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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A vagina interminável

Podem dizer à vontade os engravatados de toda sorte - escravos do livro de ponto, expediente, protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor - que a literatura e a arte não servem pra nada. É bom que não sirva: tudo que tem utilidade prática tende a servir à lógica de mercado, que nos torna, um pouco e sempre, reses apaziguadas.

No mais, quero ver em que outro universo é possível debruçar-se longamente, em nome da subversão daquela mesma lógica, sobre o seguinte trecho da Balada da Praia dos Cães, do José Cardoso Pires:

Volta-se e dá com a irmã dele a fitá-lo, muito séria. Nua. Majestosa. Completamente nua. E alta como nunca imaginou que ela fosse. Tem o cabelo descolorido, alumínio a refulgir, e o púbis é negro-negro, uma labareda de negrura a tremular num corpo de cera. 

É exatamente porque não serve pra nada que a arte tem o poder de corromper. A fruição estética é antípoda da lógica de mercado.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Nunca entrarei nos manuais da literatura

Lendo-me Nélson Rodrigues, minha namorada ajudou-me, sem querer, a entender por que meu nome jamais figurará nos manuais de Literatura Brasileira: não tenho talento literário nenhum - óbvio ululante. Afirmo sem medo que me contentaria com menos: ficaria bem satisfeito se dominasse a prosa fluente, engraçada, cínica e provocadora do Nélson Rodrigues das crônicas de jornal. Mas nem isso, próceres: nada, absolutamente nada. Sou oco de dotes literários. 

O leitor veja: se eu fosse escritor, escritor mesmo, usaria os bustos do Passeio Público no Centro do Rio de Janeiro, como inspiração. Resumiria o Passeio, pra quem não conhece o local, da seguinte maneira: um parque no meio do centrão, intervalo de quietude numa avalanche de prédios do Eike Batista, camelôs, trabalhadores comuns, gatunos, taxistas e mendigos. O Passeio foi ficando no meio do caos, fazendo jus ao motivo de sua criação: dar uma aliviada no monturo que se acumula em grandes capitais. Era na cara da praia, mas a praia ficou agora mais pra lá: urbanidades que modificam a paisagem. Mas o Passeio resistiu às demolições, que levaram embora até o Morro do Castelo, berço da cidade.

Nos intervalos de minhas aulas no Rio, dou uma volta por lá: dizem os biógrafos de Machado de Assis que ele acompanhou José de Alencar ali mesmo, nos últimos passeios que o romancista cearense, já tuberculoso e esquecido, fez no Passeio. Imagino a cena e descubro que, além de não ter talento nenhum, também não tenho graça nenhuma: só me vêm à mente conversas deprimentes, Machado adulando o mestre, este recebendo desatento os elogios do discípulo que já se agigantava.

Nélson Rodrigues teria a habilidade de dizer que foi ao Passeio com algum amigo jornalista ou intelectual e que, justamente ali no meio do Parque, descobrira uma cabocla que psicografava. Sem hesitar, pediria: "Faça a senhora um contato com o Machado de Assis ou o José de Alencar, faz favor", deixando um troco nas mãos da pitonisa sincrética, um terço kardecista, um terço umbandista, outro terço católico, ou o que quer que o valha, que eu de religiões não curo, nem posso curar, tal é a confusão que se me apresenta neste país abençoado por Deus, em que todas as fés têm vez, Graças a Ele.

"Misifi qué falá com Machadin?" - e Nélson ficaria surpreso com a intimidade e a falta de cerimônia da cabocla com o dono das cadeiras da Academia Brasileira de Letras - "cabocla chama Machadin pá sunsê". E lá viria defunto autor, manifestando-se em psicografia apressada em um canto de jornal, único pedaço de papel que o dramaturgo teria nas mãos naquele momento de urgência mediúnica. O recado seria o seguinte:

"Caro N.

Não sabes quão feliz fica aqui o Alencar por te lembrares dele. A vida no infinito é, para os escritores, como uma longa volta à roda Passeio: lamentamos saudades do Rio, alimentamo-nos do amor do Público, que vez por outra se lembra de nós e faz ecoar aqui rumores da vida daí. No mais, é aguardar o juízo final, mas tudo aqui soa a eternidade tediosa, porque afinal das contas não se pode espanejá-la.

Peço apenas que te lembre sempre de outros que aí têm a imagem registrada em busto: Gonçalves Dias e Castro Alves, principalmente, mas tantos quanto aí encontrares. No mais, tens esta cabocla por cujas mãos lhe escrevo, que pode sempre contactar-me.

Do fiel amigo cadavérico,

M. de A."

Ficam registrados acima mais dois motivos pelos quais jamais minha obra será estudada: não tenho amigos jornalistas que me divulguem a obra, ou que falem de mim gratuitamente em suas colunas - "Eu conversava com Rogério Duarte ao telefone e me disse o professor que..."; também não conheço a arte de criar diálogos (os trejeitos da cabocla acima, tomei-os todos de uma cena do Cidade de Deus)Rigorosamente o contrário de Nélson Rodrigues, exímio criador de diálogos, e de outros cronistas, todos, ele e eles, cheios de amigos importantes pra agraciar com alusões.

Também não sou polemista: Nélson Rodrigues era, e dos bons. Também o era Joaquim Osório Duque-Estrada, professor de Língua Portuguesa, autor de material didático, poeta medíocre e autor do Hino Nacional Brasileiro. O homem era tão encardido nas críticas aos jovens escritores que ganhou a alcunha de "Guarda-Noturno da Literatura Brasileira". Pior que isso, só os médicos que dão os próprios nomes às doenças que descobriram (essa tirada eu roubei do Alex Castro). Esse guarda-noturno fazia análise sintática dos poemas alheios e morreu pobre, plenamente dedicado à vida na Academia Brasileira de Letras. Eis aí um prato cheio para os novos reacionários o canonizarem: o homem de família nobre que dedicou a vida à Língua Portuguesa e empobreceu - só falta alguém pinçar essa personagem histórica e elegê-la como o precursor da Pedagogia do Amor. 

Pasmem os leitores (a que tenho chamado "próceres" no Facebook, imitando Machado de Assis): Nélson Rodrigues teve a vida desgraçada, perdeu um irmão numa tragédia, logo depois o pai; teve uma filha cega, que era um de seus maiores medos, etc. Mas o homem não perde a embocadura de tirador de sarro, e não deixa em paz nem a santa alma de Guimarães Rosa, outro kardecista de carteirinha na Federação Espírita - que ganhou a imortalidade assim que pisou na Academia Brasileira de Letras. 

E, na última tirada acima, o leitor terá percebido que, ao tentar fazer graça, cometo profanações da pior espécie - canalhices literárias, por assim dizer, tentando promover-me xingando os clássicos, chamando-os com nomes feios. No jardim das musas nacionais, sou cachorro vira-lata que urina desavisado nos botões de flores eternas, imortais, ganindo obviedades para angariar a atenção dos leitores.