobre as coisas de verdade, filho, as coisas e as pessoas como elas realmente são, não tem mais esperança: nem quando você nasceu eu achei que a vida era bonita. Mas Vó, eu nunca ri, mas eu gosto bem de estar aqui com você, não é isso que é ser feliz, Vó? Não, Filho: ser feliz é aceitar as coisas que a vida dá pra gente, como ela me deu você. E eu te dou um abraço apertado, Vó, que foi uma coisa que eu aprendi com uma moça que eu conheci e a gente pode sair de mãos dadas também, que foi outra coisa que eu aprendi, e passear.

Quando caiu o dia, depois de andar à beira do rio de mãos dadas com o neto, como nunca fizera com ninguém, a avó morreu quieta e serena.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Conferência: A Poesia Contemporânea Portuguesa

A Área de Literatura Portuguesa, o Laboratório de Estudos de Poéticas e Ética na Modernidade (LEPEM) e o Poem. (Grupo de Pesquisa Poéticas e Escritas da Modernidade) convidam para a conferência A Poesia Contemporânea Portuguesa, a ser proferida pelo Prof. Dr. José Carlos Seabra Pereira, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, no dia 10 de maio, às 18h30, na Sala 266, do Prédio de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

A conferência inaugura o Ciclo de Palestras e Conferências, a decorrer ao longo de 2012, organizado pelo LEPEM, pelo Poem e pelo NELLPE (Núcleo de Estudos de Literaturas de Língua Portuguesa e Ética). As participações, como ouvinte, serão certificadas a partir de 70 % de frequência nas palestras do Ciclo.






sexta-feira, 4 de maio de 2012

Dia de Cabo Verde na Universidade de São Paulo


DIA DE CABO VERDE NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

8 de maio de 2012



Local: Sala 14 do Centro de Estudos Africanos, Prédio de Filosofia e Ciências Sociais, Av. Prof. Luciano Gualberto, 315, São Paulo, SP

(in memoriam de Aguinaldo Rocha,
Cônsul Honorário de Cabo Verde em São Paulo)


Coordenação do evento: Profa. Doutora Simone Caputo Gomes
Comissão organizadora: Profas. Doutoras Érica Antunes Pereira, Rita Chaves e Tania Macêdo

ATIVIDADES

1) TARDE: INÍCIO ÀS 14:30h

MESA DE HONRA: homenagem a Aguinaldo Rocha (por diversas autoridades)

MESA DE CONFERÊNCIAS: Daniel Pereira (Historiador e Embaixador de Cabo Verde no Brasil: “Cabo Verde na História, um exemplo de superação e desenvolvimento”); Pedro Santos (Cônsul Geral de Cabo Verde no Rio de Janeiro: “Os desafios de Cabo Verde na atualidade e as relações com o Brasil”). Presidindo: Profa. Doutora Simone Caputo Gomes.

Demais autoridades convidadas: Representantes da USP, José Augusto do Rosário (Administrador do Consulado de Portugal em Santos, Presidente da Associação Caboverdeana do Brasil, Presidente do Grupo Cultural Cabo-verdiano), Lucialina [Lutcha] Maria Soares dos Reis (Secretária Geral da Associação Caboverdeana do Brasil, Folclorista e Diretora de Artes do Grupo  Cultural Cabo-verdiano).

2) NOITE: (RE)INÍCIO ÀS 19:30h
àMESA DE ESCRITORES CABO-VERDIANOS, COM LANÇAMENTO DE LIVROS, AUTÓGRAFOS DE OBRAS E TOCATINA.

Composição da Mesa: Corsino Fortes, Evel Rocha e Filinto Elísio. Coordenação das apresentações e debates: Profa. Doutora Simone Caputo Gomes.

APOIOS:

Por Cabo Verde: Governo de Cabo Verde (Gabinete do Primeiro-Ministro);Associação Cabo-verdiana de Escritores. Pela USP: Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas; Programa de Pós-Graduação de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa; Diretoria da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas; Pró-Reitoria de Pesquisa; Comissão de Cooperação Internacional; Centro de Estudos Africanos; CELP (Centro de Estudos de Literatura e Cultura de Língua Portuguesa); Grupo de Estudos Cabo-verdianos de Cultura e Literatura CNPq/USP

terça-feira, 1 de maio de 2012

Os inadequados, os burgueses, o amor e o ódio

"Quem não é mau não vive sereno, mas endurecido e impaciente de maneira privada, envergonhada. Carecendo de objetos apropriados, não consegue exprimir seu amor de outro modo do que no ódio aos inadequados, claro que nisso de novo se assemelhando ao que odeia. O burguês é tolerante, porém. Seu amor às pessoas tais como são provém do ódio ao homem verdadeiro".

Theodor Adorno, Minima Moralia: reflexões a partir da vida lesada. Trad. Gabriel Cohn. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008. p.21.