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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

De homens e pássaros

Sobre o meio da tarde o perdigoto principiou a mostrar sinais de aflição, dentro do saco de rede em que o tinham metido. Quiseram dar-lhe água, não era sede. Fome, também não. Era o amor à vida a despertar nele, ao fim de tantos martírios.

O inocente passarinho começava cedo a conhecer os homens, se bem que não fosse capaz de diferençar os maus dos bons, o franco do disfarçado. Bastava-lhe perceber voz de gente para ficar mudo e apavorado como uma criança metida num baile de bruxas.

José Cardoso Pires. O Anjo Ancorado. 5a. ed. Morais Editores, 1977. Capítulo XIX. p.111. 

São Paulo: território aberto do pânico e da intimidação

Os vídeos abaixo contêm as falas de Marilena Chauí e de Vladimir Safatle, em debate sobre a ascensão conservadora em São Paulo. O evento rolou lá na USP, no dia 28 de agosto:




O debate é sério e exige capacidade analítica do quilate dos participantes da mesa. Não vou, portanto, me meter a escrever sobre o assunto. Tenho não só medo de escrever besteira, mas principalmente tenho muito medo de, em algum momento, ter repetido o comportamento conservador relatado por Marilena Chauí no começo da fala dela.

Me explico: depois de 18 anos dando aula, o que eu mais ouvi em debate com meus alunos e com outros professores foi "eu não faço isso". Todo mundo que eu conheço acha que não é responsável por nada, e todos são vítimas do sistema. É curioso: ninguém acredita que tem comportamentos conservadores - mas todas as pessoas que conheço se dão um descontinho na vida cotidiana. Proponho que essa vista grossa tem de acabar. Principalmente com nós mesmos: só vale criticar a corrupção se não sonegamos nem um centavo no Imposto de Renda. Mas nossa justificativa será sempre: "Sou da classe média, e os impostos acabam comigo. Tenho de sonegar, caso contrário não posso viver". Eis aí o pretexto pra tudo permanecer como está.

A tragédia maior é que nenhum de nós acredita ser responsável por nada do que ocorre na realidade brasileira. Não somos responsáveis pela violência no trânsito (mas o problema é que somos, especialmente toda vez que estacionamos "só por um minuto" em local proibido ou faixa de trânsito). Não somos responsáveis pela violência da polícia (mas o problema é que somos, toda vez que justificamos violências de toda sorte no cotidiano, com as frases do tipo "bom era o tempo da ditadura" ou "vagabundo tem de se foder mesmo"). Não somos responsáveis pela corrupção (mas o problema é que somos, toda vez que pagamos uma graninha por fora, pra tirar carteira de habilitação, pra não sermos multados, pra furar fila). Não somos responsáveis pela qualidade da educação (mas o problema é que somos, toda vez que escolhemos ler o resumo em vez de ler o livro inteiro).

Assumir a responsabilidade pelas ocorrências violentas e injustas que assolam o Brasil e especificamente a cidade de São Paulo, no caso dos paulistanos e dos que moram em Sampa: eis aí o primeiro ato político que deveríamos cometer, sem medo de tomar em nossas mãos essa batata quente. Dele decorreriam outros: cada decisão seria orientada por um sujeito político que não jogaria lixo na rua, que evitaria repetir os discursos só porque eles correm pelos corredores da empresa, que se negaria a fazer qualquer serviço sujo. Um sujeito exigente em todos os termos, não apenas os termos de consumidor. Um sujeito que perguntaria "por quê?" a todo vomitório da grande imprensa, a todo professor que lhe propusesse um comportamento robótico. Um sujeito que perceberia a capilaridade política de causas como a das mulheres, a dos negros, a dos sem-terra, a dos homossexuais, a das cotas. Um sujeito que se enojaria de si mesmo por se satisfazer com dois ou três resultados de uma pesquisa no Google, por entregar um trabalho copiado de alguém, por ostentar qualquer bem de luxo. Um sujeito que desfrutaria de cultura em primeiro lugar - porque acredita que é melhor para si e para os outros.

Mas acontece que somente a hipótese de existência de um sujeito como esse soa inverossímil - para quase todos nós, que deveríamos estar incomodados com o conservadorismo, o ar irrespirável do protofascismo que massacra em São Paulo. Um sujeito que pergunta "por quê?" (sem que o faça para aparecer) soa como uma criatura mítica, que não pode existir. Penso diferente, como já escrevi aqui duzentas vezes: penso que outro mundo é possível. Mas o clima na cidade, cheio de violência, de silêncio, de repressão; o clima nas redes sociais, claramente conservador, justificando e celebrando a violência; o clima dos domingos, cheio de futebol e vazio de reflexão - todo esse clima tem deixado a vista embaçada, a respiração curta e difícil.

Temo repetir algum comportamento conservador, especialmente quando estou sob pressão, parado no trânsito, depois de um dia inteiro de trabalho. Temo ser machista. Temo ter raiva do motociclista que me assaltou na Marginal - todo mundo, quando ouviu que eu fora assaltado, xingou o assaltante de filho-da-puta. Temo  não preparar aula, acreditando que não é necessário, porque já faz 18 anos que dou aula. Temo dar uma aula morna, sem reflexão, porque talvez me deixe levar pela frase fácil que sugere que os alunos não querem aula, eles querem entretenimento com verniz de cultura. Temo justificar-me de alguma maneira, porque é fácil descer a ladeira dos impropérios contra o governo, a polícia, os bandidos, as classes sociais, os movimentos sociais, o neoliberalismo, os sindicatos. Temo até odiar os conservadores, porque é preciso acreditar que outro mundo e que outras pessoas são possíveis para poder superar o conservadorismo. Suspeito de mim o tempo todo - contaminado que posso estar do ar irrespirável de São Paulo, cidade do pânico, cidade em que todo amor se intimida.