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domingo, 30 de dezembro de 2012

Mensagem ao aluno desconhecido

E ele era um homem de largos ombros, a cara grande, corada muito, aqueles olhos. Como é que eu vou dizer ao senhor? Os cabelos pretos, anelados? O chapéu bonito? Ele era um homem. Liso bonito. Nem tinha mais outra coisa em que se reparar. A gente olhava, sem pousar os olhos. A gente tinha até medo de que, com tanta aspereza da vida, do serão, machucasse aquele homem  maior, ferisse, cortasse. E quando ele saía, o que ficava mais, na gente, como agrado em lembrança, era a voz. Uma voz sem pingo de dúvida, nem tristeza. Uma voz que continuava.

Descrição de Joca Ramiro, no Grande Sertão: Veredas.  36a. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.216. 

No mês de maio de 2012 você deixou um comentário aqui no blog - e peço-lhe desculpas por não ter respondido logo. Já lá vão sete meses, mas preciso confessar-lhe que não sabia o que escrever. O que quero dizer, e faço-o desde as primeiras linhas deste texto, é que você tocou a ferida mais doída: vale a pena lecionar? Até hoje não sei responder direito a essa pergunta. Acho que vale sim (estou taciturno, mas nutro grandes esperanças), mas garanto que o seu comentário me deu certo alento que vinha me faltando desde a morte do Martinho.

O senhor entenda e entende: Martinho é que me ensinou a ser o que eu queria ser. Ele era apaixonado por literatura, militante do antigo PCB, ativista do sindicato dos professores - e o melhor professor que eu tivera até então. O homem vivia de literatura, gramática e redação, além de ajudar um monte de gente e de participar do "partidão": um sonho que roubei pra mim. Era um tempo diferente: nós líamos Machado de Assis, Truman Capote, Eric Hobsbawn e os livros do vestibular, ouvíamos Chico e Caetano, Sabath e o rock dos anos 80 - tudo com o mesmo compromisso e o mesmo engajamento. Tudo era motivo de debate político, de fuga à alienação, de querer debater.

É engraçado: de certa forma, eu imito o Martinho até hoje. Ele se gabava de ter me arrumado praticamente todas as aulas que eu dava, jeito dele de encobrir a ajuda que deu pra mim e pra muitos outros professores iniciantes, que ele protegia e ensinava. Faço o mesmo com alguns amigos, hoje. Ele dizia que não precisava viajar, nem gostava: bastava-lhe viajar à roda do próprio quarto, com os livros que lia - exatamente o que faço. Tive cabelo, jeito de falar, jeito de vestir, jeito de viver - sempre à moda do Martinho. Custou-me adquirir trejeitos próprios, cacoetes de mim mesmo. As aulas de análise sintática que eu dei pra você - aprendi com desafios que ele o Gaspar preparavam pra mim, semanalmente. Trechos inteiros de Camões pra analisar sintaticamente.

Falávamos sempre quando saía a primeira fase da Fuvest. Lembro-me de atravessar madrugadas com o Martinho, ao telefone, debatendo as questões, as obras literárias, depois enveredávamos pela política, pela vida, pela carreira. Depois essas ligações foram escasseando, mas ainda nos encontramos algumas tardes, em que bebemos exageradamente, contamos bravatas e pecados inconfessáveis - tudo entremeado de política e literatura. Martinho foi minha passagem pra vida concreta por meio de um sonho - o de fazer diferença lecionando.

Foi nesse ambiente que lhe dei aula. Cada dia na sala dos professores, com o Martinho e o Gaspar, era pra mim uma festa linguística e literária. Aprendi ali mais do que em muitas aulas da faculdade, mais do que em muitos livros - ali aprendi a ser professor de verdade, a ter compromisso primeiramente com os alunos. Você não sabe os perrengues que passei por pensar assim - e quem me ensinou foram aquelas tempestades de homens, meus jocas-ramiros, de cujo bando fiz e faço parte. Hoje há poucos desses.

E agora você vem me dizer que sou também um deles, um dos grandes? Não sabe o bem que me fez. Porque eu nunca acreditei de verdade em mim. Se você assistir à minha aula hoje talvez não me reconheça: há em mim um travo que revisto de arrogância - tudo pra encobrir o pavor de que as pessoas não vejam sentido no que eu falo, nas escolhas que eu fiz. É assim mesmo: dizer que é importante investir em educação todo mundo diz. Quero ver é o sujeito tomar pra si a responsabilidade de fazer, junto com o professor, uma aula menos ordinária. Quero ver a escola bancar a formação de um sujeito emancipado: poucos aguentamos o tranco, gente que pensa dá trabalho, sobretudo se for jovem.

Mas o Martinho morreu - e eu quase abandonei a sala de aula. A falta dele me fazia ter uma sensação de missão cumprida: era na verdade mais medo, porque a responsabilidade ficara toda comigo agora. Um vazio, como se ele tivesse me entregado a tocha, missão cumprida dele - a minha ainda por cumprir. Eu temia, porque nunca julguei que poderia lecionar da mesma forma que o Martinho. Nunca poderei, eu acho. No mais: muitas, muitas outras mortes. Desde pequeno - enterrei muita gente, reconheci muito corpo, fui a muitas funerárias, com meu pai, arrumar a papelada dos nossos mortos. Depois, eu mesmo arrumei a dele. E segui arrumando outras tantas. A morte vai minando, sujeito quando percebe enterrou metade das figuras na foto de família.

E você vem me dizer que lhe incuti na alma a vontade de lecionar. Rapaz, essa coisa é séria, porque eu nunca imaginei que as vezes em que li Grande Sertão no final dos cursos teriam alguma repercussão - até você me dizer que leu o romance três vezes e que foi professor da FGV, onde estudei também.

Você sentiu, Felipe? Aquele vazio tremendo depois de uma aula que você passou semanas preparando e da qual ninguém participou? Percebeu como fins de ano são cruéis com quem sabe que não há o que comemorar? Teve a sensação horrível de que os alunos não têm nada que ver com isso - mas que eles são resultado de mais de dez anos de repetição, alienação, reificação, mentiras, tudo sob as barbas dos pais, dos donos das escolas, dos diretores, dos coordenadores, dos professores? Sentiu o mundo desabar quando alguém lhe sugeriu que, trabalhando demais, você acabava obrigando os outros a trabalhar mais - e ninguém quer trabalhar mais, porque todos estão descrentes e desacreditados? Sentiu os dentes arreganhados do conservadorismo e os tentáculos invisíveis, mas infinitos, do sistema, quando tentou fazer algo de diferente em aula? Sentiu que sobram pouquíssimos momentos pra fazer pensarem os alunos, depois de toda a burocracia escolar?

Doeu-me demais, sempre, sentir tudo isso - mas insisto na docência, apesar de evitar escolas, naquele clima em que fui seu professor. Não posso dizer que não tenho saudades: aquele cheiro de escola pela manhã, do pessoal que acordou cedinho, dos alunos doidos pra ter aulas boas. À noite é mais gostoso ainda: lembro-me de uma escola pública em que lecionei. Colegial, moçada doida pra estudar e melhorar de vida, aquele cheiro de quem trabalhou o dia todo e quer mais - eu tinha alunos que já eram pais de crianças grandes. Eu me lembro: tinha uma morte toda semana, de tiro, de acidente de carro, de tragédia que não sai na Folha. A paulada é muito, muito forte - e nem sempre dá pra fazer o certo, que é pensar no aluno antes de qualquer coisa. É simples: tudo aquilo deveria acontecer por causa do aluno, todos os esforços deviam convergir pra ele - o diabo na escola, no meio do redemunho é aluno criando, criando, criando - mas nestes tempos tenebrosos em que vivemos, outros mil interesses vêm tirar tudo das mãos deles. E você bem sabe que "o que induz a gente para más ações estranhas é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe".

Sendo isto, procurei outros caminhos: e não reclamo, ao contrário. Estou bem feliz nos lugares em que leciono, fazendo o meu melhor (que é sempre menos do que fazia o Martinho, mas vá lá: Martinho é Joca Ramiro). Evito pisar nos calos das pessoas e fico desaforando no Facebook, escrevendo meus contos aqui no blog, cheio de planos de publicação pros anos que virão. Será uma outra forma de fazer continuar a voz dos meus mestres.

Não há conclusão - já lhe disse que seu comentário me alegrou imenso. Enfim - talvez eu tenha tomado pra mim o que me foi dado e deixado pelos mestres que tive e tenho. No mais, quando soube que você leu o Grande Sertão e que lecionou também, entendi que esta solidão metamorfoseada em companhia que é a minha vida também pode ter alguma recompensa.

Você fez questão de afirmar que não importa que eu me lembre de você. Não é verdade - mas também é verdade que, ao escrever isso, você me confortou: não interessa quem é o professor, mas que os alunos se encantem tanto das narrativas que ele contou que não o percebam sair da sala. Porque o professor não interessa nada: o que interessa são os alunos.

Se o Martinho é voz que continua em mim, e sou voz que continua em você - então lhe agradeço, chorando bastante, por levar adiante os sonhos que eu tomei pra mim.     

sábado, 15 de dezembro de 2012

O dia em que Marcelo voou

Para Marcelo Mendez , fã de futebol, de rock and roll e dos homens

Numa manhã, ao despertar de sonhos reconfortantes, Marcelo viu-se transformado em gigantesco urubu. Tendo percebido que o que ocorrera não tinha volta e que, de certa forma, correspondia aos seus pedidos, sorriu e lembrou-se de uma frase que tinha lido nem sabia onde, nem importava mais: passarinho que se debruça - o voo já está pronto! Foi pra janela e partiu para a maravilha das coisas imperfeitas.

A primeira que ele fez foi sobrevoar o Pacaembu em dia de jogo - que beleza os torcedores todos vestidos com a cor do time!, não interessava mais qual, porque Marcelo agora só queria mesmo era exercer a liberdade que tinha de voar sem responsabilidade, de não precisar cumprir horário, de poder olhar os homens a distância, bastava fugir da violência deles, que Marcelo conhecia bem. Apreciou o espetáculo do jogo, da torcida, dos shows a céu aberto, foi até o mar e voltou, assistiu a mais um jogo na Vila Belmiro, ainda no mesmo dia: não havia trânsito no céu. E foi por isso que Marcelo correu em rasante a orla, assustando as pessoas, mas não era maldade, era só desfrute.

Pra sobreviver, ele sabia - havia os restos de comida do lixo. E na bicada de um resto de picanha de uma churrascaria de primeira, Marcelo cogitou filosófico que poderia ajudar os homens, aproveitando-se de tudo o que eles dispensavam e descartavam. Mas não era filosofia: era mesmo um resto de pensamento ecológico e solidário que lhe restara da vida humana. Marcelo achou que era bom. E passou então a frequentar os fundos dos restaurantes, os lugares que os homens não veem, mas que ele via de cima.

Foi então que aconteceu: Marcelo quase foi morto nas garras de uma pessoa. Não era homem nem mulher, não era criança nem adulto - mas era um ser raivoso, os olhos mais vermelhos do que os dos ratos que Marcelo conhecera e com quem dividira restos de massa num restaurante do Bixiga. Devia estar doente o serzinho demoníaco - estava esfomeado, tentara caçar o urubu na falta de comida. Marcelo fez que fugiu, mas foi levando o molambo de gente a um outro lixo ainda bem farto, fingindo-se de caça, pra aquilo poder comer. Mas depois que o nem-ser engoliu apressado uns restos de comida, Marcelo perdeu um pouco da alegria de que estava gozando, porque a criança - agora percebera, era uma criança - estava à toa e adormecera em meio ao monturo de cascas, restos de comida e papéis higiênicos que ali havia.

Marcelo percebeu como era privilegiado: não podia chorar, mas nessa hora a Natureza toda quis correr lágrimas por ele e ameaçou a chuvarada. Não satisfeita, achou que Marcelo precisava de um amigo e logo mais chegou outro urubu, também ex-pessoa, também muito mais feliz agora. E os dois imponentes, impávidos, classudos, tomando o chuá todo, choraram juntos a miséria humana.  

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Impressões de cheiro, cor e outros tantos sentidos obscuros

Manhã: abro a janela e Copacabana vai entrando em casa sem pedir licença. Entra simplesmente em forma de brisa do mar às avessas - que aqui não tem só mar, tem asfalto, tem fumaça de óleo diesel, tem aroma de dendê logo cedo, sabe-se lá quem é do prédio que cozinha às sete da manhã. Arranho os olhos, lavo a cara: mas é no Rio que estou?

Tomo banho rápido, visto rápido a roupa, jeans e camiseta, é e foi assim sempre, não muda, salvo o humor - melhor, camiseta clara; pior, camiseta escura. Em dias difíceis, em que encontro os companheiros no início da noite, todos me dizem que amanhã vai ser melhor: estamos todos taciturnos, mas nutrimos grandes esperanças. A cidade cheira ao perfume que uso pra espantar o monturo que guardo em mim.

Quando entro no elevador, mofo: mofo dos turistas e moradores que circularam aqui molhados de mar, que se embriagaram na praia e decidiram dar um último mergulho, e que por isso foram deixando gotas de excitação melancólica no elevador - identifico-as todas, não perco uma sequer, o corpo não deixa, em assimilação somática do que está para além de mim. Posso sentir quase mesmo o calor dos corpos, o cheiro de sal, de cerveja e de cigarro escorrendo pelo corpo.

Abalo pela Viveiros de Castro: estamos em plena Copacabana. Cheiro de mar, cheiro da lavanderia - há pilhas, toneladas mesmo de lençóis com cheiro de doença, de todas as doenças, de roupas pra lavar, todas manchadas de gotas de sangue de picanha, cerveja derrubada, chope entornado que escorreu pelo canto da boca, porra, azeite de dendê (o mesmo que eu senti logo cedo), chocolate, açaí, sangue de porrada na cara, sangue de menstruação - tudo que vai escorrer sabe-se lá por onde, desaparecer da frente - a gente só quer ver mesmo as coisas bonitas da cidade, a princesinha do mar, a garota de ipanema, as relíquias da cultura e da exuberância brasileira, deus abençoe esse país.

Mas o chão tem merda escorrida de todos os cachorros de todos os apartamentos, dos quais caem pontas de cigarro, que espalham fumaça e cinzas que posso sentir em todos os lugares - é em mim que reverberam os gritos da madrugada que ouvi durante o sono. Não acordei, mas registrei - foi aqui mesmo, na esquina, que a namorada apanhou do namorado embriagado, que o travesti prometeu fazer um escândalo, que o gringo deu um pega, que mijou o primeiro cachorro do dia, passeado do aposentado que fede a naftalina, porque não tem mais vida, porque não soube envelhecer trabalhando - única alternativa de longevidade no presente. Nem há mais passado, o futuro está encolhido, melhor não pensar nele.

Há lixo por toda a parte, ainda que não vejamos. Tento me acolher no perfume que carreguei no corpo pra fugir do monturo que há em mim, da esterqueira da rua - já levaram o lixo, mas ele ainda está lá. Vejo uma pessoa em trapos debaixo da marquise de um prédio de apartamentos da década de 50, se não for de antes. É um cagaçal - talvez não seja pessoa, os pés pretos, encastoados de piche, asfalto, merda, areia da praia e chão de bar. As unhas crescem - ouvi dizer de uns voluntários que cortam as unhas a essas pessoas. As barbas misturam-se às roupas surradas, há entre um moletom rasgado e um edredon do
Flamengo (ou será uma toalha de praia?) - um cachorro ali aninhado, que também aquece. Saltam-me as pulgas no corpo por instante, mas voltam atrás - Ele não dorme mais aqui, disseram. Apresso o passo.

A entrada do metrô me abre a boca de hálito quente: eu sei que há ratos ali, escondidos, que dançam à noite nas praças Lido e Serzedelo Correia, em baile perfumado, maldito, devorando o lixo, a merda, os restos, as pessoas. Pra que tanta chuva? Pra que tanto sol? Os dias são como os homens - não temos a medida, bravatamos a noite toda para podermos suportar o dia, em que nos encaramos uns aos outros no vagão que cheira a metal queimado, a jornal vagabundo e a perfumes de que abusamos pra disfarçar a decrepitude putrefacta de nós mesmos.  

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

O demônio mora no aeroporto

Não gosto de aeroporto: tem cheiro de lugar limpo sempre, todo o dia, por seres sem vida, uniformizados anônimos misteriosos. Os olhos deles trabalhadores são brancos, os ouvidos eles tapam com protetores por causa do barulho. É de enlouquecer trabalhar no aeroporto: teve um sujeito, contam aqui, que disse à esposa, Prezada Cliente, a Varig convida a senhora passageira com destino à Rua da Consolação a partir desta para uma melhor, e assassinou a própria mulher, mutilando-a com o aviãozinho que recebera em miniatura, da companhia que falia, em que o sujeito trabalhava também - homens e coisas em falimento. É o que dizem.

Eu mesmo abandonei o emprego que me deram - não trabalhava em companhia, era atendente da livraria, bem jovem. Fiquei apenas seis meses, tempo que já deu pra ver que pra mim aquele lugar não servia. Foi minha avó quem pressagiou: No aeroporto mora o diabo. Eu sorri e não disse nada - queria dar o bote no emprego, minha passagem para os bairros mais próximos do Shopping Ibirapuera, tinha só quase esse naquele tempo. Hoje eu respeitaria mais - minha avó, minha mãe, os mais velhos. Meu pai jamais, que eu não conheci, nem conheço: minha mãe me chamou Josué. Era só um ônibus e eu chegava lá em uma hora; nos dias de sorte ou de feriado em vinte minutos.

Logo no primeiro dia - eu vi, e devida ter visto com olhos de ver. Uma senhora muito rica que esculachava um funcionário do aeroporto, no check-in, não posso dizer o motivo, porque eu mesmo não sei. Ela vestia quase nada, mas o pouco pano que a cobria brilhava muito - talvez ela não quisesse que olhassem pra ela de verdade. Gritava, a criança no carrinho de carregar malas olhava catatônica o auê que a mãe fazia, devia ter uns seis anos, pouco mais, quase sete. Tinham olhos de fogo, a mãe porque ia viajar, a criança porque estava contaminada da mãe. Nem deu tempo de impedir: a criança derrubou as malas do carrinho, arrastou-o com toda a força até o meio da área de circulação e começou a rodar em círculos, em rodamoinho, rodagigante - até cair no chão, convulsa, babando branco, ganindo sem sentido. Depois calou: cuspiu sangue e dentes, uma funcionária disse que a criança, que tinha carinha singela de menina, mas uns braços grosseiros de menino, quase rapaz, cuspiu um prego. Não vi, desviei o olhar - era meu primeiro dia de trabalho.

Mas a mulher e a criança tinham mesmo de cruzar o meu caminho, se não foi o inverso: eu é que me meti na vida delas, quando entraram na livraria. Não entendi: a criança não estava doente? perguntei sem pensar. A mãe olhou-me com olhos de ferro agora: acontecia sempre, não tinha de me preocupar. Não me preocupei: perguntei se a criança queria um gibi, uma revistinha, alguma coisa pra distrair. Mas temia: era menino ou menina o infante atrocíssimo? Se fosse possuído ali mesmo - eu ajudava? Ou era pra ficar longe? E morri pela boca, modo de dizer: que bonitim… e hesitei na pronúncia da terminação correta. Seguiu-se a demência: fui tomado da vontade de mentir, e acarinhei a criança, eu também em falimento de caráter que me denunciava.

A mulher agradou-se de mim naquela mesma hora. Elogiava a criança, contou-me avassalada, em menos de cinco minutos, detalhes da gravidez que eu não queria saber: ela desconhecia o pai, mas suspeitava de um ricaço do Leblon, exatamente aquele filho-da-puta que ela ia extorquir naquela viagem. O não-serzinho ouvia a mãe sem desgosto, era mesmo uma anulação, perdeu-se na estante de quadrinhos e livros de colorir. A mãe falava, e dizia, e acontecia, sem interrupção, e ia pedindo, Compro este? Sim, senhora, é muito bom - mas eu não tinha lido o livro - todas as fontes se misturavam, pareciam uma só, em letras invertidas, espelhadas, umas às outras. Agora a criança trazia nas mãos umas dez revistinhas, de personagens de deformadas nas capas, homens e mulheres de extremidades imensas, era desenho de criança aquilo?

Mais de trezentos reais, ou cruzados novos, ou cruzeiros: não me lembro bem qual era a moeda corrente no tempo daquela venda. Sei é que as minhas indicações - a cliente dissera ao gerente - tinham servido muito, O rapaz foi muito gentil, até meu filho gostou dele, não foi? E a criança agora sorria, mas tinha os olhos brancos, parecia que não ouvia, mas que completava uma tarefa obrigatória por ter ganhado as revistas. Foram-se embora a mãe e o menino de nem sei, de nem ser.

Em quinze dias, caí de febre. Em um mês de trabalho, ficava triste, não via o dia, passava-o todo indicando livros, lia os mais vendidos sobre vendas quando tinha pouca gente no aeroporto, foi ali que decidi fazer faculdade. Era o melhor vendedor da história da loja, sorrindo para as pessoas, tocando-lhes levemente os braços, se sentia que havia intimidade para tanto, em informalidade que obrigava qualquer um a levar pelo menos umas palavras-cruzadas: olhava nos olhos, mostrava os dentes em acolhimento e ameaça: eu tinha talento e sabia que todos ali tinham medo. Indicava os mesmos livros que empurrara para aquela mãe e para o filho dela, lia as revistas da semana e me informava dos lançamentos.  Em três meses, bati o recorde de vendas da loja e ocupei a vaga de gerente, porque meu antecessor havia adoecido, em Síndrome do Pânico brava. Em fins de outubro, ingressei no intensivão do cursinho e fui aprovado no vestibular do fim do ano - o Ano-Novo eu passei no aeroporto, olhando  passageiros e aviões. E vi, de passagem, a mãe, a criança e um homem, os três perdidos, pareciam embriagados: o casal exagerava as bravatas do Leblon e dos Jardins, o filho tinha nas mãos um vídeo-game, os olhos fixos na tela, magricela de tudo.