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domingo, 31 de maio de 2015

Ensaio sobre o ruído

Eu queria saber qual é a hora pro silêncio.

Me dizem que durante a semana não é: como todo mundo trabalha, não pode haver silêncio, seria impossível, Oh, sim, como fazer silêncio durante a semana?, quando todos os carros partem em alvoroto das tantas garagens rumo à cidade, para chegar o quanto antes, em capilaridade infinitesimal que nos acorda a todos, para chegar, eu dizia, a todos os lugares, que não pode haver nenhum onde não haja o ruído incessante: dizem que é da vida esse fragor de escapamentos, freadas e privações de sono breve interrompido dos inumeráveis despertadores, além do celular e do relógio antigo, pra quem usa dois, pra não perder a hora, Vambora, vamobora, tá na hora.
Segunda é dia de barulho porque estamos vivos, é o que me dizem, terça aceleramos tudo, quarta buzinamos insistentemente, quinta gritamos uns pros outros porque já é sexta: motocicletas intermináveis aos sábados alargam-se aos meus ouvidos, a centenas de metros de distância para que eu saiba que o motociclista ocupa a rua e a vida: SUVs incontornáveis explodem domingueiras em espaço e ronco de todo o asfalto que lhes pertence de direito, O mundo é dos mais fortes, corrija-se: no caso, é dos maiores: o ruído em luz de faróis de milha que ofuscam mesmo que não os vê, em pneumáticos sob os quais submete-se um mundo, sempre sobre as faixas, além dos semáforos, aproveitando o último instante em marcas de valor incalculável cujas propagandas espocam na tevê, e se não assistimos mais, no portal de notícias, e se nos informamos pela rede social, no perfil dos nossos amigos que são amigos das marcas, e se desistimos de tudo, em estrondos que perfuram a janela anti-ruído e o tímpano desgastado. E se fechamos os olhos pro mundo, em depressão profunda - não há meio de deprimir-se em silêncio, porque ainda não são dez horas da noite, hora do silêncio, deus esteja. Mas não há hora do silêncio: de madrugada é arruinar-se em brados intermináveis no bar e atroadas de brigas, colisões e soluços de perda, pela manhã eu já disse, ao meio-dia é o burburinho ensurdecedor da hora do almoço - não é permitido almoçar em silêncio, um homem não pode estar quieto nem pode ser sério nem ser triste, e se estiver só tem a tevê à frente, o fone de ouvido, a mesa vizinha em polvorosa, à tarde é o tique-taque estalado dos teclados em fúria, na saída é a música de elevador. Salve o motor do ônibus ou a passagem do metrô!, cujo som faz tremer os fugitivos que tentam a soneca secreta no banheiro do escritório, a ave-maria está acabada, o vate anuncia em alarido as sagradas escrituras (as orações não se ouvem, estão caladas), o poeta que protegia a flor feiosa às cinco horas da tarde no centro da cidade foi pisoteado pelo passo apressado dos trabalhadores que urram ruinosamente os horrores do dia de trabalho, pela guitarra chorada  e pela MPB de barzinho dos músicos na avenida paulista, pelo caminhar compassado dos hare krishnas que tentam cantar baixinho, mas quem pode ouvi-los assim?, então aumenta um pouco o rádio de um estudante rico que disputa o volume máximo com o rádio de um remediado que turbinou o motor e a vida, em explosão de todas as rádios num concerto inescapável de toda a vociferação em uníssono dissonante: esta morte bulhenta em vida, em espetáculo incessante de clamores em estardalhaço, Parcele em dez vezes, Vista a camisa da empresa, Seja um líder servidor, Seja funcionário-padrão, Aprenda a destruir seu amiguinho de escritório com a arte da guerra de Sun-Tzu, Noventa milhões em ação, Pra frente Brasil, Grite a todos os pulmões e comemore com fogos o ano-novo, o carnaval, a final do Paulista, a festa junina, a final do Brasileirão, o Natal e o ano-novo de novo - em moto-contínuo sem decepções, cuja atualidade é uma em todos os tempos, sem poema, sem luto, sem tristeza, porque o que interessa é ser feliz e a vida é bonita! é bonita! e é bonita!

Vaia retumbante o minuto de silêncio: não podem falar os mortos, os deuses, as dores, as fissuras intermináveis de estar vivendo. Vaia absoluto o ai do deprimido: não podem interromper-se as rodas. Vaia imperioso a parada: não há hora pro silêncio, portador da notícia muda do vazio extenso sob toda alegria compulsória e altissonante da cidade.