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sábado, 19 de janeiro de 2013

Lucidez

Raul Seixas controlava a maluquez, misturada com a lucidez. Ao que digo, sem querer me comparar é claro: impossível descrever processo tão óbvio quanto normal. Malucos todos somos, é mais que evidente; lúcidos, há-os poucos. Diria sem medo que ser lúcido, rigorosamente lúcido, tediosamente lúcido - porque um grama de humor, de ironia, de fé ou de esperança embaçam a clareza última - ser lúcido é a maior das loucuras que se pode cometer. Não que eu seja lúcido, nem que haja circulando, aos borbotões pela Rua Augusta ou pela Nossa Senhora de Copacabana, sujeitos lúcidos. Acredito que eles existem, e que às vezes se deem a ver, mas a lucidez requer obscuridade, porque a visibilidade causa repulsa ao homem lúcido - desses paradoxos que só soam assim aos homens cujos véus nos olhos acabam por impor aos outros homens e ao mundo organizações lineares que só existem em forma ideal. O homem lúcido terá percebido, e às vezes faz perceber, que as coisas são e não são, num edifício imponente da Vila Olímpia ou da Barra estão homens mortos que ali deixaram restos e fragmentos de si, na forma de trabalho morto, do qual estão divorciados há tanto tempo e há tantas gerações que sequer podem acreditar haver meio de consórcio. O homem lúcido assiste ao filme de terror e sabe que o clichê do cemitério indígena sobre qual se construiu a casa mal-assombrada é a imagem desgraçada e corrompida do divórcio completo dos homens com a natureza: o homem lúcido não se dá a ver também porque, ao contrário dos homens comuns, sente as dores que circulam fora dele com toda a intensidade. O homem lúcido projeta sobre os objetos a revelação fulgurante das justaposições que ele e as coisas são, todos tão plantados na vida concreta que dói olhar. Não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada - e ponto-final, declarará o homem lúcido, que não se dá à poesia ou às artes porque são também elas outra forma gratuita de fantasmagoria, salvo em raras exceções, que não podem ser divulgadas nem o serão. O homem lúcido aguarda paciente a própria morte, interferindo na vida tanto quanto possível sem deixar-lhe nada que não lhe tenha tirado, rigorosamente quite com a existência, desaparecido para os homens.

Não há evidentemente homens rigorosa e tediosamente lúcidos - salvo uns poucos, que raras vezes se dão a ver. A lucidez faz doer especialmente os olhos, que têm de suportar em si a multiplicidade das dores do sujeito e do mundo, sem culpa católica, é evidente: o homem lúcido verifica os nexos imperceptíveis entre todos os homens e todas as coisas, e as fraturas todas, por menores que sejam, causam-lhe dor, e cada embuste feliz que obscurece a percepção é um golpe. Não há fé na lucidez - há sequer o pronome eu, há menos ainda a razão espaço e tempo. Não há deus, claramente.   

domingo, 6 de janeiro de 2013

Todos nós, um só: o mesmo

Nas estações de metrô da Zona Sul do Rio de Janeiro despontam cartazes brutais de propagandas da Nike,  em que se abusa da palavra Grandeza ou Grandiosidade, não lembro bem, mas não importa: o leitor, se não viu a propaganda, já entendeu o espírito, o mesmo do Amo muito tudo isso do McDonalds - apropriar-se das palavras pelas quais o cidadão médio tem algum apreço e investi-as e vesti-las da camisa da empresa. O poeta que vive de formular máximas de propaganda, fixando os clichês que vão cair na boca dos consumidores, e o músico que cria os jingles que serão assobiados insistentemente nos ônibus, nos metrôs, nas escolas e nos bares - são todos pretensos artistas que se apropriam de uma fórmula que vai se apropriando dos campos de sentido da língua e da canção popular, acanalhando-as. Terá sido o mentor de todos eles aquele que teve a ideia de usar Beethoven para anunciar a chegada do caminhão de gás, que no Brasil esteve umbilicalmente ligado à ditadura civil-militar. A grandiosidade, o amor e Beethoven estão tocados desses midas deste nosso tempo, em que crianças se encantam das empresas tanto quanto das personagens de desenhos animados, ambos, a molecada e os desenhos, nada mais que coisas ou animais, uns pra comprar, outros pra vender - e vice-versa.

Nos saquinhos de açúcar, frases edificantes inspiram o bom dia da mãe e esposa ao marido e aos filhos no café da manhã de um hotel de cadeia internacional, cujas unidades são idênticas em todo o mundo, em nação unívoca presidida pelas mercadorias: na mesa ao lado, as mesmas frases e o mesmo açúcar tonificam os ânimos do pessoal de vendas de uma empresa qualquer, em viagem à cidade fulgurante, de cujo afluxo de capitais todos querem abocanhar um pedaço. Os ensinamentos do pai e do gerente de vendas se assemelham, as programações do dia também: as gracinhas do palestrante motivador no evento corporativo não são tiradas mais inteligentes do que as do guia turístico apalhaçado que entoa o último sucesso esganiçado e infantilizado ao microfone, no ônibus, cercado de famílias-doriana e aposentados de ouvido regredido, sem serem surdos.

Já sabemos: o pai chamará à esposa e aos filhos de time, e o gerente se referirá à sua equipe como família. Todos tiveram os ânimos exaltados dos imperativos autoritários do saquinho de açúcar - "Viva intensamente", ordem a que acedemos aderindo à alegria compulsória, que não permite observar as violências cotidianas, as pequenas, mas não menos violentas; "Tira o pé do chão" manda o animador a que a TV chama de artista, assim investido porque assim nos foi dado. Quando as grandes violências forem noticiadas todos entrarão em choque, e quando se fizer necessário levantar o pé do chão e levantar a voz para além do grito de gol estarão todos quietos assistindo à TV. Na rifa dos sorteios do canal gratuito, só terá grandeza quem estiver vestido e investido de Nike; só terá amor quem estiver com a barriga cheia de Big Mac; todos assobiarão Beethoven em uníssono, tirando o pé do chão, comemorando mais um gol, mais um carnaval, abraçados, chorando, vestindo a camisa da família, todos ligado a uma só nação, a do time, que fez de todos nós um só: o mesmo.