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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Para refletir e meditar

Os acontecimentos de segunda à noite, em que as marchas tomaram as ruas do Brasil, foram tantos, às vezes tão dispersos e díspares entre si, e simultaneamente tão violentos e tão pacíficos - que a tendência natural é render-se a análises fáceis, a palavras de ordem supostamente "imparciais" e a mobilizações inoperantes ou acéfalas - que, no extremo, só servem ao inverso da proposta inicial, que está à esquerda da sociedade.

A maioria de nós esteve imersa (por mais ou menos tempo, pelos mais diversos motivos, com maior ou menor acomodação) na hipnose coletiva dos meios de comunicação de massa, durante muito tempo. Esse processo de cegueira, da mesma forma que qualquer estado da mente e da alma, não é superado de uma hora pra outra. Ninguém ama alguém subitamente, nem deixar de amar de uma hora pra outra. A dor do luto não passa em uma semana - às vezes nem em anos. Os olhos precisam de tempo para adaptar-se à luz de fora da caverna. Por isso, mesmo que estejamos convictos do propósito das marchas, podemos nos deixar abater por teorias da conspiração e pelo alarmismo gratuito, que em boa parte das vezes só resulta em pânico.

Insisto, por isso, no poder da reflexão e no da meditação.

Me parece, sempre sob o risco de errar feio, que refletir e meditar certamente são operações subjetivas que têm pontos de tangência e de intersecção. Os mais politizados têm larga experiência na reflexão, que entendo, grosso modo, como capacidade de análise para além dos fatos da mera aparência. A percepção, por exemplo, de que a ausência de repressão resultou em marcha pacífica na segunda-feira, em São Paulo, permite diversas análises, para além dessa constatação de primeira hora - que é real, mas que é ainda de superfície. É nossa capacidade de análise que nos leva, por exemplo, à conclusão de que indignação não é sinônimo de violência; que horizontalidade não quer dizer despolitização; e que pedir "sem partido" é uma forma, revestida da pretensão de paz, de politizar às avessas, parecendo alcançar uma unanimidade que é, mais uma vez, política - e corresponde aos interesses inversos das marchas, interesses conservadores a que o caos serve.

As operações de reflexão são mais complexas do que quer o estado quase permanente de imobilidade e de passividade. Pensar não é difícil, produzir análises coerentes não é pra poucos, como quer o senso comum - mas requer exercício que não costumamos fazer. E é preciso fazê-lo sempre, e o momento para fazê-lo é agora, sem se deixar levar pelo medo - consequência direta do desconhecimento. Mesmo os mais politizados talvez não tenham experimentado ainda o inverso da apatia do cotidiano, isto é, o estado permanente de radicalidade presente, que nos abre a todos paisagens desconhecidas - que sempre assustam. Por isso, mesmo as melhores lideranças progressistas podem equivocar-se nas postagens inflamadas do facebook, nas declarações públicas e nas entrevistas. É preciso corrigi-las oportunamente, porque radicalidade e horizontalidade pressupõem o processo de tentativa e de erro. Sem esse pressuposto, voltamos atrás, para dizer o mínimo.

Mas é evidente que um histórico reflexivo impõe racionalidade equilibrada, mesmo nas horas mais nervosas. Confesso que me impressionei muito positivamente com o temperamento equilibrado dos líderes do Movimento Passe Livre no Roda Viva: lá estão dois jovens cuja reflexão e formação anteriores ao calor da hora deu-lhes o pleno equilíbrio frente às câmeras e ao conservadorismo violento de pelo menos dois entrevistadores.

Quanto às operações da meditação, tomo-as aqui no sentido mais dilatado que o leitor conseguir supor - pra afastar o vocábulo meditação do campo da religião, tanto quanto for possível. A meditação é associada às atividades da mente, mas as transcende: encaminha-se no sentido do espírito, aqui também tomado de forma ampla, para poder abarcar desde os ateus até aos mais espiritualizados, sejam da religião que forem. Quero dizer com isso o seguinte: é mais do que hora de trazer para a análise essa dimensão, que existe, mas que é ainda muito ignorada quando se trata de questões políticas. Se ignorarmos que o estado de espírito das pessoas contribui para a violência ou para a paz, estaremos negligenciando um dado fundamental. A disposição para a brutalidade ou para o diálogo também passa por essa variável - normalmente desconsiderada.

Não me estendo no que se refere ao espírito e à meditação: estou aberto para debater a convicção de que um estado de espírito equilibrado conduz a uma reflexão de alcance maior, na mesma medida em que permite maior comedimento nas decisões tomadas no calor da hora. Talvez seja a hora, por exemplo, de investigar semelhanças entre o que se costuma chamar de ideologia, no sentido marxista, e samsara, do budismo tibetano. Quando gritamos "sem violência", mas partimos para o enfrentamento político (porque o é, por mais que muitos gritem "sem partido" querendo dizer "sem politização"), então é o diálogo que está no centro da proposta. Toda a experiência brasileira, entretanto, não foi de diálogo, mas de violência: eis o desafio. Para encará-lo, temos à disposição as armas da reflexão e da meditação. Pois aprendamos a usá-las.

domingo, 16 de junho de 2013

Uma pauta objetiva e uma luta pacífica

Se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar: eis a pauta objetiva das manifestações. Tenho visto muita gente, nas redes sociais e nas aulas que dou, afirmando que "falta um objetivo claro" à movimentação presente. Pois, ao contrário do que supõe esse senso comum, o objetivo existe, é bastante claro e retém em si, simbolicamente, todas as outras pautas que traz junto consigo. Mas é primeiro necessário vencer esta etapa inicial - de forma pacífica, "sem violência".

É importante que a redução da tarifa ocorra por uma série de motivos. O primeiro deles é simbólico: a vitória da demanda resultará em credibilidade para a luta e para os que vão às ruas por ela. Já é mais que hora de a classe política tradicional entender: quem encabeça as manifestações é o Movimento Passe Livre que, ao contrário do que faz crer a grande mídia, não começou ontem: têm quase uma década de lutas, sempre com a mesma finalidade. A liderança, portanto, não está diluída - mas certamente pressupõe, ao redor de si, muitos outros movimentos sociais, em relação de horizontalidade. (Quer entender o que é horizontalidade? Leia a definição na carta de princípios do Movimento Passe Livre)

As manifestações presentes servirão, portanto, de laboratório para a classe política tradicional aprender que terá, cada vez mais, de dialogar não nos seus termos, a portas fechadas, mas nos termos dos manifestantes - nas ruas, que afinal pertencem à população como um todo. O tom professoral e paternal da grande mídia, do governador e do prefeito não amedronta mais, nem convence: é preciso rejeitá-lo e fazer saber que a esmagadora maioria dos manifestantes não é de baderneiros ou vândalos. Não há diluição da pauta nem das lideranças.

Além disso, as manifestações servem de laboratório para os próprios manifestantes - que não se podem deixar abater por esses discursos, pela truculência policial ou pelo cansaço. Se é verdade que as gerações que estão nas ruas são inexperientes e ainda estão aprendendo a expressar-se, depois de anos de silêncio, então talvez um primeiro aprendizado seja o de que não se deve esperar que a classe política lhes dê o que querem: é preciso conquistar, e as conquistas são feitas também de persistência. É preciso ter sempre em mente que "se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar".

Para não recair na mesmice, é preciso potencializar formas criativas de manifestação. As expressões corporais e visuais têm de se fazer presentes, cada vez mais, em cada uma das marchas. Ficou famoso o dançarino que desviou das balas da polícia. Pois que cada um dos manifestantes seja um dançarino driblador, pra demarcar simbolicamente o espaço das ruas como espaço de criatividade, não de violência - mas com a firmeza que é necessária para atingir o objetivo da redução da tarifa.

Enquanto o poder público aprende a lidar com os manifestantes e a entender que as novas organizações sociais têm caráter político horizontal, que o eco Amanhã vai ser maior seja repetido em todas as praças e esquinas, em todas redes sociais, em todos os sites de mídia independente, em todo o planeta. Porque esse eco contém rigorosamente o futuro encaminhamento de outras demandas. No dia mesmo em que a prefeitura e o governo do estado reduzirem a tarifa, então será a hora de abrir novas pautas - porque aí os manifestantes estarão mais preparados para dar continuidade às demandas e já terão criado precedente para a intervenção nos seus termos: sempre partindo do pressuposto de que outro mundo é possível.    

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Um novo cortejo

Numa de suas imagens mais penetrantes, Walter Benjamin afirma que

Aqueles que, até hoje, sempre saíram vitoriosos integram o cortejo triunfal que leva os senhores de hoje a a passar por cima daqueles que mordem o pó. Os despojos, como é de praxe, são também levados no cortejo. Geralmente lhes é dado o nome de patrimônio cultural. 

De cortejos como esse, no Brasil, especialmente nas grandes capitais, nós entendemos: os vitoriosos desfilam em carros de luxo, importados e blindados, ostentando de forma violenta o poder econômico que lhes dá autorização para cometer as mais abjetas arbitrariedades. A esmagadora maioria da população mastiga o pó dos trajetos intoleráveis do transporte de massas, de péssima qualidade. A cena é recorrente: do carrão, o alto executivo desfruta do conforto que falta às pernas brancas pretas amarelas do ônibus. 

Para maioria dos brasileiros, geralmente, o desfrute fica associado à celebração do futebol e do carnaval - as festas populares nas quais se dá vazão ao pó roído entre dentes cerrados no cotidiano. Futebol e samba, duas manifestações culturais genuinamente populares, de que as classes dominantes se apropriam rapidamente, de modo a converter o que veio dos morros e das periferias em patrimônio cultural brasileiro. Eis uma habilidade das nossas elites: deixar-se revestir do que é popular, diluindo em cores e festas os conflitos cotidianos. Pasteurizados, com as características mais radicalmente questionadoras anuladas pelo padrão Globo de qualidade, o samba e o futebol servem à embriaguez da imobilidade, jamais à mobilização popular.  

Mas isso parece que começou a acabar: as manifestações populares dos últimos dias pretendem tomar das mãos dos privilegiados o patrimônio cultural que não lhes pertence, mas de que eles souberam astutamente apropriar-se. As próximas manifestações tendem a ressignificar toda a alienação de que o nosso patrimônio cultural esteve contaminado. 

Escovando a contrapelo a histeria gratuita das torcidas e a alegria abobada e desatenta do folião, os manifestantes das próximas semanas, meses, anos, farão repicar palavras de ordem como "sem violência" e desfilarão atentos, sujeitos da própria história, driblando os escudos, as balas de borracha, o gás lacrimogêneo cuja data já expirou faz tempo. Nas mãos, terão flores, vinagre, cartazes, bandeiras e celulares.        

Pelas pessoas, contra as mercadorias

Custa apenas R$ 10 no site da Boitempo Editorial o livro Occupy com análises de vários intelectuais a respeito das manifestações que ocorreram no norte da África (a chamada "Primavera Árabe"), na Europa (os chamados Acampados) e nos Estados Unidos (o Occupy) em 2011. Por mais que pareça desnecessário, insisto agora, como insisti sempre, na leitura como forma de aquisição de conhecimento, mesmo em momentos urgentes como este, em que ocorreu brutal escalada da violência da Polícia Militar na manifestação aqui em São Paulo.

Nunca é demais insistir: é preciso que cada um dos manifestantes tenha plena clareza a respeito do motivo pelo qual vai às ruas. Acredito na força da reflexão - rigorosamente porque pensar talvez seja o primeiro gesto radical que se possa cometer. No ambiente da "competitividade", da "aceleração do processo decisório para a maximização dos lucros" e principalmente no ambiente do "salve-se quem puder" do cotidiano corporativo - refletir detidamente sobre a realidade talvez já seja em si uma pequena revolução. Não custa pensar a respeito das manifestações que rolaram fora do Brasil, aprender alguma coisa com elas e associar o aprendizado ao nosso caso específico.

No livro, de forma geral, cada um dos autores insiste na clareza da pauta: o que é que queremos? É certo que queremos muitas coisas, muitas delas difusas, outras delas ainda interditas, algumas certamente não têm nome ainda - estão em construção coletiva e horizontal. Mas me parece, de forma geral, sempre na iminência do erro (por isso peço que os poucos leitores que tenho participem com comentários), que é preciso delinear com clareza pelo menos as demandas mais amplas.

A multidão dos manifestantes certamente guarda inúmeras expectativas quanto aos resultados das mobilizações. Mas uma talvez seja comum: a de que estas servem primeiramente para dizer contra o que lutamos: contra a proteção e o privilégio das mercadorias e dos patrimônios em detrimento das pessoas. Formulei a sentença desse jeito, de propósito, para assinalar que nem os mais privilegiados escapam à lógica que protege as coisas (que parecem ter vida própria) e que desampara as pessoas (que mais parecem coisas). As violências, nesse sentido, não têm classe social: desde o filho da burguesia mais rica ao do pária mais marginal, todos são alvo, cada um de uma forma, da lógica da mercadoria que nos circunscreve a todos.

Um raciocínio, mais importante a título de exercício discursivo do que qualquer outra coisa: a Polícia Militar deveria garantir a segurança dos manifestantes, ameaçados pelo motorista conservador e raivoso que, de dentro dos carros, quer atropelá-los pra chegar em casa a tempo de ver a novela. O prefeito e o governador deveriam entrar em conflito com a iniciativa privada em benefício dos manifestantes, argumentando que a redução das passagens, o investimento em transporte público e a garantia da qualidade de vida é que deveriam ser as prioridades e as pautas do poder público. Talvez seja esse o ponto a que queremos chegar - eu pessoalmente gostaria que fôssemos além dele. Mas o que interessa neste texto é que nosso ponto de chegada talvez possa dar o sentido do caminho que devemos tomar. 

O outro mundo possível que queremos começa agora: é a hora de levantar todas as reivindicações.    

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Diálogo pra começar

Parece bastante evidente que as manifestações que têm ocorrido em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades do país transcendem a reivindicação referente às passagens de ônibus. Certamente é apressado fazer análise, especialmente sob o risco de errar feio. Mas me desagrada mais a ideia de não dizer nada; para contribuir de alguma forma, embora minimamente, penso alto, a respeito do que tem acontecido. Proponho o que nem sempre ocorre: diálogo, pra começar.

Uma impressão que sempre tive, em sala de aula e nas salas dos professores, é que dialogar ainda não pertence ao nosso repertório. Foge-nos a faculdade de ouvir o outro, com atenção, porque talvez nos falte partir da hipótese de que podemos errar parcialmente, de que conciliações são possíveis, sem negociatas, mas com adesões verdadeiras, a despeito das diferenças. Parece que a nossa herança patriarcal escravista não admite concessões, porque elas soam como sinônimos de fraqueza - impensáveis na brutalidade e na truculência dos nossos setores mais privilegiados e na polícia, que institui a (suposta) ordem que lhes interessa.

Parece contraditório (mas não é) que a cultura da cordialidade, tão brasileira, seja assim tão intransigente. Mas é preciso lembrar-se de que sob toda a lógica do favor e toda a cordialidade que permeou as relações entre os grandes privilegiados e os pobres brancos ou mestiços (sempre à cata da proteção dos ricos), a mediação fundamental na sociedade brasileira sempre foi a violência. As nossas manifestações de cultura, seja pela omissão, seja pelo protesto, sempre apontaram pra essa feição muito nossa, menos aparente e sempre difusa, é claro, nos discursos nacionalistas. Dá pra escrever a História da Violência na Literatura Brasileira, se quisermos: é o pequeno Brás Cubas que monta o escravo; é a omissão do estupro de Besita no Til, de José de Alencar. É o estupro cometido por Macunaíma, que toma Ci à força. São os abusos do Soldado Amarelo, em Vidas Secas.  

Pra ser breve - porque pretendo escrever diversos textos, com várias hipóteses: sob o signo da violência de base e da cordialidade de superfície, a experiência brasileira acaba primando pelo adiamento dos benefícios reais, concretos e de longo prazo - porque a cordialidade empurra pra frente, no cotidiano, os benefícios coletivos, sempre deixados pra trás, e privilegia os ajustes e as promessas das trocas de favor. Os compromissos privados do toma-lá-dá-cá são tantos que sobra pouco espaço pras melhorias públicas e coletivas.

Acontece que experimentamos, nos últimos dez ou quinze anos, pra assinalar apenas um aspecto, um aumento sensível do consumo, fundado no baixo desemprego e no aumento do poder aquisitivo. Teríamos ingressado no mundo mágico das mercadorias, supostamente a passagem para o mundo civilizado. Mas convenhamos: nada funciona - desde a prestação de serviços privados (quem não reclama de problemas com telefonia, internet, banco ou cartão de crédito) até a de serviços públicos. Na realidade concreta, a sensação é de terra de ninguém - se não for de barbárie. (É a velha comédia ideológica descrita por Roberto Schwarz, o descompasso entre vida ideológica importada, a que queríamos viver, e vida material brasileira, distante da primeira, mas pautada por ela, sob a sensação da falta e do atraso).

A paciência talvez estoure precisamente no que se refere ao transporte público porque é no trânsito que a competitividade (que é inerente à lógica de mercado, de que o Brasil faz parte) se associa à pior feição da cordialidade, a mania de levar vantagem em tudo (que planta raízes fundas na experiência nacional). Em termos simples: vale tudo no trânsito, desde as supostas infrações inofensivas, até às violências mais brutais, como o atropelamento premeditado de ciclistas. Talvez não seja exagerado dizer que no convívio no trânsito estão depositadas, simbolicamente, mas também de forma muito concreta, não só a miséria nacional, como também o rebotalho e o arremedo de querermos macaquear (pra falar com Mário de Andrade) nossa condição de "bola da vez" mundial, por mais que a euforia seja exagerada.

Nosso trânsito é intolerável. É natural, portanto, que o ponto de partida das manifestações esteja associado ao transporte público - mas a violência experimentada no trânsito é apenas a fenda no asfalto da qual irrompem todas as outras violências escamoteadas do nosso cotidiano.

[Atualização, 14/06/13, às 13h40: na página do Existe Amor em SP, no facebook, foi publicada carta aberta ao prefeito Fernando Haddad, argumentando precisamente que há outros canais de diálogo além da tradicional "mesa de negociações". Segue fragmento da carta, a respeito precisamente do mesmo conteúdo proposto no texto acima: "O prefeito diz que tais manifestações não são maduras, pois não são capazes de apresentar lideranças. Pois lhe dizemos com toda franqueza: é você que não está sendo maduro. Pois não compreende a nova lógica do ativismo, da auto-organização, da inteligência e da indignação coletivas. Não entende que sua resposta não será dada em uma mesa de negociações. Há outras formas de dialogar".

domingo, 9 de junho de 2013

Brejeiro

Aconteceu quando cresceu o primeiro cabelo branco em mim: estava só, não foi ao espelho, no banheiro, mas na cama, que tinha ficado grande demais (eu sempre preferi dormir mais apertado, mais acolhido). Cocei a cabeça, traguei - eu ainda fumava - e um cabelo branco me veio à mão.Declarei: estou velho, agora é tomar jeito. Chega das noites viradas em botequins que começam elegantes, mas terminam sujos e aziagos, uma choradeira triste de órfão de pai e mãe (nas minha bebedeiras eu sempre acabava na minha mãe e no meu pai, mortos havia pelo menos dez anos), sob a consolação atenta das putas. Trocava telefone com elas e com outros órfãos, prometia empregos a todos, pagava a última de todo o mundo e mais alguém. Acabou, determinei. De hoje em diante é acordar cedo, crescer no emprego, fazer carreira no tribunal e caminhadas no fim da tarde, melhorar a dieta.

Ninguém me reconheceu quando entrei, o nosso desembargador era relativamente despreocupado dos horários, desde que não houvesse abusos. Entrei pontualmente às oito, as baias já cheias: meus colegas todos tinham filhos, levantavam cedo pra levá-los pra escola e aproveitavam pra sair mais cedo. Eu não: nove e meia era meu padrão, se não fosse mais tarde. Enrolava, cigarrinhos, procrastinava paquerando uma funcionária, jogava conversa fora, esbanjava jovialidade onde só havia decrepitude, era assim que eu pensava. Ria: vocês são escravos do sistema; eu uso o sistema pra aproveitar a vida. Os meus colegas riam de mim, como se fizessem festinha, eu amolecado apesar da roupa social, eles progenitores de razão e sisudos, apesar da anuência.

Fui é ficando sozinho. Namorada eu nunca tive uma fixa, os amigos eram de bar: vadiei tanto na faculdade a ponto de terminar a graduação dois anos depois dos que entraram comigo, então acabei sem ninguém. Meus pais morreram, eu já disse. Irmãos eu não tinha, das tias velhas eu queria distância. Passei no concurso desse cargo de auxiliar, segundo grau mesmo, vendi a casona de Moema e me mudei pro quarto-e-cozinha do centro, antes ainda de virar moda. Comi muita gente no Copan (quem nunca trepou no Copan?), especialmente as estudantezinhas da região. Fui ficando - minha chefe dizia, a gente teve um lance num jantar de fim de ano, sem sacanagem forte, só um beijo, ela dizia: você é moleque, ah, brejeiro.

Passou: eu tinha cabelo branco agora. Ninguém me deu bola, nem comemorou minha chegada quando eu entrei - eu queria ser aguardado. Fiz barulho, incomodei, dei bom-dia colega por colega, todos de olhos nos monitores, o tique-taque estalado e assustador dos teclados de letras apagadas (mas não importa, porque escrevemos quase sempre as mesmas coisas). Tive fome logo, não podia me concentrar: pouco ou nada ouvia o que as pessoas tentavam me dizer, desliguei o iPod, não dava pra trabalhar assim. Derrubei café no monitor, tropecei numa extensão e cortei a energia de metade das estações. Rasguei a folha de um processo sem querer, eu suava que nem condenado, não podia atender ninguém no balcão, mas nenhum dos meus colegas me notava. A gota d'água foi uma gota de muco - meleca, digo logo, meleca que escorreu do nariz num processo, bem na frente do advogado, que se emputeceu e bradou datavênias. Me mandaram pra casa, mas eu não fui: gente responsável aguenta o tranco, eu cansei de ver os colegas trabalhando gripados, eu não tinha nada. Eu fico.

Só medo eu tinha: quando me sentei, ainda antes do almoço, fiquei parado, imóvel, estático - e suava. E se depois daquele balcão o advogado viesse me pegar, em vingança da fungada que eu dei na cara dele? E se o segurança viesse me arrastar pra fora do tribunal, porque eu não estava em condições de trabalhar? E se me impusessem internação psiquiátrica, férias forçadas? E se eu não suportasse a pressão de tanta gente olhando pra mim? Mas veio a moça da limpeza - no colo da Keylla eu sabia que podia chorar, ela tinha os olhos de ternura que tinham também as moças dos últimos bares a que eu recorria. Mas ela me empurrou longe, Não ganho pra consolar marmanjo, porra. E foi aí que eu desabei e vim parar aqui.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Títere (ou Os entreatos sem sentido)

Sou títere - não do destino impalpável
nem de homens misteriosos
que me regem em segredo -
mas de uma pulsão que ainda não é vida,
que me tolhe os movimentos,
não me permite pensar,
e me suspende a respiração.

Falta-me luz:
cada dia mais meus olhos são opacos,
não tenho voz nem fôlego,
as pernas querem estar deitadas,
o pênis está morto,
as mãos insistem em repetir o movimento -
e meu último suspiro
talvez o único
sugere que registre estas palavras
em homenagem ao teatro de bonecos de Paraty.

As instalações em espaço desigual,
em desarranjo de espetáculo
interposto em tempo a que falta poesia
- e só pode faltar;
cada pedra do calçamento
brada a idade e o peso de suportar
ora os homens, que insistem em pisar desigualmente,
ora a maré, que insiste em subir cada dia mais
(por que não toma logo tudo
e nos arrasta a todos?
Ou pelo menos eu - basta levar-me a mim);
cada homem da cidade - o artista de rua,
o especulador imobiliário, o turista aprendiz,
os viciados da madrugada, o comerciante e o milionário,
os visitantes predatórios, as crianças a caminho da escola -
Todos, e nenhum, podem saber
que põem pé ante pé, que creem tomar as decisões,
sob a interferência demoníaca da mesma pulsão,
que nos esculpe a feição vazia,
mas alegre, porque deus é brasileiro.

Entre todos eles,
acuado pelo barulho que fazem,
mas que parece incomodar apenas a mim;
espantado da inteligência que têm,
dispostos a fazer contas de tudo,
antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto;
resta-me assistir ao espetáculo
do teatro de bonecos de Paraty.

Já imersos no escuro, antes do início,
erige-se o silêncio
das aras em que até a respiração
conspurca a sagração dos homens -
na forma de bonecos que têm a vida que eles não têm.

Invejo: aqui os homens ficam em segundo plano
(é melhor que aí estejam e fiquem)
para não atrapalhar o sopro e o pulso que correm em cena:
são amores tais,
à margem da recorrência desexistida e reencenada;
a cada nota soada duma partita de Bach,
assoma um movimento rigorosamente
mais espontâneo que o meu e o daqueles homens -
falta-nos a expressão de cada um dos dos bonecos.

Em meio à escuridão absoluta -
o jato de luz mergulhado
na singeleza do pé que coça
a outra perna -
petrifico-me em massa disforme
de expressão ou sentido
e experimento
a passagem-limite entre o silêncio e o som
e o efêmero e o eterno.

Os aplausos - quase todos autômatos
movidos do instinto mesmo de bater palmas
para fazer significar e reproduzir o espetáculo
em mercadoria compreensível -
os aplausos me avisam que é hora de voltar
ao palco fervente dos excessos de luz universal
que dispensa nuances,
carregado da impressão forte
de que não há público,
e serei sempre a mesma coisa
reencenando entreatos sem sentido
um monólogo sem texto.