Total de visualizações de página

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Ainda sobre professores

Estou preparando um texto longo a respeito da docência. Como talvez ele demore, resolvi postar esse trecho, que me pareceu razoavelmente inteiriço e que contém o fundamental do raciocínio todo:

há um consenso, homólogo às narrativas de família feliz e de superação, que insiste em dizer que a docência é mais do que uma simples profissão, que é ocupação que beira o sacerdócio – o que normalmente resulta em menor valorização profissional ao professor. Atribui-se ao professor uma importância simbólica (e de fachada) que supostamente transcende a lógica de mercado, pelo simples motivo de que todos sabem, mesmo que inconscientemente, que a educação, se for transformada em mercadoria, perderá seu caráter formativo – para dizer o mínimo. O resultado prático dessa armadilha é que, no plano discursivo, todos afirmam que a docência é mais importante das profissões – mas é precisamente por seu valor imensurável e inestimável, supostamente muito além do que poderia ser remunerado pelo mercado, que se arrocha o salário do professor. Grosso modo: como não dá pra pagar o que o professor vale, porque ele vale demais, então se paga o que dá – que é sempre uma miséria. Note-se que o contrário nunca acontece (eu, pelo menos, nunca vi acontecer): ninguém paga a mais ao professor, pecando pelo excesso, porque o que ele tem a ensinar não pode ser medido nos termos do mercado (ainda que seja bem pago, ele o é, na maioria das vezes, porque trabalha muitas horas, ou porque goza de prestígio tal a ponto de inverter o poder de barganha tradicional, sendo o mandante na relação com a instituição). Segundo esse raciocínio, aliás, pagar bem o professor corresponderia a assumir que o pressuposto de base é falso (isto é, aquele que insiste na docência como sacerdócio) – o que também não ocorre, em nome da preservação da exploração do trabalho e da depreciação de seu potencial inexplorado de emancipação. Por isso tudo, é prejudicial aos professores insistir que ser professor é uma vocação divina. Não é. Ser professor é uma profissão mal-remunerada precisamente para deprimir a faceta esclarecida e esclarecedora que essa ocupação pode ter – mas que não pode ser aprofundada nas condições precárias da maioria das escolas, inclusive as particulares, ao contrário do que se supõe.

domingo, 6 de outubro de 2013

Entre você

Para Patrícia Gondeck

Custei a abrir o seu presente -
talvez porque quisesse adiar o alumbramento
de ler um livro novinho, ainda cheirando bem
do frescor da sua escolha cuidadosa.

Decidi abri-lo hoje -
degustei as páginas todas e os poemas, cada um,
em júbilo, à sua memória, ainda antes da sua morte,
neste noviciado da nossa paixão.

O seu presente - era você própria
no traçado de cada um das linhas um contorno seu
no corpo da obra entretextos das tuas pernas
dos teus pés entrelinhas das tuas mãos
entrelaçados o meu nome e o teu
até depois da morte.