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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Apoemático urbano


Com toda a barulheira,
todo o trânsito que impede a circulação,
toda a agressividade dos motoristas nas ruas,
toda a música no volume máximo no carro
fazendo tremer as janelas das casas,
todas as motocicletas
ensurdecedoras de cachorros-loucos acintosos,
todas as polícias e todo bandido,
todos os prédios empinados, emproados
erigidos em meio a casas e cidadãos
(pra que tanta gente?, meu deus)
cada vez menores e idênticos -

pretendo desistir da humanidade, do expediente, do protocolo
e das manifestações de apreço ao senhor diretor de marketing e propaganda
que celebra a especulação imobilária
dando-lhe lineamentos de progresso, distribuição de renda
e redução do déficit habitacional

(enquanto isso, tem um cachorro esfomeado na casa vizinha:
o dono não o alimenta para que ele seja
o mais feroz sistema de segurança de todo o oeste
e eu, falência completa de ser humano impotente,
tenho medo de denunciá-lo à delegacia de proteção dos animais
vai saber do que meu vizinho é capaz)

domingo, 11 de agosto de 2013

O terremoto


Com o passar dos anos, tornei-me um indesejado: meus amigos evitavam chamar-me para as festas, especialmente quando começaram a ter filhos. Não era apenas a inconveniência dos meus excessos – chegava atrasado, queria intervir nas conversas, falava alto, mudava o som, acabava com a cerveja, saía depois de todo mundo, não sem sujar tudo e não limpar; era também o medo de que eu machucasse as crianças. Era intolerável a minha insistência no passado: eu tinha saudades do tempo de mudar as coisas de lugar. Eu não podia.

            Os sons que me importunavam à noite, quando eu tentava dormir, eram pavorosos. Tentei remédios, tentei uísque, tentei fechar o corpo, mas não adiantou. Eu estava vazio: fechar o quê? Não eram saudades, anos depois nem era mais o apego ao passado. Era uma sensação que ainda não sei explicar. Todo o ruído da cidade me irritava, toda elevação de voz me agredia, nem dirigir eu podia mais, por causa das buzinas, das investidas ofensivas dos outros motoristas. Toda esquina cheirava a mijo ou a pólvora, todo restaurante virava balada num programa de calouros no volume máximo. Eu vivia sob o medo – medo da polícia e do bandido; medo de que a paz que eu tinha em casa fosse invadida por um boteco barulhento; medo de ter de acordar cada dia mais cedo para ir ao trabalho, até o dia em que teria de dormir lá, e nunca mais voltar para casa. Medo de que vissem que eu não podia fazer nada.

            Veio o verão: o calor brutal da cidade não me deixava em paz. Ao fim do dia eu estava revestido de pó, fuligem, suor de medo e desodorante vencido, com fumacê de cigarro que eu não podia largar. Eu tinha o veneno no corpo, nos olhos, na alma, mas não tinha vida social. Não largava nenhuma mania, escovava metodicamente os dentes, ouvia todo o dia as mesmas músicas, repetia os horários, salvo a hora de acordar e de sair de casa, que eram sempre mais cedo, até eu ter de acordar em plena madrugada para trabalhar no emprego que alguém havia dito ser tendência. Eu tinha quarenta e cinco anos de punhetas bem batidas, de pavores bem cultivados, de restos e fragmentos de vida guardados no armário do fundo da casa com as roupas do meu pai, que já havia morrido fazia dez anos – mas eu tinha medo de revirar as roupas dele e de encontrar ali alguma evidência de que ele me odiava, como os meus amigos. Eu tinha dez anos de TV a cabo, uma planilha imbatível de programação pra não perder nenhum clássico, uma dieta balanceada de restaurantes pra pedir comida na internet, a bunda mesmo eu limpava com papel comprado online, tudo perfeitamente organizado, metodicamente ordenado, conforme o figurino que eu imaginava que se esperava de mim.

            Era um fim de tarde quente de outono, o vizinho fazia um churrasco com o som no volume máximo, a mulherada gritava uhú como se entrasse na casa do BBB; o cheiro insuportável de gordura queimada na churrasqueira, de baseado vagabundo de faculdade, em gritarias e tragos tabaqueados de vontade de esmagar o mundo, a TV no volume máximo no jogo de futebol a que todos assistiam enquanto bebiam cerveja com uísque, como podia aquela gente fazer tanta coisa ao mesmo tempo? Gargalhadas de uma piada sobre a torcida adversária no Facebook punham-me em frangalhos os nervos, o assovio de convocação para mais uma rodada de carne, os trechos de conversa, Eu comprei, O meu carro, Eu comprei, O meu telefone, Eu comprei, A minha namorada, Eu viajei e comprei, O melhor, O melhor, O melhor – e a gargalhada longa, e a confissão de lado, assentida pelo interlocutor, Como é bom ser superior às borboletas! E alimentavam as crianças que gritavam insistentes por mais, e mais. A minha janela tremia das vibrações da caixa de som, no teto do meu quarto eu via os reflexos dos fogos que eles soltavam pra comemorar os gols, as compras, os brindes, as coisas. Era a alegria compulsória: não havia uma brecha para silêncio. Eu não podia ler. Eu rolava na cama de dor, de medo, de aflição, ninguém pode me entender. Foi aí que aconteceu.

            Primeiro pensei que alguém tivesse aumentado o som. Mas houve um, dois, três, quatro, seis segundos de silêncio – como se houvesse uma orquestra fazendo o mais brutal atonalismo, o horror no primeiro plano, o silêncio de fundo. Eu celebrei e fechei os olhos, porque já sentia as vibrações – eu esperava por elas havia anos. Ninguém poderia supor um terremoto nestas terras: nada estaria mais no lugar, naquele mesmo instante já os livros despencavam da estante, a TV do vizinho se espatifava no chão, mas todos estavam quietos: nem as mulheres gritavam, nem os homens bradavam macheza; as crianças, telúricas, aceitavam, mais próximas do transcendente, o que vinha da terra; alguns velhos sorriam porque se lembravam de alguma coisa parecida, outros faziam cara feia querendo dizer que preferiam a morte – tanto trabalho pra rearrumar a casa depois, pra ela mesmo assim nunca mais ficar do jeito que era.
  
          O cheiro era de terra molhada, de corpo de namorada que saiu do mar e beijou salgado na boca – eu tinha essa impressão clichê de que no epicentro do terremoto dava pra deitar no chão e dormir, como criança que se acostuma à barulheira da festa e se deixa embalar, ou adolescente que põe uma caixa de som em cada orelha e adormece ouvindo Rocket to Russia. Sem os fogos, sem a TV, sem a luz estroboscópica, era fim de tarde em São Paulo – como são bonitos os fins de tarde de junho, repicados de nuvens coloridas na esperança de que nem todas as cores sejam dos gases poluentes, algumas ainda podem ser naturais, espécie de aurora boreal nunca vista. Tudo mudou de lugar, todas as sensações eram novas, e o meu medo tinha passado.  

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A flor no banheiro do avião


No banheiro do avião havia uma rosa. Não viçava - estava até meio murcha, gasta de passar da mão do homem que a colheu, para a do transportador que a levou até o Ceasa, onde foi comprada por um lojista de flores, levada até à loja da Doutor Arnaldo, sempre em trânsito. No caminho ela própria, em semiconsciência de vegetal alienado da terra em que pôs raízes, temia quanto ao destino que teria: seria parte de uma coroa para mortos ou comporia com outras suas irmãs telúricas e de cor um ramalhete lindo que presentearia uma mulher amada, ou uma amante secreta, ou uma namorada nova, ou uma mãe aniversariante, ou uma debutante de quinze anos, ainda se usa debutar?

Pois antes de saber aonde iria acabar a vida, a rosa teve de penar o transporte até à loja, apertada entre outras rosas, milhares delas, todas em pacotes de papel pardo, todas transformadas em uma, todas sufocadas pelo cheiro de rosas, violetas, adubos, terras úmidas, terras secas, estrume, lixo, samambaias, pontas de cigarro, xaxins que não se usam mais, mas que ainda passam por baixo dos panos do mercado negro das plantas, que há tráfico e criminalidade até no que se refere a elas. Nos fundos da kombi só se podia sentir, para quem o soubesse e pudesse, o odor interminável do medo não apenas do desconhecido, mas também da plena ciência de que o descarte é uma realidade inevitável e assolaria cerca de metade dos vegetais, alguns ali já efêmeros, com expectativa de vida máxima de dias, alguns de horas, só de passagem pela vida humana.

Mas esta rosa era valente: comprimiu as pétalas, enrijeceu os espinhos e pôde suportar o transporte e o traslado para o balde de água gelada, além das seguidas supressões de alguns centímetros de talo, para durar mais. Na loja da Doutor Arnaldo, amortecida pela baixa temperatura em que se viu imersa, perdeu a primeira pétala - uma só, apenas aquela - espécie de lágrima frente ao pó, ao ruído e ao horror da vida humana na grande avenida. Presenciou um atropelamento, discussões de trânsito e gritos de guerra de torcidas organizadas. A vida e a beleza se lhe esvaíam lentamente, ela em delírio psicodélico vegetal, mergulhada em buzinas, ais, pregões, impropérios contra o governo e cantadas abusivas contra mulheres. No ápice do desacerto, alucinou uma flor sua irmã que rompesse o asfalto, mas isso era só poesia, que corre a seiva das flores, apesar do mundo.

Súbito, transformou-se em presente de aniversário: Rosa sempre funciona, a gente dá, elas gostam, insistia o florista ao comprador impaciente, de carro ainda ligado. A supressão de todos os espinhos relegou a rosa à passividade inerte de quem não pode se defender de nada - era agora um cotoco de beleza, cabeça vermelha reluzente e semimorta do mundo das mercadorias, o sorriso embaciado e fóssil de matéria às margens da decomposição.

E a seguir a rosa cumpriu seu último traçado: do banco do carro do ano, perdendo o viço no ar-condicionado, perdendo o ânimo na mesa-redonda do esporte, o escrete do fim da tarde. Dali às mãos pesadas que já faziam a mala e que a levaram ao nariz, num gesto último de esperança que já nasceu morta. Dali ao banheiro do avião, já em passagem para outra vida, a caminho do destino que não conseguiu completar.