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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A Ilha

Dos "Cadernos do Rio de Janeiro"

Do avião, eu vejo a ilha:
espaço mágico em que depositas todos os sonhos.
Mas no mundo real, aquela Ogígia queda,
bem como a suposta ninfa que a preside, onipotente,
porém muda, solitária, inabitada, seca, estéril:
Ulisses já partiu faz tempo
para a maravilha das coisas imperfeitas.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Ponte Aérea



(Dos "Cadernos do Rio de Janeiro", que estou preparando, dedicado aos amigos Marcello Bolzan e João Marcelo Souza)

Dispo-me agora frente ao detector de metais que
se funcionasse apitaria em silvo americanófilo:
Lá vai o Carlos, pseudocomunista, falso acadêmico,
farsa de carne e osso, que ninguém descobriu
porque ele deu sorte.

Mas não me barram: sigo adiante
no mundo estrangeiro da mercadoria,
alheio eu às marcas, que se agigantam,
alheio o mundo aos homens,
que se apequenaram, ou desapareceram,
ou zelam pelos relógios da vitrine.

Sento-me no sofá da sala VIP:
ali todos os homens são importantes –
eu também sou:
nossos nomes vão inscritos sob a insígnia
de um guerreiro clássico e plástico.

As notícias na tela da TV,
As partidas e as chegadas,
As telas de pequenos computadores –
todos os homens levam consigo o mundo
(ao menos o mundo deles próprios,
o que já é alguma coisa).
Eu fantasio que levo o Brasil na bolsa
na Antologia Poética de Drummond em livro,
na Obra Completa de Machado em PDF.

Embarco: é proibido sentar ao meu lado,
comprei mesmo a passagem que impede
a alguém que me faça companhia.
Tiro os sapatos: terei paz e algum silêncio
por quarenta preciosos minutos.
Não quero suco, nem água, nem barra de cereal,
e torço para a queda do avião
para que possa carbonizar-me silenciosamente
enquanto os outros passageiros e tripulantes gritarão
desesperados: ai, minha mãe! ai, meu pai!
Fecho os olhos, com a música no volume máximo.

Desperto: sobrevoo a Ilhabela com reverência,
Identifico as praias, trechos da estrada que beira ao mar,
(uma curva em que eu quase morri quando moço)
o hospital da Ilhabela, a Vila, sinto o Cheiro Verde,
e cruzo a Ilha em um olhar rumo a Castelhanos,
sem precisar de jipe: uma parte minha ficou lá,
quando pouco já bastava
– todo meu afeto eu deixo na Ilhabela.

(Eu programo no iPod a trilha sonora
da Trilogia das Cores: Home at Last
e sinto-me como se viajasse entre as bagagens
mas não há ninguém ao meu lado,
porque eu paguei pra ficar só)

Do Not Take Another Man’s Wife:
sobrevoo a Ilha Grande e procuro em vão
o presídio: não há nada lá.
Sob os escombros, posso ouvir os gritos dos homens
que pedem outra lápide, não esta, sobre seus corpos.
Não pedem perdão, porque sabem que erraram.
Não pedem oração, porque estão perdidos.
Não pedem epitáfio, porque não cometeram grandes feitos.
Pedem memória: basta-lhes o nome na pedra
para que possam ser chorados talvez pelas amantes,
talvez pelos filhos que deixaram.

A Valsa pra Lua, de Vítor Araújo,
demarca a areia delgada da Restinga do Marambaia,
praia em que quase ninguém pôs os pés,
quase só um traço de areia,
em interstício de lagoa e mar:
todos caminhamos ali,
sob o sol guascante que castiga os lombos
sob a tempestade tropical que enregela os ossos
sem que se possa saber onde começa o mar
e acaba o céu desabado sobre nós.

Vejo Rio de Janeiro: A Última Sessão
o Recreio, a Barra, o Engenhão e o Maracanã
(assim, um depois do outro,
e comprimo a sensação porque
dentro de instantes pousaremos
no Aeroporto Santos Dummont)
Vejo o Rio de Janeiro:
o Cristo, a Lagoa, o Pão de Açúcar
e me encanto de tudo,
esvai-se-me a sensação de propriedade
e abraço a cidade como se fosse minha.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Conto de Futebol

Gritaria interminável aqui no prédio: algum time carioca foi campeão. Não acompanho futebol – não porque o jogo em si me desagrade, mas tenho medo dos homens cegos pelo time, abraçados, urrando gratuitamente um hino de sons guturais, fogos de artifício, Vivas! Morras!, uma enfiada de impropérios, xingamentos, desejos de matar mesmo. Meu pai me chamava mesmo de maricas: português grosseirão, todo ele um lucro só, comerciante desde muito jovem, chegado ao Catete na década de 50, ele mesmo é que nos mandou, a meu irmão e a mim, para São Paulo: era para que estudássemos Direito no Largo, para sermos políticos. Se fosse em Portugal, ele dizia, nos mandaria a Coimbra estudar Economia ou Medicina. Era bravo, meu pai – e sabia aproveitar a vida, em bares, entre outras mulheres, uísque, charutos cubanos e carteado, tanto que era já quarentão quando foi pai pela primeira vez. E adorava futebol: ia ao Maracanã quase sempre que podia, não interessava quem jogasse. Se não podia ver o seu Porto do coração... ia assistir pelo menos ao espetáculo do futebol brasileiro. Viu Pelé, viu Garrincha. Meu pai acostumara-se ao Rio, como se fosse sua própria terra. Fugira de uma aldeia próxima de Braga, com minha mãe, escondidos os dois, às pressas, porque o pai dela não autorizava o namoro. Vieram pro Brasil fugidos. Acho que se deram bem, meus pais.

Ele tentara incutir em mim e no meu irmão o gosto pelo futebol que já trouxera de Portugal e que se tinha acentuado aqui no Brasil, país que ele adotara mesmo para si. Mas meu pai tinha emprestado dos canarinhos um jeito que me desagradava: quando ia me driblar, às vezes me empurrava, puxava-me a camisa se eu o desarmasse, não hesitava mesmo em dar carrinhos violentos. Eu gritava falta, mas ele e meu irmão riam e seguiam me fazendo de bobo, no bobinho – e era como se valesse a trapaça, mesmo entre nós, que éramos família. Eu acabava abandonando o jogo, porque eu não tinha tanto gosto assim pra bater bola, não queria ganhar, só queria me divertir com ele, só queria desfrutar do convívio com ele, que eu amava, apesar de temer, por causa dos repentes violentos que ele tinha quando bebia um pouco a mais. Também amava meu irmão mais novo, me sentia responsável por ele. Depois, quando mal entrávamos na adolescência, meu irmão brilhou no time de futebol do Santo Inácio, onde a gente estudava – meu pai teve orgulho. Não tive inveja porque meu irmão mais novo era mais bem quisto do que eu, tanto em casa quanto na escola, mas fiquei triste, porque o que o pessoal dizia era que o Quim, meu irmão, era mais esperto do que craque, fazia as catimbas de que o time precisava pra esfriar o moral do adversário quando este crescia na partida, ou provocava, sem o juiz ver, os jogadores da outra equipe pra provocar uma expulsão. Meu pai aplaudia. No colegial, ele mandou a gente pra São Paulo argumentando que o Rio estava um perigo e que o futuro estava na Avenida Paulista.

Estudei em São Paulo, mas frustrei um pouco as expectativas do homem: não fiz Direito, ao contrário do meu irmão, aluno primeiríssimo da São Francisco e destaque nos Jogos Jurídicos. Escolhi arquitetura, inspirado no Chico Buarque, meu ídolo, pelo qual eu aprendera a tocar violão. Acreditava que projetaria uma segunda Brasília, ainda mais ousada, ainda mais popular na concepção. As curvas de Niemeyer eram as curvas das mulheres que eu desejava, no Sujinho ou no Riviera. A gente fazia USP, meu irmão e eu, mas não saía da Consolação, depois beirava pras zonas da Augusta, porque morávamos no limite de Santa Cecília com Higienópolis, meio puteiro do centro, meio esnobagem de milionário – residíamos mesmo na corda bamba, entre as putas e as meninas da FAAP. Mas essa cidade de que me lembro nos escapou pelos dedos, acredito hoje. Tinha Cine Belas Artes, pegamos até um rescaldo de Woodstock na Consolação, Jungle na Wisard. Como morávamos sozinhos desde o primeiro colegial, meu irmão e eu fazíamos o que bem entendíamos – e cuidávamos um do outro. A diferença de idade era de pouco mais de um ano, e éramos bem próximos, porque os paulistanos nunca deixam de pegar no pé dos cariocas: a gente se protegia, ele cuidava mais de mim do que eu dele, porque ele sabia se impor. E a gente também se apaulistou. A cada período de férias, em que voltávamos ao Rio de Janeiro, meu pai resmungava que ficávamos cada vez mais paulistas, que não o abraçávamos mais, que estávamos frios feito pedra de gelo, especialmente meu irmão, Com ares de barão do café, quatrocentão bandeirante, meu pai agredia a família da namorada de meu irmão, riquíssima, família de juízes e desembargadores de antes do tempo do Rei. Não perdi a chance de dizer ao velho, em defesa do meu irmão, que beijar o próprio pai, a mim, parecia coisa de maricas – revanche que eu aguardara pacientemente desde muito tempo. Meu pai ficou mais sisudo e mastigou o bacalhau que a minha mãe preparara.

As mortes todas vieram depois: meu pai teve um câncer previsível no pulmão, o homem-chaminé. Foi um dia bonito no Catete, diversos comerciantes antigos do bairro acompanhando o rabecão até ao São João Batista, meu pai dormiria entre aqueles artistas e políticos todos. Minha mãe, que só vivia pra ele, morreu poucos meses depois – disseram que de desgosto, no apartamento antigo do Flamengo, de que eles não saíram nem amarrados, por mais que pudessem ir para o Leblon ou para os Jardins, no prédio em que meu irmão morava, já casado. Disseram que acontece bastante isso: morre um cônjuge, o outro perde a vontade de viver. Pusemos as cinzas dela ao lado do caixão de meu pai – ela pedira pra ser cremada.

E foi aí que começou o que eu quero te contar: o Quim ficou responsável pelo inventário que, se não era milionário, também não era de se deixar passar, havia principalmente os imóveis que meu pai acumulara ao longo da vida, coisa de português. Nada mais natural: meu irmão era advogado, entendia melhor os trâmites legais, acordamos que ele seria o inventariante e que eu não me preocupasse com nada. Em pouco tempo tudo estaria justamente dividido, rigorosamente metade pra cada um. Foi então que meu irmão mudou, nos meses seguintes: cada vez que eu perguntava a respeito do assunto, ele me dizia que eu não sabia as besteiras que meu pai tinha feito. Devia pro bicho? eu perguntei, porque sabia que meu pai jogava sempre, ainda antes de ficar velho acreditava que os sonhos lhe enviavam mensagens cifradas que ele tinha de desvendar – o inconsciente falava, ele dizia froideano. Mas meu irmão desviava do assunto e me pagava o almoço no Figueira ou no Rodeio, dizia que não me preocupasse com dinheiro nem com a burocracia toda, se eu precisasse de dinheiro que lhe pedisse. Eu até precisava, mas tinha vergonha de pedir: meu irmão mais novo já sócio no escritório do amigo do pai da moça, circulando de Cherokee, eu bolsista do CNPq, fazendo bico, pesquisando a obra de Niemeyer, apertado pra pagar as contas do apartamento da Santa Cecília sozinho. Mas foi a minha cunhada que pela primeira vez atendeu o telefone do meu irmão e disse que ele não podia me atender. Desde então, ele nunca mais pôde.

Quando saiu o inventário, meu irmão mandou o advogado dele me dizer que eu ficara com o apartamento do Flamengo, que estava fechado desde a morte de minha mãe, com uma dívida alta de IPTU, que eu assumi. Eu no fundo sabia que meu irmão estava me enganando, hoje eu sei, depois de tanta terapia e reunião: eu tinha assinado uma procuração de plenos poderes para ele. Mas eu não podia, não queria acreditar que ele me daria o chapéu – a gente era irmão, eu cuidava dele quando ele era pequeno, mas depois de um certo tempo eu é que dependia da assistência dele, arrumava as namoradas sempre na turma dele, tirava uma casquinha do prestígio que ele sempre tinha, o prestígio que ele tinha herdado do meu pai, aquele jeitão de conhecer as pessoas, de entrar nos lugares e ser notado por todo mundo, de atrair a atenção das mulheres, de sempre se dar bem no fim, a qualquer custo, que nunca parecia alto, que sempre parecia ter a leveza e a naturalidade do gesto que encantava as pessoas.

Gritaria interminável no prédio: vou andar na praia. Recuperei esse gosto que eu havia perdido, caminhar na praia, saio pelo Aterro aqui do Flamengo, vou até Botafogo. Mas hoje estou perdido, a confusão de fogos de artifício, a barulheira na cidade, a gritaria nos bares, as buzinas muitas. Pois sigo andando, atravesso Copacabana, alcanço o Arpoador e sigo: vou até o Leblon, com sorte encontro meu irmão, que comprou apartamento por lá, na General Urquiza, porque o filho da puta gosta de ficar perto do Marina. Se eu encontro ele, encho a cara de porrada. Mas é o fim da tarde e me encanto da paisagem – minha raiva não é real, nunca foi. Eu estou é decepcionado, mas sempre conheci a verdade. Às vezes eu não queria era ver. Mas o dia está tão bonito que perco a vontade de briga e aprecio a praia. É dia quente: na areia, joga-se de tudo. À minha direita, um casal jovem de namorados, ela e ele musculosos, os corpos definidos, atracam-se pelo chão, não em um beijo apaixonado, mas em treinamento de MMA, claramente definido pelas orientações que ele dá a ela. Assusto-me, porque suponho que qualquer um dos dois que se machuque pode brigar de verdade com o outro, mas a lógica entre eles parece diferente: a agressão é carinho e diverte. Mais à frente, adolescentes equilibram-se em cordas bambas, tesas entre palmeiras próximas, saltitam, cantam, divertem-se sem tocar o chão – engendram o impossível de flutuar por um instante, em naturalidade que encanta as meninas e os turistas que registram tudo avidamente. Desagrada-me a exibição gratuita, quase exótica, de uma habilidade acrobática para estrangeiros espalharem nas redes sociais, impressionados com o sorriso do menino pobre que se equilibra na corda e pede um real.

Abandono o espetáculo aborrecido e vislumbro a orla como um todo, mais amplamente, em perspectiva – é coberta de guarda-sóis, pouco se vê a areia. E além do vai e vem das ondas, percebo que a praia empresta vida dinâmica a milhares de bolas que saltavam daqui para lá, de um lado para o outro, em traçado elíptico ou circular, rotativo e translativo, diferente e idêntico às curvas de Niemeyer, entre redes de vôlei ou de futvôlei, de campos demarcados na areia, entre gols demarcados por chinelas, sob os olhos atentos dos estrangeiros.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

40 anos das Novas Cartas Portuguesas, na Casa das Rosas



Confirme sua presença ao evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/488892361151520/

 Programa – dia 23 de novembro de 2012

11h – Conferência de Abertura: "Resistência e Afetos - trajetória poética de Maria teresa Horta" Prof. Dr. Gabriel Arcanjo Santos de Albuquerque: Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP); Professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

12h – Almoço

13h – Apresentações

13h-14h20: Primeira sessão de apresentações

Alleid Ribeiro Machado: Doutora em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP); Professora do curso de Letras da Uni Sant'Anna. 
Apresentação: “Mas o que pode a literatura? Ou antes: o que podem as palavras?” Quarenta anos depois: vozes renovadas na Literatura Portuguesa Contemporânea.

Wellington de Assis Silva: Mestrando em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), professor de Literatura Portuguesa e Brasileira do Centro Universitário Claretiano
Apresentação: “Uma questão de identidade(s): a construção das identidades múltiplas em Novas Cartas Portuguesas

Yasmin Serafim: mestranda em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP), bolsista CAPES
Apresentação: “O corpo enclausurado: uma leitura das Novas Cartas Portuguesas

14h20-14h40: Lançamento de Livros 

Deus, Amor, Morte e as atitudes líricas na poesia de Hilda Hilst, do Professor Gabriel Albuquerque 

Contos de Sagração: Benjamin Sanches e a experimentação estético-formal, da Professora Nicia Petreceli Zucolo

14h40-16h20: Segunda sessão de apresentações

Nivaldo Medeiros Diógenes: doutorando em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP); Professor das Faculdades Carlos Drummond de Andrade e Faculdades João XIII (diversos cursos), professor da Rede Pública Estadual
Apresentação: “Os cavaleiros, as armas e os amores”

Nicia Petreceli Zucolo: Professora da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), doutoranda em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP), bolsista da FAPEAM (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas)
Apresentação: “Paixão e resistência em Novas cartas portuguesas

Alexandra Alba Picone Jardim: Mestre em Estudos Comparados (USP), Professora da Faculdade Carlos Drummond de Andrade; doutoranda em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo (USP)
Apresentação: “Desenlaces de família”

Fábio Fazilari: mestre em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM)
Apresentação: “A des(apropriação) do corpo feminino nas Novas Cartas Portuguesas

16h20-16h40: intervalo



16h40-18h: Terceira sessão de apresentações

Francisco das Chagas: Mestre em literatura portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), professor das Faculdades João 23 e Faculdade Carlos Drummond de Andrade.
Apresentação: “As múltiplas interpretações da cantiga das Novas Cartas Portuguesas

Sara Maria Maio Ezedin Pinho: Mestre em História da Literatura pela Universidade Federal do Rio Grande (Furg). Professora de Literatura, Língua Portuguesa e Redação do Ensino Médio.
Apresentação: “O triângulo da paixão: aventuras ao absoluto em Novas Cartas Portuguesas

Carlos Rogerio Duarte Barreiros: Doutorando em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), bolsista CAPES
Apresentação: “Forma Literária e processo social nas Novas Cartas Portuguesas

18h-18h20: Intervalo

18h20-19h

Conferência de Encerramento: Profa. Dra. Marlise Vaz Bridi

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Sobre educação e violência

No dia dos professores, publiquei o texto 15 teses sobre professores e educação, que teve pouquíssima repercussão, muito provavelmente pelo conteúdo que apresentava. Tudo bem: sigo insistindo que este blog jamais alcançará mais do que o recorde de 150 acessos num dia. Eu já sabia que não seria lido, pois, desde o primeiro post,  eu afirmava que este blog conteria "restos de mim que, embora dispersos, muitos ilegíveis, a maioria deles desprezível". Pior: esses restos eram e são "cacos de um objeto que nunca chegou a ter unidade e que ficarão disponíveis por aqui, para quem quer que tenha tempo livre para ler".

Certamente poucos têm interesse de catar cacos incoerentes de um todo que jamais foi composto. Não os culpo: eu mesmo me canso das minhas incoerências. Mas eis que me deparo com a reportagem sobre o apedrejamento da casa da menina que tem uma página no Facebook intitulada Diário de Classe. Pelo clima que se pode notar pela página do Facebook e pela reportagem, para evitar que a menina escreva, agora recorre-se a certa xenofobia, o que me leva a algumas reflexões, desdobramentos daquelas teses que defendi no dia dos professores.

A primeira é que em qualquer escola, seja pública, seja particular, donos de escola, diretores, coordenadores, professores, funcionários e pais de alunos não pensam nos alunos em primeiro lugar - e deveriam pensar. Basta estar numa escola pra saber que os alunos que reivindicam pelos direitos dos alunos acabam enterrados em montanhas burocráticas e disciplinares; diretores, coordenadores e professores que fazem o mesmo ou são calados, ou demitidos; pais de alunos que interferem muito recebem o convite de tirar o filho da escola.

É o caso dessa menina, que convocou publicamente todas as instâncias da escola à mobilização pela melhoria do ensino. Está certa ela, e a intransigência do apedrejamento só revela como a escola brasileira não está pronta para o diálogo - exatamente o que a escola deveria fomentar. Mas não se produz diálogo com o professor no tablado ou em pé, enquanto os alunos estão sentados e dispostos em fileiras. Ninguém descobriu a aula em círculo ainda? Certamente não. Mas o bonito é perceber que uma singela página no Facebook convoca todas as instâncias escolares à revisão de suas posturas. O diretor terá de melhorar a gestão; o coordenador terá de aprofundar a mediação entre alunos, professores, pais e direção; os alunos, se cobrarem melhorias, terão de parar com as vadiagens e meter a bunda na cadeira; os funcionários terão de preocupar-se com a preservação da escola, dialogar com seus superiores a respeito disso; os pais terão de participar mais de todos os processos. (Mas o que todo mundo quer é chegar em casa logo e cuidar da própria vida: dizer que é preciso investir em educação qualquer um diz: quero ver é atuar em nome da educação no cotidiano).

Não há teoria do diálogo, há apenas a prática do diálogo - e esta não acontece nas escolas brasileiras, sejam públicas, sejam privadas, salvo raríssimas exceções. Piores são as privadas, em que é eterna a queda de braço entre pais (que acham que são donos da escola porque pagam as mensalidades) e os donos da escola (que de fato são donos da escola). A maioria dos pais acredita que a escola tem a finalidade de preparar seus filhos para o mercado de trabalho; os donos de escola acham que estão preparando, mas sempre na medida da margem de lucro que pretendem angariar ao final do mês. Quanto à formação do pensamento crítico dos alunos, fica sempre em último lugar: filhos com pensamento crítico dão problema, argumentam, agem sem consultar, depois de diversas tentativas de diálogo com os pais, que não dialogam; alunos com pensamento crítico dão trabalho, impõem à escola as novidades que ela ainda não soube assimilar - a crítica pública, em redes sociais por exemplo.

O mais grave é que a resistência à menina tomou a forma de xenofobia: aí a coisa complica mais, e demonstra que o mundo de fora habita a escola - por mais que os profissionais da educação insistam em pensar a escola como entidade à parte do mundo. Creio que diversos fatores - que seria extenso elencar aqui, mas entre os quais se incluem principalmente a universalização do acesso ao ensino, na década de 90, alcançada na Era FHC, mas sem a permanência e a qualidade, ambas ainda por alcançar; a ampliação do acesso à internet; as políticas de destinadas à redistribuição de renda, de Lula-Dilma - contribuem para que cada vez mais se faça ouvir a voz daqueles que deveriam ser o centro para o qual devem convergir todas as forças dos profissionais da educação e dos pais: os alunos.

Olha, cansei de ver escolas, donos de escola, diretores, coordenadores, professores, funcionários e pais de alunos que não pensam nos alunos. Ora, a finalidade da escola pode ser também prepará-los para o mercado de trabalho, mas parece que ela não pode ser apenas isso. Muitos argumentarão afirmando que o mundo é que é assim, e que é assim que tem de ser. Mas discordo: todos sabemos que os sujeitos que "se dão bem" passam muito além dos conhecimentos formais ensinados na escola, às vezes até prescindem deles. Outra coisa: o que é "se dar bem"? Eu daria uma boa aula sobre isso. Mas nenhuma escola ou pai de aluno quer ouvir um profissional que afirme categoricamente aos alunos: "Vai fazer letras se você quer passar a vida lendo poesia; vai fazer teatro, se quer passar a vida no palco". Depois de tudo que vivemos, depois de todas as terapias, meditações, missas, cultos, livros de autoajuda - será que ninguém percebeu que há um teto de propriedades materiais que são suficientes pra viver e que o resto - luxos, exageros, carrões, ostentações - não trazem a felicidade? Quase sempre é o contrário: o apego a esses luxos é aprisiona as pessoas às suas baias nas empresas multinacionais.

Há ainda o dado da violência. Eu nunca achei que chegaríamos ao ponto em que estamos - em que a violência das classes dominantes se renovaria com tanta força. Aqui em São Paulo, a guerra entre criminosos e polícia militar traz à tona os discursos mais violentos, os da extrema direita, como foi nas eleições - e as populações que mais sofrem são as das periferias, vitimadas no meio do tiroteio e da gratuidade dos assassinatos e das violações à liberdade: à cata do criminoso, esculacha-se o homem comum, trabalhador. No Rio de Janeiro, a pacificação foi conquistada a reboque de uma cidade militarizada: há pelo menos uma dupla de policiais militares ou civis a cada esquina da Zona Sul - é isso uma cidade segura?, me pergunto toda vez. Em Floripa, suposta "cidade mais bonita do mundo", como afirmou o prefeito que acaba de ser eleito, é apedrejada a casa de uma menina que denuncia o descaso com a escola em que estuda e sugere-se que ela e sua família abandonem a cidade, porque não são de lá. É este o país da tolerância?

Não se trata apenas de São Paulo, Rio ou Florianópolis: a violência está latente na experiência brasileira, sempre esteve, mas também sempre foi escamoteada por discursos em que pululam os lugares-comuns da "tolerância", da "igualdade de raças", de "mestiçagem", de "cordialidade". A Nação supostamente mais simpática, dócil, musical, acolhedora e cheia de ginga é também aquela em que não há diálogo toda vez em que o poder constituído é ameaçado; a simpatia acaba dependendo do bairro em que se está; a docilidade vai por água abaixo quando pistoleiros fuzilam os sem-terras, quando não se diferencia a polícia dos bandidos; são a ginga e a malandragem que permitem as furadas de fila, as paradinhas em fila dupla, as pequenas e as grandes corrupções.

É na escola que se aprende - eu me lembro bem, porque também minha avó sofreu ameaças quando defendi  meus pontos de vista, vinte anos atrás - que "fala quem pode, obedece quem tem juízo". Não mais.


  

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Dia dos mortos

A cidade vazia, embora não pare: é toque de recolher disfarçado de madrugadinha afora de primeiro para dois de novembro, dia dos mortos. Mas os mortos estão aqui, argumenta um colombiano, morador de cortiço da região central, ancestrais indígenas, é o que se vê pelos lábios, pelos olhos, pela tez, apesar do corpo e da voz claudicantes: é preciso falar com os mortos. Que venham os mortos todos, eu respondo - nunca precisamos tanto deles por aqui.

Mas é que a gente não deixa os mortos morrerem - argumenta um espiritualista agnóstico. E parece que faz mesmo sentido. Choramos tanto os mortos, e as vozes, e as roupas, e os corpos, e as presenças deles, tudo que deixaram, que não abraçamos forte as crianças que já vem chegando, que já vem andando quase e falando ao telefone, os dedinhos correndo a tela do smartphone da esquerda para direita, já elas todas brutalmente prontas para o mundo que os mortos deixaram.

(Mundo desacertado, argumentam uns bons professores. Não é querendo desmerecer as heranças - mas ficaram é sim uns despojos genéticos de olhos e de unhas bem grandes, cabeça pequena de criança inconsequente, corpo musculoso de rato de academia, pé nenhum: flutuamos na iminência de uma nuvem ao rés do chão, que não nos deixa ver onde pisamos)

Ficam os mortos portanto interditos: nem podem nos ajudar de caso pensado, iluminados, transcendentes, porque não os deixamos cumprir a saída deste mundo; nem somos nós propriamente os viventes - para morrer, basta estar vivo. Mas que é preciso para estar vivo? Este é o lugar nenhum, e aqui somos apenas semoventes ocos, se nos for permitido vagar.

(Homens baterão à porta à procura de abrigo antes mesmo de outros homens baterem à porta à caça daqueles - delegamos a alguém que já nos foge à memória toda a maldição e toda a benção. Esquecemos, passou. Alongamos o futuro todo na medida do estreitamento do hoje. Aprisionamos os mortos e prestamos culto à vitrine: é nela mesma que depositamos toda a fé)

A cidade vazia, embora rasgada de um ronco interminável de motocicleta, das ruas, das marginais, das radiais, dos rodoanéis, de um lado pra outro, em círculos, sem produzir nenhum sentido, sem chegar a lugar algum, deixando rastro de fumaça e de zoada infernais. Mas aqui é mesmo o inferno, não existe amor aqui, temos manual prático de ódio, estamos em pânico há muito tempo: as vozes que não podem ser ouvidas não são entrevistadas no jornal, e ficam assim artificiais, registradas por quem nunca as pôde nem quis ouvir.

Explosão: o choro alto do recém-nascido sujo da mãe, cortam-lhe o cordão umbilical e ele silencia, porque já não pode viver. Na sala de parto há uma televisão, as enfermeiras debatem a novela, o médico e os residentes falam de futebol e o anestesista está grogue de ter bebido um pouco antes do trabalho. Trabalhar no feriado: quem mandou endividar-se por causa do carro novo? ele rumina passivo.

Imprecação: o anestesista não quer mais sofrer tanto, Mas que se foda tudo (a frase é dura, mas ele não pode sentir nada), o de cima caga no de baixo, e esse cirurgião é um metido filho de uma grande puta, por mim, podem morrer todos. As enfermeiras não vão pra casa por causa do toque de recolher. O médico não mora no bairro perigoso. Os residentes vão dali mesmo pra balada, com guloseimas furtadas ao hospital.

Ninguém sabe, mas a criança percebe tudo e arrefece. Ninguém percebe, nem quer acreditar que o coraçãozinho nem bem nascido já se havia partido em pequenos pedaços de asfalto e pólvora - uma fuligem de nada, que é mesmo o cordão que ata a vida à morte. A criança desanimou antes mesmo de olhar o mundo, apesar de todos os monitores, reanimadores, técnicas de massagem cardíaca, produtos químicos, frases de autoajuda, Volta, garoto, implorava o anestesista, que teve de ser arrastado pra fora da sala de cirurgia porque se mijara todo. As enfermeiras rezavam, o médico não podia acreditar que perderia uma vida naquele dia, os residentes se emocionaram, mas descobriram no instante seguinte que   era aquela a primeira de muitas histórias que poderiam capitalizar em almoços, debates na faculdade, festas de família e amigos, numa autobiografia a respeito do desafio de ser médico em uma sociedade que perdeu a confiança na efetividade objetiva da ciência.

Longe, bem longe da cidade - um diabo ronda as matas, e os homens não podem resistir: cogitam de suicídio coletivo. Os mortos de muito antes querem falar, mas não podem: estes vivos é que não podem ouvi-los.