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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Entrevista sobre Faroeste Caboclo, no site Conexão Jornalismo

Eu não poderia supor, lá em 2007, que a pesquisa que fiz a respeito de Faroeste Caboclo (disponível no site Domínio Público) repercutiria hoje, seis anos depois - mas o lançamento do filme mudou tudo e me deu a chance de divulgar um pouco aquele trabalho. A seguir, uma entrevista que dei para o site Conexão Jornalismo.

Só uma pequena correção: na chamada, a repórter afirmou que, no mestrado, comparei Faroeste Caboclo com Clarice Lispector e Guimarães Rosa; na verdade, comparei a canção da Legião com Vidas Secas, do Graciliano Ramos, e A Hora da Estrela, da Clarice Lispector.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Sem comentários

Hoje foi difícil conter a emoção: não entendi ainda a morte de meu amigo João, assassinado pela namorada por causa de ciúmes. Que Deus o proteja e que as pessoas aprendam a conviver melhor com as diferenças, Assim declarou Pedro Pio no Facebook, enquanto observava o corpo do amigo no caixão. A imprensa havia noticiado, daí a preocupação de Pedro em linkar o nome do amigo: era preciso que o mundo conhecesse o escândalo, a dor, a brutalidade do crime: João havia sido sufocado com o próprio pênis, que lhe fora cortado enquanto dormia, e inserido violenta e anatomicamente em sua garganta.

Não se comente que João traía a namorada com as colegas de trabalho - e não era cuidadoso nas redes sociais. A namorada dava rebates falsos de suicídio, batia com a cabeça na parede, ameaçava João com frases obscuras escritas com o sangue da própria menstruação, Vou cortar o seu barato, dizia uma delas, fotografada pelo jornalista do tabloide carioca, que sabia bem onde farejar notícias de grande apelo. Em poucos instantes, as reações à postagem de Pedro foram se acumulado: mais de cem amigos curtiram, muitos eram solidários à dor, A internet é pra isso mesmo: partilharmos com o semelhante cada passo dado no horror da vida - foram as palavras da própria assassina, ainda desaparecida - comentário que repercutiu e que levou a imprensa à declaração de Pedro, e a ele próprio, instantes depois.

Em entrevista: João poderia ter seus demônios (expressão de cinema, Pedro percebia-se atento e articulado na frente das câmeras), mas não merecia a morte (choro profundo ao fundo: é a mãe do morto, lamentando a morte amarga). O que os entes queridos desejamos (Pedro sacara a silepse das aulas de Língua Portuguesa do colegial) é justiça, apenas isso: prisão perpétua. Mas se este país fosse sério, arrancaríamos o clitóris dela.

Não será necessário dizer que a última afirmação obteve o efeito pretendido pelos sensacionalistas. Em poucos minutos, espalhava-se nos sites de notícias, nas redes sociais e nas correntes de emails a virulência justiceira. Louve-se tanto espírito crítico: um salve para a objetividade técnico-científica, que estimou em cerca de 70% a aprovação pela demanda algo justa, embora apressada, do amigo do assassinado, Deus o proteja, não tanto agora, que era preciso proteger Pedro dos raivosos defensores dos criminosos, Assim declarou o site religioso, de que o Narrador se preserva de citar, para não se tornar ele o perseguido - quem é que quer ser persona non grata nestes tempos? Pedro teve pouca sorte: em poucos instantes a notícia foi coalhada de mensagens belicosas.

É por isso que o Brasil não vai pra frente: o eunuco deveria ter sido mais cuidadoso e não deixar vazar na net a foto com as piriguetes - Declarou o primeiro, respeitado comerciante da Zona Oeste, que mantém a esposa em rédea curta - narradores gozam desta chance de saber tudo, conhecer todas as pessoas, em exercício de plena consciência ordenadora do caos real. É precisamente nos comentários das notícias que repousa a verdadeira matéria literária, os homens de carne-e-osso que servem de personagens.

Queisso, eunuco? Mesmo sendo cuidadoso, ele ia perder a cabeça: mulheres sabem quando estão sendo traídas, é o sexto sentido, no mais ela devia cornear ele também - Salve a percepção única das energias que subjazem a aparência candente da matéria, literária ou jornalística, não importa, há leitores que só de lerem a reportagem reconhecem-lhe os mais sórdidos e obscuros detalhes com apoio da empiria, da sabedoria coletiva e das fofocas de rua, que temperam a monotonia do relato histórico.

Gentem, pensa nisso, a moça sofrendo todos os dias, pelo menos ela devia ter se valorizado mais, porque ele ficava botando ela pra baixo, que eu digo: mulher que se sente bem com ela mesmo não precisa de homem - Reverenciemos a emancipação pela estética, o batãozinho pela manhã, fazer as unhas à tarde, o banho de creme na cabeleira antes de dormir, que o cheirinho da natureza brasileira traga para sua casa um pouco da amazônia, já mesmo agora a fragrância dos menores frascos invadiu esta meia literatura, não se imagine que nos referimos às dimensões do membro sufocante.

Lamentável: os dois estão errados. Ele por não propor uma relação aberta; ela porque aceitava tudo isso que as nossas novelas divulgam. Falta educação pro nosso povo - A convocação à aula de Educação Moral e Cívica, onde se fez uma nação orgulhosa dos seus heróis, onde tudo está no seu devido lugar, a Ordem impera, a Família agrega, a Escola ensina, vigia e pune, o Trabalho dignifica, o Jornal informa e a Puta serve para desopilar o fígado, assim declara o arauto da emancipação.

Cortar o clítorís é pouco: corta as tetas da vaca, joga pedra e enterra a cortadora de pau, que de louca já basta eu hashuashuashua - Eis o herdeiro do humor refinado, cujo cabedal também serve de referência a este Narrador que tudo vê, por isso pode observar a adolescente tonta de benzina cheirada teclando em aula, Vish, cortou o pau do namorado, aí ficou sem pica pra chupar, É o que a colega dela postou, Aos jovens tudo se perdoa, replicou um anônimo, mas podemos saber que se trata de homem religioso, correto, benevolente, que se masturba de tesão por comentários de jovens na internet - tem gosto pra tudo.

Mas o corpo de João já está enterrado, Pedro já apagou aquele perfil porque estava comendo menos mulher por causa dos comentários, além de temer ser atacado por uma - e ainda se proliferam os comentários na página, que obteve vida própria, fomentada pela natureza do crime e pelo natureza analítica dos comentadores. As imagens dos filhotes do zoológico de Jacksoville, Flórida, cujas peraltices foram reverenciadas pelos brasileiros que se cansaram de visitar Miami e Orlando, por isso foram mais ao Norte, É uma beleza, a gente não precisa ficar trombando com brasileiros o tempo todo, além disso tem algumas lojas de departamento com produtos até trinta por cento mais baratos - toda essa matéria ocupou os destaques dos sites de notícias, deixando em segundo plano a página da morte brutalíssima de João - que se transformou em uma espécie de rede social informal, em que se podia dizer tudo, pensar tudo, conhecer gente diferente, e até por que não? fazer amigos ou encontrar um chinelo felpudo e quente para o pé cansado, Deo gratias, os comentários seguem vivos, em polêmicas que transcenderam a supressão de órgãos, enveredando naturalmente para o transplantes de pênis arrancados, as oportunidades no cinema pornô em sites abertos, as possibilidades de manter viva um pessoa sem pênis por tempo indeterminado. A própria assassina - ou alguém que se dizia a assassina - aparecia de vez em quando, Galêre, hoje vou responder duas perguntas, mas só duas! Mas a oportunidade de divulgar por ali produtos como preservativos e pomadas que apimentavam o sexo, engendrada pelo repórter-autor da notícia original, que nem interessava mais, foi considerada pela maioria dos debatedores como conspurcação do espaço aberto, que não deveria servir aos interesses escusos de quaisquer indústrias, mas apenas à discussão livre e democrática, sem fins lucrativos. E tenho dito: acabaram-se assim os acessos à página, que ainda deixa saudades - e um grupo de discussão no Facebook.