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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Entre os bichos

Deve ser o calor: eu não consigo pensar. Há um rato que não sai desta casa, posso ouvi-lo correr à noite. São os animais, eu penso, há muito que aprender com eles, não há mais que aprender com os homens. Revirar as teorias todas, das ciências humanas, naturais e todas as matemáticas de cálculos improváveis sem descobrir nada. A resposta está nos animais – e a minha cabeça dói demais, deve ser o calor, deve ser a abstinência ou a lucidez que veio depois. Os animais me olham em enigma, são bichos esfíngicos os três cachorros que eu tenho aqui.

São animais, isso é certo: cachorros quando brigam, o que está apanhando de um apanha de todos. Talvez venha daí a expressão chutar cachorro morto – que se aplica aos homens, não aos animais. Eu não queria voltar aos homens, mas tenho de voltar, a escrita é dos homens. Homens também são mais cruéis com os que estão no chão.

É por isso que dizem pra gente não mostrar as fraquezas. E deve fazer sentido. Ser homem e ser bicho, pelo jeito, não são coisas tão distintas assim. A gente é gente e é bicho – as duas coisas ao mesmo tempo, justapostas. E os cães são um pouco pessoas também, por que não? Até aí acho que é fácil de entender – todo mundo sabe que guarda em si um animal irracional incontrolável, ninguém sabe o que acabaria fazendo em situações de extrema necessidade ou em casos de vida ou morte. Diz que a gente nunca sabe como vai reagir ao assalto ou ao atentado à nossa vida. Podemos ficar acuados num canto, como fazem os cachorros, ou partir pra briga de cachorro grande – guarde aí mais esta expressão referente aos homens, dissertada da vida dos bichos.

Mas acho que a parte difícil é entender que em cada homem tem um lado de bicho que recua ou que ataca – não importa muito, será sempre bicho, inconsequente e irracional, mostrando os dentes pro mundo todo, recolhido na casinha, confortado nuns lençóis quaisquer, sem planos pro futuro, sem história, tudo pra trás apagado; e cada homem tem um outro lado de gente, radical mas não animal, que foge sempre da casinha, dos lençóis, portando o passado sem que lhe pese, olhando o futuro sem que o cegue, os pés e os olhos na vida presente. O difícil é que os homens são essas duas coisas – e a verdade deve estar entre elas, momentos de clareza que a gente tem quando o bicho é domado e o homem dá um passo só que seja. Anote aí.

Mais difícil é entender que também os bichos funcionam assim. Quero dizer: os homens serão mais gente se derem brecha pros bichos ensinarem as coisas. É tratar os bichos como bichos, não como imbecis ou como inferiores. Não consigo explicar melhor, nem vou conseguir me levantar amanhã – é tanto calor, e tanta dor de cabeça que eu mal posso pensar. Eu dizia: bicho é bicho, homem é homem, mas se a gente não entender que, posto superiores, também somos iguais aos cães – então estamos perdidos.

Porque os cachorros, mesmo estraçalhando os cães mais fracos, sabem deixar o passado pra trás – e nós só fazemos pesar o passado nas costas, de modo a não poder andar mais enquanto não despejarmos aquele montaréu de tralhas guardadas. O cachorro não: perde a perna e não se lamenta; perde o olho e segue vendo com outras partes do corpo; tem o corpo quase todo incendiado pelas crianças e segue se ligando a um dono que possa acolhê-lo. Os homens não sabem fazer isso – nossa proteção e nosso erro, é certo, as duas coisas ao mesmo tempo de novo.

Os cachorros estão no presente, o que os homens não sabem fazer. Os homens se relacionam com os fantasmas que eles próprios não deixam morrer – é preciso deixar morrer os mortos. Os homens se relacionam com as fantasmagorias que eles próprios criam – mas não sabem que criaram, só uns poucos homens sabem, e esses não querem ou não lhes é permitido explicar. É complicado – a cabeça dói, confesso, eu não queria pensar assim. Fantasmas e fantasmagorias – tudo que os cachorros desconhecem.

Cachorros guardam luto, mas não guardam a vida pros mortos. Cachorros só se relacionam com a realidade concreta – e aos fantasmas e fantasmagorias, se os há, latem insistentemente, depois vão-se embora. Devotam aos homens o plano de amanhã – mas estes estamos ocupados demais prestando culto aos inquilinos da nossa dor, que nem existem mais, e prestando atenção à conversa de que tudo é ou não é, quando os cachorros já ensinaram que tudo é e não é. Fantasmagorias, anote aí: quanto antes nos livrarmos delas, mais facilmente viveremos como cães, ao sabor do que é concreto, sem deixar o passado pesar demais ou o futuro amedrontar a ponto de ficarmos no canto, escondidos.

Aos cachorros falta e sobra fé, que os homens insistem em ter – mas que não percebem que ao que chamam fé é fantasmagoria. Tenho dor e medo: é mais que hora de fechar os olhos. Mas insisto: aos homens falta a confiança de estar entre os bichos, por mais que saibam que não são completamente bichos. Aos homens falta saber que ser e não ser, posto seja menos reconfortante, é mais real. Os cachorros intuem que não são homens – mas insistem em tentar ensinar-nos as coisas, latindo insistentemente contra as fantasmagorias, sorrindo (cachorros sorriem, para quem sabe olhá-los com outros olhos além dos de humanos) aos novos dias que estão abertos apesar dos horrores de ontem mesmo, depositando a fé em nossa capacidade analítica, tão mal usada, de estar entre os bichos, entre as coisas reais, por mais que não as possamos explicar.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Grande acontecimento 42 - O filho do cientista

Esquina território aberto: os homens estão em conflito. Ninguém presenciou de fato o atropelamento do cachorro. Não tinha dono, tinha indigência: atravessou, embora na faixa, sem olhar pros dois lados e foi fulminado pela SUV furiosa de marca internacional, da terra de ninguém, onde as mercadorias têm a segurança garantida por homens truculentos que assustam mais que Cérbero. Mas este cãozinho que agora convulsiona os últimos espasmos de vida alegre na terra dos homens não pôde ter medo: atravessava irresponsável a rua, como devem ser os cães, o rabo balançava querendo e bem quisto pelos mendigos da praça de baixo, ele os aquecia, eles o alimentavam em simbiose mais vantajosa para os homens, que os cachorros afinal dão carinho e calor sem cobrar nada.

Uma criança observa atônita o horror da agonia: a criança desconhecia a morte, agora já nem criança é mais, desencantou, erigiu-se em amálgama estranho de medo de morrer e empatia pela dor, o cão não está mais aqui, faço força para crer que já esteja no paraíso canino, repleto de gatos pra perseguir e de ossos fartos pra degustar. Morreu o cão, morreu a criança, e o motorista justifica a si mesmo que tinha pressa e que se não cruzasse a avenida naquele instante perderia mais um minuto, mais um, além daqueles que ele enrolou na cama, enrolou na privada, bateu uma punheta no banheiro cometendo adultérios inconfessáveis, enrolou brigando com a mulher, perdeu levando o filho na escola - quem paga essa porra toda sou eu, ainda tenho de levar esse moleque medroso pra essa escolinha riponga onde se planta uma horta em vez de fazer conta, amém.

Não suponha o leitor que a criança que se horroriza com o corpo inerte do já-nem-cão é o filho amedrontado do motorista em chamas. Nova composição do asfalto com matéria orgânica: a indústria farmacêutica propõe à indústria química parceria inédita para a criação de um novo composto de pedaços de animais mortos para revestimento do solo. Tudo forjado pela criança, que virou coisa, que virou adolescente, que virou químico que deu utilidade prática e rentabilidade garantida à experiência mais amarga que tivera: presenciara o esvair da vida de um cachorrinho na esquina de casa, atropelado pelo vizinho.

Pesquisador brasileiro ganha o Nobel: foi mesmo essa criança o primeiro orgulho científico do Brasil, o nosso herói que trouxe para casa não uma medalha, não a taça do mundo, mas sabe-se-lá-quantos mil de prêmio devido à pesquisa do novo composto. Recriou a dor, declarou o apresentador dominical da rede de tevê mais assistida do Brasil; o nosso Einstein, gritava a manchete da revista mais lida do Brasil. Você pretende inspirar a juventude, que é o futuro do Brasil, a ingressar na pesquisa científica? Sim, mas por enquanto o que eu pretendo mesmo é tirar umas férias no Rio de Janeiro, depois vou me  dedicar ao programa que vocês me deram no jornal do domingo, conhecer os artistas de novela e virar comentarista de futebol, ou de carnaval, ou o que mais vocês quiserem me oferecer. E a quem você dedica esse sucesso todo? À minha família, porque família é tudo de bom, e ao cachorrinho que perdeu a vida e cuja matéria orgânica hoje serve para a pavimentação combinada - pavimente você também as ruas de seu município com esse composto revolucionário e acabe com o problema dos animais abandonados.

(Havia um naco de criança ainda no químico: depois de envolver-se com prostitutas, drogas e negociatas políticas em Brasília, suicidou-se engolindo uma moeda, que lhe obstruiu o intestino e que explodiu, espalhando merda por todo o apartamento funcional. Dizem os amigos que desde sempre o herói brasileiro abandonara a ciência da química e se envolvera com o ocultismo da alquimia, supondo que os sucos gástricos e as enzimas poderiam transformar a liga das moedinhas em ouro puro. Nosso herói queria, por assim dizer, cagar dinheiro - e acabou cagado.

Deixa uma casa fedendo, viúva interesseira e um filho de sete anos, todos irreformáveis. O garoto, dizem que é doentiamente apegado a animais, porque em vez de doá-lo aos centros de zoonoses, abriga-os todos em casa, dorme com eles, aquece-os, e eles o aquecem, e já não querem mais nada garoto e animais. Do filho do motorista não se tem notícia).