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sexta-feira, 16 de maio de 2014

Três anos sem fumar

Parece incrível, mas já faz três anos que parei de fumar. Quem me conheceu, fumando cerca de dois maços por dia, literalmente criando espaços e brechas na vida pra conseguir dar umas tragadas - não pode acreditar. Por isso, registro aqui algumas impressões dos últimos três anos:

Quem para de fumar não precisa ser um ex-fumante chato. Não faço campanha pra ninguém parar de fumar exatamente porque sei o que é ter o vício do fumo e o que é ter gente te julgando e enchendo o saco o tempo todo porque você tem esse vício. Viciados deveriam ser tratados como o que são: pessoas que têm uma doença. Mas vivemos numa sociedade em que se elegeu o fumante como pária, como se ele fosse canalha porque fuma. É parecido com o que acontece com o obeso. Tenho a impressão de que na cultura das celebridades (suposta, e muitas vezes, mentirosamente saudáveis) não cabem os fumantes e os obesos. Também não é permitido ser idoso sem ser sarado e sorridente vinte e quatro horas por dia - e pra mim essas imposições de felicidade, além de autoritárias, escamoteiam a real situação, que é a de que vivemos numa sociedade iminentemente adicta, mas que elege alguns vícios como toleráveis e até elogiáveis (o trabalho excessivo, por exemplo) e outros como "nojentos" - o cigarro e a comida. Por isso: não encho o saco de ninguém que fuma. Sei a barra pesada que é ser fumante e a barra ainda mais pesada que é parar de fumar. Se quiser fumar do meu lado, não me incomodo. Se por algum motivo o fumo me incomodar (se eu estiver com dor de cabeça, por exemplo), ou saio do lugar (o incomodado sou eu), ou peço com cuidado pra pessoa não fumar perto de mim.

Cada um para de fumar de um jeito diferente. Tem gente que parou de uma vez. Tem gente que precisou de remédios (meu caso) e terapia. Tem gente que só consegue se frequentar os grupos de Nicotina Anônimos, antigo Fumantes Anônimos. Tem gente que teve de parar e voltar a fumar várias vezes antes de parar definitivamente. Tem gente que faz a conta de quanto tempo e dinheiro gastou com cigarro, fica puta da vida e para de fumar. Tem gente que quer parar e não conseguiu achar uma maneira. Tem gente que nunca vai parar de fumar. Acredito que o que interessa é querer mesmo parar de fumar. A partir dessa convicção, é possível encontrar um caminho, que é diferente pra todo mundo.

Eu consigo não pensar em cigarro um dia inteiro. Há dias em que sequer penso em cigarro: acordo, trabalho, me estresso, deito e durmo sem lembrar que eu adorava fumar. É certamente libertador, mas...

Há dias em que a vontade de fumar volta. Sabe-se lá por qual motivo, tem dias em que a vontade de fumar volta. Talvez seja essa a definição do viciado que abandonou o vício: a vontade de fumar vai sempre estar dentro de mim (certamente porque o vício vai além da dependência física), mas eu me controlo e não fumo. Essa ideia de privar-se de fumar certamente soará como dor excruciante para quem ainda não parou, mas é certamente libertadora para mim. É o seguinte: vício é aquilo que você faz repetidamente sem o desejo nem a vontade de fazer. Sem vontade nenhuma de fumar, eu acordava pensando no primeiro cigarro do dia, que eu fumaria com o café, de preferência, se desse tempo, ainda antes do banho. Hoje eu tenho a liberdade de escolher - e escolho não fumar todos os dias, porque sei que, se não fizer essa escolha, perderei a chance de escolher.        

terça-feira, 6 de maio de 2014

12 pontos sobre a adaptação de Machado de Assis

Circulou no facebook uma postagem pública do professor Alcides Villaça, da USP, a respeito de um projeto de "facilitação" da obra de Machado de Assis. Eis aqui o link da reportagem da Folha a respeito do projeto: http://goo.gl/tWmN27

A ideia de "facilitar" a obra do Machado me desagradou de saída - mas eu ia deixar a polêmica pra lá, que não estou pra brigas, virtuais ou não. Mas começaram a rolar comentários afirmando que "quem se opõe ao projeto é elitista", e sinceramente não creio que seja esse o caso, pelo menos o meu. Meti-me na polêmica, comentando no perfil de um amigo. Aí transformei os comentários em uma postagem (que não é pública) no facebook - porque sigo sem querer confusão pro meu lado. Mas aí a professora Ana Maria Domingues de Oliveira, da UNESP de Assis, com quem tenho aprendido muito, me pediu que postasse a história toda aqui no blog, pra compartilhar com mais facilidade. E a esse pedido não posso dizer não.  

Por tudo isso, seguem abaixo os doze pontos que postei no facebook. Só queria dizer que eles podem ser considerados como parte de uma série de postagens aqui do blog a respeito de educação e de leitura, que eu não planejei, mas que foi se constituindo aos poucos, a partir da minha experiência em aula. Os três principais textos dessa série são os seguintes: "15 teses sobre professores e educação"; "ler com os alunos, ler para os alunos"; "ainda sobre professores" (e há outros, menos importantes, mas com os mesmos pressupostos). Acho que as teses abaixo farão mais sentido se lidas com eles.

1. Na minha época do hoje chamado Ensino Fundamental, só li obras adaptadas de autores estrangeiros. Dos brasileiros, eu li uma coleção, que acho que não vingou, em que se alternavam passagens em quadrinhos e trechos originais da obra. Adaptar obras em língua materna: acho complicado. Só se for, sei lá, Os Lusíadas. Mas Machado? Alencar? Acho que não. Pra mim, a adaptação faz mais sentido nas obras de língua estrangeira;

2. Pra garotada, talvez possamos experimentar obras de língua materna adequadas à idade deles, não adaptadas. Ler Machado na oitava série talvez seja um equívoco: tentemos contos curtos dele. Se queremos romance, talvez o melhor sejam obras de autores recentes (sem serem aquelas coleções idiotas que reinam no Ensino Fundamental). Pergunto, sem ter resposta definitiva: o que é que se pode ler na oitava série que seja bem feito do ponto de vista da forma? É preciso testar autores contemporâneos, acho eu. O currículo fica muito preso ao cânone do século XIX - Machado, Alencar, Álvares de Azevedo. Gente boa escrevendo hoje é o que não falta - mas certamente sobram pais, professores e coordenadores tentando enfiar Machado de Assis garganta abaixo dos alunos de sétima série. Que tal Paulo Lins, Ferréz, Milton Hatoum, Angélica Freitas? (sem prejuízo de outros autores vivos, só disse os nomes que vi primeiro na minha prateleira - mas essa lista pode ter mais 200 nomes que valem ser lidos, no mínimo);

3. Quando eu dava aula pra Ensino Fundamental II, esse era o grande desafio: a leitura que eu pediria aos meninos. Mas acho principalmente que deve ser feito um trabalho de LER COM os alunos. Mas aí, os vestibulares pedem 10 livros + gramática, e não dá tempo de fazer nada... Escrevi sobre isso aqui: http://goo.gl/IFdXdD

4. Pra mim, ensino de língua materna tinha de ser: 1. leitura de livros, revistas, jornais, obras científicas e filosóficas COM os alunos; 2. redação (não aula de redação, mas prática de escrita, com correção comentada individualmente). O resto vem a reboque disso;

5. Aquele projeto, pra mim, é parte integrante do sistema de nivelamento por baixo do ensino, equiparado ao sistema de promoção automática e de sucateamento do ensino público. A adaptação em si não é o problema: o problema é que ela surge como a alternativa que supostamente fará os alunos lerem as obras e que terá mais chances de despertar o gosto pela leitura. Não posso acreditar nisso (mas que se faça o teste, sem problemas);

6. As obras adaptadas cuja história queremos ler são Moby Dick e Robinson Crusoé - romances cuja estrutura contenha algumas peripécias. Mas Memórias Póstumas? Não há história emocionante ali. O que há é a campanha do narrador pra chamar a atenção para si mesmo. Mesma coisa no Dom Casmurro. Muito mais ainda em outras obras. Não são romances de aventura, em que o que interessa é a história. Por isso que eu disse acima que talvez Os Lusíadas valessem adaptação: ali tem história pra contar, com aventura, e a linguagem do século XVI, essa está de fato bem longe da gente;

7. No mais, não vale a pena adaptar O Alienista: a obra é curtinha, vale a pena fazer força de lê-la com os alunos;

8. Não se trata de elitismo da minha parte, mas de criticar um projeto cuja pretensa finalidade de "acesso" à literatura parece escamotear o oportunismo de vender um suposta "solução". Insisto: se é pra estimular a leitura em língua materna, então comecemos a ler e a estimular a leitura dos autores brasileiros contemporâneos, vivos, que estão escrevendo neste exato momento;

9. Quanto ao "que fazer?" prático, nas escolas, agora, eu sinceramente não sei responder. Não sei mesmo. Eu não vejo como lecionar literatura numa escola e numa mentalidade completamente voltadas para o mercado. Talvez a gente tenha de aceitar que a escola (essa que aí está) não tem lugar pra literatura, mas só para as aulas que contam a história dos livros, pra preparar os alunos para as provas. Mas o tempo que a leitura (das adaptações ou dos livros integrais) requer não está previsto nos currículos;

10. A falência do ensino de que estou falando não tem classe social. O aluno da escola particular é tão incapaz de ler o Machado quanto o da pública. Mas a escola particular massacra a garotada com as aulas sobre os livros, os reforços etc. até o sujeito passar no vestibular. Na pública, o massacre é abandonar os alunos. O problema é a diferença dos resultados: toda a canalhice do ensino privado resulta em promoção social. A do ensino público resulta em exclusão. Pra mim o que não dá é supor que aquela proposta de adaptação de obra do Machado pode cumprir papel formativo. É o contrário: ela acentua a exclusão;

11. Pra acabar: e os autores de literaturas africanas de língua portuguesa, por que não lê-los? E os portugueses? Bora correr atrás desses autores. Se a intenção é estimular o gosto pela leitura com temas e língua atuais, acho que a adaptação do Machado de Assis tem de ser a última das alternativas;

12. [Último ponto, que me ocorreu antes de entrar no banho, postado cerca de 30 minutos depois dos onze pontos acima] Para um professor que não lê, não existe nada melhor do que um Machado de Assis adaptado e facilitado. Seria ingenuidade nossa não supor que a facilitação da obra também facilita a vida do professor. Até que ponto essa facilitação da obra também não aprofunda a falta de preparo do professor?