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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Uma flor nasceu

A coisa mais importante que fiz hoje, além de evitar os velhos vícios, foi perceber que floresceu uma violeta nos vasos que preservo aqui em casa. Verdade seja dita: eu cuido menos do que deveria das minhas plantas, mas estou sempre de olho de olho nelas. Me ensinam muito. Como não aprendi ainda - e não sei se vou aprender um dia - que cada um é que tem de cuidar da própria vida, saí contando por aí que uma violeta florescera em casa. 

Tinha de ver: primeira coisa a escolher é o lugar de elas ficarem. Aí espera: elas têm de gostar dali. Vêm folhagens, folhagens. Um dia, sem você perceber, tem ali um botãozinho mínimo, ainda não sendo, muito breve ainda: só uma potenciazinha de vida. Mas vai ganhando tamanho - e cor: antes mesmo de a violeta nascer, a gente sabe que cor ela vai ter, porque o botão já aponta. Eu fito. Deve doer aquele nascimento. Mas talvez não: as plantas devem saber, muito melhor que os homens, que o que chamam de dor é na verdade só a sensação do novo que vem.  A cor - era violeta a violeta, violeta forte, escura, violeta retinta.

Depois: a plenitude. Na franja da flor ainda redobrada repousam minutos extensos sem identidade com nada. Já houve muitas violetas - nenhuma como a minha, que brotou aqui no meio da bagunça: esta casa sempre foi dos livros. Mas eu tive sorte, eu sempre tive: mesmo o cactus que eu tinha, na solidão maior da embriaguez que não me deixava estender a mão pra molhá-lo - mesmo o cactus dava flor. Você já viu flor de cactus? Tem cabimento? A planta é arredia, adversa - recoberta de espinhos. Conhece o mundo, conhece quem a cultiva: não conta com nada nem ninguém, só com o sol o dia todo - e fica retendo água pra o caso de eu me esquecer dela, ou de mim, ou desaparecer por uma semana, ou não ter forças pra regá-la - e sobra um pouco pra botar um flor, como se dissesse: tem coisa bonita pra ver no mundo, é questão de deixar de lado o medo de botar uma flor.

Mas o motorista de táxi me disse que num dia de trânsito como aquele o que interessava era tirar da rua os manifestantes que atrapalhavam o trânsito - concedi que sim, mas que manifestar-se era uma forma de florescer. Os alunos me disseram que o que interessava era o assunto que ia cair no vestibular - supus que eram jovens, e matei-os de tédio descrevendo cuidadosamente como tinha vindo minha violeta ao mundo. O garçom me disse que o que interessava era o prato do dia, que estava uma delícia - julguei que poderia ser, desde que considerássemos as folhagens de tempero que haviam deixado especial tudo que era industrial. Outros professores me disseram que o que interessava era o aumento - acedi, obviamente, mas lembrei a importância das flores. Os jornais me disseram que o que interessava era a Copa, outros disseram que o que interessava eram as Olimpíadas: só posso discordar, mas ninguém curtiu meu comentário no Facebook, que julgava mais importante o florescimento do que os eventos esportivos. Todas as pessoas me disseram que o que as interessava eram elas próprias, e aceitei; mas que se lembrassem de vez em quando das violetas, ou dos cactus, que afinal diziam alguma coisa, até sem flores. As vitrines me disseram que o que interessava eram as queimas de estoque - e não se pode dizer nada às vitrines, porque elas são coisas. Os emails me disseram que o que interessava era a black friday - não respondi porque estava escrito bem grande "não responda a esta mensagem". Os homens de família me disseram que o que interessava eram suas famílias - e ai de quem mexesse com os filhos deles, por isso fiquei com medo de dizer que, além dos filhos deles, há ainda as violetas que florescem. As amantes dos chefes de família me disseram que o que interessava era estarem bonitas - o mesmo que as mães de família disseram, e não pude dizer nada, porque não me deram atenção. Os meninos de família disseram que o mais importante era ter um carro (e o som estava tão alto que não pudemos conversar) e comer as meninas - irmãs de outros meninos de família, que disseram que o que mais interessava eram os jogos da Copa (cujo foguetório já começou e fica difícil de conversar assim).

Ao fim do dia, eu estou exausto - e falando sozinho. Volto para casa e me sento à frente do pequeno vaso - espaço restrito que algum criador de violetas reservou à minha violeta, talvez em linha de produção de pequenas cores da vida, pra iludir gente sentimental como eu. A cor da minha violeta não existe na natureza: foi projetada geneticamente pra que eu achasse que está ali o despertar espiritual, ou o sentido da vida, ou o rastilho de pólvora da revolução. Mais um produto entre tantos, que me enfeitiçava - o último produto, talvez o primeiro de todos, pois eram a própria vida e a criação primeva que eu tinha comprado por nove e noventa, em promoção do supermercado. Investiguei-a: a cor já perdia parte do viço, aquela violeta estava pontuada de amarelo.

Os olhos turvaram de uma lágrima que me amarrou a garganta: porque percebi num átimo que a violeta estava entre a opacidade fria do encanto, que interessava a todos, e a mais pura claridade do que é real, que não interessava a ninguém, só a mim - e esta é que me aquecera logo cedo. Nem que fosse apenas por meio da lembrança do cactus que eu jogara no lixo como se fosse coisa - eu precisava olhar diferente a violeta. Quando fechei os olhos é que vi - as cores da violeta, nas quais estava refletida a luz indireta que a aquecera, o cheiro ancestral dos campos das violetas selvagens, todo o espetáculo da vida presente.