Total de visualizações de página

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

15 teses sobre professores e educação

Como hoje é dia dos professores, escrevi, de uma enfiada só, "15 teses sobre professores e educação", com uma finalidade muito clara: abrir espaço pra debate, nos comentários. Os poucos que lerem e que se sentirem provocados, de forma positiva ou negativa, por favor, estendam a discussão.

Eu escreveria muito mais, mas estou sem tempo (poderiam ser 95 teses). Já escrevi aqui pelo menos mais três textos sobre a prática docente: "Eu sou professor", "Leitura de Clarice, fim de semestre e a hora de ficar quieto" e "Dar aula de gramática". Mas meus textos não são nada perto dos de Julio Groppa Aquino, maior pensador da educação brasileira, hoje.

O ponto de fuga de todos esses textos, além das 15 teses que vão abaixo, é sempre o mesmo: esta educação que temos não é o futuro do Brasil, mas o passado, e nosso pior passado.

01. Professores não são sacerdotes: toda vez que você diz que os professores são sacerdotes, você alimenta a cultura de que eles devem fazer sacrifícios. Isso, no cotidiano dos professores, se transforma em mais exploração por parte dos empregadores, diretores ou coordenadores. Exemplo concreto: passeios fora do horário, reuniões pedagógicas, reuniões com os pais, plantões de dúvidas para os alunos  - todas essas atividades devem ser remuneradas. Mas muitas vezes não o são. Então ajude os professores: pare de achar que eles são seres dotados de poderes mágicos e olhe-os como profissionais - que merecem respeito tanto quanto outro qualquer, nem mais, nem menos.

02. Professores formam os jovens, o "futuro do Brasil": é verdade, mas em parte. Você também - pai, tio, amigo do pai, ou o que quer que seja - é responsável "pelos nossos jovens". Não adianta nada eu insistir em determinados valores em sala de aula, se você vai estragá-los todos, depois. Toda vez que você trafegar no acostamento, parar em fila dupla, fizer alguma malandragem e seu filho souber, você também está estragando o "futuro do Brasil". Então não deposite toda a responsabilidade nos professores: ela também é sua.

03. "Bons professores são os das antigas, que bombavam todo mundo": besteira gigantesca. Geralmente os professores que mais sacaneiam na prova fazem isso pra manter a disciplina na sala. Ou você não se lembra dos seus tempos de escola? Professores que fazem boas provas são aqueles que pedem na avaliação o que foi trabalhado em aula - e só, sem sacanear ninguém. Prova é uma coisa; disciplina é outra.

04. "Hoje todo mundo na escola pública é aprovado automaticamente": nem em todas as escolas públicas impera o caos, nem todas as escolas particulares são uma maravilha. A prática da promoção automática ocorre tanto nas públicas quanto nas privadas. Nas públicas, o processo só é mais visível, além de ser mais divulgado na grande mídia, porque há um  interesse claro em sucatear a educação pública e transformar a educação em negócio rentável. Nas particulares, o processo é o mesmo, mas com diversas "assopradas na ferida": chamam-se recuperações paralelas, trabalhos de recuperação, etc. Mas no final, cerca de 95% dos alunos obterão aprovação: naquela escola em outra. Aliás, por favor, admitamos de uma vez: mudar de escola pra passar de ano não é exatamente uma técnica nova. Você conhece alguém que fez isso.

05. "O melhor professor é imparcial, apresenta todos os pontos de vista para os alunos": bobagem de novo. Primeiro, não existe imparcialidade (quem duvida, pode ler as pesquisas da linguística textual dos, sei lá, últimos 50 anos). O que existe são marcas de imparcialidade nos discursos - recursos que usamos pra fazer parecer que nossos discursos são imparciais. Mas eles nunca são. Por outro lado, não subestime a inteligência de nossos alunos: quando o professor é parcial e apresenta o ponto de vista em que acredita, os alunos percebem e polemizam. E acreditem-me: são essas as melhores aulas.

06. O ranking da Veja: depois de tudo que aconteceu, você ainda lê a Veja. Ok, tudo bem, leia o que quiser. Mas aviso: a melhor escola pro seu filho não é necessariamente a que aparece no topo do ranking. Que tal tentar decidir, primeiro, qual escola combina mais com a formação que você quer que seu filho tenha? Depois, quando ele for maior, vocês podem decidir juntos: pra alguns alunos, escolas tradicionais são melhores; pra outros, escolas chamadas "experimentais" ou "inovadoras" são melhores. As variáveis são tantas que nem cabe escrever aqui. Só sugiro que seja mantida a interlocução entre os pais e os filhos, e entre estes e os profissionais da escola, seja ela pública ou particular.

07. O papinho da valorização do professor: não me venha com a conversinha de que você valoriza o professor se você não confia nele. Quer mesmo valorizar o professor? Certifique-se de que a escola do seu filho privilegia os professores que preparam e dão aula em detrimento dos bons burocratas - os que entregam toda a papelada que a escola pede. Nas escolas públicas, os melhores professores geralmente são os mais criativos - aqueles que, apesar das condições precárias, conseguem desenvolver atividades formativas. Nas particulares, são aqueles que, apesar da montanha burocrática e da necessidade de agradar o cliente (os pais e os filhos), propõem debates formativos na aula. Afinal, trata-se disso, não? Tentar emancipar os alunos - emancipá-los dos pais, dos professores, dos diretores, da bibliografia, para que os alunos pensem por si próprios e tomem as próprias decisões, com todos os riscos que isso implica. E é esse todo o problema: quais são os pais, os professores, os coordenadores e os diretores que querem alunos esclarecidos? Poucos, muito poucos.

08. Escola não é depósito de gente: você trabalha o dia inteiro e não tem onde nem com quem deixar seu filho. Então escolhe uma escola que entope o coitado do moleque de atividades o dia inteiro - se é que você pode pagar por isso. Pois aviso-lhe: você está deixando seu filho nas mãos de gente incompetente pra cuidar dele. Digo sem medo: ninguém melhor do que você pra cuidar do seu filho. E ponto final. Se você fez escolhas que não lhe permitem estar ao lado do seu filho tanto quanto seria razoável, lide com isso. Mas não vá responsabilizar a escola pelos traumas do garoto. Você também é responsável.

09. A maioria dos professores tem formação ruim: parabéns, você descobriu uma realidade nacional que dura desde que existe escola no Brasil. Quer que os professores tenham melhor formação? Pare de apoiar as políticas nacionais, estaduais e municipais que sucateiam a educação. Professor, pra ser bom, tem de ter tempo pra estudar, pra preparar aula, pra descansar, pra não ver a cara de aluno, de coordenador, de diretor e de pai de aluno por um mês. E, por favor, pare de dizer que a vida de professor "é moleza" porque ele tem férias duas vezes por ano. Essa suposta "moleza" acabou nos anos 90.

10. "Mas tem professores vagabundos, mesmo, não tem?": Ô, se tem. Talvez seja o que mais tem. Quer ajudar a botar os vagabundos pra correr ou pra trabalhar? Repito: apoie políticas que de fato valorizem os professores. Participe das reuniões de pais e de alunos. Peça detalhes a respeito do projeto pedagógico da escola. Leia sobre o assunto (não só na Veja, na Folha e no Estado, por favor). Pare de dizer que os professores são vagabundos e atrapalham a cidade quando eles fazem greve - isso é um direito deles e, quando eles vão pras ruas, fazem isso exatamente pra ver se você toma contato com a realidade deles. Mas é bem mais cômodo chamá-los de vagabundos de dentro do seu carro, com ar condicionado, é ou não é? (Você, leitor fictício, parece aluno: a gente pede pra você ler as coisas e você não lê).

11. A escola está desatualizada: Cara, essa é a verdade pura. Não posso nem retrucar. Só lembrando: a escola é feita de gente, pensada por gente, administrada por gente. Quem é que está desatualizado? Todo mundo que está envolvido na escola - professores, coordenadores, diretores, alunos, pais de alunos, funcionários, mas cada um em uma medida, cada um de um jeito. Mesmo os alunos: quando eles acham que "Menina Veneno" é do Zezé di Camargo, esse é um exemplo aparentemente banal de desatualização. Debater com os alunos sobre como a indústria cultural remodela produtos antigos pra vendê-los como se fossem novos dá um belo debate nas aulas de literatura e de história, não? Mas aviso: professores parciais, que propõem debates como esse, geralmente, não são bem vistos pelos pais, pela coordenação e pela direção. Porque um debate desses geralmente toca em feridas como... a desatualização do currículo escolar, e ninguém quer falar disso na frente dos alunos, certo?

12. É difícil o professor competir com a TV, a internet e os celulares: Olha, eu mesmo, desisti de competir com essas coisas, porque elas são mesmo legais. Então melhor é trazê-las pra sala de aula como instrumento. A internet nos celulares me libertou, como professor, por exemplo de lembrar de todas as datas do mundo - os alunos consultam isso no Google, e a aula vai adiante. Sugiro aos meus alunos que tenham dicionários instalados nos celulares, pra gente consultar juntos quando for preciso. Se eles mandarem mensagens ou emails para outras pessoas durante a aula, o que é que eu posso fazer? Boa parte das vezes são os pais: "Tomou o remédio?"; "Não esquece o pilates hoje"; "Mamãe te ama, viu, bebê?". Outra coisa: alunos que dormem na aula não são meu problema. Tem sono, dorme - desde que não me atrapalhe. Porque estou em sala pra dar aula pra quem quiser. O que me leva à próxima tese:

13. Professores não controlam tudo: pode perguntar pra qualquer terapeuta. Quem acha que controla tudo sofre muito, precisa de terapia e às vezes de remédios pra dar uma segurada nessa mania de querer controlar tudo. Se os alunos dormem, se eles mandam mensagens pelo celular, se eles escrevem ou leem outra coisa enquanto eu dou aula, isso pode não ter a ver comigo - na esmagadora maioria das vezes não tem. Diga-me, leitor: você já acordou um dia, a fim de fazer nada, e aí vai pro trabalho e fica enrolando, fingindo que está trabalhando, mas na verdade você empurra tudo com a barriga? Já, com certeza. Pois imagine os alunos, cheios de hormônios, cheios de coisas mais interessantes pra debater do que Dom Casmurro - você jura que quer que eu obrigue um adolescente a se interessar por Dom Casmurro? Desculpe: eu não controlo tudo. Nem você, leitor. Lembre-se: professores também são gente. Eles também podem fingir que estão dando aula, mas na verdade estão só falando coisas. Eles fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem - e assim vamos até à hipocrisia máxima, que se chama "festa de formatura".

14. Cada um tem seu tempo: a escola não respeita os tempos das pessoas. Agrupa todos os que nasceram num determinado espaço de tempo na mesma série; obriga todos eles a ouvir um professor falando às sete horas da manhã. Leitor: o assunto pode ser o mais interessante do mundo. A maioria das pessoas não funciona às sete da manhã.

15. Os alunos têm de se acostumar a acordar cedo, a engolir o que dizem os professores e a se conformar, porque o mundo é assim: aqui é que geralmente eu digo: fodeu tudo. A suposta disciplina que se espera que os professores imponham aos alunos, em boa parte das vezes, não forma sujeitos esclarecidos e emancipados - só forma respeitadores de regras e de horários. Na minha opinião, nada tão bom quanto uma aula expositiva aberta a debates - mais que isso, em salas com cerca de 40 alunos, me parece devaneio ou enrolação. O que interessa é que alunos e professores possam, quando houver chance, trocar ideias - professores narrando uma passagem de conhecimento acumulado, sem pre posto em questão à luz das experiências novas que os alunos trarão das próprias vidas, se isso for possível, se as condições permitirem. Ninguém tem de se conformar a nada: a existência humana não tem de ser de um jeito ou de outro - ela pode ser construída. Para tanto, uma - e só uma, dentre muitas outras - das chances de debate chama-se aula. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Eu, a praga máxima deambulante

Para Rafael Araújo, para que entenda 
Para Marlise Vaz Bridi, porque me ensinou

Estou farto de falar de política, e de brigar por causa dela. Afinal talvez todos os psicólogos estejam certos: meu descontrole emocional devido a questões políticas deve ter origem na incapacidade completa de lidar com questões que sequer sei que existem, lá nos recônditos do meu inconsciente.
 
O problema é que não posso escrever um texto terno a respeito da minha infância, hoje, dia das crianças. Disse em alguma sala de aula, ao longo desta semana: não guardo grandes saudades da minha infância nem da minha adolescência. Vivo hoje a melhor época de minha vida, sem sombra de dúvida - em desesperança completa dos homens e de deus.

É claro que minha infância não foi infernal: não apanhei gratuitamente, nem fui violentado. Não passei fome, não dormi na rua, nada me faltou: todos motivos suficientes para afirmar que tive uma infância feliz. E, pensando objetivamente, de fato fui feliz na infância. Mas dentro de mim já havia este mesmo oco que sinto hoje e que não posso explicar - pulsão de morte, cogitamos minha terapeuta e eu. Pode ser, agrada-me a expressão. Fato é que, da janela do automóvel de classe média que meu pai herdara do Milagre Econômico (que já fazia água em lágrimas que eu não podia entender), daquela janela do banco de trás, eu via uma criança (como eu) que pedia dinheiro (dizia-se que era maloqueiro), enquanto os pais o aguardavam na esquina. Nunca morei na rua, não posso dizer nada a respeito. Já ouvi gente dizer que há quem more na rua por escolha, pela liberdade plena que a rua oferece. Já me disseram que há quem more na rua por ter mau caráter e não ser trabalhador (dizia-se que eram vagabundos). Já ouvi dizer que a maioria das pessoas mora na rua devido à divisão de renda injusta, à mais-valia etc. Me parece - sempre me pareceu - mais convincente a última hipótese: morar na rua, afinal, é mais sofrido do que libertário. Além disso, dá trabalho morar na rua, mesmo que não haja livro de ponto, protocolo, expediente nem seja necessário adular o Sr. Diretor com manifestações de apreço.

Há ainda os loucos e os adictos, dos quais digo apenas: talvez eu tenha medo de morar na rua porque me identifico com  eles - aquele olhar vazio, os olhos brancos, em plena desesperança, em queda livre em tudo que for intensidade, irresponsabilidade, desaparecimento do mundo, aniquilação da consciência. Era essa a criança que eu era e fui até à adolescência: insisti em indistinguir-me do mundo todo, na onipotência pessoana de ser tudo. Tudo que se me deu, todas as portas que se me abriram, todas as oportunidades de fugir, de escapar, de não olhar nos olhos dos loucos das ruas - eu tomei tudo a mim, embebi-me da plenitude única de degustar o que fosse que me afastasse do espelho. Eu não sentia dor, afinal - quando muito percebia algum eflúvio acre da noite anterior, em umidade que me subia à cabeça poro a poro, embaçando-me a visão - deixando-me alvacentos os olhos, exatamente como o dos loucos e o dos adictos, percebi muito depois, só muito depois.

Despertei no caixa-eletrônico, os bolsos cheios do dinheiro que eu sacara para escapar: pra onde eu fugia? Eu não podia me lembrar como, nem por que pretendia desaparecer - mas retinha, ao fundo de uma lembrança recortada, que planejava ir para longe, muito longe, dormir na areia, deixar as barbas e os cabelos crescerem, crestar-me de sol, tornar-me uma espécie de bicho que finalmente despareceria sem que ninguém soubesse, sem causar inveja ou despeito aos outros, ágrafo e indigente. Desapareceria num átimo, em silêncio, bastava não comer, ou comer terra, ou inocular-me de uma doença qualquer, de todas que eu pudesse - eu, a praga máxima deambulante, as extremidades em carne viva, a boca em herpes, o pênis infecto, os olhos brancos agora, idênticos aos dos loucos e aos dos adictos, eu: bode expiatório de todos os membros da classe média que trafegam em carros herdados do Milagre Econômico, carpidos em lágrimas porque o dinheiro acabou, porque o imposto aumentou, porque o governo roubou, mas que fogem ao olhar das crianças que moram na rua, dizem que não são crianças. Querem me convencer de que são nóias, assassinos, ladrões, estupradores - mas o que eu vejo são crianças. O que eu vejo sou eu: o oco que não tem controle, que ninguém nunca quis ver, desde que eu era criança, que me fazia preferir a solidão; o oco que me fazia quebrar tudo ao meu redor e a afastar todos que eu pudesse na adolescência, na volúpia completa de angariar a todos o ódio, o asco, o horror - de modo que ninguém suportasse olhar-me nos olhos, porque o que eles escondiam era o medo que eu trazia desde menino: o de morar na rua como um garoto de olhos remelentos que pediu dinheiro a meu pai. E eu não podia, nunca pude, não posso, fazer nada. Não vou brigar por causa de política hoje.

Agora já fiquei adulto - não tenho mais a quem pedir presente de dia das crianças e o orgulho que se acumulou em mim não me permite pedir ao transcendente - hoje também é dia da mãe de todos, da compadecida, eu poderia pedir a ela. Mas eu não podia, nunca pude, não posso pedir nem esperar. Não vou brigar com deus nem com a aparecida hoje. Estou farto de brigar por causa de política e de religião: hoje vou sentir a dor até que ela passe, pra juntar forças e brigar amanhã de novo; principalmente pra angariar para mim o ódio, o asco, o horror às carpideiras da classe média e aos homens que chamam crianças de nóias, assassinos, ladrões, estupradores. Elas e eles me olharão nos olhos e verão que eu pude, só por hoje, falar de mim, da política e de deus, sem me deixar descontrolar.     

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Oração pra Sammliz dormir

Para Sammliz Lages

Prometi à amiga Sammliz que oraria por ela, para que ela conseguisse dormir, depois do atropelamento do Ícaro, que muito a atormentou. Mas não precisa me conhecer muito pra saber que não sei rezar. Sei repetir o Pai-Nosso, a Ave-Maria, a Oração da Serenidade. Agora rezar mesmo, de verdade, entrar em contato com o transcendente, tocar as instâncias que os homens não conhecemos - será que eu sei? O meu negócio é rock and roll, José Cardoso Pires, Benjamin, Adorno e Marx.

Mas eu prometi à minha amiga Sammliz que rezaria pelo sono dela. Então faço aqui esse exercício tão difícil para um materialista dialético que, apesar de repudiar as organizações religiosas e as respectivas ideologias, não repudia as experiências de fé.

Porque acredito que as canções do Madame Saatan não me cruzaram o caminho por acaso - eu era um paulistano dos mais canhestros, que achava que São Paulo, este lodaçal de poluição e autoritarismo, era mesmo o centro do Brasil. Foram os meus amigos de Belém do Pará, Sammliz, Marcela, Bernie, Ed, Ícaro e Ivan, que me mostraram que Macunaíma era só literatura - a floresta e a cidade viviam em harmonia e conflito, e que havia mais Brasil no Ver-o-Peso do que nas minhas avenidas de concreto. Em meio aos feiticeiros, curandeiros, catimbozeiros, cartomantes, pretas velhas, nossas senhoras do círio, índios, caboclos, homens brancos, paulistanos desorientados, missionários americanos, turistas noruegueses, toda essa gente - talvez não estivessem Deus e o Diabo ali mesmo em pessoa e em disputa e em equilíbrio, na terceira margem do rio, que fez as meninas todas menstruarem ao mesmo tempo?

E não era uma profeta a louca nua que errava indiferente a tudo, os olhos fixos no rio, gargalhando alto - porque ela mesma encarnava a liberdade de que nenhum de nós gozava? Era ela própria vértice e vórtice de toda a maldição e de toda benção, Madame Saatan, no intervalo entre feminino e masculino, mesmo esses dois gêneros carecendo de definição, seta retilínea e racional que corta a esfera do transcendente?

Foi em Belém que descobri o que é um rio - e aprendi a respeitá-lo, rio onipresente feito Diabo e Deus, meio diabólico porque tudo arrasta e perde, meio divino porque orienta e dá sentido. Meus amigos de Belém abriram-me os sentidos ao que não se explica quando entraram na minha vida, frequentaram minha casa e me ensinaram que pra frequentar a deles eu não precisava ligar avisando. Mas também quando participamos dos sonhos uns dos outros e acordamos assustados sem saber - era sonho ou foi de verdade?

Corria o rio que tudo mediava, e fez correr Mia Couto e João Cabral de mão em mão, rolou no som Pio Lobato e Jair Naves, que nem sabe o quanto é bem quisto, porque é tímido, e fica assim mais querido - paulistano raro. Foi em Belém que eu soube que o rio tinha vida, dava-a e tirava-a. Foi em Belém que eu entendi que é impossível interromper o correr do rio: é preciso serenidade para aceitar-lhe o curso, mas que com coragem é possível traçar umas pequenas veredas por entre o seu correr - e é nos intervalos ínfimos entre a correnteza que puxa pra lá e a nossa vontade que tem uma forcinha que lança pra cá que se dão uns milagres - essas canções dos meus amigos, uns poucos encontros ou só mesmo umas poucas frases sábias que nos dissemos e que ficam tatuadas no espírito.

Rezar mesmo, de verdade, entrar em contato com o transcendente, tocar as instâncias que os homens não conhecemos - terei conseguido umas poucas vezes, talvez só essa, quando estive em contato com o rio e com vocês o tempo todo, entretempos e entre-espaços, navegando contra a corrente e as mãos dadas com o Madame Saatan, abrindo os olhos, os ouvidos atentos a tudo que me foi dito e que não dizia respeito às coisas da matéria: nunca fizemos profissão de fé, e vocês fizeram foi rock em português, pra refletir em outra sintaxe as fagulhas do sol no rio que agora corria a nosso favor.

Eu aceitei a graça de estar ali ao lado de vocês que operavam o mistério na minha frente - era só poesia, com vocal, guitarra, baixo e bateria.

Durma em paz, amiga.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Eu sou responsável

Ontem, o meu amigo Ícaro Suzuki, baixista da banda Madame Saatan, foi atropelado por um motorista embriagado - delegado da polícia civil, segundo noticia o portal G1. Passei o dia revoltado, mas como não bebo nem fumo mais, já há mais de um ano, não pude fazer nada a não ser enviar mensagens para a família e para os amigos próximos, partilhando a dor, e tentar pensar a respeito do assunto. E o que pensei fica registrado abaixo.

A primeira reação possível é demonizar o autor do crime: trata-se de delegado da Polícia Civil - sujeito que tem, portanto, supostamente, mais consciência da violência que assola nossas capitais. Queremos acreditar que um homem que vê diariamente crimes de toda sorte provavelmente tomará nojo de todos eles e levará uma vida limpa, tão distante quanto possível de toda sordidez que lhe passa pelas mãos no cotidiano. Errado: um delegado da Polícia Civil, um padre, o Papa, o Presidente da República - todos são homens comuns e terão vícios que por instantes lhes livram a cara do monturo que é viver neste mundo. Todos temos. Há um abismo entre saber que é errado dirigir bêbado porque isso pode machucar os outros, ou até tirar-lhes a vida, e não dirigir bêbado. Sabemos que fumar faz mal, mas fumamos. O delegado deveria dar o exemplo, por ser homem público, no sentido de que representa interesses coletivos, mas foi, antes disso, homem como outro qualquer. Poderia ser qualquer um de nós. Não o demonizemos, portanto.

É óbvio que ser homem comum não tira a culpa do sujeito que atropelou o Ícaro. Atropelou, vai ter de pagar. Estava de cara cheia, pode e deve ter a pena mais severa - a culpa é dele. Mas depois fiquei pensando que, apesar de a culpa ser dele, a responsabilidade é nossa. Para evitar que me xinguem, vou usar a primeira pessoa do singular: a culpa é minha. Eu já escrevi aqui antes que o horror do mundo sou eu. Me explico.

A vida toda, como qualquer homem comum, soube, por exemplo, que era errado dirigir depois de beber, mas fiz isso muitas vezes. Numa delas, fui responsável por um acidente em que meu irmão se machucou bastante. Qual a diferença entre mim e o delegado da Polícia Civil que atropelou Ícaro? Nenhuma, absolutamente nenhuma. E se disser a vocês que, depois do acidente, nunca mais dirigi depois de beber, mentirei. Sou homem comum, como qualquer um de vocês, mas tenho de responder pelas consequências dos meus atos. Tive a sorte, como muitos de meus leitores terão tido, de não ter matado ninguém.

Quero dizer com tudo isso o seguinte: acredito que nossas ações na realidade têm repercussões que sequer conhecemos. Restrinjo-me a mim: certamente as testemunhas que presenciaram o acidente pelo qual fui responsável terão pensado: eis aí mais um moleque irresponsável filhinho-de-papai que arrebentou o carro e que não vai responder pelas consequências dessa violência. E eles estavam certos. Assim, toda vez que colei na prova, que parei na faixa de pedestres, que fiquei em fila dupla, que entrei na contramão "só por meio quarteirão", que ultrapassei a velocidade máxima permitida a caminho da Ilhabela - eu estava abrindo precedentes para o atropelamento do meu amigo Ícaro. Eu sou responsável. Não o único responsável, nem o responsável direto, mas sou responsável. Quando deixei pra lá as "molecagens que todo mundo faz na juventude", quando repeti o dito popular que afirma que "aos jovens tudo se perdoa", tornei-me responsável por uma enfiada de desgraças de que não tenho notícia.

Não escrevo este texto com a intenção de me promover por meio do atropelamento de meu amigo. Nem quero dar lição de moral em ninguém - por isso escrevo em primeira pessoa. Muito menos pretendo com este texto divulgar a caretice antidrogas legais ou ilegais. Longe de mim a tentativa de limpar a consciência porque nasci em classe privilegiada. O que pretendo é fazer uma reparação: alguns leitores meus me entenderão melhor do que outros. O que pretendo é tentar verificar quais são os parâmetros que devem orientar minha vida neste mundo escroto, em que pessoas como eu - brancos de classe média, com alto grau de escolaridade, casa própria e acesso a informação - acabam mergulhando em conservadorismos como a defesa da pena capital ou da redução da maioridade penal, ou têm saudades dos "tempos da ditadura", em que "tudo funcionava melhor".

Eu não sou assim, mas corro o risco de ficar assim. Eu não quero ser assim, e faço força diariamente pra não recair em conservadorismos e machismos de toda sorte. Mas não basta: tem de ser nas pequenas ações, de todos os dias, que eu tenho de agir de outra forma, além de agir cirurgicamente nas grandes ações, aquelas em que eu tenho a chance de sinalizar algo diferente para mais gente. É o que tento fazer como professor: não sei se consigo, mas tento dizer que todo mundo tem de ter chance de dizer alguma coisa. Diria que às vezes sim, às vezes não: várias vezes me perco em devaneios pessoais de raivas contidas contra, obviamente, mim mesmo - porque, afinal, não sou diferente do delegado embriagado que atropelou meu amigo Ícaro. Mas eu tento, tento, tento, todo dia, ser melhor do que isso. Todas as vezes em que eu escolhi ir à Ilhabela em vez de aproveitar a fundo o acesso que tive à universidade pública (estudando mais, lendo mais, participando mais dos debates políticos e acadêmicos), eu fui conivente com a impunidade que talvez livre a cara do delegado que atropelou o Ícaro. Todas as vezes em que me privei dos debates do sindicato dos professores, eu servi um gole a mais ao delegado que atropelou o Ícaro. Todas as vezes em que eu disse que política não se discute, todas as vezes em que eu deixei passar o meu próprio machismo nas relações amorosas que tive, todas as vezes em que eu fiz uma piadinha racista - eu atropelei o Ícaro.  

Este é motivo pelo qual escrevo este texto: temos de fazer força para que o motorista embriagado que atropelou nosso amigo seja devidamente punido. Mas eu tenho de fazer muito mais força para que eu não seja responsável indireto por ocorrências como essa. Primeiro: não posso odiar o motorista a ponto de desejar-lhe a morte ou a tortura, tenho de desejar-lhe a reabilitação, depois do pagamento da pena. Para isso, tenho de acreditar que é possível reabilitar delegados que atropelam pessoas na calçada - porque é isso que me fará diferente deles. Caso contrário - se eu entrar no esquema do "olho por olho, dente por dente" - sou mesmo igual a ele. E eu não quero ser igual a ele. Já fui, talvez ainda seja. Mas não quero mais, pra mim chega.

Mas para não entrar na Lei de Talião, tenho de formular alternativas. E eu não tenho nenhuma proposta, a não ser as seguintes (que parecerão pouco para a maioria dos leitores): a primeira é que todas as ações da minha vida têm de ser orientadas para o esclarecimento das pessoas. Tenho de orientar as minhas ações para a desalienação, a desmercadorização dos sujeitos. Menos pelo papo, mais pela ação. A segunda é que tem de prevalecer o diálogo, nas suas mais amplas instâncias, entre os extremos mais inconciliáveis. Preciso fazer força para que todos tenham voz, para que todas as vozes sejam ouvidas, para que sejam respeitados quaisquer registros - porque as formas de dizer guardam também a senha dos seus conteúdos. Ouvir o outro, de fato, é ouvi-lo na sua forma de falar. Explico, politizando o debate: subprefeituras em São Paulo têm de ser espaço de interlocução; ONG tem de ser como o AfroReggae, cuja finalidade é a formação de lideranças que tenham voz; nossas organizações têm de transcender os partidos e os sindicatos - na esteira dos movimentos sociais e das experiências registradas pelo Boaventura de Sousa Santos.

Ainda bem que consegui terminar este texto com esse parágrafo anterior, que é propositivo. Eu não aguento mais sentir raiva, em cuja base está o medo: eu precisava encarar de frente, sem temer, a verdade mais escrota sobre mim, que fica registrada aqui: eu também sou responsável pelo atropelamento do Ícaro. Não o único responsável, nem o responsável direto, mas sou responsável.

E por isso, peço desculpas a ele, amigo querido que não vejo há tempos, também por responsabilidade minha. Saudades, com uma oração que lhe faço, do meu jeito.