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quinta-feira, 11 de julho de 2013

Ler com os alunos, ler para os alunos

Os últimos vinte anos em sala de aula me dizem o seguinte: é preciso ler com os alunos. E ler com eles é muito diferente de ler para eles - o que os professores fazemos quase sempre.

Não é uma distinção difícil nem teórica, ao contrário: ler para os alunos os pressupõe como destinatários da leitura - e mais nada, infelizmente. Eles e o professor têm nas mãos o mesmo texto; o professor lê, enquanto os alunos acompanham com os olhos. Ao final, parte-se do pressuposto de que esse exercício foi suficiente para a compreensão do texto.

Ler com os alunos me parece mais fértil - mas é certamente muito mais trabalhoso. Primeiramente, é preciso fazer uma leitura completa do fragmento que se tem em mãos. Depois, uma leitura fragmentária, interrompida a cada dificuldade de vocabulário, a cada sentença de estrutura de difícil compreensão, a cada período que exige fôlego do leitor. Ler com os alunos exige tempo e paciência de todos. É preciso distinguir o que o autor diz do que acreditamos ter entendido, numa primeira leitura. Desaparece a ideia de que se deve ler um texto sem consultar o significado das palavras desconhecidas: cada uma delas é responsável pelas cadeias semânticas que levam à apreensão dos sentidos mais profundos do texto. É nessa altura que discriminaremos o que está inscrito e escrito no texto daquilo que queremos que ele diga - porque nós, quando nos envolvemos a fundo com ele, começamos a exigir dele o que ele não pode nos dar.

Ler com os alunos é exercício raro nas escolas brasileiras. Primeiramente porque os professores não estão preparados para tanto: ler com os alunos pressupõe dialogar com eles, deixar que levantem hipóteses sobre o texto, que perguntem a respeito dele, que riam do texto, que o estranhem. Poucos professores têm paciência para deixar os alunos atuarem de modo tão vibrante na sala de aula. Não temos a cultura do diálogo: nossas aulas são expositivas. Parte-se do pressuposto (patriarcal e opressor, digamos tudo) de que o aluno não é sujeito, porque ainda está por se formar. Impossível criar ambiente de leitura dialogada nesse meio.

Além disso, o professor evita ler com os alunos porque essa leitura conjunta exige uma outra, anterior, só dele. Preparar aula é atividade cada vez mais rara entre professores. De preferência, prepara-se aula uma só vez, de modo que ela sirva para sempre, permitindo que o professor desfrute de  algum tempo livre, afinal ele dá mais de quarenta aulas por semana, além de todas as burocracias que tem de cumprir. Na aula, a leitura perde espaço porque na vida ela também perdeu espaço: até professores não leem quase nada. Não poderiam mesmo criar espaços de leitura com os alunos.

É ainda a estrutura do ensino que impede esse exercício raro. Preferimos a quantidade de leitura à qualidade: os pais, a direção, a coordenação e a mídia querem saber quantos livros, em média, os alunos leem - por mais que o importante seja como os livros foram lidos. É o mercado: os alunos têm de passar no vestibular, para ganhar um bom emprego, para poderem ter um bom padrão de vida... não há espaço para leitura na vida do trabalho e da mercadoria, salvo leituras de superfície, que podem ser divertidas, mas que não são leituras do calibre a que me refiro neste texto.

É uma tristeza: há uma mentira coletiva, que virou verdade porque foi repetida à exaustão: a de que, depois de ter emprego, família e casa própria, o sujeito terá tempo de ler os clássicos. Deveria ser o contrário: sabendo que jamais haverá espaço pra ler os clássicos, deveríamos aproveitar o tempo de escola para fazê-lo. Mas não é o que acontece.

Afogados nas mais diversas atividades, os alunos fogem religiosamente às leituras escolares. Têm toda a razão: os clássicos estão cada vez mais distantes da realidade imediata de que fazem parte; o repertório de leitura dos alunos é bastante restrito, o que dificulta a leitura dos clássicos; as provas e a maioria dos vestibulares não exigem propriamente a leitura dos textos, mas a leitura dos resumos; quantidade de leitura de clássicos nunca empregou ninguém.

Resta perceber que, entre os bons motivos que professores, alunos, educadores e mídia têm pra não incentivar a leitura dialogada, uns culpam os outros. Professores dizem que não leem com os alunos porque não têm tempo - o mesmo argumento dos alunos; à direção interessa afirmar que os alunos leram muito - as listas dos vestibulares têm cerca de dez livros - mesmo que não tenha ocorrido leitura propriamente dita (mas não interessa a ninguém expor essa mentira); a mídia insiste na afirmação de que o Brasil é uma nação iletrada - o que só se pode reverter por meio da quantidade de leitura, o que foge ao projeto da leitura dialogada. Assim, todos têm boas desculpas para justificar o injustificável: nas aulas de língua portuguesa, dedica-se mais tempo à gramática do que à leitura. Somos especialistas em sujeitos simples.

Somente iniciativas isoladas conseguem, às vezes, romper essa cadeia de desculpas esfarrapadas. Há escolas cuja coordenação ampara os professores em projetos de leitura, com o apoio dos pais - todos abrindo mão do pragmatismo do mercado. Há turmas em que, magicamente, os alunos despertam para a maravilha da leitura. Há alunos que se encantam mais da literatura que das baladas ou dos games. Trata-se, contudo, de ocorrências isoladas.

Falta-nos a prática de pensar juntos, dialogando. Não sabemos deixar nossos alunos ousarem - porque nós mesmos ousamos muito pouco. Falta-nos a cultura do diálogo, que pressupõe o outro como sujeito de si, mesmo que mais inexperiente, mesmo que menos lido. Falta-nos a cultura do estudo alongado, da leitura aprofundada. Falta-nos o método da leitura dialogada.

(Este é o primeiro texto de uma série que pretendo escrever aqui, a respeito de leitura, professores e alunos. Devo essa ideia à Denise Bottmann, do blog Não gosto de plágio. No próximo, me farei uma pergunta simples: todo mundo tem de ler tudo?)        

Dez autores para os estudantes de ensino médio

A UOL Educação pediu na semana passada uma lista dos dez autores que julgo fundamentais para os estudantes. Enviei uma lista com os meus dez - que não foram todos publicados, por isso resolvi postar aqui o texto integral.

Certamente, criar a lista dos dez autores imprescindíveis para leitura dos estudantes é tarefa ingrata - no exato momento em que este texto for publicado, vou me lembrar de pelo menos outros dez autores que poderia ter incluído na lista. Por isso, uma forma de minimizar esse dano é adotar o seguinte critério: os autores indicados abaixo servem de porta de entrada a muitos outros. Também fiz questão de privilegiar a literatura de língua portuguesa em sete das dez indicações - porque nossa literatura e nossa cultura não deixam nada a dever a outras. Há, entretanto, uma indicação de autor de literatura estrangeira, porque uma lista apenas com portugueses, brasileiros e africanos seria injusta e míope. E há duas indicações de textos não literários, porque acredito que nosso repertório de leitura ganha muito se for composto, também, por textos teóricos. No mais, é preciso insistir que se trata de lista composta segundo meu repertório de leitura - e que será tão mais rica quanto mais for justaposta pelas leituras de outros professores e, especialmente, dos alunos, que podem e devem criar as próprias listas.

01. Camões
Embora a distância no tempo seja grande o suficiente a ponto de dificultar-nos a leitura, é preciso ler Camões com a mesma mentalidade com que investigamos um edifício antigo ou um museu: eles são patrimônio da nossa língua e da nossa cultura. Tanto a lírica (especialmente os sonetos) quanto a épica (Os Lusíadas) seguem fundamentais para a compreensão de Portugal e do Brasil, além de servirem de referência para praticamente todos os poetas dos anos seguintes.

 02. Fernando Pessoa
A leitura de Fernando Pessoa é o desdobramento natural da leitura de Camões. A tradição que este instituiu foi retomada e ampliada pelo poeta da heteronímia, que também inscreveu a poesia de língua portuguesa na Modernidade. A heteronímia, aliás, segue ainda como uma invenção poética inédita e inimitável, estudada, cada vez mais, no mundo inteiro, devido à atualidade do sujeito fracionário, cuja intenção era desdobrar-se em muitos para recompor-se depois; mas esse sujeito é também falhado, porque a alienação o levou à dissolução completa de si - em processo cruamente registrado nos poemas de Pessoa, tanto dos heterônimos quanto do Pessoa "ele mesmo".

03. Machado de Assis
Os cinco romances da maturidade de Machado de Assis assinalam a maturidade da literatura brasileira. Neles, pode-se observar a sociedade brasileira do século XIX, especialmente as arbitrariedades das classes dominantes escravistas, bem como sua debilidade com o processo de modernização conservadora pelo qual o país passou (e talvez siga passando, em andamento similar ao registrado por Machado). O resultado das descontinuidades entre, de um lado, escravidão e lógica do favor, na vida concreta, do cotidiano, e, de outro, as ideologias europeias que nossa elite insistia em repetir, no plano das ideias, dá o gume da atualidade e da amplitude da obra machadiana.

04. Mário de Andrade
Basta a leitura de Macunaíma para tomar contato com todas as hipóteses de interpretação do Brasil aventadas até à década de 1930: a mestiçagem, considerada degradante até os primeiros anos do século, agora valorizada; os limites difusos entre natureza e cultura, sempre pertinentes no que se refere ao Brasil desde sua origem, em que se combinam culturas de feições distintas; o valor da cultura popular como fonte inesgotável de formas e conteúdos da cultura erudita; o raiar da indústria cultural; a passagem do trabalho escravo para o trabalho assalariado no Brasil, e suas implicações - e muitos outros temas. Aliás, todos eles estão, de forma geral, contidos na obra crítica de Mário de Andrade, bem como suas cartas a amigos, ainda é pouco lida por alunos e professores.

05. Guimarães Rosa
Grande Sertão: Veredas talvez seja a grande obra da literatura brasileira no século XX, seja pelo trato inconfundível dado por Guimarães Rosa à língua, seja pela universalidade que o sertão ganha no livro: "o sertão é o mundo", insiste Riobaldo, o narrador. De fato, ali há de tudo: narrativa épica, romance medieval, lírica amorosa, narrativa popular e obra faústica, plasmados pelo caráter intermediário e quase mediúnico da experiência nacional, cujo fio da meada é a memória amorosa do narrador por um companheiro de jagunçagem, Reinaldo ou Diadorim que, ao final, se revela mulher disfarçada entre bandos de homens violentos.

06. Mia Couto
Infelizmente, a maioria dos estudantes e dos professores brasileiros ainda não descobriu as literaturas africanas de Língua Portuguesa, que talvez tenha no moçambicano Mia Couto seu grande expoente. Pelo menos dois livros valem a leitura, para tomar contato com a obra do autor: as Vozes Anoitecidas, seu primeiro livro de contos, e Terra Sonâmbula, seu primeiro romance - em que o universo mágico-religioso se amalgama aos horrores da guerra.

07. Literatura periférica: Paulo Lins e Ferréz
É preciso registrar a importância de Cidade de Deus, romance de Paulo Lins que deu origem a um dos filmes de maior sucesso do cinema brasileiro recente, posterior à chamada retomada da década de 90. Trata-se, de maneira geral, para simplificar e complicar ao mesmo tempo, do Grande Sertão: Veredas das favelas cariocas, tanto no plano formal quanto no tema, aquilatado à dimensão da violência urbana. A temática da obra de Ferréz é a mesma, toda ambientada na periferia de São Paulo e com linguagem mais concisa. Trata-se de autores indispensáveis para a compreensão do Brasil atual, cujas vozes tradicionalmente reprimidas começam a se fazer ouvir na literatura brasileira.

08. Marx e Engels
Bastou a crise dos subprimes, de 2008, abalar os mercados internacionais para que os economistas, sociólogos, historiadores e pesquisadores em geral retomassem a leitura das obras de Marx e de Engels. Com efeito, o Manifesto do Partido Comunista merece releitura, senão por outros motivos, pelo menos pela descrição da burguesia como classe revolucionária que levará o capitalismo aos quatro cantos do globo: um presságio surpreendente do que se chamaria, quase 150 anos depois da redação do Manifesto, de globalização. Da mesma forma, segue atual a hipótese referente à mercantilização das relações afetivas. Em período de manifestações pelo Brasil e pelo mundo, não será demais reavaliar as análises de Marx e Engels - que estavam supostamente "superadas" para muitos intelectuais. Não é à toa que as obras desses dois autores foram reeditadas e seguem largamente vendidas no mundo todo. 

09. Walter Benjamin
Pelo menos uma hipótese de Walter Benjamin (levantada no famoso texto "A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução") merece avaliação cuidadosa: a de que, depois do desenvolvimento das técnicas de reprodução, a própria natureza da obra de arte foi alterada. Em termos bem simples: depois da reprodução em série da Monalisa, a natureza do próprio quadro de de Da Vinci foi alterada pelo prestígio que alcançou por meio da exibição prolongada ao longo dos anos. Que dizer da famosa foto de Guevara, transformada em produto-mercadoria? E, no que se refere ao tempo em que vivemos: um poema ou texto, publicado e compartilhado por milhares de pessoas numa rede social, pode ser, por essa ampla exposição, considerado obra de arte? Para responder a essa pergunta, certamente Walter Benjamin será autor imprescindível.

10. Edgar Allan Poe
Talvez a obra de Edgar Allan Poe seja a grande matriz da literatura ocidental desde meados do século XIX. Para entender a importância desse autor, talvez sirva o seguinte exemplo: Machado de Assis e Fernando Pessoa fizeram questão de traduzir o poema "O Corvo" para a Língua Portuguesa - que é, portanto, leitura obrigatória. Além disso, também vale conhecer os contos de Poe que contêm o nascedouro das narrativas policiais, bem como os textos teóricos, especialmente a "Filosofia da Composição.